Luís XVI de França

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Luís XVI
Rei da França e Navarra
Reinado 10 de maio de 1774
a 21 de setembro de 1792
Coroação 11 de junho de 1775
Predecessor Luís XV
Sucessor Monarquia abolida
Esposa Maria Antonieta da Áustria
Descendência
Maria Teresa de França
Luís José, Delfim de França
Luís XVII de França
Maria Sofia de França
Nome completo
Luís Augusto
Casa Bourbon
Pai Luís, Delfim de França
Mãe Maria Josefa de Saxônia
Nascimento 23 de agosto de 1754
Palácio de Versalhes, Versalhes, França
Morte 21 de janeiro de 1793 (38 anos)
Praça da Revolução, Paris, França
Enterro 21 de janeiro de 1815
Basílica de Saint-Denis,
Saint-Denis, França
Assinatura

Luís XVI (Versalhes, 23 de agosto de 1754Paris, 21 de janeiro de 1793) foi Rei da França e Navarra de 1774 até 1792, antes de sua deposição e execução durante a Revolução Francesa. Seu pai, Luís, Delfim de França, era o filho e herdeiro de Luís XV de França. Como resultado da morte de seu pai, em 1765, Luís sucedeu seu avô em 1774.

A primeira parte do reinado de Luís foi marcada por tentativas de reformar a França, de acordo com os ideais iluministas. Estes incluíram esforços para abolir a servidão, remover a taille, e aumentar a tolerância em relação aos não-católicos. A nobreza francesa reagiu às reformas propostas com hostilidade, e com uma oposição bem sucedida a sua implementação; sucederam o aumento do descontentamento entre as pessoas comuns. Em 1776, Louis XVI apoiou ativamente os colonos norte-americanos, que buscavam sua independência da Grã-Bretanha, que foi realizada no Tratado de Paris de 1783.

A dívida que se seguiu e crise financeira contribuiu para a impopularidade do Antigo Regime, que culminou no Estado Geral de 1789. O descontentamento entre os membros das classes média e baixa da França resultou em reforçada oposição à aristocracia francesa e à monarquia absoluta, de que Luís e sua esposa, a rainha Maria Antonieta, eram vistos como representantes. Em 1789, a tomada da Bastilha, durante os distúrbios em Paris, marcou o início da Revolução Francesa.

A indecisão e conservadorismo de Luís levaram alguns elementos ao povo da França a vê-lo como um símbolo da tirania percebido do Antigo Regime, e sua popularidade se deteriorou progressivamente. Sua desastrosa fuga de Varennes, em junho de 1791, quatro meses antes da monarquia constitucional ser declarada, parecia justificar os rumores de que o rei amarrou suas esperanças de salvação política nas perspectivas de invasão estrangeira. A credibilidade do rei foi extremamente comprometida e a abolição da monarquia e a instauração da República tornaram-se uma possibilidade cada vez maior. Em um contexto de guerra civil e internacional, Luís XVI foi suspenso e preso na época da insurreição de 10 de agosto de 1792, um mês antes da monarquia constitucional ser abolida e a Primeira República Francesa ser proclamada em 21 de setembro do mesmo ano. Foi julgado pela Convenção Nacional (auto-instituída como um tribunal para a ocasião), considerado culpado de alta traição e executado na guilhotina em 21 de janeiro de 1793 como um cidadão francês dessacralizado conhecido como "Cidadão Luís Capeto", um apelido em referência de Hugo Capeto, o fundador da dinastia capetiana – que os revolucionários interpretavam como o nome de família do rei. Foi o único rei da França na história a ser executado, e sua morte pôs fim a mais de mil anos de monarquia francesa contínua.

Infância[editar | editar código-fonte]

Luís Augusto de França, a quem foi dado o título de duque de Berry no nascimento, nasceu no Palácio de Versalhes, em 23 de agosto de 1754. Fora de sete filhos, ele era o terceiro filho de Luís, Delfim de França, e, portanto, neto de Luís XV de França e de sua consorte, Maria Leszczyńska. Sua mãe era Maria Josefa de Saxônia, filha de Frederico Augusto II da Saxônia, o príncipe-eleitor da Saxônia e rei da Polônia.[1]

Luís Augusto teve uma infância difícil, porque seus pais esqueceram-lo em favor de seu, que diziam ser, brilhante e bonito irmão mais velho, Luís, duque de Bourgogne, que morreu aos nove anos de idade em 1761. Um menino forte e saudável, mas muito tímido, Luís Augusto destacou-se em seus estudos e tinha um gosto forte pelo latim, história, geografia e astronomia, e tornou-se fluente em italiano e inglês. Ele gostava de atividades físicas, tais como a caça com seu avô, e jogos brutos com seus irmãos mais novos, Luís Estanislau, conde de Provença, e Carlos Filipe, conde de Artois. Desde tenra idade, Luís Augusto havia sido incentivado em outro de seus passatempos: serralharia, que foi visto como uma busca "útil" para uma criança.[2]

