Maria I de Inglaterra

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Maria I
Rainha da Inglaterra, Espanha, França,
Duas Sicílias, Jerusalém e Irlanda
Arquiduquesa da Áustria
Duquesa de Borgonha, Milão e Brabante
Condessa de Habsburgo, Flandres e Tirol
Retrato por Antônio Mouro, 1554
Rainha da Inglaterra e Irlanda
Reinado 19 de julho de 1553
a 17 de novembro de 1558
Coroação 1 de outubro de 1553
Predecessor Eduardo VI
Sucessora Isabel I
Rainha Consorte da Espanha
Reinado 16 de janeiro de 1556
a 17 de novembro de 1558
Predecessora Isabel de Portugal
Sucessora Isabel de Valois
Marido Filipe II de Espanha
Casa Tudor
Pai Henrique VIII de Inglaterra
Mãe Catarina de Aragão
Nascimento 18 de fevereiro de 1516
Palácio de Placentia, Londres, Inglaterra
Morte 17 de novembro de 1558 (42 anos)
Palácio de St. James, Londres, Inglaterra
Enterro 14 de dezembro de 1558
Abadia de Westminster, Londres, Inglaterra
Religião Catolicismo
Assinatura

Maria I (18 de fevereiro de 151617 de novembro de 1558) foi a Rainha da Inglaterra e Irlanda de julho de 1553 até sua morte. Sua perseguição e execução dos protestantes ingleses levou seus oponentes a lhe darem o epíteto de "Maria Sangrenta".

Foi a única filha do rei Henrique VIII de Inglaterra e sua primeira esposa Catarina de Aragão a chegar na idade adulta. Seu meio-irmão mais novo, Eduardo VI, sucedeu Henrique em 1547. Ele tentou retirar Maria da linha de sucessão por diferenças religiosas ao descobrir que estava com uma doença terminal. Após sua morte, Joana Grey, prima em segundo grau dos dois, foi inicialmente proclamada rainha. Maria reuniu uma força em Anglia do Leste e depôs Joana, que acabou sendo decapitada. Ela se casou em 1554 com Filipe de Espanha, tornando-se rainha consorte da Espanha na ascensão dele em 1556.

Como a quarta monarca da Casa de Tudor, Maria é mais lembrada por restaurar o Catolicismo Romano depois do curto reinado protestante de seu meio-irmão. Em seus cinco anos de reinado, ela fez com que mais de 280 dissidentes religiosos fossem queimados. Seu reestabelecimento do catolicismo foi revertido após sua morte por sua meia-irmã e sucessora Isabel I.

Início de vida[editar | editar código-fonte]

Maria nasceu no dia 18 de fevereiro de 1516 no Palácio de Placentia em Londres. Foi a única filha do rei Henrique VIII de Inglaterra e sua primeira esposa Catarina de Aragão a sobreviver à infância. Sua mãe teve vários abortos;[1] Catarina teve quatro gravidezes antes de seu nascimento que resultaram em uma filha natimorta e três filhos natimortos ou que morreram logo em seguida.[2] Ela foi batizada na fé católica três dias depois na Igreja dos Frades Observantes em Greenwich.[3] Seus padrinhos incluíram sua tia-avó Catarina de Iorque, Condessa de Devon, o lorde chanceler Tomás Wolsey e Ágnes Howard, Duquesa de Norfolk.[4] Margarida Pole, 8.ª Condessa de Salisbury e prima de Henrique, foi uma das madrinhas de Maria em sua crisma, que ocorreu imediatamente depois do batismo.[5] A própria Maria tornou-se madrinha no ano seguinte quando foi nomeada tal para sua prima Francisca Brandon.[6] Margarida Pole foi nomeada em 1520 como sua governanta.[7] Sir João Hussey tornou-se seu camareiro a partir de 1530, com sua esposa Ana, filha de Jorge Grey, 2.º Conde de Kent, sendo uma das criadas de Maria.[8]

Educação e planos de casamento[editar | editar código-fonte]

Maria na época de seu noivado com Carlos V. Está usando um broche quadrado com a inscrição "The Emperour".[9] Por Lucas Horenbout.

