Luís Gama

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Luís Gama
Luís Gonzaga Pinto da Gama
Nacionalidade  brasileiro
Data de nascimento 21 de junho de 1830
Local de nascimento Salvador
Data de falecimento 24 de agosto de 1882 (52 anos)
Local de falecimento São Paulo
Género(s) Poesia
Pseudónimo(s) Getulino
Ocupação Advogado, escritor, abolicionista
Grupo étnico negro
Educação autodidata
Temas abordados sátira social, lirismo
Religião Cristã
Movimento Romantismo
Magnum opus "Primeiras Trovas Burlescas do Getulino"
Cônjuge Claudina Gama
Filhos Benedito Graco Pinto da Gama
Parentes Luísa Mahin (mãe)
Influências Ernest Renan
Influenciados Movimentos abolicionistas, movimentos literários negros

Luís Gonzaga Pinto da Gama[nota 1] (Salvador, 21 de junho de 1830São Paulo, 24 de agosto de 1882) foi um rábula, orador, jornalista e escritor brasileiro.

Nascido de mãe negra livre e pai branco, foi contudo feito escravo aos 10, e permaneceu analfabeto até os 17 anos de idade. Conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia em prol dos cativos, sendo já aos 29 anos autor consagrado e considerado "o maior abolicionista do Brasil".[1]

Apesar de considerado um dos expoentes do romantismo,[2] obras como a "Apresentação da Poesia Brasileira", de Manuel Bandeira, sequer mencionam seu nome.[3]

Teve uma vida tão ímpar que é difícil encontrar, entre seus biógrafos, algum que não se torne passional ao retratá-lo — sendo ele próprio também carregado de paixão, emotivo e ainda cativante.[4] A despeito disto o historiador Boris Fausto declarou que era dono de uma "biografia de novela".[5]

Foi um dos raros intelectuais negros no Brasil escravocrata do século XIX, o único autodidata e o único a ter passado pela experiência do cativeiro; pautou sua vida na defesa da liberdade e da república, ativo opositor da monarquia, veio a morrer seis anos antes de ver seus sonhos concretizados.[6]

Panorama da época[editar | editar código-fonte]

São Paulo, onde viveu Gama por quarenta e dois anos, era em meados do século XIX uma ainda acanhada capital de província que, com a demanda da produção cafeeira a partir da década de 1870, contudo, viu o preço dos escravos atingir um preço que tornava quase proibitiva sua posse urbana. Até este período, contudo, era bastante comum a propriedade de "escravos de aluguel", sobre cujo trabalho seus donos hauriam a fonte de sustento, ao lado dos ditos "escravos domésticos".[7] [nota 2]

Tinha uma população dez vezes menor que a da Corte (Rio de Janeiro), e uma presença da cultura jurídica bastante acentuada pois, desde 1828, ali se instalara uma das duas únicas faculdades de Direito do país, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que acolhia alunos de todo o país, provindos de todas as camadas sociais — além dos filhos da oligarquia rural, membros da elite intelectual que então se formava (Gama a definiu, então, como "Arca de Noé em ponto pequeno").[6]

Filiação e primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Uma quitandeira de Salvador do séc. XIX
Desenho de Pallière

Sobre sua mãe, cuja figura mais tarde seria mitificada pelo Movimento Negro, Gama registou, numa carta autobiográfica que enviou em 1880 a Lúcio de Mendonça:[8]

"Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação) de nome Luísa Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.
Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, insofrida e vingativa.
Dava-se ao comércio – era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.
Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas que conheciam-na e que deram-me sinais certos, que ela, acompanhada de malungos desordeiros, em uma “casa de dar fortuna”, em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses ‘amotinados’ fossem mandados pôr fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores. Nada mais pude alcançar a respeito dela
".[nota 3]

