Civilização maia

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A civilização maia foi uma cultura mesoamericana pré-colombiana, notável por sua língua escrita (único sistema de escrita do novo mundo pré-colombiano que podia representar completamente o idioma falado no mesmo grau de eficiência que o idioma escrito no velho mundo), pela sua arte, arquitetura, matemática e sistemas astronômicos. Inicialmente estabelecidas durante o período pré-clássico (1000 a.C. a 250 d.C.), muitas cidades maias atingiram o seu mais elevado estado de desenvolvimento durante o período clássico (250 d.C. a 900 d.C.), continuando a se desenvolver durante todo o período pós-clássico, até a chegada dos espanhóis. No seu auge, era uma das mais densamente povoadas e culturalmente dinâmicas sociedades do mundo.[1]

A civilização maia compartilha muitas características com outras civilizações da Mesoamérica, devido ao alto grau de interação e difusão cultural que caracteriza a região[2] . Avanços como a escrita, epigrafia e o calendário não se originaram com os maias; no entanto, sua civilização se desenvolveu plenamente. A influência dos maias pode ser detectada em países como Honduras, Guatemala, El Salvador e na região central do México, a mais de 1 000 km da área maia.[3] . Muitas influências externas são encontrados na arte e arquitetura Maia, o que acredita-se ser resultado do intercâmbio comercial e cultural, em vez de conquista externa direta[3]

Os povos maias nunca desapareceram, nem na época do declínio no período clássico, nem com a chegada dos conquistadores espanhóis e a subsequente colonização espanhola das Américas. Hoje, os maias e seus descendentes formam populações consideráveis em toda a área antiga maia e mantêm um conjunto distinto de tradições e crenças que são o resultado da fusão das ideologias pré-colombianas e pós-conquista (e estruturado pela aprovação quase total ao catolicismo romano). Muitas línguas maias continuam a ser faladas como línguas primárias ainda hoje; o Rabinal Achí, uma obra literária na língua achi, foi declarada uma obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura em 2005.

História

Período pré-clássico

Mapa histórico dos territórios habitados por povos de língua maia

Os estudiosos continuam a discutir quando esta civilização começou. Descobertas de ocupação maia em Cuello, no Belize, foram datadas de cerca de 2600 a.C, através da datação por carbono.[4] [5] O calendário maia, que se baseia no chamado calendário de contagem longa mesoamericano, começa em uma data equivalente a 11 de agosto de 3114 a.C.

Desde 2010, a teoria mais aceita é a de que os primeiros assentamentos claramente maias foram estabelecidos por volta de 1800 a.C. na região de Soconusco, na costa do Pacífico. Esse período, conhecido como o início do período pré-clássico,[6] foi caracterizado por comunidades sedentárias e com a introdução de obras com cerâmica.[7]

Entre os locais mais importantes nas terras maias mais baixas do sul da Península de Iucatã estão Nakbé, El Mirador, Cival e San Bartolo. Nas áreas mais altas da Guatemala, a cidade de Kaminaljuyu surgiu por volta de 800 a.C. Por muitos séculos, controlou as fontes de jade e obsidiana das regiões de Petén e e do Pacífico. Os importantes sítios iniciais de Izapa, Takalik Abaj e Chocolá, em torno de 600 a.C. eram os principais produtores de cacau. As comunidades maias de médio porte também começaram a se desenvolver nas terras baixas maias do norte durante o meio e o final do período pré-clássico, ainda que estas ainda não tinham o tamanho, a escala e a influência dos grandes centros urbanos das terras baixas do sul. Entre os dois sítios arqueológicos mais importantes do norte pré-clássico estão Komchen e Dzibilchaltun. A primeira inscrição escrita em hieróglifos maias também remonta a esse período (c. 250 a.C.).[8]

Estudiosos divergem sobre os limites que definem a extensão física e cultural do início da civilização maia e das civilizações mesoamericanas pré-clássicas vizinhas, como a cultura dos olmecas, os povos de línguas mixe-zoqueanas e zapotecas de Chiapas e sul de Oaxaca, respectivamente. Muitas dos primeiros edifícios e inscrições mais significativas apareceram nesta zona de sobreposição e as evidências sugerem que essas culturas externas e os maias influenciaram a formação um do outro.[9]