Maria era uma criança precoce.[10] Ela entreteu em julho de 1520 uma delegação francesa ao tocar o virginal (uma espécie de cravo) com apenas quatro anos e meio de idade.[11] Uma grande parte de sua educação inicial veio de sua mãe, que consultou o humanista espanhol Juan Luis Vives para conselhos e encomendou o De Institutione Feminae Christianae, uma dissertação sobre a educação de meninas.[12] Maria conseguia ler e escrever em latim aos nove anos.[13] Ela estudou francês, espanhol, música, dança e talvez grego.[14] Henrique adorava a filha e gabou-se com o embaixador veneziano Sebastian Giustiniani que "Esta menina nunca chora".[15] Fisicamente, Maria tinha pele bem branca como seus pais, olhos azuis claro e um cabelo ruivo ou loiro avermelhado. Também tinha bochechas rosadas, característica que herdou do pai.[16]

Apesar da afeição que tinha pela filha, Henrique ficou muito desapontado que seu casamento não produziu nenhum filho homem.[17] Ficou aparente quando Maria tinha nove anos que Henrique e Catarina não teriam mais filhos, deixando o rei sem nenhum herdeiro homem legítimo.[18] O rei enviou a filha em 1525 para a fronteira com Gales para presidir, presumidamente apenas em nome, o Conselho de Gales e das Bordas.[19] Ela recebeu sua própria corte no Castelo de Ludlow e muitas das prerrogativas reais normalmente reservadas ao Príncipe de Gales. Vives e outros eram a favor de fazê-la Princesa de Gales em seu próprio direito, porém ela nunca foi formalmente investida com o título.[20] Maria aparentemente passou três anos nas Bordas Galesas, realizando visitas regulares à corte do pai, antes de voltar permanentemente para Londres e seus arredores na metade de 1528.[21]

Henrique negociou potenciais futuros casamentos para a filha durante sua infância. Quando tinha apenas dois anos foi prometida ao Delfim, filho criança do rei Francisco I de França, porém o contrato foi repudiado três anos depois.[22] Em 1522 aos seis anos, Maria acabou entrando em um contrato para se casar com seu primo Carlos V, Sacro Imperador Romano-Germânico, então com 22 anos.[23] Entretanto, o compromisso foi quebrado por Carlos alguns anos depois com o concentimento de Henrique.[24] O cardeal Tomás Wolsey, principal ministro do rei, voltou então às negociações com os franceses, com Henrique sugerindo que Maria se casasse com o próprio Francisco, que estava querendo uma aliança com a Inglaterra.[25] Um tratado de casamento foi assinado e ditava que ela casaria-se com Francisco ou seu segundo filho Henrique, Duque d'Orleães,[26] porém Wolsey conseguiu firmar uma aliança com a França sem o casamento. De acordo com Mario Savorgnano, observador veneziano, Maria estava desenvolvendo-se em uma jovem bonita, bem proporcional e com um bonito rosto.[27]

Adolescência[editar | editar código-fonte]

Enquanto isso, o casamento de seus pais estava em perigo. Henrique, desapontado pela falta de um herdeiro e querendo casar-se novamente, tentou anular seu casamento com Catarina, porém o Papa Clemente VII recusou seus pedidos. O rei afirmou, citando passagens bíblicas (Levítico 20:21), que a união era impura já que Catarina era a viúva de seu irmão Artur, Príncipe de Gales. Ela afirmou que o casamento com Artur nunca havia sido consumado e assim sendo não era válido. De fato, seu primeiro matrimônio havia sido anulado pelo Papa Júlio II nesses motivos. Clemente pode ter ficado relutante a agir por estar sendo influenciado por Carlos V, sobrinho de Catarina e ex-prometido de Maria, cujas tropas haviam cercado e ocupado Roma na Guerra da Liga de Cognac.[28]

