Lourenço de Cantuária

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São Lourenço de Cantuária
Lápide com a inscrição "Lourenço, segundo arcebispo de Cantuária 605–619, m. 619".
Na Abadia de Santo Agostinho, em Cantuária.
Arcebispo de Cantuária
Nascimento século VI em ?
Morte 2 de fevereiro de 619 em Cantuária, Inglaterra
Veneração por Igreja Católica; Igreja Ortodoxa; Comunhão Anglicana
Principal templo Abadia de Santo Agostinho, onde está sepultado.
Festa litúrgica 3 de fevereiro
Gloriole.svg Portal dos Santos

Lourenço de Cantuária (em latim: Laurentius[1] ) foi o segundo arcebispo de Cantuária entre 604 e 619. Foi um dos membros da primeira missão gregoriana enviada da Itália para a Britânia para cristianizar os anglo-saxões e convertê-los de seu paganismo, embora a data de sua chegada seja disputada. Foi consagrado arcebispo pelo seu predecessor Agostinho de Cantuária ainda em vida, para assegurar uma transição suave do cargo. Em seu mandato como arcebispo, ele tentou sem sucesso resolver as diferenças doutrinárias da Igreja com os bispos britânicos locais, correspondendo-se com eles sobre os pontos de discórdia. Lourenço enfrentou também uma crise com a morte do rei Etelberto de Kent, quando o seu sucessor inicialmente abandonou o cristianismo, mas terminou se reconvertendo. Após a sua morte, Lourenço foi reverenciado como santo.

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Lourenço fazia parte da missão gregoriana enviada de Roma em 595 para converter os anglo-saxões ao cristianismo. Ele desembarcou em Thanet, Kent, com Agostinho em 597,[2] [3] ou, como outras fontes afirmam, chegou numa segunda onda de missionários em 601 e não estava entre os primeiros missionários.[4] [5] Até então ele era um monge,[2] mas nada mais se sabe sobre a sua história anterior.[6] O cronista medieval Beda diz que Lourenço foi enviado de volta ao papa Gregório I para relatar o sucesso da missão, inclusive a conversão de Etelberto, e para levar uma carta com questionamentos de Agostinho para o papa. Acompanhado de Pedro de Cantuária, outro missionário, ele deixou a ilha em algum momento depois de julho de 598 e retornou em junho de 601.[7] Ele trouxe consigo as respostas de Gregório às perguntas de Agostinho, um documento geralmente conhecido como Libellus responsionum, que Beda incorporou em sua Historia ecclesiastica gentis Anglorum.[1] Lourenço é provavelmente o "sacerdote Lourenço" citado numa carta de Gregório para Berta, a rainha de Kent. Nela, Gregório elogia Berta por seu papel na conversão do marido, cujos detalhes foram relatados a Gregório por Lourenço.[8] Sabe-se que Lourenço retornou para a Britânia com Melito e outros que faziam parte de um segundo grupo de missionários no verão de 601, mas não há registro de Pedro estar entre eles.[9]

Arcebispo[editar | editar código-fonte]

Mapa de alguns dos reinos da Grã-Bretanha ca. 600

Lourenço sucedeu a Agostinho na sé de Cantuária por volta de 604 e governou até a sua morte em 2 de fevereiro de 619.[2] [10] Para assegurar sua sucessão, Agostinho consagrou Lourenço antes de morrer, algo que era proibido pelo direito canônico.[1] Agostinho temia que se alguém não assumisse o posto imediatamente após a sua morte, os esforços missionários na Britânia poderiam ser prejudicados.[5] [11] Porém, Lourenço jamais recebeu o pálio de Roma e, assim, ele pode ter sido considerado não canônico pelo papado.[12] Beda, entretanto, compara o ato de Agostinho de consagrar Lourenço com o de São Pedro consagrando Clemente como bispo de Roma ainda em vida, trecho que o teólogo J. Robert Wright considera como uma forma de Beda criticar as práticas da igreja de seu tempo.[13]

Em 610, Lourenço recebeu cartas do papa Bonifácio IV, endereçadas a ele como "arcebispo" e sucessor de Agostinho.[14] Elas eram uma resposta à missão de Melito, enviado no início do ano a Roma para solicitar conselhos ao papa sobre os assuntos da Igreja da Inglaterra. Enquanto estava lá, Melito compareceu a um concílio e trouxe consigo seus decretos para Lourenço.[15]