Após o falecimento de seu pai, que morreu de tuberculose em 20 de dezembro de 1765, os onze anos de idade, tornou-se o novo Delfim. Sua mãe nunca se recuperou da perda de seu marido, e morreu em 13 de março de 1767, também de tuberculose.[3] A educação rígida e conservadora que recebeu do duque de La Vauguyon, "des Enfants gouverneur de France" (governador dos Filhos de France), a partir de 1760 até seu casamento, em 1770, não o preparou para o trono que era para herdar em 1774 após a morte de seu avô, Luís XV. Ao longo de sua educação, recebeu uma mistura de estudos específicos com a religião, moral e humanidade.[4] Seus instrutores também podem ter contribuído para moldá-lo no rei indeciso que se tornaria. Abbé Berthier, seu instrutor, ensinou-lhe que a timidez era um valor em monarcas fortes, e Abbé Soldini, seu confessor, o instruiu a não deixar que as pessoas lessem sua mente.[5]

Vida em família[editar | editar código-fonte]

Louis16-1775.jpg
Luís XVI, com 20 anos de idade.
Marie Antoinette 1767.jpg
A Arquiduquesa Maria Antonieta, aos 12 anos de idade.

Em 16 de maio de 1770, Luís Augusto, com quinze anos de idade, casou-se com a arquiduquesa de Habsburgo Maria Antônia (mais conhecida pela forma francesa de seu nome, Maria Antonieta) de quatorze anos, sua prima em segundo grau e filha mais nova do Imperador do Sacro Império Romano Francisco I e sua esposa, a imperatriz Maria Teresa da Áustria.[6] Este casamento foi recebido com certa hostilidade por parte do público francês. A aliança da França com a Áustria tinha puxado o país para as desastrosas Guerra dos Sete Anos, em que foi derrotado pelos britânicos, tanto na Europa como na América do Norte. No momento em que Luís Augusto e Maria Antonieta se casaram, o povo francês considerou geralmente a aliança austríaca com desagrado, e Maria Antonieta foi vista como uma estrangeira indesejável.[7] Para o jovem casal, o casamento foi inicialmente amigável, mas distante. A timidez do delfim e, entre outros fatores, a pouca idade e inexperiência dos recém-casados​​, que estavam totalmente estranhos um com o outro — tendo se conhecido apenas dois dias antes de seu casamento —, significava que o noivo de 15 anos não conseguia consumar a união com sua noiva um ano mais nova. Seu medo de ser manipulado por ela para fins imperiais fez com que ele se comportasse friamente em direção a ela em público.[8] Com o tempo, o casal tornou-se mais próximo, porém, enquanto o casamento teria sido consumado em julho de 1773, de fato, não foi realmente assim até 1777.[9] No entanto, o casal real não conseguiu produzir filhos por vários anos após o seu casamento, colocando uma pressão sobre o seu casamento,[10] enquanto a situação agravou-se com a publicação de panfletos obscenos (libelles) que satirizava a infertilidade do casal. Um perguntava: "Pode o Rei fazê-lo? Não pode o Rei fazê-lo?"[11]

As razões por trás do fracasso inicial do casal em ter filhos foram debatidas naquela época, e elas continuaram a ser debatidas desde então. Uma sugestão é que Luís Augusto sofria de uma disfunção fisiológica, na maioria das vezes pensada como fimose,[12] uma sugestão feita pela primeira vez no final de 1772 pelos médicos reais.[13] Os historiadores que aderiram a essa visão sugerem que ele tenha sido circuncidado[14] (um tratamento comum para fimose) para aliviar a condição de sete anos após seu casamento. Os médicos do delfim não eram a favor da cirurgia — a operação foi delicada e traumática, e capaz de fazer "tanto mal quanto bem" para um homem adulto. O argumento para a fimose e uma operação resultante é vista principalmente se originalizando de Stefan Zweig, que hoje é conhecido por ter dado destaque indevido a dados que sugerem que Luís tinha fimose, e suprimiu outras provas que contradiziam essa interpretação. Zweig, um escritor não historiador, foi influenciado pelas teorias de seu amigo Sigmund Freud, e argumentou que a frivolidade notória de Antonieta e formas perdulárias resultaram em sua frustração sexual nos sete primeiros anos de casamento.[15]

Luís Carlos, o delfim da França e futuro Luís XVII (de jure). Por Marie Louise Élisabeth Vigée-Lebrun.

