Maria Leopoldina de Áustria

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Maria Leopoldina
CoA Empire of Brazil (1870-1889).svg
Imperatriz consorte do Brasil
Rainha consorte de Portugal
Arquiduquesa da Áustria
Imperatriz consorte do Brasil
Período 12 de outubro de 1822 a 11 de dezembro de 1826
Predecessora nenhuma
Sucessora Amélia de Beauharnais
Rainha consorte de Portugal
Período 26 de março de 1826 a 28 de maio de 1826
Predecessor Carlota Joaquina de Bourbon
Sucessor Fernando de Saxe-Coburgo-Gota
Cônjuge Pedro I do Brasil e IV de Portugal
Descendência
Maria II de Portugal
Miguel
João Carlos
Januária
Paula Mariana
Francisca
Pedro II do Brasil
Nome completo
Carolina Josefa Leopoldina
Casa Habsburgo-Lorena
Bragança
Pai Francisco II, Sacro Imperador Romano-Germânico
Mãe Maria Teresa de Bourbon
Nascimento 22 de Janeiro de 1797
Palácio de Schönbrunn, Viena,  Áustria
Morte 11 de dezembro de 1826 (29 anos)
Palácio de São Cristóvão, Rio de Janeiro,  Brasil
Enterro 14 de dezembro de 1826
Convento da Ajuda, Rio de Janeiro (até 1911)
Convento de Santo Antônio, Rio de Janeiro (até 1954)
Capela Imperial, São Paulo
Religião Católica Romana
Assinatura
Brasão

Dona Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena[1] [2] [3] [4] (em alemão: Caroline Josepha Leopoldine von Habsburg-Lothringen) (Viena, 22 de janeiro de 1797Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1826) que, no Brasil, passou a assinar Maria Leopoldina e Leopoldina, foi arquiduquesa da Áustria, primeira imperatriz-consorte do Brasil, regente do Brasil em setembro de 1821, e, durante oito dias, em 1826, rainha consorte de Portugal.

Origem e infância[editar | editar código-fonte]

Leopoldina pertencia à Casa de Habsburgo, nobre família e uma das mais antigas dinastias da Europa, a qual reinou sobre a Áustria de 1282 até 1918, dentre outros territórios que imperaram e era a mais antiga casa reinante na europa quando Leopoldina nasceu. Era filha do último imperador do Sacro Império Romano-Germânico Francisco II (1768-1835), (o qual, a partir de 1804, passou a ser apenas o "Imperador da Áustria" com o título de Francisco I, porque Napoleão I exigiu que ele renunciasse ao título de imperador, no ano em que Napoleão era sagrado imperador dos franceses), e de sua segunda esposa e prima Maria Teresa da Sicília ou de Bourbon - Nápoles (1772-1807) princesa das Duas Sicílias, de um ramo da Casa de Bourbon, pois filha do rei Ferdinando I (1751-1825) e de sua esposa Maria Luisa (1745-1792).

Francisco, seu pai, era viúvo de Isabel Guilhermina Luísa von Württemberg, morta sem descendência em 1790; casaria por terceira vez com Maria Ludovica d'Este, a quem Leopoldina chamava «mãe», que não teve filhos e morreu em 1816; e casou uma quarta vez com Carolina Augusta da Baviera, morta em 1873 sem filhos.

O nome completo da arquiduquesa, que viria a ser a primeira imperatriz do Brasil, era Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, como informa o seu biógrafo e grande estudioso de sua vida, Carlos H. Oberacker Jr, na obra "A Imperatriz Leopoldina: Sua Vida e Sua Época.", confirmado também pela obra "Cartas de uma Imperatriz", de Bettina Kann e outros autores. Em um dos ensaios apresentados no livro, é citado um trecho do publicado no jornal austríaco "Wiener Zeitung", de 25 de janeiro de 1797, dando a notícia do nascimento da Arquiduquesa Carolina Josefa Leopoldina, acontecido três dias antes, num domingo, dia 22 de janeiro. Informa Oberacker Jr. (p. 301 e 302) que o nome "Maria" não se encontra entre os nomes de batismo da Arquiduquesa, o que de fato é verdade. Segundo ele, D. Leopoldina passou a usá-lo já em sua viagem para o Brasil, ao tratar de alguns negócios particulares. No Brasil, ela passou a assinar somente Leopoldina, ou utilizando o pré-nome Maria, como pode ser visto no seu Juramento à Constituição do Brasil. Uma outra hipótese também apresentada pelo mesmo autor é que D. Leopoldina teria adotado o "Maria" por sua grande devoção à Virgem e pelo fato de todas as infantas portuguesas usarem este nome.

Comitiva[editar | editar código-fonte]

Cresceu no castelo de Schönbrunn até a data de seu casamento com D. Pedro de Alcântara (1798-1834), em 1817, por procuração. D. Pedro de Alcântara de Bragança era príncipe da Beira, depois príncipe real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e finalmente Imperador do Brasil como D. Pedro I e rei de Portugal como D. Pedro IV.

