Máfia russa

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Organizatsiya
Procuradoria da URSS confiscando bens da máfia em Moscou, 1988.
Fundação A partir de 1917
Local da fundação União das Repúblicas Socialistas Soviéticas União Soviética
Rússia Rússia
Ucrânia Ucrânia
Anos ativo 1950s - 1990s (Piramida)
1980s - 2000s (Vory v Zakone)
Território(s) Internacional. Sede histórica em Leningrado.
Afiliações Tambovskaia, Balashikhinski, Orekhov, Solntsevo, Uralmash, Chetchenskaia, Círculo dos Irmãos, Nevski, Obtshak-Ühiskassa, entre outras.
Atividades Execuções, extorsões, assaltos, sabotagens, terrorismo, tráfico de armas, drogas e pedras preciosas, prostituição.
Aliados Máfias sérvia, grega, eslovaca e georgiana.
Rivais Tríade, Yakuza, 'Ndrangheta.

Máfia Russa (em russo: Русская Мафия, transliterado Russkaya Mafiya) é a denominação generalizada dada a quaisquer dos grupos criminosos que surgiram na União Soviética, principalmente na Rússia, no final dos anos 1980. Outras denominações genéricas para estes grupos são Bratva (Os Chapas), Organizatsiya (A Organização), Vory v Zakone (Bandidos dentro da Lei). A grande maioria destes grupos estão atualmente extintos. Entre as organizações mafiosas russas mais conhecidas estão a Tambovskaia, de São Petersburgo, as gangues de Balashikhinski, Orekhov e Solntsevo, todas de Moscou, a Uralmash, de Ecaterimburgo, e a Chetchenskaia, da Chechênia. No plano internacional, os mais conhecidos grupos criminosos de origem russa são o Círculo dos Irmãos, com atividades no Oriente Médio, África e América Latina, o Nevski, com atividades nos Estados Unidos, e o Obtshak-Ühiskassa, aliado à máfia da Finlândia.

Segundo o livro "Thieves' World: The Threat of the New Global Network of Organized Crime" da jornalista Claire Sterling, desde 1993 a máfia russa conseguiu unificar sob seu comando todas as máfias do mundo.

História[editar | editar código-fonte]

Gulags[editar | editar código-fonte]

Com a consolidação do regime soviético na Rússia, as autoridades fundaram campos de trabalho forçado de segurança máxima, com o objetivo de punir quem fosse considerado inimigo de Estado em maior grau. Estes campos ficaram conhecidos como Gulags, onde se formou uma elite criminal, dando origem à máfia russa moderna. Em 1941, com a invasão de Hitler à União Soviética, o governo necessitava de cada vez mais recrutas, e foi compensar a falta de reservistas com a convocação de prisioneiros, em troca da liberdade. Ao mesmo tempo que aspiravam pelo fim do cárcere, os prisioneiros também se viam no dilema de se aliar ao governo, o que seria um grave crime de traição dentro da organização criminal. Muitos dos prisioneiros optaram pela liberdade, e foram aos campos de batalha defender a bandeira da URSS. As autoridades, contudo, não cumpriram o estabelecido, e enviaram os criminosos novamente para as prisões. Os heróis de guerra foram então confrontados pelos detentos que não participaram da guerra, e foram apelidados "suki" (cadelas, em russo). Os suki, por outro lado, passaram a se organizar com o apoio dos oficiais, que além de privilegiarem os heróis de guerra, também viam na segregação entre os dois grupos um modo de limpar a prisão e diminuir o número de detentos. A rixa entre as duas facções de detentos levou à Guerra das Cadelas, que tirou a vida de milhares de detentos, sendo um dos principais argumentos na crítica ao sistema de Gulags. Em 1953, com a morte de Joseph Stalin, o novo líder soviético, Nikita Khrushchov, dissolveu os Gulags e enviou os prisioneiros mais perigosos a prisões comuns, encerrando a guerra interna, que todavia continuaria nas prisões, conhecidas como "colônias".

A Máfia Vermelha[editar | editar código-fonte]

O extravagante líder da URSS, Leonid Brejnev, viu seu nome frequentemente envolvido nos quadros da máfia russa.

A grande estruturação da máfia russa remete à União Soviética dos anos 1950, quando o serviço secreto do país, o KGB, infiltrava informantes dentro de grupos mafiosos estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos e do Reino Unido, com o objetivo de freiar as sabotagens e a colaboração entre os criminosos e o governo, como ocorrido em Cuba, em 1958, quando os serviços de inteligência americanos entraram em acordo com as máfias de Nova Iorque e principalmente Miami, que detinham muito poder na ilha onde Fidel Castro tentava instaurar a revolução. Com o passar do tempo, a máfia soviética, a chamada Piramida-1, composta pelos "siloviki", os agentes da polícia, que aproveitando-se do poder, se aliaram à ordem criminal já existente, baseada nas reminiscências dos Gulags colônias, criou uma filial no próprio território soviético, onde centralizavam suas operações, que envolviam o contrabando, o controle de grandes negócios privados estrangeiros, grandes assaltos, envolvimentos no tráfico de armas, pedras preciosas, participações em cassinos, uso de contra-inteligência à favor da organização, execuções de influentes criminosos, políticos, banqueiros e opositores, sabotagem e outros trabalhos sujos. Ao mesmo tempo que pode-se atribuir à Piramida a falência e limpeza de muitas organizações criminosas, também pode-se considerar o grande volume de sangue derramado por essa organização. Galina Brejneva, a filha do excêntrico presidente soviético Leonid Brejnev, participava da máfia Piramida, sendo presa por contrabando de diamantes e prostituição.