A maioria dos historiadores modernos concordam que Luís não fez a cirurgia[nota 1] — por exemplo, tão tarde quanto 1777, o enviado da Prússia, Barão Goltz, informou que o rei da França tinha definitivamente recusado a operação.[16] O fato é que Luís era frequentemente declarado perfeitamente adequado à relação sexual, confirmada por José II, e durante o tempo em que era suposto ter feito a operação, ele saiu para caçar quase todos os dias, de acordo com seu diário. Isso não teria sido possível se tivesse passado por uma circuncisão; pelo menos, ele não teria sido capaz de andar à caça por algumas semanas depois. Os problemas da consumação do casal hoje são atribuídos a outros fatores. A biografia da rainha de Antonia Fraser discute a carta de José II sobre o assunto a um de seus irmãos depois que ele visitou Versalhes, em 1777.[17] Na carta, José descreve em detalhes francos o desempenho surpreendentemente inadequado de Luís no leito conjugal e o desinteresse de Antonieta em atividades conjugais. José descreveu o casal como "perfeitos confusos",[17] mas com o seu conselho, Luís começou a aplicar-se de forma mais eficaz aos seus deveres como marido, e, por vezes, na terceira semana de agosto de 1777 Maria Antonieta, finalmente, tornou-se a verdadeira rainha da França, consumando seu casamento.[18]

Apesar de toda a sua dificuldade no início, o casal real se tornou os pais de quatro filhos. A camareira de Maria Antonieta, Madame Campan, observa um aborto que a rainha sofreu após o nascimento de seu primeiro filho, um incidente datado de julho de 1779[19] por uma carta à rainha da imperatriz. Madame Campan afirma que Luís passou uma manhã inteira consolando sua esposa ao seu lado, e jurando-lhe segredo de todos que soubessem do incidente. Maria Antonieta sofreu um segundo aborto espontâneo no início de novembro de 1783.[20] Antes de seu aborto, em 19 de dezembro de 1778 Maria Antonieta deu à luz a primeira criança do casal, uma menina, Maria Teresa. Ambos tinham grandes expectativas por um varão herdeiro. Luís José nasceu em 22 de outubro de 1781 e foi o Delfim, não por muito tempo, até morrer em 4 de junho de 1789.[21] [22] Luís Carlos, por vezes dito Luís XVII, nasceu em 27 de março de 1785, porém morreu na prisão e sua irmã caçula Maria Sofia, nascida em 9 de julho de 1786, viria a morrer de varíola ainda na infância, um ano depois. Apenas Maria Teresa sobreviveu à infância e isso trouxe sofrimento aos seus pais.[23] [24]

Monarca absoluto da França, 1774–1788[editar | editar código-fonte]

Luís XVI por Antoine-François Callet, 1786.

Quando Luís XVI subiu ao trono em 1774, tinha 19 anos.[25] Possuía uma enorme responsabilidade, pois o governo estava profundamente endividado,[26] e o ressentimento à monarquia "despótica" estava em ascensão. Luís também sentia-se lamentavelmente não qualificado para o trabalho. Como rei, Luís focou-se principalmente na uniformidade religiosa e política externa. Embora nenhuma duvidava da habilidade intelectual do rei para governar a França, era bastante claro que, embora criado como o Delfim desde 1765, faltava-lhe firmeza e determinação. Seu desejo de ser amado por seu povo é evidente nos prefácios de muitos de seus decretos que muitas vezes explicavam a natureza e a boa intenção de suas ações em beneficiar as pessoas. Ele pretendia ganhar o amor de seu povo através do restabelecimento dos parlamentos. Quando questionado sobre sua decisão, ele disse: "Pode ser considerado politicamente insensato, mas parece-me ser a vontade geral, e eu quero ser amado."[27] Apesar de sua indecisão, Luís XVI era determinado a ser um bom rei, afirmando que ele "deve sempre consultar a opinião pública; eles nunca estão errados."[28] Portanto, nomeou um conselheiro experiente, Jean-Frédéric Phélypeaux, Conde de Maurepas que, até sua morte, em 1781, se encarregaria de muitas funções ministeriais importantes.

Um dos principais acontecimentos do reinado de Luís XVI foi sua assinatura do Édito de Versalhes, também conhecido como o Édito de Tolerância, em 7 de novembro de 1787,[29] que foi registrado no parlamento em 29 de janeiro de 1788. Este edital efetivamente anulou o Édito de Fontainebleau, que tinha sido lei durante 102 anos. Concedeu os não-católicos — calvinistas huguenotes, luteranos, assim como judeus — estado civil e legal na França, e deu-lhes o direito de praticar abertamente sua fé. O Edito de Versalhes não proclamou legalmente a liberdade de religião na França — isso levou mais de dois anos, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 — no entanto, foi um passo importante para eliminar tensões religiosas e terminou oficialmente com a perseguição religiosa dentro de seu reino.[30]