Por volta de 100 d.C, um declínio generalizado e abandono das cidades maias ocorreu, o que ficou conhecido como "colapso do pré-clássico", o que marcou o fim do período.[10]

Período clássico

Ruínas de El Caracol, no Belize
Tulum, antiga cidade maia localizada no México

O período clássico (c. 250-900 d.C.) foi um dos picos da construção em grande escala e do urbanismo, com a gravação de inscrições em monumentos e um desenvolvimento intelectual e artístico significativo, em particular nas regiões de planície do sul.[11]

As pessoas desenvolveram uma civilização centrada em cidades e baseada na agricultura, composta por várias cidades-Estados independentes entre si, mas algumas subservientes a outras.[10] Isto inclui cidades bem conhecidas, como El Caracol, Tikal, Palenque, Copán, Xunantunich e Calakmul, mas também menos conhecidas, como Lamanai, Dos Pilas, Cahal Pech, Uaxactun, Altun Ha e Bonampak, entre outras. A distribuição dos assentamentos do início do período clássico nas planícies do norte não é tão claramente conhecida como das regiões ao sul, mas inclui uma série de centros populacionais, como Oxkintok, Chunchucmil e a ocupação antecipada de Uxmal. Durante este período, a população maia chegava a milhões. Eles criaram uma multidão de pequenos reinos e impérios, construíram palácios e templos monumentais, cerimônias ritualísticas altamente sofisticadas e desenvolveram um elaborado sistema de escrita hieroglífica.[12]

A base social dessa exuberante civilização era uma grande rede política e econômica interligada que se estendia por toda a região maia e para além do mundo mesoamericano. As unidades políticas, econômicas e culturais dominantes "centrais" do sistema maia clássico estavam localizadas nas planícies centrais, enquanto as correspondentes unidades maias dependentes ou "periféricas" eram encontradas ao longo das margens do altiplano sul e de áreas de várzea do norte. Mas, como em todos os sistemas do mundo, os principais centros principais maias mudaram através do tempo, começando durante a era pré-clássica em terras altas do sul, quando se deslocaram para as terras baixas centrais durante o período clássico e, finalmente, quando mudaram para o norte da península durante o período pós-clássico. Neste sistema político, as unidades semi-periféricas maias geralmente tomavam a forma de centros comerciais.[13]

Os monumentos mais notáveis ​​são as pirâmides escalonadas que construíram em seus centros religiosos e os palácios que abrigavam seus governantes. O palácio em Cancuén é o maior em área feito pelos maias, mas o sítio arqueológico não tem pirâmides. Outros vestígios arqueológicos importantes incluem lajes de pedra esculpidas, geralmente chamados de estelas (os maias chamava tétum, ou "árvore-pedra"), que retratam os governantes junto com textos hieróglifos descrevendo sua árvore genealógica, vitórias militares e outras realizações.[14]

A civilização maia participava do comércio de longa distância com muitas das outras culturas mesoamericanas, incluindo o povo da cidade de Teotihuacan, os zapotecas e outros grupos na região central e do golfo da costa do atual México. Além disso, eles mantinham comércio e intercâmbio com grupos mais distantes, não mesoamericanas, por exemplo, os taínos das ilhas do Caribe. Arqueólogos encontraram ouro do Panamá no Cenote Sagrado de Chichén Itzá. Bens comerciais importantes incluíam o cacau, sal, conchas, jade e obsidiana.[15]

Decadência e colapso

As ruínas de Tikal, na Guatemala, cobertas pela mata

Os centros urbanos maias das terras baixas do sul entraram em declínio durante os séculos VIII e IX e foram abandonados pouco tempo depois. Este declínio foi associado com uma cessação das inscrições monumentais e da construção arquitetônica em larga escala.[16] A teoria universalmente aceita explica este colapso.