Em 613, Lourenço consagrou a igreja do mosteiro construído por Agostinho em Cantuária e dedicado aos santos Pedro e Paulo. Ela seria depois reconsagrada como Abadia de Santo Agostinho. Lourenço também escreveu para os bispos das terras mantidas pelos escotos e pelos britânicos, urgindo-os a celebrar a Páscoa no dia em que a igreja de Roma a celebrava, em vez da data tradicional, parte da controvérsia da Páscoa.[2] A carta também foi preservada por Beda em sua crônica.[16] Lourenço, em 609, afirmou que Dagan, um bispo nativo, não poderia comer com Lourenço ou dividir o mesmo teto com o arcebispo por conta das diferenças entre as duas igrejas.[17]

Reação pagã[editar | editar código-fonte]

Iluminura de São Lucas, no Evangeliário de Santo Agostinho, do século VI, o qual poderá ter sido usado por Lourenço

Etelberto morreu em 616 durante o arcebispado de Lourenço. Seu filho Eadbaldo abandonou o cristianismo em favor do paganismo anglo-saxônico, forçando muitos dos missionários de Gregório a fugir da reação que se seguiu.[11] Entre eles, na Gália, estava Melito, que era bispo de Londres, e Justo, que era bispo de Rochester.[18] Permanecendo na Britânia, Lourenço conseguiu reconverter Eadbaldo.[11] Beda relata a história de que Lourenço estaria prestes a desistir quando recebeu uma visita de São Pedro num sonho ou numa visão. O santo repreendeu Lourenço e o açoitou, deixando marcas em seu corpo após a visão. Lourenço então as mostrou para Eadbaldo e o rei se converteu imediatamente.[19] Beda, porém, aponta que pode ter sido a morte de alguns dos líderes do grupo pagão entre os anglo-saxões em batalha que teria realmente persuadido Lourenço a ficar.[15] De acordo com Benedicta Ward, uma historiadora do cristianismo, Beda fez uso da história do açoite como um exemplo de como o sofrimento era uma lembrança do sofrimento de Cristo pelas mãos do homem e como um exemplo poderia levar à conversão.[20] Wright argumenta que outro ponto que Beda estava tentando provar é o de que foi por conta da intercessão de São Pedro em pessoa que a missão continuou.[21] David Farmer, em seu Oxford Dictionary of Saints, sugere que a história do açoite pode ter sido uma mistura da história do Quo Vadis? com alguma informação passada por Jerônimo de Estridão numa carta.[22]

Historiadores modernos identificaram motivações políticas nesta reação pagã. O historiador D.P. Kirby vê nas ações de Eadbaldo um repúdio às políticas pró-francas do pai.[18] Alcuíno, um escritor medieval posterior, escreveu que Lourenço foi "censurado pela autoridade apostólica",[23] o que pode ser uma menção a uma carta do papa Adeodato I ordenando que Lourenço permanecesse em Kent. Kirby prossegue argumentando que foi Justo e não Lourenço que converteu Eadbaldo e que o evento só ocorreu durante o mandato de Justo, por volta de 624.[18] Nem todos os historiadores concordam com esta hipótese, porém. Nicholas Brooks afirma que o rei se converteu durante o arcebispado de Lourenço e logo no ano seguinte à sua ascensão ao trono.[2] A historiadora Barbara Yorke argumenta que houve dois co-governantes em Kent após a morte de Etelberto, Eadbaldo e Etevaldo (Æthelwald), e que o primeiro foi convertido por Lourenço e o segundo por Justo após sua volta para Rochester.[24] Outro fator na reação pagã foi a objeção de Lourenço ao casamento de Eadbaldo com a viúva de seu pai, algo que os cristãos consideravam ilegal.[25]

Túmulos de Melito, Justo e Lourenço, na Abadia de Santo Agostinho

Todos os esforços para estender a igreja para além de Kent encontraram dificuldades por conta da atitude do rei Redvaldo de Ânglia Oriental (Rædwald), que se tornou o mais importante rei saxão meridional após a morte de Etelberto.[26] Redvaldo se converteu antes da morte de Etelberto, talvez a pedido deste, mas seu reino não, e Redvaldo parece ter se convertido apenas a ponto de colocar um altar cristão em seu templo pagão.[27] Foi impossível para Melito voltar a Londres para reassumir a sua sé, enquanto que Justo conseguiu retomar a sua em Rochester.[18]