Reformas financeiras radicais por Turgot e Malesherbes irritaram os nobres e foram bloqueadas pelos parlamentos que insistiam que o rei não tinha o direito legal de cobrar novos impostos. Então, em 1776, Turgot foi demitido e Malesherbes renunciou, sendo substituído por Jacques Necker. Necker apoiou a Revolução Americana, e ele levou a cabo uma política de contratar grandes empréstimos internacionais, em vez de aumentar os impostos. Tentou ganhar o favor do público em 1781, quando publicou a primeira declaração de despesas e contas da história da coroa francesa, a Compte rendu au roi. Isso permitiu que o povo da França pudesse ver as contas do rei no modesto excedente.[31] Quando esta política falhou miseravelmente, Luís o despediu, em seguida, o substituiu em 1783 por Charles Alexandre de Calonne, quem aumentou os gastos públicos para "comprar" o caminho do país para sair da dívida. Mais uma vez isto falhou, assim Luís convocou a Assembleia dos Notáveis, em 1787, para discutir uma nova reforma fiscal revolucionária proposta por Calonne. Quando os nobres foram informados da importância da dívida, eles ficaram chocados em rejeitar o plano. Estes acontecimentos negativos, por sua vez, sinalizaram que Luís tinha perdido a capacidade de governar como um monarca absoluto, e ele caiu em depressão.[32]

Abertura dos Estados Gerais em 5 de maio de 1789 no Grands Salles des Menus-Plaisirs em Versalhes.

Como o poder derivava dele, houve apelos cada vez mais fortes para que convocasse a Assembleia dos Estados Gerais, que não acontecia desde 1614, no início do reinado de Luís XIII. Como uma última tentativa de obter novas reformas monetárias aprovadas, Luís XVI convocou os Estados Gerais em 8 de agosto de 1788, a definição da data de sua abertura seria em 1° de maio de 1789. Com a convocação dos Estados Gerais, como em muitos outros casos, durante o seu reinado, Luís colocou sua reputação e imagem pública nas mãos daqueles que não fossem, talvez, tão sensíveis aos desejos do povo francês como ele era. Por ser tão longo desde que os Estados Gerais tinham sido convocados, houve alguns debates sobre quais procedimentos deveriam ser seguidos. Em última análise, o Parlamento de Paris concordou que "todas as observâncias tradicionais deveriam ser cuidadosamente mantidas para evitar a impressão de que os Estados Gerais poderiam fazer as coisas como se fosse junto." De acordo com esta decisão, o rei concordou em manter muitos dos costumes divisionistas que estavam em norma desde 1614, mas que eram intoleráveis ​​para um Terceiro Estado impulsionado pelas recentes declarações de igualdade. Por exemplo, o Primeira e o Segundo Estado procederam à montagem vestindo suas melhores roupas, enquanto o Terceiro Estado era obrigado a se vestir de forma simples, opressivamente sombria e negra, um ato de alienação que Luís provavelmente não tolerava. Parecia considerar os deputados dos Estados Gerais com pelo menos respeito: em uma onda de patriotismo auto-importante, os membros dos Estados se recusaram a remover seus chapéus na presença do rei, por isso Luís o tirou a eles.[33]

Esta convocação foi um dos eventos que transformaram o mal-estar econômico e político geral do país na Revolução Francesa. Em junho de 1789, o Terceiro Estado declarou-se unilateralmente a Assembleia Nacional. As tentativas de Luís em controlá-la resultaram no Juramento do Jogo da Péla (serment du jeu de paume), em 20 de junho, a declaração da Assembléia Nacional Constituinte em 9 de julho, e, eventualmente, levaram à tomada da Bastilha em 14 de julho, que começou a Revolução Francesa (a entrada do "diário" de Luís para 14 de julho, a única palavra "rien (nada)" tem sido usada para mostrar como fora de contato com a realidade estava, mas o documento era mais um registro de ​​caça do que um diário pessoal. Quando não foi caçar, escreveu: "rien". Ele não queria dizer que nada de importante tinha acontecido naquele dia).[34] Dentro de curtos três meses, a maior parte da autoridade executiva do rei tinha sido transferida aos representantes eleitos da nação pelo povo.

Política externa[editar | editar código-fonte]

Guerra dos Sete Anos e a Grã-Bretanha[editar | editar código-fonte]

Luís XVI recebendo os embaixadores do Sultão Tipu em 1788, Voyer após Emile Wattier, no século XIX.