As teorias não-ecológicas sobre o declínio maia são divididas em várias subcategorias, como superpopulação, invasão estrangeira, revolta camponesa e colapso de rotas comerciais importantes. As hipóteses ecológicas incluem desastre ambiental, doenças epidêmicas e mudanças climáticas. Há evidências de que a população maia ultrapassou a capacidade do ambiente a sua volta, com o esgotamento do potencial agrícola do solo e a caça excessiva de megafauna.[17] Alguns estudiosos recentemente teorizaram que uma intensa seca de 200 anos na região levou ao colapso da civilização maia.[18] Esta teoria foi criada a partir de pesquisas realizadas por cientistas que estudaram leitos de lagos,[19] pólen antigo e outros dados e não da comunidade arqueológica.

Pesquisas de 2011, com o uso de modelos climáticos de alta resolução e novas reconstruções de paisagens do passado, sugere que a conversão de grande parte das florestas por áreas agrícolas maias pode ter levado a uma redução da evapotranspiração e, portanto, de chuvas, o que pode ter ampliado a seca natural.[20] Um estudo publicado na revista Science em 2012 descobriu que reduções modestas das precipitação, de apenas 25 a 40% da precipitação anual, podem ter sido o ponto de inflexão para o colapso da civilização maia. Com base em amostras de sedimentos do lago e cavernas nas áreas circundantes das principais cidades maias, os pesquisadores foram capazes de determinar a quantidade de precipitação anual na região. As secas leves que ocorreram entre 800 d.C. e 950 foram suficientes para reduzir rapidamente o suprimento de água.[21] [22] Uma outra publicação na mesma revista apoia e estende essa conclusão com base em análise de isótopos de minerais em uma estalagmite. Ela argumenta que a alta taxa de pluviosidade entre 440 e 660 d.C. permitiu aos maias florescerem e que secas leves nos anos seguintes levaram a uma extensa guerra e ao declínio da civilização, um período prolongado de seca entre 1020 e 1100 acabou por ser fatal.[23]

Período pós-clássico

Chichén Itzá, um dos principais centros do período pós-clássico

Durante o período pós-clássico posterior (do século X ao início do século XVI), o desenvolvimento dos centros das terras do norte persistiu, caracterizado por uma crescente diversidade de influências externas. As cidades maias das planícies do norte da Península de Iucatã continuou a florescer durante séculos depois; alguns dos locais importantes nesta época eram Chichén Itzá, Uxmal, Edzná e Coba. Após o declínio das dinastias de Chichen e Uxmal, Mayapan governou toda Iucatã até uma revolta em 1450. (O nome desta cidade pode ser a origem da palavra "maia", que tiha um significado mais geograficamente restrito e só cresceu ao seu significado atual nos séculos XIX e XX). A área então degenerou em cidades-Estado concorrentes até a península ser conquistada pelo Império Espanhol.

Os povos maias itza, ko'woj e yalain de Petén Central sobreviveram ao "colapso do período clássico" em pequenas quantidades e por volta de 1250 se reconstituíram para formar cidades-Estados concorrentes. Os itza mantiveram sua capital em Tayasal (também conhecida como Noh Petén), um sítio arqueológico que acredita-se ser subjacente à moderna cidade de Flores, Guatemala, no Lago Petén Itzá. Ela governou sobre uma área que se estendia através da região dos Lagos Petén, abrangendo a comunidade de Eckixil, no Lago Quexil. Os ko'woj tinha sua capital em Zacpeten. Os Estados maias pós-clássicos também continuaram a sobreviver nas terras altas do sul. Uma das nações maias nesta área, o Reino de Gumarcaj, é responsável pelo trabalho mais conhecido da historiografia e mitologia maia, o Popol Vuh. Outros reinos das terras altas incluíam os povos mames, baseados em Huehuetenango; os kaqchikels, baseado em Iximche; os chajoma, baseados em Mixco Viejo[24] e os chuj, sediados em San Mateo Ixtatán.

Domínio espanhol

Ruínas de uma antiga igreja cristã construída pelos espanhóis com as pedras de antigos templos maias localizados nas ruínas de Dzibilchaltún (ca. 1590–1600)

Pouco depois de suas primeiras expedições à região, os espanhóis iniciaram uma série de tentativas de subjugar os maias que eram hostis ao domínio espanhol e estabeleceram uma presença colonial nos territórios maias da península de Iucatã e nas terras altas da Guatemala. Esta campanha, às vezes chamada de "conquista espanhola de Iucatã", viria a ser um exercício demorado e perigoso para os conquistadores desde o início e levaria cerca de 170 anos e dezenas de milhares de soldados indígenas antes dos espanhóis terem controle substancial sobre todo o território maia.