Morte e legado[editar | editar código-fonte]

Lourenço morreu em 2 de fevereiro de 619 e foi sepultado na Abadia de São Pedro e São Paulo em Cantuária. Suas relíquias foram transladadas para a nova igreja de Santo Agostinho em 1091.[2] Seu santuário estava numa capela lateral na igreja da abadia, ao lado do santuário de Agostinho, seu predecessor.[28] Lourenço passou a ser venerado como santo e a sua festa passou a ser celebrada em 3 de fevereiro.[29] O Missal de Stowe, do século IX, comemora sua festa juntamente com Melito e Justo.[30] Uma Vita foi escrita na época da translação de suas relíquias por Goscelin, mas ela é quase toda baseada em informações extraídas da obra de Beda.[2] Além de sua festa, a data da translação, 13 de setembro, também foi celebrada após a sua morte.[22]

O mandato de Lourenço como arcebispo é lembrado principalmente por seu fracasso em conseguir um acordo com a Igreja Celta e pela conversão de Eadbaldo após a morte de Etelberto.[12] Ele foi sucedido por Melito, o antigo bispo de Londres.[10]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Lourenço de Cantuária
(604 - 619)
Precedido por: Angl-Canterbury-Arms.svg
Arcebispos de Cantuária
Sucedido por:
Agostinho 2.º Melito

Notas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c Lapidge 2001, p. 279
  2. a b c d e f g Brooks 2004
  3. Stenton 1971, p. 106
  4. Hindley 2006, p. 36
  5. a b Brooks 1984, p. 9–13
  6. Blair 1990, p. 59
  7. Blair 1990, p. 63
  8. Blair 1990, p. 60
  9. Blair 1990, p. 66
  10. a b Fryde 1996, p. 213
  11. a b c Hindley 2006, p. 43
  12. a b Stenton 1971, p. 112-113
  13. Wright 2008, p. 47
  14. Blair 1990, p. 80
  15. a b Blair 1990, p. 86-87
  16. Beda 1988, p. 105-107
  17. Décarreaux 1964, p. 261
  18. a b c d Kirby 2000, p. 30–33
  19. Brooks 1984, p. 64-66
  20. Ward 1990, p. 120–121
  21. Wright 2008, p. 48-50
  22. a b Farmer 2004, p. 313-314
  23. Kirby 2000, p. 31
  24. Yorke 1997, p. 32
  25. Yorke 2006, p. 123
  26. Stenton 1971, p. 127
  27. Stenton 1971, p. 112
  28. Nilson 1998, p. 67
  29. Walsh 2007, p. 357
  30. Farmer 2004, p. 366

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Brooks, N. P.. The Early History of the Church of Canterbury: Christ Church from 597 to 1066. Londres: Leicester University Press, 1984. ISBN 0-7185-0041-5.
  • Décarreaux, Jean; Charlotte Haldane (tradutor). Monks and Civilization: From the Barbarian Invasions to the Reign of Charlemagne (em inglês). Londres: George Allen, 1964.
  • Fryde, E. B.; Greenway, D. E; Porter, S; Roy, I.. Handbook of British Chronology (em inglês). Terceira revisada. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1996. ISBN 0-521-56350-X.
  • Hindley. A Brief History of the Anglo-Saxons: The Beginnings of the English Nation (em inglês). Nova Iorque: Carroll & Graf Publishers, 2006. ISBN 978-0-7867-1738-5.
  • Lapidge, Michael. In: Lapidge, Michael; Blair, John; Keynes, Simon; Scragg, Donald. The Blackwell Encyclopaedia of Anglo-Saxon England (em inglês). Malden, MA: Blackwell Publishing, 2001. Capítulo Laurentius. ISBN 978-0-631-22492-1.
  • Walsh, Michael J.. A New Dictionary of Saints: East and West (em inglês). Londres: Burns & Oats, 2007. ISBN 0-86012-438-X.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • Laurence of Canterbury – lista das citações mais contemporâneas nas fontes primárias. Inclui ainda algumas listas espúrias] (em inglês) Prosopography of Anglo Saxon England project. Visitado em 29/10/2012.