Maria Comnena

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Maria Comnena (em grego: Μαρία Κομνηνή; transl.: María Komnēnē), (c. 1154-1217), foi uma princesa bizantina, rainha consorte de Jerusalém de 1168 a 1174 pelo seu casamento com o rei Amalrico I, senhora de Nablus de 1174 a 1187 por direito de dote, e mãe da rainha Isabel I de Jerusalém.

Era filha de João Ducas Comneno, duque bizantino de Chipre, com uma Taronitissa de nome desconhecido, descendente dos antigos reis da Arménia. A sua irmã Teodora Comnena casou-se com o príncipe Boemundo III de Antioquia e o seu irmão Aleixo foi, brevemente em 1185, pretendente ao trono do Império Bizantino.

Rainha de Jerusalém[editar | editar código-fonte]

Em 1164, Amalrico I impôs um protectorado cruzado sobre o Califado Fatímida do Egito e, após a anulação do seu primeiro casamento com Inês de Courtenay, pretendia aliar-se aos bizantinos para consolidar a posição geopolítica do Reino de Jerusalém. O arcebispo Hernésio da Cesareia e Odo de Saint-Amand (na época mordomo do reino, posteriormente seria Grão-Mestre da Ordem dos Templários) foram então enviados a Constantinopla para solicitar a Manuel I Comneno uma esposa da família imperial bizantina para o rei.

As negociações demoraram dois anos, principalmente porque o monarca cruzado insistira em Manuel devolver a suserania do Principado de Antioquia a Jerusalém. Mas assim que abandonou esta exigência, o imperador decidiu pela sua sobrinha-neta Maria, a quem forneceu um dote avultado. O casamento foi celebrado em Tiro, a 29 de Agosto de 1167[1] . Desta união nasceram:

O casamento apresentou uma ocasião para o início de novas negociações, e em Setembro de 1168 foi concluída uma aliança cruzada-bizantina de conquista e partilha do Egipto. No entanto, esta falharia na prática, uma vez que os latinos atacaram os fatímidas sem esperar pelos reforços gregos e foram forçados a retirar[2] .

Rainha viúva[editar | editar código-fonte]

Cerco de Jerusalém em 1187 (Historia de Guilherme de Tiro, e continuação, BNF)

Em 1174, moribundo, Amalrico legou Nablus a Isabel e a Maria, que se casou em segundas núpcias em 1177 com Balião de Ibelin. Deste casamento nasceram:

Amalrico foi sucedido pelos seus filhos com Inês de Courtenay: primeiro Balduíno IV; Sibila, casada com Guy de Lusignan, subiu ao trono depois da morte do seu filho Balduíno V. Em Novembro de 1183 Maria não conseguira evitar o casamento da sua filha Isabel com Onofre IV de Toron, filho de Estefânia de Milly, do partido rival ao dos Ibelin na corte de Jerusalém.

Maria Comnena frequentava a corte, pelo que se encontrava na Cidade Santa em Julho de 1187, quando o exército cristão foi derrotado por Saladino na batalha de Hattin. Balião conseguiu escapar do campo de batalha e obter do sultão um salvo-conduto para ir a Jerusalém buscar a esposa e os seus filhos e levá-los para Tiro, com a condição de não pegar em armas contra ele nem permanecer na cidade por mais de um dia.

No entanto, os aterrorizados habitantes da capital do reino suplicaram que Balião comandasse a sua defesa no cerco que se avizinhava, pelo que este aceitou, enviando mensageiros a Saladino para explicar o motivo de não cumprir o acordado. O aiúbida aceitou as desculpas, chegando mesmo a organizar uma escolta para conduzir a rainha Sibila, Maria Comnena, os seus filhos e outros familiares a Trípoli[3] . Maria obteve igualmente de Saladino o direito de levar consigo todas as suas posses, servos, objectos preciosos e cruzes com ouro e jóias[4] .

Cerco de Tiro em 1187 (Les Passages d’Outremer, Sébastien Mamerot, 1474, BNF)

Após a perda de Jerusalém, o reino parecia perdido até Conrado de Montferrat (tio paterno de Balduíno V) assumir a defesa de Tiro e resistir com sucesso a Saladino, pelo que Balião e Maria instalaram-se nesta cidade[5] . Quando Guy de Lusignan foi libertado do cativeiro, Conrado recusou-lhe a entrada em Tiro, com o apoio da maioria dos barões do reino que culpavam o rei pela derrota em Hattin. Deste modo, Guy dirigiu-se a São João de Acre e iniciou o cerco a esta cidade.

