Marcião de Sinope

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Marcion of Sinope.

Marcião de Sínope - ou Marcion - (em grego: Μαρκίων Σινώπης, ca. 85160 (75 anos)) foi um dos mais proeminentes heresiarcas durante o Cristianismo primitivo [1] . A sua teologia chamada marcionismo propunha dois deuses distintos, um no Antigo Testamento e outro no Novo Testamento, foi denunciada pelos Pais da Igreja e ele foi excomungado. Curiosamente esta separação será posteriormente adoptada pela igreja e utilizada a partir de Tertuliano [2] , assim como a sua rejeição de muitos livros que seus contemporâneos consideravam como parte das escrituras mostrou à Igreja antiga a urgência do desenvolvimento de um cânon bíblico.

Vida[editar | editar código-fonte]

Hipólito relata que Marcião era filho de um bispo na cidade de Sinope, na província romana do Ponto (atualmente na Turquia)[3] . Seu contemporâneo Tertuliano o descreve como um proprietário de barcos[4] . Marcião provavelmente foi consagrado bispo, provavelmente um assistente ou um sufragâneo de seu pai em Sinope[4]

Quando encontrou-se com ele, Policarpo de Esmirna chamou-o de "primogênito de satanás" segundo Jerônimo[5] . Epifânio afirma que após um começo como um asceta, ele seduziu uma virgem e foi excomungado por seu pai, fazendo com que ele deixasse a sua cidade natal[6] . Este relato já foi contestado por estudiosos, que o consideraram como "fofoca maliciosa". Mais recentemente, Bart D. Ehrman sugeriu que esta "sedução de uma virgem" seria uma metáfora para a sua corrupção da Igreja cristã, sendo esta a virgem não deflorada [7] .

Márcião viajou para Roma em 142-143 d.C.[8] . Nos anos seguintes, Marcião desenvolveu seu sistema teológico e atraiu um grande grupo de seguidores. Ele fez uma notável doação de 200.000 sestércios para a Igreja.

Quando os conflitos com os bispos de Roma começaram, Marcião organizou seus seguidores em uma comunidade separada. Ele foi eventualmente excomungado pela Igreja de Roma e sua doação foi devolvida. Após sua excomunhão, ele retornou para a Ásia Menor, onde continuou a propalar o marcionismo.

Ensinamentos[editar | editar código-fonte]

Teologia[editar | editar código-fonte]

O estudo das Escrituras judaicas juntamente com outros escritos que circulavam na época da igreja nascente (a maioria foi eventualmente incorporada no Cânone do Novo Testamento) levaram Marcião a concluir que muitos dos ensinamentos de Jesus Cristo eram incompatíveis com as ações de Deus no Antigo Testamento. A resposta dele para este paradoxo foi o desenvolvimento de um sistema dualista por volta do ano 144 d.C.[8] . Esta noção dual de Deus permitiu que Marcião reconciliasse as supostas contradições entre a teologia da Antiga Aliança e a mensagem de Boas Novas.

Marcião afirmava que Jesus Cristo era o salvador enviado por Deus Pai, com Paulo como seu principal apóstolo. Ao contrário da nascente igreja, Marcião declarava que o Cristianismo era distinto e oposto ao Judaísmo. Marcião, contrário ao que muitos acreditam, não afirmou que a Bíblia e as escrituras judaicas eram falsas. Ele acreditava e argumentava que ela deveria ser lida de maneira absolutamente literal, provando assim que YHWH não era o mesmo Deus a quem Jesus se referia. Um exemplo: no Gênesis, quando YHWH está andando no jardim do Éden perguntando onde estava Adão, Marcião interpretava isso como se YHWH tivesse literalmente andando através do jardim em alguma forma de corpo físico e que literalmente não sabia onde estava Adão «Deus Jeová chamou ao homem, e perguntou-lhe: Onde estás?» (Gênesis 3:9). Ele argumentava que isso provaria que YHWH poderia habitar um corpo físico (algo que o Pai jamais faria) e que YHWH também era capaz de ser ignorante, algo completamente diferente do Pai a quem Jesus se referia.

O Deus do Antigo Testamento, o Demiurgo, a Divindade criadora do mundo material seria então uma divindade tribal invejosa dos judeus, cuja Lei representaria a justiça recíproca legalista e que pune a humanidade por seus pecados com sofrimento e morte. Já o Deus a quem Jesus se refere seria um ser completamente diferente, um Deus universal de compaixão e amor e que olha para a humanidade com compaixão e piedade.