A participação francesa na Guerra dos Sete Anos tinha deixado a Luís XVI uma herança desastrosa. Vitórias da Grã-Bretanha tinham visto a captura da maioria dos territórios coloniais da França. Enquanto algumas foram devolvidas à França no Tratado de Paris de 1763, uma vasta parte da América do Norte foi cedida aos britânicos. Isto levou a uma estratégia entre a liderança francesa de tentar reconstruir suas forças armadas, a fim de travar uma guerra de vingança contra a Inglaterra, na qual esperava-se que as colônias perdidas pudessem ser recuperadas. A França ainda mantinha uma forte influência nas Índias Ocidentais, e na Índia mantinha cinco postos comerciais, deixando oportunidades para disputas e jogos de poder com a Grã-Bretanha.[35] [36] [37]

Em relação à Revolução Americana[editar | editar código-fonte]

Rendição de Cornwallis para tropas francesas (à esquerda) e americanas (à direita), no cerco de Yorktown, em 1781, por John Trumbull.

Na primavera de 1776, Vergennes, o ministro das Relações Exteriores, viu uma oportunidade de humilhar o antigo inimigo da França, a Grã-Bretanha, assim como recuperar territórios perdidos durante a Guerra dos Sete Anos, apoiando a Revolução Americana.[38] Luís XVI foi convencido por Pierre Beaumarchais a enviar secretamente suprimentos, munições e armas a partir de 1776, assinando um tratado formal de Aliança no início de 1778, e ir para a guerra com a Grã-Bretanha. Ao decidir em favor da guerra, apesar de grandes problemas financeiros em seu país, o rei foi materialmente influenciado por relatórios alarmistas, após a batalha de Saratoga, que sugeriu que a Grã-Bretanha estava se preparando para fazer grandes concessões as colônias e, em seguida, aliando-se com eles, greves em possessões francesas e espanholas nas Índias Ocidentais.[39] Espanha e Países Baixos logo se juntaram aos franceses em uma coalizão anti-britânica.[40] Depois de 1778, a Grã-Bretanha mudou seu foco para as Índias Ocidentais, como a defesa das Ilhas de Açúcar sendo consideradas mais importantes do que tentar recuperar as treze colônias. França e Espanha planejavam invadir as Ilhas Britânicas com a Armada de 1779, mas a operação não foi adiante.[41]

Assistência militar inicial da França aos rebeldes americanos foi uma decepção com derrotas em Rhode Island e Savannah. Em 1780, a França enviou Rochambeau e de Grasse para ajudar os norte-americanos, junto com grandes forças terrestres e navais. A força expedicionária francesa chegou à América do Norte em julho de 1780. O aparecimento de frotas francesas no Caribe foi seguido pela captura de um certo número de Ilhas de Açúcar, incluindo Tobago e Granada.[42] Em outubro de 1781, o bloqueio naval francês era fundamental em forçar um exército britânico sob Lorde Cornwallis a render-se no cerco de Yorktown.[43] Quando tal notícia chegou a Londres, o governo de Lorde North caiu em março de 1782 e a Grã-Bretanha[44] imediatamente processou por termos paz; no entanto, a França retardou o fim da guerra até setembro de 1783, na esperança de invadir mais colônias britânicas na Índia e nas Índias Ocidentais.

Grã-Bretanha reconheceu a independência das treze colônias como os Estados Unidos da América, e o Ministério da Guerra da França reconstruiu o exército. No entanto, os britânicos derrotaram a principal frota francesa em 1782 e defenderam com sucesso Jamaica e Gibraltar. O país de Luís ganhou pouco no Tratado de Paris de 1783, que terminou a guerra, exceto as colônias de Tobago e Senegal. Luís XVI ficou totalmente decepcionado com seus objetivos de recuperar o Canadá, a Índia e outras ilhas nas Índias Ocidentais da Grã-Bretanha, como elas foram muito bem defendidas e a Royal Navy fez qualquer tentativa de invasão impossível. A guerra custou 1,0666 milhões de libras, financiados por novos empréstimos a juros altos (sem novos impostos). Necker ocultou a crise do público, explicando apenas que as receitas ordinárias ultrapassaram as despesas comuns, e não mencionou os empréstimos. Depois que ele foi retirado do cargo em 1781, novos impostos foram cobrados.[45]

Em relação a Índia, Cochinchina e a exploração do mundo[editar | editar código-fonte]

Luís XVI esperava usar a Guerra Revolucionária Americana como uma oportunidade para expulsar os ingleses da Índia.[37] Em 1782, ele selou uma aliança com o Peshwa Madhu Rao Narayan. Como consequência, Charles Joseph Patissier, Marquês de Bussy-Castelnau moveu suas tropas para a Isle de France (hoje Maurício) e, mais tarde contribuiu para o esforço francês na Índia em 1783.[37] [46] Pierre André de Suffren se tornou o aliado de Hyder Ali na Segunda Guerra Anglo-Mysore contra o domínio britânico na Índia, em 1782-1783, a luta contra a frota britânica ao longo das costas da Índia e Ceilão.[47] [48]

Luís XVI dando suas instruções a La Pérouse.

