Marcelino Vespeira

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Marcelino Vespeira
Nascimento 1925
Samouco
Morte 2002 (77 anos)
Lisboa
Nacionalidade Portugal Portuguesa
Ocupação artista gráfico, pintor
Parque dos Insultos, 1949
Simumis, 1949, óleo sobre cartão, 46 x 38 cm

Marcelino Vespeira (Samouco, Alcochete, 9 de Setembro de 1925 — Lisboa 22 de Fevereiro de 2002) foi um artista gráfico e pintor; pertence à 3ª geração de artistas modernistas portugueses [1] .

Figura de referência do movimento surrealista em Portugal, Vespeira construiu uma obra longa e diversificada. Emergiu em meados da década de 1940 no quadro do neo-realismo; atingiu um ponto alto nas obras surrealistas e intensamente pessoais realizadas entre 1948 e 1952; passou depois por opções abstractas para regressar, nas últimas décadas, aos temas e formas que caracterizaram o seu período surrealista.

Vida e Obra[editar | editar código-fonte]

Fez o curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio e frequentou o 1.º ano de Arquitectura da Escola de Belas Artes de Lisboa, após o que começou a trabalhar em artes gráficas; foi convidado por Bernardo Marques para colaborar na revista Colóquio/Artes, de que se tornou director gráfico em 1962 [2] .

Com uma postura de oposição ao regime do Estado Novo de Salazar, no período inicial da sua obra esteve ligado ao neo-realismo, realizando obras como Apertado pela Fome (1945) com o qual participou na I Exposição Geral de Artes Plásticas, SNBA, 1946. Embora neo-realista no tema, em trabalhos como este "Vespeira sustenta já uma linguagem formal que indicia atmosferas surrealizantes" [3] . No ano seguinte foi um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com Cândido Costa Pinto, Fernando Azevedo, Mário Cesariny e José Augusto França, entre outros. A sua obra evoluiu então, rapidamente, para uma linguagem coerente e pessoal [4] . Em 1949 participou na primeira e única exposição do grupo, onde foram apresentadas duas obras de colaboração (Cadavre Exquis): numa, participou com Fernando Azevedo; na outra, de grandes dimensões, com António Pedro, Moniz Pereira, António Domingues e Fernando Azevedo [5] .

Marcada por um acentuado caráter erótico, dotada de grande sensualidade formal e cromática, a pintura de Vespeira utiliza um léxico de formas contrastantes, redondas, pontiagudas, que lhe permitem cruzar as metamorfoses do corpo feminino ou as alusões sexuais explícitas com evocações do mundo animal e vegetal. "Num jogo de temas evocadores de situações ritualizantes" [6] veremos emergir corpos de mulher de grandes seios redondos, vulvas, falos erectos, aves, flores, chifres... (veja-se, por exemplo, Parque dos Insultos ou Simumis, 1949) [7] .

A partir de meados da década de 1950 o seu trabalho muda de novo. Vespeira empenha-se na abstracção, primeiro numa versão geométrica que rapidamente abandona, inflectindo de seguida para uma opção lírica mais próxima do informalismo gestual. E passa a intitular os quadros com uma simples numeração sequencial [8] . Muitas vezes dominada pelos vermelhos, a sua paleta adensa-se; depois, já nos anos de 1960, a composição torna-se mais fluida, formal e cromaticamente. Na década seguinte Vespeira reaproxima-se do universo surrealista inicial (nos anos 80 utiliza também a colagem), em obras onde reincide sobre temas antigos e recupera "a visão sensual do mundo, no seu familiar hibridismo", cruzando os contornos da paisagem e da música com as linhas do corpo feminino [9] .

O seu longo historial de trabalho em artes gráficas e de resistência ao Estado Novo teve sequência após o derrube da ditadura em 25 de Abril de 1974, levando-o a colaborar activamente com o Movimento das Forças Armadas (Vespeira foi autor do conhecido símbolo do MFA).

Exposições / Prémios[editar | editar código-fonte]

Realizou diversas exposições individuais. Expôs com o Grupo Surrealista de Lisboa em 1949 e de parceria com Fernando Azevedo e Fernando Lemos na Casa Jalco, Chiado, em 1952.

Participou em inúmeras exposições coletivas, nomeadamente: I e II Exposições Gerais de Artes Plásticas, SNBA, Lisboa (1947; 1948); 20 Pintores Contemporãneos, Galeria Pórtico (1952); I Salão de Arte Abstrata, Galeria de Março, Lisboa (1954); I Salão dos Artistas de Hoje, SNBA, Lisboa (1956); II Exposição de Artes Plásticas organizada pela Câmara Municipal de Almada (1957), onde lhe é atribuido o Prémio Columbano; I, II e III Exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957; 1961; 1986); I Salão de Arte Moderna, SNBA, Lisboa (1959); 50 Artistas Independentes (1959); II e IV Bienais de S. Paulo (1953; 1957); Exposição Internacional «Bianco e Nero», Lugano (1956); Art Portugais, Centre Culturel de la Fondation Calouste Gulbenkian, Paris (1968); Arte Portuguesa Contemporânea, Brasília, S. Paulo, Rio de Janeiro (1976-77); Portuguese Art Since 1910, Royal Academy of Arts, Londres (1978); Os Anos 40 na Arte Portuguesa, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (1982); Portuguese Contemporary Painting, New Delhi (1992); etc [10] [11] [12] .

Em 2000 foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Artes Plásticas da AICA.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. FRANÇA, José Augusto – A arte em Portugal no século XX. Lisboa: Livraria Bertrand, 1991, p. 401, 421
  2. FERREIRA, EmíliaMarcelino Vespeira. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 90
  3. FERREIRA, Emília – Marcelino Vespeira. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 90
  4. FRANÇA, José Augusto – A arte em Portugal no século XX. Lisboa: Livraria Bertrand, 1991, p. 390
  5. A.A.V.V. – Os anos 40 na arte portuguesa, tomo 1. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, p. 90
  6. FERREIRA, Emília – Marcelino Vespeira. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 90
  7. A.A.V.V. – Os anos 40 na arte portuguesa, tomo 1. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, p. 108
  8. SILVA, Raquel Henriques daMarcelino Vespeira. In: A.A.V.V. – 50 Anos de Arte Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. ISBN 978-972-678-043-4
  9. FERREIRA, Emília – Marcelino Vespeira. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 91
  10. A.A.V.V. – II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1961
  11. A.A.V.V. – III Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1986
  12. A.A.V.V. – Portuguese Contemporary Painting (Exposição em New Delhi). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1992