Maria estava frequentemente doente a partir de 1531 com menstruações irregulares e depressão, apesar de não ser claro se isso foi causado por estresse, puberdade ou alguma doença mais séria.[29] Ela não recebeu permissão para visitar a mãe, que havia sido mandada embora da corte de Henrique.[30] O rei casou-se com Ana Bolena no início de 1533 e ela logo engravidou de uma criança, com Tomás Cranmer, o Arcebispo da Cantuária, formalmente declarando em maio que o casamento de Henrique com Catarina era nulo e que a união com Ana era válida. Ele rompeu com a Igreja Católica e declarou-se Chefe Supremo da Igreja Anglicana. Catarina foi rebaixada para Viúva Princesa de Gales, título que ela teria mantido como viúva de Artur, e Maria foi declarada como ilegítima. Ela foi chamada de "A srta. Maria" ao invés de princesa, com seu lugar na sucessão sendo transferido para sua recém nascida meia-irmã Isabel.[31] A própria criadagem de Maria foi dissolvida;[32] seus criados (incluindo Margarida Pole) foram dispensados de seu serviço e ela foi enviada em dezembro para juntar-se a criadagem da jovem Isabel em Hatfield, Hertfordshire.[33]

Maria recusou-se determinantemente a reconhecer Ana como rainha e Isabel como princesa, enfurecendo Henrique.[34] Maria estava sob pressão e com seus movimentos restringidos e assim ficava frequentemente doente, com o médico real culpando a condição por "mau tratamento".[35] O embaixador imperial Eustácio Chapuys tornou-se seu conselheiro próximo e tentou interceder em seu favor, sem sucesso.[36] A relação de pai e filha piorou; eles ficaram sem se falar por três anos.[37] Apesar de Maria e Catarina terem ficado doentes, ela não recebeu permissão para visitar a mãe.[38] Maria ficou "incolsolável" em 1536 quando Catarina morreu.[39] Ela foi enterrada na Catedral de Peterborough enquanto Maria ficou de luto em estado de semi-reclusão em Hunsdon, Hertfordshire.[40]

Idade adulta[editar | editar código-fonte]

Ana Bolena caiu em desgraça e acabou decapitada em 1536. Isabel, assim como Maria, foi rebaixada para ilegítima e retirada da linha de sucessão ao trono.[41] Henrique se casou com Joana Seymour duas semanas após a execução de Ana. Joana pediu ao marido que fizesse as pazes com Maria.[42] O rei insistiu que a filha o reconhecesse como chefe da Igreja Anglicana, repudiasse a supremacia papal, admitisse que seu casamento com Catarina era ilegal e aceitasse sua própria ilegitimidade. Maria tentou se reconciliar com ele ao submeter-se a sua autoridade até onde "Deus e minha consciência" permitirem, porém ela acabou sendo forçada a assinar um documento concordando com todas as exigências de Henrique.[43] Ela voltou ao seu lugar na corte depois da reconciliação.[44] Henrique lhe deu uma criadagem, que incluia a reinstalação da favorita da filha Susana Clarencieux.[45] Suas despesas da bolsa privada do período mostram que suas principais residências incluiam a Casa Hatfield, o Palácio de Beaulieu, Richmond e Hunsdon, além dos palácios de Henrique em Placentia, Westminster e Hampton Court.[46] Suas despesas incluiam roupas finas e cartas de baralho, um de seus passatempos favoritos.[47] Rebeldes no norte da Inglaterra, incluindo lorde John Hussey, 1.º Barão Hussey de Sleaford e antigo camareiro de Maria, fizeram campanha contra as reformas religiosas de Henrique, com uma de suas exigências sendo que Maria fosse considerada legítima novamente. A rebelião, conhecida como Peregrinação da Graça, foi brutalmente suprimida.[48] Hussey foi executado junto com outros rebeldes, porém não havia sugestões que Maria estivesse envolvida diretamente.[49] Joana morreu em 1537 ao dar à luz um filho, Eduardo. Maria foi feita madrinha do meio-irmão e atuou como principal pranteadora no funeral da rainha.[50]

Maria em 1544.