A despeito deste relato, pesquisas de Lígia Fonseca Ferreira dão conta de que há contradições entre a narrativa de Gama a Lúcio de Mendonça e um seu poema intitulado "Minha Mãe", de 1861, no qual ressalta a fé cristã materna — concluindo que esta seria uma figura "criada" por Gama; a pessoa de Luísa Mahin é lembrada em obra posterior (1933), de Pedro Calmon, que romanceou a Revolta dos Malês em "Malês: a insurreição das senzalas", em que este construiu a imagem de que ela teria sido a causa do fracasso do movimento.[8]

O próprio Calmon, e também Arthur Ramos, voltaram a tratar de Mahin no contexto revoltoso, este último construindo-lhe a imagem de heroína, que é mantida pelos movimentos negros.[8]

Um patacho, tipo de embarcação a velas no qual viajou Luís Gama, como escravo.

Sobre o pai, Gama omitiu, na mesma carta, o nome:[2]

"Meu pai não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas, neste país, constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas: era fidalgo e pertencia a uma das principais famílias da Bahia de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.
Ele foi rico; e nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837.[nota 4] Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; muito apreciador de bons cavalos; jogava bem as armas, e muito melhor de baralho, amava as súcias e os divertimentos: esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e reduzido a uma pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, em companhia de Luís Cândido Quintela, seu amigo inseparável e hospedeiro, que vivia dos proventos de uma casa de tavolagem, na cidade da Bahia, estabelecida em um sobrado de quina, ao largo da praça, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho "Saraiva".
"[nota 5]

Na carta, descreve assim seu nascimento e primeira infância:[2]

"Nasci na cidade de S. Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da Rua do Bângala, formando ângulo interno, em a quebrada, lado direito de quem parte do adro da Palma, na Freguesia de Sant'Ana, a 21 de junho de 1830, pelas 7 horas da manhã, e fui batizado, oito anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica."

Lígia Ferreira ainda assinala que estas informações não puderam ser comprovadas, embora realce que o sobrado em que situa seu nascimento ainda exista; o registo de seu batizado não pôde ser encontrado, e junta a isso o fato de que a omissão do nome paterno em seu relato lança dúvidas sobre sua real identidade.[2] [nota 6]

Escravidão e liberdade[editar | editar código-fonte]

Uma vez vendido como escravo, é levado para São Paulo onde permaneceu analfabeto até os 17 anos.[1]

Posto à venda, é rejeitado "por ser baiano" — uma condição que dava aos cativos a fama de insubordinados e acaba sendo levado para a casa de um comerciante.[4]

Em São Paulo Gama viria a passar por várias "metamorfoses" únicas: fora criança livre e ali feito escravo, e depois a homem livre; de analfabeto a integrante do mundo das letras; exerceu diversas profissões e posições sociais: escravo do lar, soldado, ordenança, copista, secretário, tipógrafo, jornalista, advogado, autoridade da maçonaria.[2]

Permanecem obscuros, contudo, os artifícios utilizados por Luis Gama para obter sua liberdade, sendo aventada a possibilidade de que, para tal, tenha se utilizado do depoimento do pai — cuja identidade ele próprio zelava por manter obscura.[2]

Jornalista, maçom e funcionário público[editar | editar código-fonte]

Diabo Coxo (dez/1864), fundado por Gama e Agostini.

Começou a carreira jornalística, na capital paulista, junto ao caricaturista Angelo Agostini; ambos fundaram, em 1864 o primeiro jornal ilustrado humorístico daquela cidade, intitulado Diabo Coxo.[9]

Dois anos mais tarde, ainda com Agostini, agora com adesão de Américo de Campos, fundam o hebdomadário Cabrião; os três pertenciam à mesma loja maçônica, e comungavam dos mesmos ideais republicanos e abolicionistas.[9]

A Loja Maçônica América foi bastante ativa na causa abolicionista; fundada por Luiz Gama e Ruy Barbosa e dela também teria feito parte Joaquim Nabuco (que omite seu passado maçônico).[6] Quando de sua morte era Gama o Venerável Mestre da instituição.[10]