Marcião afirmava que Jesus era o filho do Deus Pai, mas entendia a encarnação de maneira docética, ou seja, de que o corpo de Cristo era apenas uma imitação de um corpo material. Ele acreditava que Cristo na crucificação pagou a dívida de pecado que humanidade tinha, absolvendo-a e permitindo que ela então herdasse a vida eterna[9] .

Obras[editar | editar código-fonte]

Marcião propôs um cânon bíblico. Porém, seu cânon só tinha onze livros agrupados em duas seções, o Evangelho, uma versão do Evangelho de Lucas[10] e dez cartas do "apóstolo", ou seja, de Paulo, a quem ele considerava como o mais correto intérprete e transmissor da mensagem evangélica de Jesus. Ambas as seções também foram purgadas de elementos relacionados à infância de Jesus, a religião judaica e outros materiais que contestavam a sua teologia dualista.

Marcião também produziu uma obra chamada Anthiteses, que contrastava o Demiurgo com o Deus Pai.

Marcião e o Gnosticismo[editar | editar código-fonte]

Marcião é às vezes chamado de o filósofo do Gnosticismo. Em alguns aspectos essenciais, ele propôs ideias que se alinham bem com o pensamento gnóstico. Assim como eles, Marcião argumentava que Jesus era essencialmente um espírito aparecendo aos homens e não totalmente humano.[9] .

Porém, o marcionismo conceitualiza Deus de uma maneira que não é totalmente conciliável com o Gnosticismo. Para estes, todos os humanos nascem com uma pequena parte da alma divina alojada dentro de seu espírito (similar à noção da "fagulha divina")[9] . Deus está, portanto, intimamente conectado a uma parte de Sua criação. A salvação é alcançada ao abandonar o mundo físico (que os gnósticos afirmam que é uma ilusão para aprisionar esta parte de Deus) e abraçar estas qualidades divinas que estão dentro de cada pessoa[9] . Já Marcião, contrariamente, afirma que Deus Pai seria um Deus completamente fora do mundo material. Ele não participou da criação do mundo material (uma criação do Demiurgo) e nem tem conexão alguma com ele. Ele intervém para salvar a humanidade por compaixão apenas.

Primeiro cânon bíblico[editar | editar código-fonte]

Marcião mostrando seu cânon.

Marcião figura entre os primeiros heréticos de renome na história da igreja nascente. Sua interpretação alternativa da vida e ministério de Jesus Cristo ajudou a inspirar a noção de que certas teologias deveriam ser sancionadas como "ortodoxas" e outras, como "heréticas" – um conceito até então desconhecido nos círculos eclesiásticos. Reagindo à popularidade da seita recém-fundada de Marcião, a igreja começou então a sistematizar um conjunto de crenças que seriam consideradas ortodoxas por todo o Cristianismo.

Marcião foi o primeiro líder cristão a propor e delinear um cânon bíblico. Ao fazê-lo, ele estabeleceu uma maneira particular de avaliar os textos religiosos que persiste no pensamento cristão até hoje. Após Marcião, os cristãos passaram a dividir os textos entre os que se alinhavam bem com um "régua de medida" (em grego: kanōn) de pensamento teológico aceito, e os que promovem a heresia. Esta bifurcação essencial teve um papel essencial na finalização da estrutura da coleção de obras chamada "Bíblia", uma vez que o ímpeto inicial para finalizar o cânon surgiu justamente da oposição à proposta de Marcião.

Legado[editar | editar código-fonte]

A igreja que Marcião fundou se expandiu por todo o mundo conhecido na época durante a sua vida e foi uma séria rival para o Cristianismo. Seus aderentes eram fortes o suficiente em suas convicções para manter o extenso poder da igreja por mais de um século. Ela sobreviveu à controvérsia cristã e à desaprovação imperial por muitos séculos[11] .

Algumas ideias similares às de Marcião reapareceram entre os bogomilos da Bulgária no século X e entre os cátaros do Languedoque, no sul da França, no século XIII.