Por anos, a cidade de São Petersburgo foi o grande quartel da máfia russa.

Os Bandidos dentro da Lei[editar | editar código-fonte]

Em meio à incerteza política e econômica que se passou na União Soviética em seus anos finais, o crime organizado, que até então era limitado a prisioneiros e às forças policiais, se expandiu e se desenvolveu, mais formalmente no ano de 1988, quando o governo realizava políticas de aberturas em várias esferas, principalmente na econômica, com as privatizações de diversos setores estratégicos para a economia da nação. Em 1993, o governo fez uma distribuição de cheques no valor de mil rublos para que a população em geral comprasse ações de companhias estatais, com o objetivo de incentivar a iniciativa privada. Contudo, os cidadãos comuns e pouco acostumados com o sistema capitalista, não sabiam onde e como aplicar os cheques, e em meio à ânsia de obter qualquer valor monetário que fosse para se livrar da pobreza, os vendiam para compradores a um preço muito menor do que os das ações. Isso resultou na falência do plano de cheques e na consequente compra de ações por parte de uma camada privilegiada da população, enquanto a grande maioria do povo empobrecia. Estes indivíduos privilegiados ficaram conhecidos como oligarcas russos.

A máfia russa ficou conhecida pelas operações e transações obscuras, pelo seu forte poder bélico e por sua facilidade em driblar os sistemas de leis do país. Inclusive, os chefes da Máfia costumavam, em seu ápice, nos anos 1990, ter assombrosa influência na legislação do país, contestando as leis que fossem contra seus negócios, fazendo jus ao apelido de "Vory v Zakone" — Bandidos dentro da Lei. A corrupção gerada pelas organizações era tanta que os criminosos chegavam até mesmo a manipular e empregar o próprio presidente russo, Boris Ieltsin, para obter benefícios, em troca de favores e apoio ao cargo. As organizações criminosas russas tinham tanto poder no país neste tempo que não era raro encontrar pessoas comuns e de baixa renda que realizassem serviços para elas. Com a chegada do presidente Vladimir Putin, em 2000, e sua consolidação no cargo, a máfia russa viveu uma crise sem precedentes, já que esse presidente, que contava com o cego apoio dos criminosos, sem nenhum tipo de advertência, tornou possíveis diversas estatizações de setores que estavam nas mãos da máfia russa, e ainda manteve, em tornou de si mesmo, uma força que reprimia até mesmo o poder judiciário, conseguindo assim conter a poderosa máfia russa, às vezes pelos meios que a própria utilizava. Com a acusação e eliminação de diversos oligarcas e agentes corruptos da polícia, principalmente judeus, a máfia russa perdeu muitos de seus contatos internos, como Roman Abramovich, Boris Berezovsky, Alexander Litvinenko, Mikhail Khodorkovski, Mikhail Prokhorov, entre outros, assim transferindo seu centro de atividades para o estrangeiro, agindo principalmente na Grã-Bretanha.

Com as falências, compelidas ou não, de muitas de suas associações na Federação Russa, as principais lideranças da máfia russa migraram para outros grupos de atividades similares, enquanto as ditas associações migraram para atividades lícitas ou para a própria prisão. Devido a esse "fenômeno", o ano de 2007 é considerado, inclusive por antigos membros, como o ano da ruína da Máfia Russa. Há, porém, muitos que crêem que, apesar da quebra da máfia judaica, a Rússia ainda é assombrada por organizações mafiosas, originárias, ironicamente, do combate aos antigos grupos, devido ao poder que se conquistou durante aquele período. Para estes, esta máfia é dirigida pelo mais importante político russo da atualidade, Vladimir Putin.[1]

Curiosidade[editar | editar código-fonte]

A canção "Za Chto Vy Brosili Menya?" é considerada o hino da máfia russa durante os anos 1980 e 1990. Curiosamente, sua melodia é de autoria do compositor brasileiro Dorival Caymmi, em sua música Suíte dos Pescadores. A canção em português ganhou notoriedade na União Soviética em meados dos anos 1970, com o lançamento do filme Capitães de Areia, que marcou a geração da época, e teve grande repercussão no país, principalmente entre os adolescentes. A canção seria mais tarde adaptada para o russo. Anos depois, em 1979 viria a Guerra do Afeganistão, que durou até 1989, tirando a vida de 15.000 soviéticos. Durante a guerra, a canção era constantemente entoada pelos soldados russos, que a ostentavam como um símbolo da juventude. Em meados dos anos 1980, surgiriam os primeiros grandes grupos de crime organizado dentro da URSS, formados principalmente por recrutas dispensados da guerra, que continuaram a carregar a canção como um símbolo da juventude. Lançado em 2002, o seriado Brigada faz uma referência ao fato, quando os amigos do protagonista mafioso cantam a música durante seu casamento.[2]

BBC - 1998 - Quem são a máfia russa?

  1. WikiLeaks cables condemn Russia as 'mafia state', Guardian.co.uk WikiLeaks cables condemn Russia as 'mafia state'
  2. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120806_amado_capitaes_filme_tp.shtml