Maria foi cortejada a partir do final de 1539 por Filipe, Duque do Palatinado-Neuburgo, porém como luterano sua pretensão não foi bem sucedida.[51] Tomás Cromwell, principal minitro o rei, negociou durante 1539 uma potencial aliança com o Ducado de Cleves. Sugestões que ela se casasse com Guilherme, Duque de Jülich-Cleves-Berg, que tinha a mesma idade, levaram a nada, porém foi concordada a união entre Ana de Cleves, irmã do duque, e Henrique.[52] Quando ele viu Ana pela primeira vez em dezembro, uma semana antes do casamento, o rei não a achou atraente mas não podia cancelar o casamento por questões diplomáticas e pela falta de um motivo adequado.[53] Cromwell caiu em desgraça e foi preso em junho de 1540 por traição; uma das acusações improváveis contra ele era que pretendia casar-se com Maria.[54] Ana consentiu com o anulação da união, que não foi consumada, e Cromwell acabou decapitado.[55]

Henrique executou em 1541 Margarida Pole, madrinha e antiga governanta de Maria, sob o pretexto de uma conspiração católica, em que seu filho Reginaldo Pole também foi implicado.[56] Seu carrasco era "um jovem infeliz e desajeitado" que "literalmente cortou em pedaços sua cabeça e ombros".[57] Em 1542, após a execução de Catarina Howard, quinta esposa de Henrique, o rei convidou Maria para comparecer às festividades de natal.[58] Na corte, ela atuou como anfitriã enquanto seu pai não estava casado e sem uma consorte.[59] Henrique se casou em 1543 com sua sexta e última esposa, Catarina Parr, que acabou conseguindo aproximar toda a família.[60] Ele colocou Maria e Isabel de volta para a linha de sucessão atrás de Eduardo através do Terceiro Ato de Sucessão. Porém ambas continuaram legalmente ilegítimas.[61]

Henrique morreu em 1547 e foi sucedido por seu filho como Eduardo VI. Maria herdou propriedades em Norfolk, Suffolk e Essex, também recebendo Hunsdon e o Palácio de Beaulieu em seu próprio direito.[62] Já que Eduardo ainda era menor de idade, um conselho regencial formado por protestantes foi estabelecido e eles tentaram estabelecer sua fé por todo o país. Por exemplo, o Ato de Uniformidade de 1549 ditava ritos protestantes para os serviços da igreja, como o uso do Livro de Oração Comum de Tomás Cranmer. Maria permaneceu fiel ao catolicismo e celebrou de forma desafiadora a missa tradicional em sua capela pessoal. Ela apelou para seu primo Carlos V que aplicasse pressões diplomáticas exigindo que ela recebesse permissão para praticar sua religião.[63]

Maria permaneceu em suas próprias propriedades durante a maior parte do reinado de Eduardo, raramente comparecendo à corte.[64] Um plano para tirá-la secretamente da Inglaterra em julho de 1550 para a segurança da Europa continental acabou em nada.[65] As diferenças religiosas entre Eduardo e Maria continuaram. Ela compareceu a uma reunião com o rei e Isabel no natal de 1550, onde Eduardo, então com treze anos, a constrangiu na frente da corte ao publicamente reprová-la por ignorar suas leais relacionadas a religião, levando ela e ele mesmo às lágrimas.[66] Maria recusou repetidas vezes as exigências de Eduardo para que abandonasse o catolicismo.[67]

Reinado[editar | editar código-fonte]

Ascensão[editar | editar código-fonte]