Ao contrário dos impérios inca e asteca, não havia um único centro político que, uma vez derrubado, apressaria o fim da resistência coletiva dos povos maias. Em vez disso, as forças dos conquistadores tiveram que subjugar as várias entidades políticas independentes maias quase uma a uma, muitas das quais mantiveram uma resistência feroz ao domínio espanhol. A maioria dos conquistadores eram motivados pelas perspectivas de grande riqueza a ser obtida a partir da apreensão de metais preciosos, como ouro ou prata; no entanto, os maias eram pobres nesses recursos. Isto viria a ser um outro fator que preveniu projetos espanhóis de conquista, já que em vez disso foram inicialmente atraídos para os relatos de grandes riquezas na região central do México ou Peru.

A igreja e funcionários do governo espanhol destruíram textos maias e com eles o conhecimento da escrita tradicional, mas, por acaso, três dos livros pré-colombianos datados do período pós-clássico foram preservados.[25] Estes são conhecidos como Códice de Madrid, Códice de Dresden e Códice de Paris.[26] Os últimos Estados maias, a cidade itza de Tayasal e a cidade ko'woj de Zacpeten, foram continuamente ocupados e mantiveram-se independentes do Império Espanhol até o final do século XVII. Por fim, foram derrotados pelos espanhóis no ano de 1697.

Extensão geográfica

Extensão geográfica da civilização maia

A civilização maia estendeu-se por todo o atual sul dos estados mexicanos de Chiapas, Tabasco, e Península de Yucatán estados de Quintana Roo , Campeche e Yucatán. A área Maia também se estendeu por todo o norte da América Central, incluindo as atuais nações da Guatemala , Belize , Norte de El Salvador e no oeste de Honduras.[2]

A área dos Maias é geralmente dividida em três zonas vagamente definidas: as terras altas do sul Maia, na Depressão Central e as planícies do norte. As terras maias altas do sul incluem todos os terrenos elevados na Guatemala e no planalto de Chiapas[3] . As planícies do sul encontram-se apenas ao norte do planalto, e incorporam os estados mexicanos de Campeche, Quintana Roo, norte da Guatemala, Belize e El Salvador. As planícies do norte cobrem o restante da península de Iucatã, incluindo as colinas Puuc.[3]

Economia

A base econômica dos maias era a agricultura, principalmente do milho, praticada com a ajuda da irrigação, utilizando técnicas rudimentares e itinerantes, o que contribuiu para a destruição de florestas tropicais nas regiões onde habitavam, desenvolveram também atividades comerciais cuja classe dos comerciantes gozavam de grandes privilégios[27] .

Como unidade de troca, utilizavam sementes de cacau e sinetas de cobre, material que empregavam também para trabalhos ornamentais, ao lado do ouro, da prata, do jade, das conchas do mar e das plumas coloridas. Entretanto, desconheciam as ferramentas metálicas[28] .

Comércio e agricultura

Ruínas da antiga cidade-Estado maia de Zaculeu, nas terras altas da Guatemala

Os maias cultivavam o milho (três espécies), algodão, tomate, cacau, batata e frutas. Domesticaram o peru e a abelha que serviam para enriquecer sua dieta, à qual somavam também a caça e a pesca[27] .

É importante observar que por serem os recursos naturais escassos não lhes garantindo o excedente que necessitavam a tendência foi desenvolverem técnicas agrícolas, como terraços, por exemplo, para vencer a erosão[28] . Os pântanos foram drenados para se obter condições adequadas ao plantio. Ao lado desses progressos técnicos, observamos que o cultivo de milho se prendia ao uso das queimadas[27] . Durante os meses da seca, limpavam o terreno, deixando apenas as árvores mais frondosas[29] . Em seguida, ateavam fogo para limpá-lo deixando o campo em condições de ser semeado. Com um bastão faziam buracos onde se colocavam as sementes.