Ocupou Luís Gama a função de amanuense da polícia paulista quando, em 1868 cai o gabinete do Conselheiro Zacarias, apeando do poder o Partido Liberal; com a consequente ascensão dos conservadores, foi ele demitido.[2]

Gama definiu sua demissão "a bem do serviço público" como uma consequência do trabalho que vinha a fazer de libertar escravos que se achavam em situação ilegal, além de denunciar os desmandos do sistema — ou, em suas palavras: "a turbulência consistia em eu fazer parte do Partido Liberal; e, pela imprensa e pelas urnas, pugnar pela vitória de minhas e suas [Lúcio de Mendonça, a quem escreve] ideias; e promover processos de pessoas livres criminosamente escravizadas, e auxiliar licitamente, na medida de meus esforços, alforrias de escravos, porque detesto o cativeiro e todos os senhores, principalmente os reis."[2]

Advogado dos pobres, libertador dos negros[editar | editar código-fonte]

Gama, por volta de 1860.

Tamanha foi a importância do trabalho de Luís Gama na causa emancipacionista dos negros em plena vigência das leis escravocratas, que recebeu o epíteto de “Apóstolo Negro da Abolição”[6]

Sobre sua atuação na defesa dos negros, cativos ou pobres, descreveu Raul Pompeia:[10]

"...não sei que grandeza admirava naquele advogado, a receber constantemente em casa um mundo de gente faminta de liberdade, uns escravos humildes, esfarrapados, implorando libertação, como quem pede esmola; outros mostrando as mãos inflamadas e sangrentas das pancadas que lhes dera um bárbaro senhor; outros... inúmeros. E Luís Gama os recebia a todos com a sua aspereza afável e atraente; e a todos satisfazia, praticando as mas angélicas ações, por entre uma saraivada de grossas pilhérias de velho sargento. Toda essa clientela miserável saía satisfeita, levando este uma consolação, aquele uma promessa, outro a liberdade, alguns um conselho fortificante. E Luís Gama fazia tudo: libertava, consolava, dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava, exauria-se no próprio ardor, como uma candeia iluminando à custa da própria vida as trevas do desespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma sobra de lucro...E, por essa filosofia, empenhava-se de corpo e alma, fazia-se matar pelo bom...Pobre, muito pobre, deixava para os outros tudo o que lhe vinha das mãos de algum cliente mais abastado."

Em sua carta autobiográfica a Lúcio de Mendonça, Gama estima que já havia libertado do cativeiro mais de 500 escravos.[2] Durante um júri Gama proferiu uma frase que se tornou célebre: "O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa" — isto provocou tal reação ante os presentes que, com a confusão, o juiz se viu obrigado a suspender a sessão.[11]

Embora atuasse principalmente na defesa dos negros acusados de crimes, ou para buscar-lhes a alforria judicialmente, não se negava a atender graciosamente aos pobres de qualquer raça, havendo casos em que defendera imigrantes europeus lesados por brasileiros.[4]

A morte do "amigo de todos": São Paulo pára, em luto[editar | editar código-fonte]

Gama, na maturidade.

Já Raul Pompeia notara que Gama não ia bem de saúde; três dias antes de sua morte observara que este já não descia sem amparo as escadas de seu escritório, socorrendo-se do apoio dos amigos Pedro, Brasil Silvado ou dele próprio, Raul.[10]

Gama tinha diabetes, e esta foi a causa mortis que o vitimou a 24 de agosto de 1882, atestada pelo médico dr. Jaime Perna.[12]

Morto o grande abolicionista e libertador de escravos em , Raul Pompeia manifesta ter ficado incrédulo e, registrando cada momento do ato fúnebre, vai de imediato à casa do amigo, onde verifica que muitos já lá estavam, em vigília: diante da casa os homens choravam "como uns covardes", e as senhoras soluçavam.[10]