Eduardo VI morreu aos quinze anos de idade em 6 de julho de 1553 de uma infecção no pulmão, possivelmente tuberculose.[68] Ele não queria que Maria fosse sua sucessora por termer que ela restauraria o catolicismo e reverteria suas reformas e as de Henrique, planejando assim exclui-la da linha de sucessão. Entretanto, seus conselheiros afirmaram que o rei não poderia deserdar apenas uma de suas meia-irmãs, significando que teria de retirar Isabel também, mesmo ela tendo crescido como anglicana. Guiado por seu regente João Dudley, 1.º Duque de Northumberland, e talvez outros, Eduardo excluiu as duas da sucessão em seu testamento.[69]

Contradizendo o Ato de Sucessão que colocava Maria e Isabel de volta para a linha de sucessão, Eduardo nomeou como sucessora Joana Grey, nora de Dudley e neta de Maria Tudor. Francisca Brandon, mãe de Joana, era a prima e madrinha de Maria. Pouco antes da morte do rei, Maria foi convocada para ir a Londres visitar seu irmão. Entretanto, ela foi avisada que as convocações eram um pretexto para capturá-la e facilitar a ascensão de Joana.[70] Ela acabou saindo de Hunsdon e fugindo para Anglia do Leste, onde tinha várias propriedades e Dudley havia brutalmente suprimido a Rebelião de Kett. Lá viviam muitos defensores da fé católica e oponentes de Dudley.[71] Maria escreveu ao Conselho Privado em 9 de julho ordenando sua proclamação como rainha e sucessora de Eduardo.[72]

Joana foi proclamada rainha por Dudley e seus apoiadores em 10 de julho, no mesmo dia que a carta de Maria chegou no conselho em Londres. Ela e seus apoiadores reuniram uma força militar no Castelo de Framlingham dois dias depois.[73] O apoio de Dudley ruiu enquanto o de Maria crescia.[74] Joana acabou deposta em 19 de julho.[75] Ela e Dudley foram aprisionados na Torre de Londres. Maria entrou em Londres triunfantemente em 3 de agosto com uma onda de opoio popular. Ela estava acompanhada por Isabel e uma procissão de mais de oitocentos nobres e cavalheiros.[76]

Uma das primeiras ações de Maria como rainha foi mandar que os católicos Tomás Howard, 3.º Duque de Norfolk, e Estêvão Gardiner fossem soltos de suas prisões na Torre de Londres, além de seu primo Eduardo Courtenay.[77] Ela compreendia que a jovem Joana era essencialmente um peão nos esquemas de Dudley, com ele sendo o único conspirador de alta posição executado por traição imediatamente depois da ascensão. Joana e seu marido lorde Guilford Dudley, apesar de considerados culpados, foram mantidos presos na Torre ao invés de imediatamente executados, enquanto o pai da primeira, Henrique Grey, 1.º Conde de Suffolk, foi solto.[78] Maria ficou em uma posição difícil já que a maioriados membros do Conselho Privado estavam implicados no plano de colocar Joana no trono.[79] Ela nomeou Gardiner para o conselho e o fez Bispo de Winchester e Lorde Chanceler, cargos que ele ocupou até sua morte em novembro de 1555. Susana Clarencieux tornou-se a Senhora das Vestes.[80] Maria foi coroada por Gardiner na Abadia de Westminster em 1º de outubro.[81]

Casamento[editar | editar código-fonte]

Filipe em 1551, por Ticiano.