Dada a forma com que era realizado o cultivo a produção se mantinha por apenas dois ou três anos consecutivos. Com o desgaste certo do solo, o agricultor era obrigado a procurar novas terras[27] . Ainda hoje a técnica da queimada, apesar de prejudicar o solo, é utilizada em diversas regiões do continente americano[28] .

As Terras Baixas concentraram uma população densa em áreas pouco férteis. Com produção pequena para as necessidades da população, foi necessário não apenas inovar em termos de técnicas agrícolas, como também importar de outras regiões produtos como o milho, por exemplo.

O comércio era dinamizado com produtos como o jade, plumas, tecidos, cerâmicas, mel, cacau e escravos, através das estradas ou de canoas[28] .

Ciência e tecnologia

Urbanismo

Ruínas de Palenque

Ainda que as cidades maias estivessem dispersas na diversidade da geografia da Mesoamérica, o efeito do planejamento parecia ser mínimo; suas cidades foram construídas de uma maneira um pouco descuidada, como ditava a topografia e declive particular. A arquitetura maia tendia a integrar um alto grau de características naturais[29] . Por exemplo, algumas cidades existentes nas planícies de pedra calcária no norte do Iucatã se converteram em municipalidades muito extensas enquanto que outras, construídas nas colinas das margens do rio Usumacinta, utilizaram os declives e montes naturais de sua topografia para elevar suas torres e templos a alturas impressionantes. Ainda assim prevalece algum sentido de ordem, como é requerido por qualquer grande cidade.[30]

No começo da construção em grande escala, geralmente se estabelecia um alinhamento com as direções cardinais e, dependendo do declive e das disponibilidades de recursos naturais como água fresca (poços ou cenotes), a cidade crescia conectando grandes praças com as numerosas plataformas que formavam os fundamentos de quase todos os edifícios maias, por meio de calçadas chamadas sacbeob (singular sacbe).

Panorama das ruínas de Uxmal

No coração das cidades maias existiam grandes praças rodeadas por edifícios governamentais e religiosos, como a acrópole real, grandes templos de pirâmides e ocasionalmente campos de jogo de bola[30] . Imediatamente para fora destes centros rituais estavam as estruturas das pessoas menos nobres, templos menores e santuários individuais. Entretanto, quanto menos sagrada e importante era a estrutura, maior era o grau de privacidade. Uma vez estabelecidas, as estruturas não eram desviadas de suas funções nem outras eram construídas, mas as existentes eram frequentemente reconstruídas ou remodeladas.

As grandes cidades maias pareciam tomar uma identidade quase aleatória, que contrasta profundamente com outras cidades da Mesoamérica como Teotihuacán em sua construção rígida e quadriculada[31] .

Ainda que a cidade se dispusesse no terreno na forma em que a natureza ditara, se punha cuidadosa atenção à orientação dos templos e observatórios para que fossem construídos de acordo com a interpretação maia das órbitas das estrelas. Afora os centros urbanos constantemente em evolução, existiam os lugares menos permanentes e mais modestos do povo comum.

O desenho urbano maia pode descrever-se singelamente como a divisão do espaço em grandes monumentos e calçadas. Neste caso, as praças públicas ao ar livre eram os lugares de reunião para as pessoas[31] . Por esta razão, o enfoque no desenho urbano tornava o espaço interior das construções completamente secundário. Somente no período pós-clássico tardio, as grandes cidades maias se converteram em fortalezas que já não possuíam, a maioria das vezes, as grandes e numerosas praças do período clássico.

Vista geral de Tikal, na Guatemala

Matemática

Grafia dos números maias

Os maias (ou seus predecessores olmecas) desenvolveram independentemente o conceito de zero (de fato, parece que estiveram usando o conceito muitos séculos antes do velho mundo), e usavam um sistema de numeração de base 20[29] .

As inscrições nos mostram, em certas ocasiões, que trabalhavam com somas de até centenas de milhões. Produziram observações astronômicas extremamente precisas; seus diagramas dos movimentos da Lua e dos planetas se não são iguais, são superiores aos de qualquer outra civilização que tenha trabalhado sem instrumentos óticos[31] . Ao encontro desta civilização com os conquistadores espanhóis, o sistema de calendários dos maias já era estável e preciso, notavelmente superior ao calendário gregoriano[31] .