Seu corpo fora colocado num esquife, na sala da frente; um escultor molda seu rosto em gesso. O féretro sairia no dia seguinte, às três horas da tarde. Pouco antes de cerrar-se o caixão a viúva protagoniza um pranto dolorido. O cemitério ficava no outro extremo da cidade, e para sua condução um coche funerário estava preparado, mas a multidão que para ali acorrera não deixa que siga ali: o "amigo de todos" — como era conhecido — teria que ser "levado por todos".[10]

O caixão surge, trazido pelos amigos do morto: o jornalista e membro do Centro Abolicionista Gaspar da Silva, Dr. Antônio Carlos, Dr. Pinto Ferraz, o Conselheiro Duarte de Azevedo, entre outros; adiante do féretro seguia uma enorme multidão, como aquela que se apertava ao lado, disputando a honra de carregar o caixão; atrás, uma grande quantidade de carruagens e, entre elas, o coche fúnebre vazio.[10]

Às quatro horas e cinco minutos o cortejo chega ao Brás, onde uma banda o aguardava, e passa a acompanhá-lo tocando acordes tristes; na Ladeira do Carmo a Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios se juntou ao enterro; chegando à "cidade", lojas cerraram suas portas e bandeiras se encontram hasteadas a meio mastro, enquanto o povo apinhava-se nas ruas por onde o enterro passaria; nas janelas as famílias se espremem para assistir: ao longo de todo o caminho muitos são os que choram a perda.[10]

O professor Otávio Torres registrou que Luís Gama morrera "aureolado por São Paulo"; Antônio Loureiro de Sousa, em 1949, registrou: "O seu enterro foi um espetáculo inédito: foi o maior de que há notícia naqueles tempos. A multidão que acompanhou o féretro, com todo silêncio e admiração, era obrigada a parar pelos numerosos discursos que interrompiam o cortejo fúnebre."[1] Mais recentemente, em 2013, o articulista Zeca Borges declarou que "seu enterro foi o mais emocionante acontecimento da história da cidade de São Paulo"[11]

Ali estavam pessoas de todas as classes, e todos disputavam a chance de poder carregar o esquife. Em dado momento levavam-no ao mesmo tempo o escravocrata Martinho Prado Júnior, de um lado e, do outro, altivo, um "pobre negro esfarrapado e descalço", no registro de Pompeia. Já era noite quando o cortejo chega finalmente ao campo santo da Consolação, e a multidão mantivera-se firme.[10]

Após uma breve parada para uma preleção por um padre na capela, onde foram depositadas as centenas de coroas de flores, finalmente o caixão foi levado à sepultura, onde a multidão esperava. Antes de descerem-no, contudo, alguém — o médico Clímaco Barbosa ou Antônio Bento, gritou para que todos esperassem; após um breve discurso onde lembrou a importância de Luís Gama, levando todos às lágrimas, intimou que juntos prestassem um juramento de não deixar "morrer a ideia pela qual combatera aquele gigante": foi respondido por um brado geral da multidão que, mãos estendidas ao caixão, jurava.[10]

Sua sepultura fora adquirida no mesmo dia do enterro em nome da esposa Claudina, segundo registrado no Livro 2, fls. 28, do Arquivo Municipal; está situado na Rua 2, sepultura 17.[12]

Efeitos do discurso[editar | editar código-fonte]

A morte de Gama e o discurso engajado junto ao seu túmulo marcaram o fim desta primeira fase do movimento abolicionista, marcadamente "legalista" (constituição de fundos para a aquisição de cativos e sua alforria, ações judiciais libertadoras) e tem início a fase de ações efetivas de combate aos escravistas: dirigida por Clímaco Barbosa, a campanha passa às "vias de fato", onde pessoas acolhiam escravos fugidos, escondendo-os em suas casas até serem encaminhados ao Quilombo do Jabaquara, em Santos, e estimulando a fuga em massa das fazendas.[7]