A França também interveio na Cochinchina após a intervenção de Dom Pigneau de Behaine para obter ajuda militar. A aliança França-Cochinchina foi assinada através do Tratado de Versalhes de 1787, entre Luís XVI e o Príncipe Nguyễn Ánh.[49] À medida que o regime francês estava sob pressão considerável, a França não foi capaz de seguir com a aplicação do Tratado, mas Dom Pigneau de Behaine persistiu em seus esforços e com o apoio de indivíduos e comerciantes franceses montaram uma força de soldados e oficiais franceses que contribuirão para a modernização dos exércitos de Nguyễn Ánh, contribuindo para a sua vitória e sua reconquista de todo o Vietnã, em 1802.

Luís XVI também incentivou grandes viagens de exploração. Em 1785, nomeou Jean-François de La Pérouse para liderar uma expedição para velejar ao redor do mundo. A expedição foi parte da rivalidade nacional com a Grã-Bretanha e, em particular, foi uma tentativa de imitar o Capitão James Cook, cujas viagens ao redor do mundo foram um sucesso, a primeira de 1768 a 1771, e a segunda de 1772 a 1775, e fizeram muito para reescrever a ciência, reposicionar alinhamentos geográficas e promover os interesses britânicos.[50]

Reinado constitucional revolucionário, 1789–1792[editar | editar código-fonte]

Revoltas populares, período no Tulherias e reforma administrativa[editar | editar código-fonte]

Em 5 de outubro de 1789, uma multidão enfurecida de parisienses as mulheres que trabalhavam foi incitada pelos revolucionários e marcharam em direção ao Palácio de Versalhes, onde a família real vivia.[51] Ao amanhecer, eles se infiltraram no palácio e tentaram matar a rainha, que era associada a um estilo de vida frívolo que simbolizava muito do que foi desprezado pelo Antigo Regime.[51] Depois que a situação tinha sido neutralizada por La Fayette, que liderava a Guarda Nacional, o rei e sua família foram levados pela multidão ao Palácio das Tulherias, em Paris. O raciocínio por trás dessa saída forçada de Versalhes foi a opinião de que o rei seria mais responsável perante o povo, se ele vivesse entre eles, em Paris.[52]

Gravura matizada de Luís XVI, em 1792. A legenda refere-se à data do juramento do Jogo da Péla e conclui: "O mesmo Luís XVI que bravamente espera até que seus concidadãos retornem a seus lares planeja uma guerra secreta e executar sua vingança."

Os princípios da revolução da soberania popular, embora centrais para os princípios democráticos de épocas posteriores, marcaram uma ruptura decisiva do princípio monárquico absoluto que estava no coração do tradicional governo francês. Como resultado, a revolução foi contestada por muitas das pessoas rurais da França e por praticamente todos os governos dos países vizinhos da França. Como a revolução tornou-se mais radical e as massas tornaram-se mais incontroláveis, várias figuras de destaque na formação inicial da revolução começaram a duvidar de seus benefícios. Alguns, como Honoré Mirabeau, secretamente conspiraram com a coroa para restaurar seu poder em uma nova forma constitucional.[53]

A partir de 1791, Montmorin, o ministro das Relações Exteriores, começou a organizar a resistência encoberta pelas forças revolucionárias.[54] Assim, os fundos da Lista Civil (la Liste civile), votada anualmente pela Assembleia Nacional foram parcialmente atribuídas a despesas secretas a fim de preservar a monarquia. Arnault de Laporte estava no comando da Lista Civil e colaborou com tanto Montmorin e Mirabeau. Após a morte repentina de Mirabeau, Maximilien Radix de Sainte-Foix, um financista notável, tomou o seu lugar. Com efeito, ele liderou um conselho secreto de conselheiros do rei que tentou preservar a Monarquia; estes esquemas não foram bem sucedidos, e foram expostos mais tarde, como o escândalo do armário de ferro.[55]

A morte de Mirabeau, e a indecisão de Luís, fatalmente enfraqueceram negociações entre a Coroa e os políticos moderados. Por um lado, o rei estava longe de ser tão reacionário como seus irmãos, o conde de Provença e o conde de Artois,[56] e ele repetidamente enviou mensagens a eles pedindo a suspensão de suas tentativas para lançar contra-golpes. Isto foi muitas vezes feito através de seu regente secretamente nomeado, o Cardeal Loménie de Brienne.[57] Por outro lado, Luís estava alienado do novo governo democrático, tanto pela sua reação negativa ao papel tradicional do monarca e no seu tratamento dele e de sua família. Ficou particularmente irritado por ter sido mantido essencialmente como prisioneiro nas Tulherias,[58] e pela recusa do novo regime que lhe permitisse ter confessores e sacerdotes de sua escolha, em vez de "sacerdotes constitucionais" prometidos ao Estado e não a Igreja Católica.