Maria, então com 37 anos de idade, voltou sua atenção para encontrar um marido e produzir um herdeiro, assim impedindo que a protestante Isabel (ainda sua sucessora de acordo com o testamento de Henrique VIII e o Terceiro Ato de Sucessão) ascendesse ao trono. Tanto Eduardo Courtenay quanto Reginaldo Pole foram mencionados como possíveis pretendentes, porém Carlos V sugeriu que ela se casasse com seu filho, príncipe Filipe da Espanha.[82] Ele tinha um filho de um casamento anterior com Maria Manuela da Portugal, sendo também o herdeiro aparente de vastos territórios na Europa continental e no Novo Mundo. Como parte das negociações de casamento, um retrato de Filipe por Ticiano foi enviado a Maria em setembro de 1553.[83]

Tanto o Parlamento como os seus principais conselheiros imploraram que reconsiderasse a decisão, receando a perda de independência de Inglaterra face à temida Espanha, que era a mais poderosa potência europeia na época. Maria manteve-se firme ao seu casamento com Filipe, o que iniciou uma onda de protestos na Inglaterra marcando o início de sua impopularidade principalmente entre os protestantes. O Duque de Suffolk decidiu tomar uma atitude e aliciou Isabel a pretensão à coroa, suportados pela revolta popular de Thomas Wyatt mas a tentativa de golpe foi esmagada pelas forças da rainha. Wyatt e Suffolk foram presos e executados. Após a revolta de Wyatt, a rainha mudou sua política de tolerância, o conselho de Maria havia lhe urgido para que largasse a política de clemência e começasse a agir com rigor. A Princesa Isabel, beneficiária da manobra de Wyatt, tornou-se num alvo de suspeita e foi presa na Torre de Londres, mas nada foi provado sobre o envolvimento da princesa. Filipe de Espanha exigiu que ela fosse executada para eliminar futuras conspirações, mas Maria recusou-se a assinar a sentença de morte da irmã e em vez disso expulsou-a da corte, sob prisão domiciliar.

Maria e Filipe se casaram a 25 de Julho de 1554 na Catedral de Winchester numa grande cerimônia católica. Nos termos do contrato de casamento, Filipe passou a ser designado como "Rei Consorte da Inglaterra" (título esse que fora atribuído somente às rainhas consortes até então). O seu casamento com um monarca estrangeiro e católico marcou o fim da popularidade da rainha junto aos ingleses orgulhosos da sua independência. Maria, no entanto, ficou extremamente feliz com a união e apaixonou-se imediatamente pelo marido onze anos mais novo. Em Novembro de 1554, julgou-se grávida e mandou rezar uma missa de acção de graças pelo facto, mas pouco tempo depois as esperanças desmoronaram e apesar do abdómen da rainha ter aumentado e os seus seios começarem a produzir leite, foi constatado que se tratava apenas uma gravidez psicossomática. Ao fim de cerca de catorze meses em Inglaterra, Filipe decidiu regressar a Espanha para cuidar de assuntos de estado, frustrado pelo fato de Maria e seu parlamento não o deixarem governar a Inglaterra.

Maria Tudor e seu marido Filipe de Espanha em 1554

A rainha dedicou-se então ao seu projeto pessoal de reverter a ruptura com a Igreja de Roma estabelecida pelo seu pai e o reforçar do protestantismo pelo irmão Eduardo VI. Sua política primária de tolerância aos protestantes havia sido quebrada após a revolta de Wyatt. Reginald Pole, um cardeal católico e amigo de Maria desde a infância, foi nomeado conselheiro pessoal e Arcebispo da Cantuária. Juntos aboliram as reformas religiosas de Eduardo VI e deram início ao que ficou conhecido como as persecuções marianas. Nos três anos seguintes cerca de 300 protestantes foram queimados na fogueira por heresia incluindo Thomas Cranmer (ex Arcebispo da Cantuária), Nicholas Ridley (ex-bispo de Londres) e o reformista Hugh Latimer. Estes actos, dos quais Maria não foi a única responsável moral, valeram-lhe o cognome Bloody Mary e uma crescente impopularidade junto dos ingleses. A rainha disse para seu amigo Pole, que "A punição dos hereges, deve ser feita sem pressa, deve, entretanto, se aplicar a justiça para aqueles que, pela inteligência, procuram iludir as almas simples." Nos reinados seguintes, a sua memória foi vilipendiada, em parte como propaganda religiosa protestante. John Foxe escreveu um livro intitulado The Actes and Monuments of these latter and perilous Dayes, touching matters of the Church, wherein are comprehended and described the great Persecution and horrible Troubles that have been wrought and practised by the Romishe Prelates, Epeciallye in this Realme of England and Scotland, from the yeare of our Lorde a thousande to the time now present, abreviadamente The Book of Martyrs, onde basicamente transformava Maria numa vilã católica.