Um marco dessa ação foi a invasão da Chácara Pari por membros do Clube Abolicionista do Brás, com gritos de "Viva os abolicionistas, morram os escravocratas!"; pessoas como Barbosa, Antônio Bento, Feliciano Bicudo, entre outros notáveis e anônimos, passam a figurar no rol de suspeitos da polícia.[7]

Literatura[editar | editar código-fonte]

Busto de Gama, inaugurado em 1931[13] (Largo do Arouche, SP)

Gama foi um leitor da obra Vida de Jesus, do filósofo francês Ernest Renan, publicada originalmente em 1863 e logo traduzida no Brasil, sendo um dos primeiros a dela referir-se no país.[6] Sua única obra, publicada originalmente em duas edições (1859 e 1861), "Primeiras Trovas Burlescas", colocou-o no panteão literário do Brasil apenas doze anos depois de haver aprendido a ler.[6] Este livro, dedicado a Salvador Furtado de Mendonça, magistrado que lecionava no Largo de S. Francisco e que ali também dirigia a sua biblioteca (o que permite inferir daí que tenha facilitado a Gama o acesso ao seu acervo), também traz poemas de autoria de seu amigo José Bonifácio, o Moço, em anexo.[6]

Poesia: o "Orfeu de carapinha"[editar | editar código-fonte]

Lembrando a figura do poeta grego Orfeu, e aludindo ao seu cabelo crespo, Gama foi chamado de "Orfeu de carapinha", e dominava tanto a poesia lírica, quanto satírica.[4]

Sua poética transcorre na primeira pessoa, sem esconder a própria origem e sem deixar de proclamar sua negritude; ao lado disto, não deixa de usar as imagens tradicionais de seu tempo, como as evocações mitológicas (tais como Orfeu, Cupido etc.) ou aos poetas do passado (como Lamartine, Camões, por exemplo).[14]

Contudo, Gama reverte essas imagens à sua condição: a musa é da Guiné, o Orfeu tem carapinha. Ao retratar a sociedade branca, usa de imagens fortemente satíricas:[14]

Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
(...)
Espertos manganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.

Ele constrói, a partir dos elementos da cultura branca, a antítese para a cultura e civilização dos negros, preenchendo-os com elementos da poesia tradicional; assim, contrapõe-se a "musa da Guiné" ás musas greco-romanas; o granito escuro ao branco mármore; a marimba e o cabaço à lira e à flauta:[14]

Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
(...)
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba (...)

Sobre si mesmo traça, nos seus versos, uma imagem que longe está da figura do "pobre coitado" ou sofredor que figura nos negros pintados por poetas brancos contemporâneos como Castro Alves, Gama atinge-se com a mesma crítica feroz com que ataca o sistema, menosprezando seu próprio valor ante os padrões culturais vigentes, que ele implicitamente aceita:[14]

Se queres, meu amigo,
No teu álbum pensamento
Ornado de frases finas,
Ditadas pelo talento;
Não contes comigo,
Que sou pobretão:
Em coisas mimosas
Sou mesmo um ratão.

Gama chega, até, a ironizar a situação do negro, apartado da riqueza, das ciências e das artes:[14]

Ciências e letras
Não são para ti:
Pretinha da Costa
Não é gente aqui.

Sua poesia vem, assim, a destruir, denunciar e deformar o mundo de injustiças que o cerca.[14]

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Desenho de Raul Pompeia, retratando Gama em O Mequetrefe.

