Marília de Dirceu

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Frontispício da edição de 1824

Marília de Dirceu é o título da obra poética máxima de Tomás Antônio Gonzaga, integrante do Arcadismo.

Sobre o poema[editar | editar código-fonte]

Manuel Bandeira, analisando a obra-prima, registra que "nenhum poema, a não ser Os Lusíadas, tem tido tão numerosas edições". Sua importância na literatura de língua portuguesa é, portanto, basilar.

Publicado em Lisboa, em 1792, ano em que Gonzaga partira para o exílio em Moçambique, relata seu amor por uma brasileira: Maria Dorotéa Joaquina de Seixas, de quem fora noivo.[1]

Informa José Marques da Cruz, no seu "História da Literatura", que este era

"o livro de cabeceira do grande lírico português João de Deus" e que este poema são "versos amorosos, de uma ternura comovida, em descantes graciosos, à sua namorada Marília, tão cheios de sentimento que Romero diz ser ele "o mais afamado dos poetas mineiros" e Pereira da Silva "que os seus versos rivalizam com as mais belas canções de Petrarca". O que caracteriza os seus versos é a simplicidade, a espontaneidade tão natural, que parece prosa fluida e cantante."

José Veríssimo em "A Literatura Brasileira", ressalta a obra em seu contexto histórico:

"O Uraguai, de Basílio da Gama, o Caramuru, de Durão, os Sonetos e outras obras de Cláudio da Costa, a Marília de Dirceu, de Gonzaga, os Poemas, de Alvarenga Peixoto e de Silva Alvarenga, são sem dúvida os primores da nossa literatura colonial e contam-se ainda entre as obras-primas da nossa poesia. Estes poetas estabelecem a transição desta literatura ainda em suma portuguesa para aquela a que já podemos sem impropriedade chamar de brasileira." (grifos feitos aqui)

O historiador Pedro Calmon ressalta o aspecto árcade, bem como a visão lusitana de Gonzaga (in: História da Civilização Brasileira, 1937), asseverando que o mesmo não tinha ainda o ideal nativista que verificou-se no pós-1822/23:

"Superior às escolas, não fora destas, "Marília" é o canto pastoral em que a delicadeza do cantor vesta a túnica de Alceste e a sua candura revive Cítara.1 A despeito desse abuso da mitologia, os seus versos ganham uma popularidade que só os de Casimiro de Abreu lhe disputariam tantos anos depois, e induzem à imitação os outros poetas, até à Independência."
(Nota 1): Gonzaga, sobretudo subjetivo, não manifestou nenhuma emoção nativista na sua lira, se se excetuar a VII do livro 2º. Na XXIX concita Marília a deixar o "turvo ribeirão" em que nasceu e "as já lavradas serras" (Minas) para passar ao "claro Tejo".
  • Como obra anterior ao romantismo tem caracteres nitidamente árcades, embora já se vejam alguns elementos da escola futura, tais como a idealização do objeto amado. A forma é uma preocupação constante.
  • Estrutura: O poema é dividido em 3 partes. A primeira, com 33 "liras", com refrões guardando certa similitude entre si. A segunda, de 38 liras, possivelmente escrita na prisão, revela um teor menos referente à amada e, por fim, a terceira e última, com 9 liras e 13 sonetos.

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Desenho baseado no selo postal

Tão grande importância encontram estes versos na literatura brasileira - apesar de seu autor haver nascido em Portugal - que a cidade de Marília foi batizada em sua homenagem.

Em 1962 os Correios do Brasil lançaram uma série de selos postais homenageando mulheres ilustres brasileiras. Apesar de ser uma personagem, Marília de Dirceu foi homenageada, com um rosto desenhado na estampa, sem que se saiba sob qual fundamento teria sido elaborado.

Excertos[editar | editar código-fonte]

Inicia o poema, assim:

PARTE I
Lira I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

E, já perto do fim, a Lira que Bandeira aponta como a mais bela:

PARTE III
Lira III
Tu não verás, Marília, cem cativos
Tirarem o cascalho, e a rica, terra,
Ou dos cercos dos rios caudalosos,
Ou da minada serra.
Não verás separar ao hábil negro
Do pesado esmeril a grossa areia,
E já brilharem os granetes de ouro
No fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos;
Queimar as capoeiras ainda novas;
Servir de adubo à terra a fértil cinza;
Lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
Da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-ás folhear os grande livros,
E decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus consultos.
Tu me farás gostosa companhia,
Lendo os fatos da sábia mestra história,
E os cantos da poesia.
Lerás em alta voz a imagem bela,
Eu vendo que lhe dás o justo apreço,
Gostoso tornarei a ler de novo
O cansado processo.
Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
Que tens quem leve à mais remota idade
A tua formosura.

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikisource
O Wikisource contém fontes primárias relacionadas com Marília de Dirceu
  • Marilia de Dirceo (Typ. de J. F. M. de Campos, 1824, Lisboa) (eBook)
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