Para legitimar a reivindicação de Conrado ao trono, o partido deste pretendia anular o casamento de Isabel com Onofre IV de Toron. Enquanto Maria tentava convencer a sua filha a concordar com a anulação, o mordomo da França Guy de Senlis pôs em causa que Isabel tivesse dado o seu consentimento aquando do seu casamento, desafiando o senhor de Toron em ordália de duelo judicial. A recusa de Onofre em combater implicou a renúncia à sua esposa, que assim se casou com Conrado a 24 de Novembro de 1190[6] . Mas deste modo Maria e Balião atraíram a inimizade de Ricardo I da Inglaterra.

Maria Comnena Atulhada em imundície grega desde o berço, tinha um marido cuja moral correspondia à sua própria: ele era cruel, ela era ímpia; ele era inconstante, ela era maleável; ele não tinha fé, ela era fraudulenta. Maria Comnena

 — Crónica Itinerarium Peregrinorum et Gesta Regis Ricardi (em latim, A Peregrinação e os Feitos do Rei Ricardo em português), autor anónimo

Em Junho de 1192 Balião ajudou a negociar o tratado de Ramla que encerrou oficialmente a Terceira Cruzada. Segundo os termos deste tratado de paz, Saladino manteve as terras do senhorio de Ibelin mas cedeu algumas cidades conquistadas pela cruzada. Depois de Ricardo Coração de Leão partir da Terra Santa, o sultão recompensou Balião com o castelo de Caymont e algumas localidades costeiras[7] . Depois da morte do seu segundo marido em 1193, Maria Comnena terminaria os seus dias retirada para a vida religiosa[4] .

No entanto, como avó de Alice de Champagne (filha de Isabel com o seu terceiro esposo Henrique II de Champagne), Maria ainda conduziu as negociações do casamento com Hugo I de Chipre em 1208. Branca de Navarra, regente e condessa de Champagne, viúva do tio paterno de Alice, forneceu o dote. Esta é a última referência documentada a Maria, que morreu em 1217.

Referências

  1. René Grousset. Histoire des croisades et du royaume franc de Jérusalem (em ). Paris: Perrin, 1935 (reimpr. 1999). 481-2 pp. vol. II. - 1131-1187 L'équilibre. ISBN 978-0521625661.
  2. Grousset 1935, pp.485-7
  3. Grousset 1935, pp.757, 764 e 951
  4. a b Abdel Rahman Nehmé. Chrétiens et Musulmans au temps des croisades, entre l’affrontement et la rencontre: Figures féminines de la noblesse des croisades (em ). Louis Pouzet et Louis Boisset. ed. Beirute: Presse de l’Université Saint-Joseph, 2007. ISBN 9953-455-73-2.
  5. René Grousset. Histoire des croisades et du royaume franc de Jérusalem (em ). Paris: Perrin, 1936 (reimpr. 1999). 759 pp. vol. III. 1188-1291 – L’anarchie franque. ISBN 2-262-02569-X).
  6. Grousset 1936, pp.83-86
  7. Grousset 1936, p.158

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • L. de Mas-Latrie. Chronique d'Ernoul et de Bernard le Trésorier (em ). Paris: Société de l'histoire de France, 1871.
  • Guilherme de Tiro. La Continuation de Guillaume de Tyr (1184-1192) (em ). [S.l.]: Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, 1982.
  • Ambroise. The History of the Holy War (em ). trad. Marianne Ailes. ed. [S.l.]: Boydell Press, 2003. ISBN 9781843830016.
  • Chronicle of the Third Crusade: A Translation of Itinerarium Peregrinorum et Gesta Regis Ricardi (em ). trad. Helen J. Nicholson. ed. [S.l.]: Ashgate, 1997.
  • Peter W. Edbury. The Conquest of Jerusalem and the Third Crusade: Sources in Translation (em ). [S.l.]: Ashgate, 1996.
  • Peter W. Edbury. John of Ibelin and the Kingdom of Jerusalem (em ). [S.l.: s.n.], 1997.
  • Robert Payne. The Dream and the Tomb (em ). [S.l.: s.n.], 1984.
  • Steven Runciman. A History of the Crusades (em ). [S.l.]: Cambridge University Press, 1952-55. II, III vols.
  • Genealogia do Império Bizantino, 1057-1204, Foundation for Medieval Genealogy (em inglês)
Precedida por:
Teodora Comnena
(1158-1162)
Armoiries de Jérusalem.svg
Rainha consorte de Jerusalém

1167 - 1174
Sucedida por:
Guy de Lusignan
(11861190)
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Filipe de Milly
(1126-1161)
Senhora de Nablus
1174 - 1187
(com Balião de Ibelin em 1173-1187)
Sucedida por:
perda do senhorio
para Saladino