Entre seus contemporâneos Gama foi alvo de várias homenagens. Raul Pompeia, no Gazeta de Notícias de 10 de setembro de 1882 escreveu o artigo intitulado "Última página da vida de um grande homem", sobre ele; o mesmo autor fez-lhe uma caricatura, que foi publicada naquele mesmo ano, na primeira página do jornal carioca O Mequetrefe de agosto (nº 284) e, ainda, a novela inacabada "A Mão de Luís Gama", publicada originalmente nas página do Jornal do Commercio, de São Paulo (1883), e o texto "A Morte de Luís Gama".[nota 7] [15]

Alguns anos depois de sua morte, e em seguida à Abolição, foi fundada pelo maçom paulistano Góes e colaboração de irmãos das lojas Trabalho e Ordem e Progresso a Loja LuiísGama, com a iniciação de 25 negros.[12]

No Largo do Arouche, em São Paulo, há um busto erguido à sua memória,[2] erigido a mando da comunidade negra por ocasião do seu centenário (1930).[9]

Em sua homenagem, em 1919, a Estrada de Ferro Sorocabana (atual FEPASA) nomeou uma de suas estações, hoje praticamente em ruínas.

Impacto cultural e influências[editar | editar código-fonte]

Entre 1923–1926, naquilo que pode ser considerado como "segundo período de imprensa negra" no estado de São Paulo, surge na cidade de Campinas o jornal "Getulino"; nesta cidade o racismo se fazia sentir mais forte do que na própria capital daquele estado, e a publicação fazia parte do movimento por maior participação do negro na sociedade; seu título era uma "homenagem a Luís Gama que tinha como um de seus pseudônimos Getulino" e sua influência culminaria na criação de O Clarim da Alvorada, jornal da capital paulista.[16]

Ao longo do tempo influenciou diversos movimentos negros brasileiros, como o grupo literário "Projeto Rhumor Negro" de São Paulo, criado em 1988, para quem a carta de Gama a Mendonça é "dos mais importantes documentos históricos do povo brasileiro. (...) Face à dimensão da vida deste grande homem, esta carta, atravessando o tempo, é também endereçada a todos nós."[2]

Em 2014, no rastro do sucesso do filme 12 Anos de Escravidão, a escritora Ana Maria Gonçalves, autora da obra romanceada sobre a vida de Gama "Um Defeito de Cor", preparou um roteiro para um filme e também chamando a atenção da televisão brasileira — ressaltando que bem pouco se fala sobre a escravidão, em comparação a outros fatos históricos, como o holocausto durante a Segunda Guerra Mundial.[17]

Notas e referências

Notas

  1. Segundo a ortografia da época em que viveu, seu nome era grafado Luiz Gama.
  2. Um bom exemplo disso eram as sete irmãs solteironas do marechal José Arouche de Toledo Rendon — Caetana, Gertrudes, Joaquina, Pulquéria, Leocádia, Ana Teresa e Reduzinda — que viviam às custas das rendas obtidas com o trabalho de 39 escravos.[7]
  3. A íntegra desta carta pode ser encontra em: MORAES, M. (Org.) Antologia da carta no Brasil: me escreva tão logo possa. São Paulo: Moderna, 2005.
  4. Trata-se da mesma "Sabinada" que ele dissera que a mãe participou.
  5. Os textos de autoria de Luis Gama encontram-se em domínio público.
  6. Há, na memória histórica de Salvador, enorme lacuna derivada do bombardeio da cidade em 1912 que, dentre outras destruições, incendiou a documentação de séculos daquela que fora a primeira capital do Brasil.
  7. Os dois últimos textos integrais podem ser lidos in: Schmidt, Afonso. O Canudo. S. Paulo, Clube do Livro, 1963 - p. 83–136.

