Maria Lúcia Petit

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Maria Lúcia Petit
Nascimento 20 de março de 1950
Agudos, Brasil
Morte 16 de junho de 1972 (22 anos)
Xambioá, Brasil
Nacionalidade Brasil brasileira
Ocupação professora, guerrilheira
Influências
O corpo de Maria Lúcia fotografado pelos militares antes de ser enterrado em Xambioá. Araguaia, 1972.

Maria Lúcia Petit da Silva (Agudos, 20 de março de 1950Xambioá, 16 de junho de 1972[1] ) foi uma professora e guerrilheira brasileira, militante do Partido Comunista do Brasil, que participou da luta armada contra a ditadura militar, integrando a Guerrilha do Araguaia[2] .

Maria Lúcia, ex-participante do movimento estudantil secundarista em São Paulo, que usava o codinome 'Maria' na guerrilha, foi para o Araguaia junto com seus irmãos mais velhos Jaime e Lúcio, que são dados até hoje como desaparecidos.[3]

É um dos casos investigados pela Comissão da Verdade, que apura mortes e desaparecimentos na ditadura militar brasileira.

Infância e formação[editar | editar código-fonte]

Maria Lúcia nasceu em Agudos, no interior do estado de São Paulo. Era filha de José Bernardino da Silva Júnior e de Julieta Petit da Silva, e irmã de Jaime Petit da Silva e Lúcio Petit da Silva, ambos guerrilheiros que desaparaceram no Araguaia durante o regime militar.

Cursou o primário, o ginasial e os dois primeiros anos do curso Normal em Duartina (SP), vindo a concluí-lo em São Paulo, no Instituto de Educação  Fernão Dias, no bairro de Pinheiros, em 1968, quando participou do movimento estudantil secundarista. Em 1969, prestou concurso público para o magistério e passou a lecionar na EMPG Tenente Aviador Frederico Gustavo dos Santos, na Vila Cachoeirinha, na capital paulista.[4]

No início de 1970, como militante do PC do B, foi para o interior de Goiás e, logo após para o sudeste do Pará. Maria Lucia se dedicou ao magistério e ao trabalho na roça, conquistando grande simpatia dos moradores da redondeza.

Morte[editar | editar código-fonte]

Maria pertenceu ao destacamento C da Guerrilha do Araguaia. Segundo depoimentos de sobreviventes, ela foi morta a tiro em junho de 1972, em confronto com uma patrulha do Exército Brasileiro próximo a Xambioá, região do Araguaia, sul do Pará. Maria liderou um grupo de guerrilheiros na tarde de 16 de junho até a casa de 'João Coioió', caboclo da região e até então de confiança dos guerrilheiros e amigo de 'Maria', na busca por suprimentos. Coioió, como vários camponeses da área, foram aliados dos militares e havia se passado para o lado das forças contra-terroristas comunistas, Maria foi atingida por Coioió com um tiro de carabina na trilha próxima à casa, morrendo instantaneamente.[5]

O Relatório Arroyo, escrito por Ângelo Arroyo, dirigente do PCdoB que conseguiu escapar do cerco militar à região em 1974, descreveu sua morte:

Em meados de junho, três companheiros dirigidos por Mundico [Rosalindo Souza] procuraram um elemento de massa, João Coioió, para pedir-lhe que fizesse uma pequena compra em São Geraldo. Coioió já tinha ajudado várias vezes os guerrilheiros com comida e informação. Ficou acertado o dia em que ele voltaria de São Geraldo para entregar as encomendas. À noitinha desse dia aproximaram-se da casa Mundico, Cazuza [Miguel Pereira dos Santos] e Maria [Maria Lúcia Petit da Silva], mas perceberam que não havia ninguém. Cazuza afirmou que ouvira alguém dizendo baixinho: “pega, pega”. Mas os outros dois nada tinham ouvido.

