Magnus Hirschfeld

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Magnus Hirschfeld (Kolberg, a actual Kołobrzeg, 14 de Maio de 1868Nice, 14 de Maio de 1935) foi um famoso médico e sexólogo alemão, pioneiro na defesa dos direitos dos homossexuais.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Magnus Hirschfeld nasceu numa família de judeus na cidade prussiana de Kolberg (actualmente chamada de Kołobrzeg e situada na Polónia). Estudou línguas em Breslau e mais tarde medicina em Estrasburgo, Munique, Heidelberg e Berlim, tendo concluído nesta última cidade o seu curso em 1892. Ainda durante a sua juventude viveu durante algum tempo em Paris e trabalhou como jornalista.

Depois de exercer como médico durante alguns anos em Magdeburg, publica em 1896 um panfleto intitulado Sappho und Sokrates oder Wie erklärt sich die Liebe der Männer und Frauen zu Personen des eigenen Geschlechts? (Safo e Sócrates ou como explicar o amor de homens e mulheres por pessoas do seu mesmo sexo?), sob o pseudónimo "Th. Ramien".

Em 1897 fundou junto com Eduard Oberg, Max Spohr e Franz Josef von Bülow, o Wissenschaftlich-humanitäres Komitee ("Comité Científico-Humanitário") cujo objectivo era defender os direitos dos homossexuais e revogar o parágrafo 175 da lei alemã, que penalizava as relações homossexuais. O slogan do comité, "Justiça através da ciência", reflectia a crença de Hirschfeld que o conhecimento científico sobre a sexualidade eliminaria a hostilidade face aos homossexuais. O Comité lançou uma petição na qual se apelava à revogação da lei, que juntou mais de 5000 assinaturas de proeminentes alemães como, por exemplo, Albert Einstein, Hermann Hesse, Käthe Kollwitz, Thomas Mann, Heinrich Mann, Rainer Maria Rilke, August Bebel, Max Brod, Karl Kautsky, Stefan Zweig, Gerhart Hauptmann, Martin Buber, Richard von Krafft-Ebing e Eduard Bernstein.

Em 1903, Adolf Brand e outros membros do Comité científico humanitário se afastaram para formar a "Gemeinschaft der Eigenen" ("União dos próprios"). Os dois grupos colaboraram na luta contra o parágrafo 175, mas nunca conseguiram revogar a lei.

Em 1908 Magnus Hirschfeld conheceu Sigmund Freud em Viena; pouco tempo depois, Hirschfeld tornou-se um dos membros fundadores da secção em Berlim da Sociedade Psicanalítica de Viena, da qual se demitiu em 1911 devido a ataques de C. G. Jung.

Em 1919, inserido no ambiente mais liberal da recém-fundada República de Weimar, Hirschfeld abriu o Institut für Sexualwissenschaft (Instituto para o estudo da sexualidade) em Berlim. O instituto continha uma grande biblioteca sobre sexualidade e prestava serviços educativos e consultas médicas. A instituição tinha também um Museu do sexo, que funcionava como serviço educativo visitado por alunos das escolas. Pessoas de toda a Europa visitaram o instituto movidas pelo desejo de tentar entender melhor a sua própria sexualidade. Christopher Isherwood escreveu sobre a sua visita e a de Auden no seu livro Christopher and His Kind. O instituto e a obra de Hirschfeld são descritos no documentário de Rosa von Praunheim Magnus Hirschfeld - Der Einstein des Sex (1999).

Em Maio do mesmo ano estreou o filme Anders als die Andern ("Diferente dos Outros"), produção que é considerada como o primeiro filme subordinado à temática da libertação homossexual. O filme pretendia denunciar os males provocados pelo parágrafo 175, como a chantagem. A produção cinematográfica foi banida pelas autoridades em Agosto de 1920.

Em 1921 Hirshfeld organizou o "Primeiro congresso para a reforma sexual", que levou à formação da "Liga mundial para a reforma sexual" em 1928. Os congressos desta organização celebraram-se em Copenhague em 1928, em Londres em 1929, em Viena em 1930 e em Brno en 1932.