Filipe regressou à Inglaterra em 1557, depois de ter herdado a coroa de Espanha e o controle dos Países Baixos pela abdicação do seu pai, com o objectivo de convencer Maria a entrar numa guerra contra França. Maria concordou com o marido, apesar da forte objecção popular inglesa, e, em resultado, as tropas inglesas foram derrotadas e a Inglaterra perdeu a posse de Calais, a última relíquia das possessões continentais inglesas, que em tempos já haviam incluído a Normandia e Aquitânia. Em resultado desta visita, Maria sofreu ainda uma última gravidez psicológica e chegou a ditar um testamento onde nomeava Filipe regente de Inglaterra durante a menoridade do herdeiro inexistente.

Morte e Legado[editar | editar código-fonte]

Em seus últimos dias Maria estava deprimida pelo abandono do marido, possíveis conspirações de sua irmã e sua baixa popularidade, passava horas e horas com os joelhos perto do queixo e perambulava pela sua corte como um fantasma.

Maria morreu em Novembro de 1558, provavelmente de cancro do útero ou dos ovários, e foi sucedida pela sua irmã a princesa Isabel, que acreditava ter conseguido converter ao Catolicismo. Foi sepultada na Abadia de Westminster, onde, mais tarde, Isabel juntar-se-lhe-ia.[84] Na inscrição da sua tumba comum lê-se Parceiras no Trono e Sepultura, aqui descansam duas irmãs, Maria e Isabel, na esperança de uma ressurreição. conjunta.[85]

Maria certamente é uma figura trágica, teve uma infância dourada, até que os atos de seu próprio pai a traumatizaram profundamente. Tem uma má fama devido a propaganda protestante, já que ela foi uma rainha católica, entretanto seus atos não foram mais cruéis do que os de seu pai Henrique VIII e irmãos Eduardo VI e Isabel I. Definitivamente há muito mais no reinado de Maria Tudor do que as perseguições aos protestantes pelas quais ela é tão julgada, ela iniciou um trabalho de expansão marítima e econômica que seria concluído brilhantemente por sua irmã depois dela.

O historiador Will Durant se refere a Maria I: "Em relação a Maria I, pode-se dizer algumas palavras complacentes. Dor, doença e muitas injustiças sofridas deformaram seu espírito. Sua clemência deu origem à crueldade só depois que conspirações tentaram retirar a sua coroa. Seguiu o conselho da igreja de confiança, que tinha sofrido perseguições e buscava vingança. Ao final, penso eu, com as performances, estava cumprindo suas obrigações para com a religião que ela amava como uma razão para sua própria vida. Ela não merece o apelido de "Maria, a sanguinária", a menos que o adjetivo seja aplicado a todos de seu tempo; adjetivo que resume o caráter de forma errada, já que havia muito amor. Embora pareça estranho, é notável que ela tem tomado a frente o trabalho do pai [Henrique VIII], para separar a Inglaterra de Roma. Ela mostrou ao país que era ainda da igreja católica a pior característica que era servida. Quando ela morreu, a Inglaterra estava mais preparada do que nunca para aceitar a nova fé que ela se esforçou para destruir."

Títulos, estilos e brasões[editar | editar código-fonte]

O brasão de Maria I, impalado com os de seu marido Filipe II.