Sistema de escrita

Glifos maias em estuque no museu de Palenque, no México

O sistema de escrita maia (geralmente chamada hieroglífica por uma vaga semelhança com a escrita do antigo Egito, com o qual não se relaciona) era uma combinação de símbolos fonéticos e ideogramas. É o único sistema de escrita do novo mundo pré-colombiano que podia representar completamente o idioma falado no mesmo grau de eficiência que o idioma escrito no velho mundo.[30]

As decifrações da escrita maia têm sido um longo e trabalhoso processo. Algumas partes foram decifradas no final do século XIX e início do século XX (em sua maioria, partes relacionadas com números, calendário e astronomia), mas os maiores avanços se fizeram nas décadas de 1960 e 1970 e se aceleraram daí em diante de maneira que atualmente a maioria dos textos maias podem ser lidos quase completamente em seus idiomas originais[29] . Lamentavelmente, os sacerdotes espanhóis, em sua luta pela conversão religiosa, ordenaram a queima de todos os códices maias logo após a conquista.

Assim, a maioria das inscrições que sobreviveram são as que foram gravadas em pedra e isto porque a grande maioria estava situada em cidades já abandonadas quando os espanhóis chegaram.

Página do códice de Madrid

Os livros maias, normalmente tinham páginas semelhantes a um cartão, feitas de um tecido sobre o qual aplicavam uma película de cal branca sobre a qual eram pintados os caracteres e desenhadas ilustrações. Os cartões ou páginas eram atadas entre si pelas laterais de maneira a formar uma longa fita que era dobrada em zigue-zague para guardar e desdobrada para a leitura.

Atualmente, restam apenas três destes livros e algumas outras páginas de um quarto, de todas as grandes bibliotecas então existentes. Frequentemente, são encontrados, nas escavações arqueológicas, torrões retangulares de gesso que parecem ser restos do que fora um livro depois da decomposição do material orgânico.

Relativamente aos poucos escritos maias existentes, Michael D. Coe, um proeminente arqueólogo da Universidade de Yale, disse:

Cquote1.svg Nosso conhecimento do pensamento maia antigo representa só uma minúscula fração do panorama completo, pois dos milhares de livros nos quais toda a extensão dos seus rituais e conhecimentos foram registrados, só quatro sobreviveram até os tempos modernos (como se toda a posteridade soubesse de nós, baseados apenas em três livros de orações e "El Progreso del Peregrino).[32] Cquote2.svg

Cultura

Artes

Mural com afresco em Bonampak

Muitos consideram a arte maia da Era Clássica (200 a 900 d.C.) como a mais sofisticada e bela do Novo Mundo antigo. Os entalhes e relevos em estuque de Palenque e a estatuária de Copán são especialmente refinados, mostrando uma graça e observação precisa da forma humana, que recordaram aos primeiros arqueólogos da civilização do Velho Mundo, daí o nome dado à era.

Somente existem fragmentos da pintura avançada dos maias clássicos, a maioria sobrevivente em artefatos funerários e outras cerâmicas. Também existe uma construção em Bonampak que tem murais antigos e que, afortunadamente, sobreviveram a um acidente desconhecido até hoje.

Com as decifrações da escrita maia se descobriu que essa civilização foi uma das poucas nas quais os artistas escreviam seu nome em seus trabalhos.

Religião

Pouco se sabe a respeito das tradições religiosas dos maias: a sua religião ainda não é completamente entendida por estudiosos. Assim como os astecas e os incas[33] , os maias acreditavam na contagem cíclica natural do tempo. Os rituais e cerimônias eram associados a ciclos terrestres e celestiais que eram observados e registrados em calendários separados[33] . Os sacerdotes maias tinham a tarefa de interpretar esses ciclos e fazer um panorama profético sobre o futuro ou passado com base no número de relações de todos os calendários. A purificação incluia jejum, abstenção sexual e confissão. A purificação era normalmente praticada antes de grandes eventos religiosos[33] . Os maias acreditavam na existência de três planos principais no cosmo: a Terra, o céu e o submundo.