Acamparam a uns 200 metros. Durante a noite ouviram barulho que parecia de tropa de burro chegando na casa. De manhã cedo, ouviram barulho de pilão batendo. Aproximaram-se com cautela, protegendo-se nas árvores. Maria ia à frente. A uns 50 metros da casa, recebeu um tiro e caiu morta. Os outros dois retiraram-se rapidamente. Dez minutos depois, os helicópteros metralhavam as áreas próximas da casa. Alguns elementos de massa disseram, mais tarde, que Maria fora morta com um tiro de espingarda desfechado por Coioió. Este, logo depois, desapareceu com toda a família.[6]

Exumação e identificação[editar | editar código-fonte]

Enterrada em sigilo pelos militares no cemitério de Xambioá, envolta num tecido de pára-quedas e com a cabeça coberta por um plástico,[7] foi dada como desaparecida por quase duas décadas, até que seus seus restos mortais foram localizados em 1991 e identificados em 1996, após cinco anos de perícias na UNICAMP, sendo sepultados na cidade de Bauru, estado de São Paulo.[8] É um dos dois únicos guerrilheiros do Araguaia até hoje identificados por exame de DNA.[9]

Durante os cinco anos seguintes de sua morte, sua mãe, Julieta, uma costureira que vivia em São Paulo, acreditava que seus três filhos estivessem presos ou vivendo no exterior, impossibilitados de se comunicarem com ela. Ao lado de um retrato de Maria Lúcia, colocava religiosamente uma flor no dia do aniversário da filha, que só retirava quando as pétalas caiam.[10]

Foi a Lei n. 9140/95 que reconheceu sua morte. O texto da lei  reconhece como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades políticas, entre 02/09/61 a 15/08/79, e que por este motivo tenham sido detidas por agentes públicos, achando-se, desde então, desaparecidas, sem que delas haja notícias. No Anexo I desta Lei foram publicados os nomes das pessoas que se enquadram na descrição acima. Ao todo são 136 nomes. [4]

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Em 15 de junho de 1996, houve um culto ecumênico e vigília em sua homenagem na Câmara Municipal de São Paulo. No dia seguinte, seus restos mortais foram traslados para o cemitério de Bauru (SP), com a presença de sua mãe, Julieta Petit da Silva, morta em 2007, sem ter conseguido encontrar os restos mortais de seus dois outros filhos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, Lúcio e Jaime. Em sua homenagem, seu nome foi dado a ruas em São Paulo (no bairro Jardim Toca); Belo Horizonte (Jardim das Nações); e Campinas (SP), no bairro Visconde do Rio Branco); e, no Rio de Janeiro, a uma praça no bairro Santa Cruz. Em outra homenagem, Maria Lúcia passou a denominar uma escola primária na Freguesia do Ó, em São Paulo.

Maria Lucia Petit da Silva foi homenageada na 1º edição do Prêmio Beth Lobo de Direitos Humanos das Mulheres, promovido pela Assembleia Legislativa de São Paulo, no ano de 2012.

Família dizimada[editar | editar código-fonte]

Em 1973, Jaime Petit da Silva foi assassinado pelo regime militar. Um ano depois, Lúcio, o mais velho, teve o mesmo destino. A mãe, Laura, sabia do envolvimento dos filhos com a política, mas não do envolvimento direto com a Guerrilha. Até a Lei da Anistia, em 1979, acreditou que eles pudessem estar vivos. [11] [12]

Corte Internacional de Direitos Humanos e Comissão da Verdade[editar | editar código-fonte]

Em 2010, a Corte Internacional de Direitos Humanos condenou o Brasil pelas violações cometidas durante o período da ditadura militar. O processo surgiu a partir d euma petição conjunta do ‘Centro pela Justiça e o Direito Internacional’ (CEJIL) e da ‘Human Rights Watch/Americas’ [13]

A decisão determinou que a Lei da Anistia fosse invalidada parcialmente, para não vetar a investigação dos envolvidos nas violações de direitos humanos.

Em 2011, foi criada em São Paulo, através da Resolução n. 36, a Comissão da Verdade, que tem como objetivo apurar e esclarecer as violações cometidas durante a ditadura militar, incluindo o caso de Maria Lúcia Petit.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências