Jogo patológico

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Jogo patológico
Classificação e recursos externos
CID-10 F63.0
CID-9 312.31
MedlinePlus 001520
MeSH D005715
Star of life caution.svg Aviso médico
Ganhar um jogo ativa o cérebro de maneira muito semelhante a quando um viciado em cocaína recebe uma nova dose.1 .

Jogo patológico ou ludomania, mais popularmente conhecido como "vício em jogar", se refere ao comportamento de persistir em jogar recorrentemente apesar de conseqüências negativas ou do desejo de parar. É mais prejudicial e conhecido entre jogos que envolvem dinheiro, mas qualquer jogo prazeroso pode se tornar viciante. 2

Índice

Classificação[editar]

Existe conflito entre especialistas em classificar como uma compulsão e obsessão, como a cleptomania, ou de uma adicção, como o alcoolismo. Compulsão significa incapacidade em controlar impulsos diante de um estímulo, obsessão significa pensar recorrentemente em algo mesmo não desejando e sabendo que não deve pensar nisso. Adicção se refere a uma dependência química e psicológica, que aumenta gradualmente com a estimulação dopaminérgica e gera crise de abstinência e fissura na ausência do estímulo.3

Causa[editar]

Nosso cérebro não é eficiente em intuitivamente compreender probabilidades e empresas de jogos, cassinos e loterias se aproveitam disso para obterem lucros maiores.4

Evidências científicas indicam que o jogo patológico é uma dependência semelhante à dependência química.5 Foi identificado em alguns jogadores patológicos um níveis de noradrenalina mais baixos que em jogadores normais, provavelmente por dessensibilização dos receptores de catecolamina. Noradrenalina e dopamina são secretados em resposta a eventos estressantes e excitantes, causando sensação de alívio e prazer diante de sucessos, mas jogadores patológicos precisam jogar cada vez mais, e com cada vez mais riscos, para obter o mesmo prazer que jogadores ocasionais. Esse mecanismo é muito semelhante ao de dependência química.6

Falácia do jogador[editar]

Se uma moeda ideal foi jogada 3 vezes e nas cinco o resultado foi cara, qual a probabilidade do próximo resultado ser coroa? Apesar da chance continuar apenas como 50% é comum acreditar que a cada fracasso a chance de sucesso na próxima tentativa será maior.7 A análise de probabilidades de outra cara só será de 6,25% caso a pergunta fosse "Qual é a chance de obter 4 caras consecutivas?". Em cada tentativa individual a chance permanece sendo 50% independente dos resultados anteriores.

Diagnóstico[editar]

Jogos frequentemente são jogados em grupo e usados como base na socialização de um grupo. Nesses casos largar o jogo pode significar perder amigos e uma importante fonte de alívio de ansiedade.

Para a OMS esse transtorno "consiste em episódios repetidos e freqüentes de jogo que dominam a vida do sujeito em detrimento dos valores e dos compromissos sociais, profissionais, materiais e familiares".2

Para o diagnóstico pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) deve-se atender a cinco ou mais dentre os seguintes critérios8 :

  1. Preocupação frequente com jogo;
  2. Necessidade de aumentar os riscos ou apostas para alcançar a excitação desejada;
  3. Esforço repetido e sem sucesso de controlar, diminuir ou parar de jogar;
  4. Inquietude ou irritabilidade quando diminui ou pára de jogar;
  5. Ameaçar ou perder relacionamentos significativos, oportunidades de trabalho, educação ou carreira por causa do jogo;
  6. Jogo como forma de escapar de problemas ou para aliviar sentimentos desagradáveis;
  7. Mentir para familiares, terapeuta ou outros, a fim de esconder a extensão do envolvimento com jogo;
Específicos de jogos de azar
  1. Depois de perder dinheiro no jogo, retorna freqüentemente no dia seguinte para recuperar o dinheiro perdido;
  2. Contar com outros para prover dinheiro, no intuito de aliviar a situação financeira desesperadora por causa do jogo.
  3. Cometer atos ilegais como falsificação, fraude, roubo ou desfalque para financiar o jogo;

Comorbidades[editar]

É mais comum em quem também sofre com9 :

Epidemiologia[editar]

Em São Paulo o número de viciados em jogos de azar que procuram tratamento tem crescido, são homens, tem grau de escolaridade elevado e jogam múltiplos jogos de azar simultaneamente.5 Geralmente há preferência por um jogo, sendo jogos de cartas, jogos eletrônicos e bingo os mais comuns.5

Na população geral 4% possuem sérios problemas com jogos e 1,5% atendem aos critérios diagnósticos de jogador patológico.10

Dentre viciados em jogos a maioria são homens (87,7%), com ensino médio ou nível superior (82,3%), empregados em regime integral (71,6%), casados (50,7%), média de idade 40 anos e renda mensal média por volta de US$ 3.500.10

Tratamento[editar]

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Advertência: A Wikipédia não é consultório médico nem farmácia.
Se necessita de ajuda, consulte um profissional de saúde.
As informações aqui contidas não têm caráter de aconselhamento.
Na abordagem comportamento é feita exposição gradativa a situações reais crescentemente tentadoras para treinar respostas de auto-controle diante do estímulo.11
Passar alguns minutos imaginando-se recusando o jogo em diversas situações cotidianas foi uma das técnicas mais efetivas para diminuir a compulsão por jogar.

Não-medicamentoso[editar]

Terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem diversas pesquisas comprovando sua eficiência em reduzir o prejuízo financeiro, social, profissional, acadêmico e familiar com vícios e dependência psicológica.12 13

Dentre suas técnicas incluem sensibilização encoberta, dessensibilização por imagem mental, dessensibilização sistemática, terapia aversiva, treino de relaxamento, negociar fontes alternativas de satisfação, psico-educação, reestruturação cognitiva e prevenção de recaída. 11

Essa terapia tem começa com a identificação de processos cognitivos associados ao desejo de jogar, como humor, pensamentos e influências ambientais que aumentam a probabilidade de "perder o auto-controle" jogando. Além disso, essa psicoterapia freqüentemente ajudam no desenvolvimento de habilidades sociais, assertividade, habilidades de resolução de problemas e outras fontes mais eficientes de relaxamento, diversão e socialização para evitar recaídas. Quando o paciente tem progressos o psicólogo apoia e discute como manter esse bom padrão e quando o paciente tem recaídas o psicólogo discute a causa e como evitar novas recaídas.14

No ambulatório da UNIFESP existe um Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes específico para jogo patológico.5

Assim como compradores compulsivos, jogadores compulsivos frequentemente evitam psicoterapia por causa dos problemas financeiros causados pelo vício ou por desejar seguir gastando o dinheiro com o vício ao invés de buscar tratamento.

Dessensibilização por imagem mental

Uma das técnicas mais eficientes em uma pesquisa científica com víciados em jogo foi15 :

  • Fechar os olhos e respirar fundo;
  • Imaginar uma situação comum em que o desejo de jogar é desencadeado (por exemplo, ao ser convidado por amigos para um jogo);
  • Planejar uma resposta adequada e imaginar-se recusando o jogo com ela (por exemplo, "não posso, preciso estudar hoje");
  • Planejar uma resposta de insistência em recusar o jogo (por exemplo, "não jogo mais esse jogo, ele estava me causando problemas");
  • Repetir imaginando outras situações comuns em que o desejo de jogar é desencadeado.
Auto-ajuda

Cerca de 1/3 dos jogadores compulsivos eventualmente conseguem superar o vício com apoio da família, amigos e livros de auto-ajuda. O maior empecilho para essa recuperação sem terapia é quando os amigos e parentes também possuem vícios, quando o jogador tem tendência genética a vícios e quando o indivíduo não possui muitos amigos íntimos e o jogo está na base da socialização e relaxamento.16

Medicamentoso[editar]

Há evidências de que a paroxetina, um tipo de antidepressivo ISRS, é eficaz no tratamento do jogo patológico. 17 Para além disso, para pacientes que sofrem também de transtorno bipolar, uma comorbidade comum, sal de lítio demonstraram ser eficientes em um ensaio preliminar. 18 Antagonistas de opiáceos também foram testados com bastante êxito para o tratamento de jogo compulsivo.19

Referências na cultura[editar]

  • Em O Jogador(1886), Dostoiévski relata as dificuldades de um jogador patológico para saldar suas dívidas contraídas em jogos.
  • Em A grande família, Nené foi diagnosticada como viciada em jogos de azar com cartas.

Referências

  1. Breiter, Hans; Aharon, Itzhak; Kahneman, Daniel; Dale, Anders; Shizgal, Peter (May 2001). "Functional Imaging of Neural Responses to Expectancy and Experience of Monetary Gains and Losses". Neuron 30 (2): 619–639. doi:10.1016/S0896-6273(01)00303-8.
  2. a b http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/cid10.htm
  3. Petry, Nancy (September 2006). "Should the Scope of Addictive Behaviors be Broadened to Include Pathological Gambling?". Addiction 101 (s1): 152. doi:10.1111/j.1360-0443.2006.01593.x.
  4. http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=why-our-brains-do-not-intuitively-grasp-probabilities
  5. a b c d http://www.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/atu4_05.htm
  6. Cloninger, C.R. _ Assessment of the impulsive-compulsive spectrum of behavior by the seven-factor model of temperament and character. In: Oldham; J.M. Hollander E. & Skodol A.E. (eds.) Impulsivity and Compulsivity, American Psychiatric Press, Washington, D.C., pp. 59-95, 1996.
  7. Zamora, Antonio. "Psychological Aspects of Gambling Addiction". Scientific Psychic. Retrieved May 7, 2012.
  8. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), 4a edição, Artes Médicas, Porto Alegre, 1995.
  9. Crockford DN, el-Guebaly N. Psychiatric comorbidity in pathological gambling: a critical review. Canadian J Psychiatry. Revue Canadienne Psychiatrie 1998;43(1):43-50.
  10. a b Hermano Tavares, Valentim Gentil, Cleane de Souza Oliveira, Alexandre Garcia Tavares. Jogadores patológicos, uma revisão: Psicopatologia, quadro clínico e tratamento. http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol26/n4/artigo(179).htm
  11. a b HODGINS, David C and PEDEN, Nicole. Tratamento cognitivo e comportamental para transtornos do controle de impulsos. Rev. Bras. Psiquiatr. [online]. 2008, vol.30, suppl.1 [cited 2013-02-14], pp. S31-S40 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462008000500006&lng=en&nrm=iso>. Epub Aug 03, 2007. ISSN 1516-4446. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462006005000055.
  12. McConaghy, N.; Blaszczynski, A. & Frankova, A. _ Comparision of imaginal desensitisation with other behavioral treatments of pathological gambling: a two- to nine-year follow-up. British Journal of Psychiatry 159: 390-393, 1991.
  13. Gauthier J, Pellerin D. Management of compulsive shoplifting through covert sensitization. J Behav Ther Exp Psychiatry. 1982;13(1):73-5.
  14. Dowling, Nicki; Jackson, Alun C.; Thomas, Shane A. (2008). "Behavioral Interventions in the Treatment of Pathological Gambling: A Review of Activity Scheduling and Desensitization". International Journal of Behavioral Consultation and Therapy 4 (2): 172–188.
  15. Sylvain C, Ladouceur R, Boisvert JM. Cognitive and behavioral treatment of pathological gambling: a controlled study. J Consult Clin Psychol. 1997;65(5):727-32.
  16. Slutske, Wendy (February 2006). "Natural Recovery and Treatment-Seeking in Pathological Gambling: Results of Two U.S. National Surveys". American Journal of Psychiatry 163 (2): 297–302. doi:10.1176/appi.ajp.163.2.297.
  17. Kim SW, Grant JE, Adson DE, Shin YC, Zaninelli R (2002). "A double-blind placebo-controlled study of the efficacy and safety of paroxetine in the treatment of pathological gambling". Journal of Clinical Psychiatry 63 (6): 501–507. doi:10.4088/JCP.v63n0606. PMID 12088161.
  18. Hollander E, Pallanti S, Allen A, Sood E, Baldini Rossi N (2005). "Does sustained release lithium reduce impulsive gambling and affective instability versus placebo in pathological gamblers with bipolar spectrum disorders?". American Journal of Psychiatry 162 (1): 137–145. doi:10.1176/appi.ajp.162.1.137. PMID 15625212.
  19. http://www.medicalnewstoday.com/releases/37126.php