No castelo, Leopoldina seguramente deve ter apreciado os salões chamados de Bergl com pinturas murais de autoria de Johann Wenzl Bergl realizadas em 1770 que mostram paisagens europeias com uma visão do Trópico, do período final do Barroco. Nelas, a natureza é estudada, analisada, ordenada, planificada - uma série de tapeçarias do patrimônio de Luís XIV, com motivos de paisagens brasileiras, plantas e animais tropicais das coleções da América do Sul no antigo Jardim Botânico (hoje, o palmarium), e do zoo de Schönbrunn serviram como modelo.

Nas suas cartas, publicada no livro "cartas de uma imperatriz", declara zelar muito pelos deveres de princesa.

Debret: Desembarque da princesa Leopoldina, 1817. Museu da Chácara do Céu.

Depois de chegar ao Brasil, para onde veio entusiasmada pois se interessava por botânica e mineralogia, acabou respeitando e amando o país. Havia vindo acompanhada por numerosos cientistas, botânicos e pintores.

Casamento em Viena[editar | editar código-fonte]

Teve enorme papel nas negociações do casamento o Marquês de Marialva, o mesmo que negociara, aconselhado por Humboldt, a vinda para o Brasil da Missão Francesa. D. João tudo fez para incluir nas negociações a Infanta Dona Isabel Maria (1801-1876) que seria Regente do reino de Portugal de 1826 a 1828 e faleceria solteira. Marialva foi, por exemplo, quem garantiu que a corte estava decidida a voltar para Portugal logo que o Brasil demonstrasse que havia seguramente "escapado das chamas das guerras da independência que avançavam nas colônias espanholas", obtendo assim o consentimento austríaco ao casamento. O contrato foi concluído em 29 de novembro de 1816, e assinado. O noivo era filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina de Bourbon, herdeiro do trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve.

A cerimônia do casamento, celebrada pelo Arcebispo de Viena, se realizou na terça-feira dia 13 de maio de 1817, por procuração, na igreja de Santo Agostinho, em Viena. D. Pedro foi representado pelo arquiduque Carlos Luís (1771-1847), ou Karl Ludwig, grande chefe militar, herói da batalha de Aspern (casariam de novo em 6 de novembro de 1817 no Rio):

"O ponto culminante das cerimônias de casamento foi atingido no Augarten de Viena onde, a 1 de junho, Marialva, que tinha tido poucas oportunidades para revelar o esplendor, riqueza e hospitalidade de sua nação, deu uma suntuosa recepção para a qual fizera preparativos durante todo o inverno.» Pouco tempo antes do casamento, duas fragatas austríacas, a Áustria e a Augusta, partiram para o Rio, com os móveis e decorações para a embaixada da Áustria recém instalada no Rio, o equipamento para uma expedição científica ao interior do Brasil e numerosas mostras de produtos comerciais austríacos."

O cortejo matrimonial deixou Viena com esplendor em 3 de junho, em uma quinzena tinham atingido Florença, mas a esquadra portuguesa só chegou a Livorno a 24 de julho. O comboio matrimonial partiu a 15 de agosto, com D. Leopoldina, 28 pessoas da comitiva na nau D. João VI e o embaixador austríaco conde de Elz com seus auxiliares na nau D. Sebastião.

Chegada ao Brasil[editar | editar código-fonte]

Retrato de Dona Leopoldina por Luís Schlappriz.

À chegada ao Rio, em 5 de novembro, a austríaca teria causado espanto aos reis, que esperavam uma bela princesa. Consta que tinha uma bela face e era obesa. Também era extraordinariamente culta para sua época, com grande interesse pela botânica. A chegada, proporcionou a Jean Baptiste Debret ocasião para sua primeira intervenção, onde teve 12 dias para ornamentar a cidade. O mesmo possuía um atelier no bairro do Catumbi, onde na sua qualidade de naturalista, fez mais tarde desenhos de plantas e flores para D. Leopoldina. Diria ele: "J’ai été chargé d’exécuter gracieusement pour elle quelques—uns de ces dessins, ce qu’elle (l’impératrice) osait demander, affirmait-elle, au nom de sa soeur, l’ancienne impératrice des Français." (ou seja, "Fui encarregado de executar graciosamente para ela alguns desenhos que ela ousava pedir, dizia, em nome de sua irmã, antiga imperatriz dos franceses.") Pois uma irmã mais velha de Leopoldina foi Maria Luísa, a segunda esposa de Napoleão e segunda imperatriz dos franceses. No atelier, Debret desenhou os grandes uniformes de gala da corte, em verde e ouro, as condecorações do novo Estado, como a Coroa de Ferro criada por Napoleão em 1806 para o reino da Itália. Debret desenhou também as insígnias da Ordem do Cruzeiro do Sul, comparáveis à da medalha da Legião de Honra, e as da Ordem da Rosa, instituída em homenagem à neta de Josefina, primeira esposa de Napoleão, D. Amélia de Leuchtenberg ou de Beauharnais, duquesa de Leuchtenberg.