Fuga de Varennes (1791)[editar | editar código-fonte]

Em 21 de junho de 1791, Luís XVI tentou fugir secretamente com sua família de Paris à cidade-fortaleza monarquista de Montmédy na fronteira nordeste da França, onde iria se juntar aos émigrés [emigrantes, ou emigrados] e ser protegido pela Áustria. Enquanto a Assembleia Nacional trabalhava meticulosamente no sentido de uma constituição, Luís e Maria Antonieta estavam envolvidos em seus próprios planos. O rei tinha nomeado o barão de Breteuil para atuar como plenipotenciário, lidando com outros chefes de Estado estrangeiros em uma tentativa de trazer uma contra-revolução. O próprio Luís realizou reservas contra dependência de ajuda externa. Como sua mãe e seu pai, pensou que os austríacos eram traiçoeiros e os prussianos eram excessivamente ambiciosos.[59] Como as tensões em Paris aumentaram e foi pressionado a aceitar medidas da Assembléia contra a sua vontade, Luís XVI e a rainha conspiraram para escapar secretamente da França. Além da fuga, eles esperavam levantar um "congresso armado" com a ajuda dos émigrés, assim como o apoio de outras nações com as quais poderiam voltar e, em essência, recapturar a França. Este grau de planejamento revela a determinação política de Luís; infelizmente, foi por esta trama determinada que acabou sendo condenado por alta traição.[60] Ele deixou para trás um longo manifesto explicando sua rejeição ao sistema constitucional como ilegítimo, o que foi impresso nos jornais. No entanto, a sua indecisão e incompreensão da França foram responsáveis pelo fracasso da fuga. A família real foi presa em Varennes-en-Argonne pouco depois de Jean-Baptiste Drouet, que reconheceu o rei de seu perfil em um assignat[61] (dinheiro de papel) de 50 francos, ter dado o alerta. Luís XVI e sua família foram levados de volta a Paris, onde chegaram no dia 25 de junho. Vistos com desconfiança como traidores, foram colocados em uma firme prisão domiciliar após o seu regresso aos Tulherias.

Em um nível mais detalhado, o fracasso dos planos de fuga foi devido uma série de desventuras, atrasos, erros de interpretação e julgamentos pobres.[62] Numa perspectiva mais ampla, a falha foi atribuída a indecisão do rei — ele repetidamente adiou o cronograma, permitindo que problemas menores se tornassem graves. Além disso, mal compreendia totalmente a situação política. Pensou que apenas um pequeno número de radicais em Paris estavam promovendo uma revolução que o povo como um todo rejeitava. Pensou, equivocadamente, que ele era amado pelos camponeses e do povo comum.[63] O voo do rei a curto prazo foi traumático para a França, incitando uma onda de emoções que variavam de ansiedade à violência a entrar em pânico. Todo mundo percebeu que a guerra era iminente. A compreensão mais profunda que o rei tinha de fato repudiava a revolução, foi um choque ainda maior para as pessoas que até então tinha visto como um bom rei que governava como uma manifestação da vontade de Deus. Eles se sentiram traídos. O republicanismo agora tinha se explodido das casas de café e tornou-se uma filosofia dominante da Revolução Francesa rapidamente radicalizada.[64]

Intervenção de forças estrangeiras[editar | editar código-fonte]

O retorno da família real a Paris em 25 de junho de 1791, em cobre colorido após um desenho de Jean-Louis Prieur.

As outras monarquias da Europa olharam com preocupação os desenvolvimentos na França, e consideraram se haviam que intervir, fosse em apoio a Luís ou para tirar proveito do caos no país. A figura-chave era o irmão de Maria Antonieta, o Sacro Imperador Romano Leopoldo II. Inicialmente, tinha olhado à revolução com equanimidade. No entanto, se tornou mais e mais perturbado assim como se tornou mais e mais radical. Apesar disso, ainda esperava evitar a guerra.

Em 27 de agosto, Leopoldo e o rei Frederico Guilherme II da Prússia, em consulta com os nobres emigrados da França, emitiram a Declaração de Pillnitz, que declarou o interesse dos monarcas da Europa no bem-estar de Luís e sua família,[65] e ameaçaram consequências vagas, mas graves, se alguma coisa acontecesse a eles. Embora Leopoldo viu a Declaração de Pillnitz como uma maneira fácil de se mostrar preocupado com os desenvolvimentos na França não apresentou nenhum soldado ou finanças para mudá-las, os líderes revolucionários em Paris a viram com medo como uma tentativa estrangeira perigosa de minar[66] a soberania da França.