Os maias sacrificavam humanos e animais como forma de renovar ou estabelecer relações com o mundo dos deuses. Esses rituais obedeciam diversas regras. Normalmente, eram sacrificados pequenos animais, como perus e codornas, mas nas ocasiões muito excepcionais (tais como adesão ao trono, falecimento do monarca, enterro de algum membro da família real ou períodos de seca) aconteciam sacrifícios de humanos. Acredita-se que crianças eram vítimas muitas vezes oferecidas como sacrifícios, porque os maias acreditavam que essas eram mais puras.

Os deuses maias não eram entidades separadas como os deuses gregos. Também não existia a separação entre o bem e o mal e nem a adoração de somente um deus regular, mas sim a adoração de vários deuses conforme a época e situação que melhor se aplicava para aquele deus[33] .

Arquitetura

Reconstrução em escala real do templo Rosalila no sítio arqueológico de Copán.[34]

A arquitetura maia abarca vários milênios; ainda assim, mais dramática e facilmente reconhecíveis como maias são as fantásticas pirâmides escalonadas do final do período pré-clássico em diante. Durante este período da cultura maia, os centros de poder religioso, comercial e burocrático cresceram para se tornarem incríveis cidades como Chichén Itzá, Tikal e Uxmal. Devido às suas muitas semelhanças assim como diferenças estilísticas, os restos da arquitetura maia são uma chave importante para o entendimento da evolução de sua antiga civilização[35] .

Campo de jogo de bola em Tikal, na Guatemala

Um aspecto surpreendente das grandes estruturas maias é a carência de muitas das tecnologias avançadas que poderiam parecer necessárias a tais construções. Não há notícia do uso de ferramentas de metal, polias ou veículos com rodas[35] . A construção maia requeria um elemento com abundância, muita força humana, embora contasse com abundância dos materiais restantes, facilmente disponíveis.

Todas as evidências parecem sugerir que a maioria dos edifícios foi construída sobre plataformas aterradas cuja altura variava de menos de um metro, no caso de terraços e estruturas menores, a até quarenta e cinco metros, no caso de grandes templos e pirâmides. Uma trama inclinada de pedras partia das plataformas em pelo menos um dos lados, contribuindo para a aparência bi-simétrica comum à arquitetura maia. Dependendo das tendências estilísticas que prevaleciam na área e época, estas plataformas eram construídas de um corte e um aterro de entulhos densamente compactado. Como no caso de muitas outras estruturas, os relevos maias que os adornavam, quase sempre se relacionavam com o propósito da estrutura a que se destinavam. Depois de terminadas, as grandes residências e os templos eram construídos sobre as plataformas[35] . Em tais construções, sempre erguidas sobre tais plataformas, é evidente o privilégio dado ao aspecto estético exterior em contra-ponto à pouca atenção à utilidade e funcionalidade do interior.

Parece haver um certo aspecto repetitivo quanto aos vãos das construções nos quais os arcos (como curvas) são raros, mas frequentemente retos, angulados ou imbricados, tentando mais reproduzir a aparência de uma cabana maia, do que efetivamente incrementar o espaço interior. Como eram necessárias grossas paredes para sustentar o teto, alguns edifícios das épocas mais posteriores utilizaram arcos repetidos ou uma abóbada arqueada para construir o que os maias denominavam pinbal, ou saunas, como a do Templo da Cruz em Palenque. Ainda que completadas as estruturas, a elas iam-se anexando extensos trabalhos de relevo ou pelo menos reboco para aplainar quaisquer imperfeições. Muitas vezes sob tais rebocos foram encontrados outros trabalhos de entalhes e dintéis e até mesmo pedras de fachadas. Comumente a decoração com faixas de relevos era feita em redor de toda a estrutura, provendo uma grande variedade de obras de arte relativas aos habitantes ou ao propósito do edifício. Nos interiores, e notadamente em certo período, foi comum o uso de revestimentos em reboco primorosamente pintados com cenas do uso cotidiano ou cerimonial[35] .

Ver também

Referências

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