Referências

  1. Tertuliano. Contra Marcião: Preface. Reason for a New Work. Pontus Lends Its Rough Character to the Heretic Marcion, a Native. His Heresy Characterized in a Brief Invective. (em ). [S.l.: s.n.]. Capítulo 1. vol. I.
  2. Frédéric Lenoir - Comment Jésus est devenu Dieu - Livre de Poche - Pg.159 - ISBN 978-2-253-15797-7
  3. O Deus da salvação. [S.l.]: LOYOLA. 39– pp. ISBN 978-85-15-02038-6. Visitado em 19 April 2013.
  4. a b Wikisource-logo.svg "Marcionites" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público.
  5. Wikisource-logo.svg "De Viris Illustribus - Polycarp the bishop", em inglês.
  6. Epifânio de Salamis (Epif)Panarion, XLII, ii.
  7. Bart D. Ehrman,Lost Christianities (em inglês)
  8. a b Tertuliano afirma que os ensinamentos de Marcião começaram 115 anos após a crucificação de Jesus, que ele também afirma ter ocorrido e 26-27 d.C. em Tertuliano. Contra Marcião: Jesus Christ, the Revealer of the Creator, Could Not Be the Same as Marcion's God, Who Was Only Made Known by the Heretic Some CXV. Years After Christ, and That, Too, on a Principle Utterly Unsuited to the Teaching of Jesus Christ, I.e., the Opposition Between the Law and the Gospels. (em ). [S.l.: s.n.]. Capítulo 19. vol. I. .
  9. a b c d Harnack, Adolph. Marcion: The Gospel of the Alien God (em ). [S.l.: s.n.], 1924.
  10. Tyson, Joseph B.. Marcion and Luke-Acts: A Defining Struggle (em ). [S.l.: s.n.]. contradiz a visão majoritária de que o Evangelho de Marcião seria baseado em Lucas, opinando ao invés disso que o canônico Lucas pode ter sido uma resposta ao Evangelho de Marcião.
  11. Tertuliano. In: Evans, Ernest. Contra Marcião: comments and translation (em ). [S.l.]: Oxford University Press, 1972. ix pp.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Este artigo incorpora texto da Encyclopædia Britannica (11ª edição), publicação em domínio público. - Marcião (em inglês) Encyclopædia Britannica (11ª edição). Visitado em 15/01/2011.

  • Wikisource-logo.svg Este artigo incorpora texto do verbete Marcion, a 2nd cent. heretic no "Dicionário de Biografias Cristãs e Literatura do final do século VI, com o relato das principais seitas e heresias" (em inglês) por Henry Wace (1911), uma publicação agora en domínio público.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Blackman, E.C. Marcion and His Influence 2004 ISBN 1-59244-73 (em inglês)
  • Clabeaux, John James. The Lost Edition of the Letters of Paul: A Reassessment of the Text of Pauline Corpus Attested by Marcion (Catholic Biblical Quarterly Monograph Series No. 21) 1989 ISBN 0-915170-20-5 (em inglês)
  • Dahl, Nils Alstrup. "The Origin of the Earliest Prologues to the Pauline Letters", Semeia 12 (1978), 233-277 (em inglês)
  • Epifânio de Salamina. The Panarion of Epiphanius of Salamis, Book 1 (Sects 1-46) Frank Williams translator, 1987 ISBN 90-04-07926-2(em inglês)
  • Grant, Robert M. Marcion and the Critical Method Peter Richardson & John Collidge Hurd, eds., From Jesus to Paul. Studies in Honour of Francis Wright Beare. Waterloo, ON, 1984. p. 207–215. (em inglês)
  • Harnack, Adolf von 1961. History of Dogma (Neil Buchanan, translating Harnack's Dogmengeschichte 1900), vol I, pp 267 – 313, vol II, pp 1 – 19 (em inglês)
  • Harnack, Adolf von. Marcion: The Gospel of the Alien God translation 1990 ISBN 0-939464-16-0(em inglês)
  • R. Joseph Hoffmann. Marcion, on the Restitution of Christianity: An Essay on the Development of Radical Paulist Theology in the Second Century 1984 ISBN 0-89130-638-2 (em inglês)
  • Knox, John. Marcion and the New Testament 1942 ISBN 0-404-16183-9 (em inglês)
  • Francis Legge, Forerunners and Rivals of Christianity, From 330 B.C. to 330 A.D. (1914), reprinted in two volumes bound as one, University Books New York, 1964. LC Catalog 64-24125. (em inglês)
  • Riparelli, Enrico, Il volto del Cristo dualista. Da Marcione ai catari, Peter Lang, Bern - Berlin - Bruxelles - Frankfurt am Main - New York - Oxford - Wien 2008, 368 pp. ISBN 9783039114900 (em italiano)
  • Williams, David Salter. "Reconsidering Marcion's Gospel", Journal of Biblical Literature 108 (1989), p. 477-96 (em inglês)
  • Wilson, R. S. Marcion: A Study of a Second-Century Heretic (London:Clarke) 1933 (em inglês)