Com a subida ao poder dos nazis em 1933, uma das primeiras acções destes foi destruir o instituto e incendiar a sua biblioteca (6 de Maio de 1933). As imagens que por vezes são exibidas nas televisões sobre os actos nazis de destruição são frequentemente cenas do incendêncio à biblioteca de Hirschfeld. Nesta altura, Hirschfeld estava no estrangeiro, numa digressão internacional de conferências que tinha iniciado em 1930 nos Estados Unidos. Não regressou à Alemanha, tendo sido privado da sua nacionalidade alemã pelos nazis em 1934. No ano seguinte foi assassinado por um agente da GESTAPO na cidade francesa de Nice.

Magnus Hirschfeld era muito reservado em relação à sua própria orientação sexual, sendo descrito por alguns biógrafos como bissexual ou homossexual. Seja qual fosse a sua sexualidade, manteve pelo menos duas relações amorosas com homens, a primeira com Karl Giese, arquivista do instituto, e com Li Shiu Tong, um discípulo chinês.

Teorias[editar | editar código-fonte]

Hirschfeld desenvolveu a teoria do terceiro sexo, segundo a qual os homossexuais estariam numa posição intermédia entre o homem heterossexual e a mulher heterossexual.

Ligada a esta teoria estava a ideia de que os seres humanos não podem ser taxativamente divididos em homem ou mulher. Em vez disso, Hirschfeld argumentou que os seres humanos possuem elementos masculinos e femininos em proporções variáveis.

No seu tratado Geschlechtsübergänge (Transições Sexuais) desenvolveu a teoria da sexualidade como algo gradativo, que resulta da combinação de quatro elementos: os órgãos sexuais, outras características sexuais do corpo, desejo sexual e características psicológicas. A sexualidade de cada pessoa resulta da combinação em diferentes graus desses elementos, sendo por isso algo de único.

Interessou-se pelo estudo de uma ampla variedade de desejos sexuais e eróticos numa época em que a taxonomia da identidade sexual estava ainda em formação. Os seus trabalhos partiram das teorias de Karl Heinrich Ulrichs e Richard von Krafft-Ebing e influenciaram os de Havelock Ellis e Edward Carpenter.

Críticas[editar | editar código-fonte]

O legado de Hirschfeld é controverso. Apesar de ter sido bastante popular em alguns círculos, em outros foi vilipendiado.

Alguns críticos afirmam que o apoio financeiro por si recebido era oriundo de homossexuais famosos alemães que eram chantageados por Hirschfeld. Outros, partidários de teorias deconstructivistas da sexualidade, criticaram o fundo médico das suas teorias, baseadas na ideia de que a homossexualidade era hormonal, e que consideram ter aberto às portas à ideia de cura da homossexualidade.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Obras de Hirschfeld em inglês:

  • The Homosexuality of Men and Women; translated by Michael A. Lombardi-Nash. (Nash)
  • The Transvestites: The Erotic Drive to Cross-Dress. (Prometheus Books)
  • Men and Women: The World Journey of a Sexologist. (AMS Press, 1974)
  • The Sexual History of the World War. (Cadillac Publishing Co., 1946)

Obras sobre Hirschfeld em inglês:

  • Wolff, Charotte. Magnus Hirschfeld: A Portrait of a Pioneer in Sexology (Salem House) ISBN 0-7043-2569-1. (1987).
  • Steakley, James D. The Writings of Magnus Hirschfeld: A Bibliography. (1985).
  • Gordon, Mel. Voluptuous Panic: The Erotic World of Weimar Berlin. (2003).
  • James D. Steakley. The Early Homosexual Emancipation Movement in Germany. (1975).
  • John Lauritsen and David Thorstad. The Early Homosexual Rights Movement, 1864-1935. (Second Edition revised).
  • Günter Grau (ed.). Hidden Holocaust? Gay and lesbian persecution in Germany 1933-45. (1995).
  • Mark Blasins & Shane Phelan. (Eds.) We Are Everywhere: A Historical Source Book of Gay and Lesbian Politics (See chapter: The Emergence of a Gay and Lesbian Political Culture in Germany).

Obras sobre Hirschfeld em alemão:

  • Ralf Dose: Magnus Hirschfeld: Deutscher, Jude, Weltbürger. Hentrich und Hentrich, Teetz 2005. ISBN 3-933471-69-9
  • Manfred Herzer: Magnus Hirschfeld: Leben und Werk eines jüdischen, schwulen und sozialistischen Sexologen. 2. Auflage. MännerschwarmSkript-Verlag, Hamburg 2001. ISBN 3-935596-28-6

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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