Ao ascender, Maria foi proclamada rainha com o mesmo estilo oficial usado para Henrique VIII e Eduardo VI: "Maria, pela Graça de Deus, Rainha da Inglaterra, França e Irlanda, Defensora da Fé, e Chefe Suprema na Terra da Igreja da Inglaterra e da Irlanda". O título Chefe Suprema da Igreja era repugnante para seu catolicismo e passou a ser omitido a partir do natal de 1553.[86]

Sob os termos do tratado de casamento de Maria com Filipe, o estilo oficial conjunto refletia não apenas os domínios e reinvindicações dela mas também os dele: "Filipe e Maria, pela Graça de Deus, Rei e Rainha da Inglaterra, França, Nápoles, Jerusalém e Irlanda, Defensores da Fé, Príncipes da Espanha e Sicília, Arquiduques da Áustria, Duques de Milão, Borgonha e Brabante, Condes de Habsburgo, Flandres e Tirol".[87] Esse estilo, que começou a ser usado em 1554, foi substituído quando Filipe herdou o trono espanhol em 1556 e passou a ser: "Filipe e Maria, pela Graça de Deus, Rei e Rainha da Inglaterra, Espanha, França, Duas Sicílias, Jerusalém e Irlanda, Defensores da Fé, Arquiduques da Áustria, Duques de Borgonha, Milão e Brabante, Condes de Habsburgo, Flandres e Tirol".[88]

O brasão de armas de Maria era o mesmo usado por todos os seus predecessores desde Henrique IV: Esquartelado; I & IV azure, três flores-de-lis or (pela França); II & III goles, três leões or passant guardant em pala (pela Inglaterra). Seu brasão era algumas vezes impalado (mostrado lado a lado) com o do marido. Maria adotou como seu lema Veritas Temporis Filia ("Verdade, a Filha do Tempo").[89]

Árvore genealógica[editar | editar código-fonte]

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ricardo, Duque de Iorque
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Eduardo IV
 
 
 
Jorge, Duque
de Clarence
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Isabel I
 
Fernando II
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Henrique VII
 
Isabel de Iorque
 
 
 
Margarida Pole,
8.ª Condessa de Salisbury
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Joana de Castela
 
Maria de Aragão
 
Catarina de Aragão
 
 
 
 
 
Henrique VIII
 
 
 
Margarida Tudor
 
Maria Tudor
 
Reginaldo Pole
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Carlos V
 
Isabel de Portugal
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Jaime V
 
Francisca Brandon
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Filipe II
 
 
 
 
 
Maria I
 
Isabel I
 
Eduardo VI
 
Maria
 
Joana Grey
 
 
 
 
 

Ancestrais[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Waller 2006, p. 16; Whitelock 2009, p. 9
  2. Loades 1989, pp. 12–13; Weir 1996, pp. 152–153
  3. Porter 2007, p. 13; Waller 2006, p. 16; Whitelock 2009, p. 7
  4. Porter 2007, pp. 13, 37; Waller 2006, p. 17
  5. Porter 2007, p. 13; Waller 2006, p. 17; Whitelock 2009, p. 7
  6. Loades 1989, p. 28; Porter 2007, p. 15
  7. Loades 1989, p. 29; Porter 2007, p. 16; Waller 2006, p. 20; Whitelock 2009, p. 21
  8. Hoyle, R. W.. The Pilgrimage of Grace and the Politics of the 1530s. Oxford: Oxford University Press, 2001. p. 407. ISBN 0-19-925906-2.
  9. Whitelock 2009, p. 23
  10. Whitelock 2009, p. 27
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Loades, David M.. Mary Tudor: A Life. Oxford: Basil Blackwell, 1989. ISBN 0-631-15453-1.
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  • Waller, Maureen. Sovereign Ladies: The Six Reigning Queens of England. Nova Iorque: St. Martin's Press, 2006. ISBN 0-312-33801-5.
  • Weir, Alison. Britain's Royal Families: The Complete Genealogy. Londres: Pimlico, 1996. ISBN 0-7126-7448-9.
  • Whitelock, Anna. Mary Tudor: England's First Queen. Londres: Bloomsbury, 2009. ISBN 978-0-7475-9018-7.

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