Além das diferenças ideológicas entre a França e os poderes monárquicos da Europa, houve disputas contínuas sobre o estado das propriedades austríacas na Alsácia, e a preocupação dos membros da Assembléia Nacional Constituinte sobre a agitação dos emigrantes nobres no exterior, especialmente nos Países Baixos Austríacos e os estados menores da Alemanha. No final, a Assembléia Legislativa, apoiada por Luís, primeiro declarou guerra ao Império Romano-Germânico, a votação para a guerra em 20 de abril de 1792, depois de uma longa lista de queixas foi apresentada a ele pelo ministro das Relações Exteriores, Charles François Dumouriez. Dumouriez preparou uma invasão imediata dos Países Baixos Austríacos, onde esperava que a população local se levantasse contra o governo austríaco. No entanto, a revolução tinha desorganizado completamente o exército e as forças levantadas eram insuficientes para a invasão. Os soldados fugiram ao primeiro sinal de batalha e, em um caso, em 28 de abril de 1792, assassinaram seu general, o conde de origem irlandesa Théobald de Dillon, a quem acusavam de traição.[67]

O assalto ao Palácio das Tulherias, em 10 agosto de 1792.

Enquanto o governo revolucionário freneticamente levantou novas tropas e reorganizou seus exércitos, um exército prussiano-austríaco, sob Carlos Guilherme Fernando, duque de Brunswick marchou em Coblença, no Reno. Em julho, a invasão começou, com o exército de Brunswick tomando facilmente as fortalezas de Longwy e Verdun. O duque então emitiu em 25 de julho uma proclamação chamada de Manifesto de Brunswick, escrito pelo primo emigrante do rei, o Príncipe de Condé,[68] declarando a intenção dos austríacos e prussianos em restaurar o rei aos seus plenos poderes e tratar qualquer pessoa ou cidade que se opusesse como rebeldes a serem condenados à morte por lei marcial.

Ao contrário de sua finalidade de fortalecer a posição do rei contra os revolucionários, o Manifesto de Brunswick teve o efeito oposto de prejudicar muito a posição já muito tênue de Luís XVI em Paris. Foi tomado por muitos como a prova final de um conluio entre o rei e potências estrangeiras em uma conspiração contra o seu próprio país. A raiva da população transbordou em 10 de agosto, quando uma multidão armada – com o apoio de um novo governo municipal de Paris, que veio a ser conhecido como a Comuna Insurrecional de Paris – sitiou o Palácio das Tulherias. A família real se abrigou com a Assembleia Legislativa.

Descendência[editar | editar código-fonte]

Nome Foto Nascimento Falecimento Notas
Maria Teresa Caminade - Duchesse d'Angouleme.jpg 1778 1851 Madame real. Casou-se com seu primo, o duque d'Angoulême. Alguns autores consideram que Maria Teresa foi, durante 20 minutos, rainha-consorte de França e Navarra - período entre a abdicação de seu sogro, Carlos X e a abdicação de seu marido, cujo título de Luís XIX é contestado. Sem descendência.
Luís José Louis-Joseph, Dauphin de France - École française.jpg 1781 1789 Delfim de França. Morto na infância.
Luís Carlos Louis Charles of France5.jpg 1785 1795 Considerado pelos monarquistas franceses como Luís XVII. Morreu no cárcere.
Sofia Sophie Beatrice of France.jpg 1786 1787 Morta na infância.

Títulos, estilos, honras e armas[editar | editar código-fonte]

Estilo real de tratamento de
Luís XVI da França
France-Navarre Arms.svg
Estilo real Sua Majestade Cristianíssima
Estilo alternativo Senhor, o Rei

Títulos e estilos[editar | editar código-fonte]

  • 23 de agosto de 1754 – 20 de dezembro de 1765: "Sua Alteza Real, o Duque de Berry"
  • 20 de dezembro de 1765 – 10 de maio de 1774: "Sua Alteza Real, o Delfim da França"
  • 10 de maio de 1774 – 21 de setembro de 1792: "Sua Majestade Cristianíssima, o Rei"
  • 21 de setembro 1792 – 21 de janeiro de 1793': "Cidadão Luís Capeto"

Seu título e estilo formal antes da Revolução Francesa era: "Luís XVI, pela Graça de Deus, Rei da França e de Navarra".

Brasão de armas[editar | editar código-fonte]

Após sua ascensão ao trono, Luís assumiu o brasão real da França e Navarra.

Notas

  1. Entre os historiadores que compartilham a mesma ideia estão Antonia Fraser em sua biografia Marie Antoinette: The Journey (2001), Evelyne Lever na obra Marie Antoinette: Last Queen of France (2001), e Vincent Cronin em seu trabalho Louis and Antoinette (1974) (Weber 2007, p. 324.).

Referências

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20 de dezembro de 1765 – 10 de maio de 1774
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