Referências

  1. a b c Antônio Loureiro de Souza. Bahianos Ilustres: 1564 – 1925. Salvador: [s.n.], 1959. p. 102.
  2. a b c d e f g h i j k Lígia Fonseca Ferreira (s/d). Luís Gama por Luís Gama: carta a Lúcio de Mendonça Teresa. Revista de Literatura Brasileira da USP [n. 8/9], São Paulo, p. 300–321.. Página visitada em 24/11/2013.
  3. Manuel Bandeira. Apresentação da Poesia Brasileira (seguida de uma antologia de versos). [S.l.]: Ediouro, 1964. 451 pp.
  4. a b c d Andreia Santana. (7/9/2013). "As muitas vidas de Luiz Gama na luta pela liberdade". A Tarde (Caderno 2+) (Transcrição no blog da autora.). Página visitada em 30/11/2013.
  5. FAUSTO, Boris. História do Brasil. [S.l.]: Edusp, 1994. p. 219. ISBN 9788531402401
  6. a b c d e f g Ligia Fonseca Ferreira (Mai/ago 2007). Luís Gama: um abolicionista leitor de Renan Estudos Avançados, vol.21 no.60 São Paulo. Página visitada em 23/11/2013.
  7. a b c d Maria Helena P. T. Machado (2004). Sendo Cativo nas Ruas: a Escravidão Urbana na Cidade de São Paulo História da Cidade de São Paulo, (Paula Porta, org.), São Paulo: Paz e Terra, p. 59–99. Página visitada em 25/11/2013.
  8. a b c Dulcilei da Conceição Lima (2009.). LUISA MAHIN: estudo sobre a construção de um mito libertário ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA. Página visitada em 24/11/2013.
  9. a b c Lígia Fonseca Ferreira (2012). 2012, 130º Aniversário de falecimento Luís Gama (1830–1882):de escravo a “cidadão”. Página visitada em 25/11/2013.
  10. a b c d e f g h i Luiz Carlos Santos. Luiz Gama. [S.l.]: Selo Negro, 2010. p. 78–91. ISBN 8587478680
  11. a b Zeca Borges (20/11/2013). Luis Gama - O filho de Luisa Mahin Globo.com. Página visitada em 29/11/2013.
  12. a b c Institucional. Loja Luís Gama Sítio oficial da entidade. Página visitada em 25/11/2013.
  13. Monumentos de São Paulo. Luís Gama. Página visitada em 04/02/2014.
  14. a b c d e f Roberto de Oliveira Brandão. A Poesia Satírica de Luís Gama Boletim bibliográfico - Biblioteca Mario de Andrade, vol. 49, nº 1/4 (Literafro-UFMG). Página visitada em 27/11/2013.
  15. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1963). Exposição comemorativa do centenário de nascimento de Raul Pompeia Ministério da Educação e Cultura. Página visitada em 25/11/2013.
  16. Miriam Nicolau Ferrara (março/agosto 1985). A imprensa negra paulista (1915/1963) Revista Brasileira de História, vol. 5, nº 10. Página visitada em 23/11/2013.
  17. Sylvia Colombo (8/3/2014). Séries e filme vão contar a história do abolicionista baiano Luís Gama Ilustrada - Folha de S. Paulo. Página visitada em 8/3/2014.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Muitas obras retratam Luís Gama, além daquelas citadas nas referências, em suas facetas literária e abolicionista. Dentre elas, as seguintes:

Outros projetos Wikimedia também contêm material sobre este tema:
Wikisource Textos originais no Wikisource
Commons Imagens e media no Commons
  • GAMA, Luís. Primeiras Trovas Burlescas e Outros Poemas (org. Lígia Ferreira). Sâo Paulo: Martins Fontes, 2000.
  • AZEVEDO, Elciene, Orfeu da Carapinha. A Trajetória de Luís Gama na Imperial Cidade de São Paulo. Campinas, São Paulo: Ed. da Unicamp, 1999
  • CÂMARA, Nelson. O advogado dos escravos - Luis Gama. São Paulo: lettera
  • MENNUCCI, Sud. O Precursor do Abolicionismo no Brasil - Luís Gama. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938.
  • SILVA, J. Romão. Luís da Gama e suas Poesias Satíricas. Rio de Janeiro: Ed. Casa do Estudante do Brasil.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]