O historiador Carlos Oberacker, em seu livro "A Imperatriz Leopoldina - Sua Vida e Sua Época", narra que era exímia caçadora e que acompanhou o marido em caçadas na planície de Jacarepaguá durante a lua-de-mel. Ali, na sacristia da Igreja Nossa Senhora da Penha, existe uma cadeirinha, que, segundo a tradição, serviu a Dona Leopoldina. Mais tarde, a cadeirinha foi usada por D. Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II (1825-1891).

O jovem casal foi instalado em uma casa de campo nos terrenos da Quinta da Boa Vista. Metternich interceptaria uma carta do barão de Eschwege a seu sócio em Viena em que este dizia: "Por falar no Príncipe Herdeiro, posto que não seja destituído de inteligência natural, é falho de educação formal. Foi criado entre cavalos, e a Princesa cedo ou tarde perceberá que ele não e capaz de coexistir em harmonia. Além disso, a Corte do Rio é muito enfadonha e insignificante, comparada com as cortes da Europa".

Imigração[editar | editar código-fonte]

Na esteira de D. Leopoldina chegaram os primeiros imigrantes, colonos suíços que se fixaram nos arredores da corte, fundando Nova Friburgo e instalando-se na futura Petrópolis, residência de verão sobretudo do Segundo Império. A partir de 1824, devido à campanha brasileira na Europa organizada pelo Major Schäffer, os alemães chegaram mais numerosos e se instalaram outra vez em Nova Friburgo e nas regiões temperadas das províncias de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, onde a Colônia de São Leopoldo foi criada em sua homenagem. Alguns da Pomerânia foram para o Espírito Santo, vivendo até os anos 1880 em tão completo isolamento que nem falavam português.

Regente do Brasil[editar | editar código-fonte]

Dona Leopoldina, então Princesa Real-Regente do Reino do Brasil, preside a reunião do Conselho de Ministros em 2 de setembro de 1822.

Em 25 de abril de 1821 a corte voltou para Portugal. Uma esquadra de 11 navios levou o rei, a corte, a Casa Real e o tesouro real, e só o Príncipe D. Pedro permaneceu no Brasil como regente do país, com amplos poderes contrabalançados por um Conselho de Regência. A princípio, D. Pedro foi incapaz de dominar o caos: a situação estava dominada pelas tropas portuguesas, em condições anárquicas. A oposição entre portugueses e brasileiros tornou-se cada vez mais evidente. Vê-se claramente, na correspondência de D. Leopoldina, que ela esposou calorosamente a causa do povo brasileiro e chegou a desejar a independência do país, sendo por isso amada e venerada pelos brasileiros.

Segundo Ezekiel Ramirez, abaixo citado, eram visíveis os sinais de uma nascente unidade brasileira como nação independente nas províncias do sul, mas o norte apoiava as Cortes de Lisboa e pediam independência regional. Se o Príncipe Regente tivesse deixado o país naquele momento, o Brasil estaria perdido para Portugal pois as Cortes de Lisboa repetiam o mesmo erro que levou as Cortes espanholas a perderem as colônias, procurando estabelecer contactos diretos com cada província em particular.

No Rio, milhares de assinaturas colhidas exigiam dos Regentes permanecerem no Brasil. «A corajosa atitude de José Bonifácio de Andrada e Silva contra a arrogância dos portugueses encorajou muito as aspirações de unidade que existiam nas províncias meridionais, especialmente em São Paulo. Um grupo de homens altamente cultos liderou este movimento.» Depois do dia do Fico, 9 de janeiro de 1822, organizou-se novo ministério sob a chefia de José Bonifácio, «no fundo rigoroso monarquista», e o Príncipe Real cedo conquistaria a confiança do povo. Em 15 de fevereiro de 1822 as tropas portuguesas deixaram o Rio, e sua partida representou a dissolução dos laços entre o Brasil e a metrópole. O Príncipe foi triunfalmente recebido nas Minas Gerais.

Imperatriz do Brasil[editar | editar código-fonte]

Juramento da imperatriz Maria Leopoldina à Constituição do Brasil, 1824.

Quando o marido, príncipe regente, viajou a São Paulo em agosto de 1822, para apaziguar a política (o que culminaria na proclamação da lndependência do Brasil em setembro), D. Leopoldina exerceu a regência. Grande foi sua influência no processo de independência. Os brasileiros já estavam cientes de que Portugal pretendia chamar D. Pedro de volta, rebaixando o Brasil outra vez ao estatuto de simples colônia, em vez de um reino unido ao de Portugal. Havia temores de que uma guerra civil separasse a Província de São Paulo do resto do Brasil. D. Pedro entregou o poder a D. Leopoldina a 13 de agosto de 1822, nomeando-a chefe do Conselho de Estado e Princesa Regente Interina do Brasil, com poderes legais para governar o país durante a sua ausência e partiu para apaziguar São Paulo.

A princesa recebeu notícias que Portugal estava preparando ação contra o Brasil e, sem tempo para aguardar o retorno de D. Pedro, D. Leopoldina, aconselhada por José Bonifácio de Andrada e Silva, e usando de seus atributos de chefe interina do governo, reuniu-se na manhã de 2 de setembro de 1822, com o Conselho de Estado, assinando o decreto da Independência, declarando o Brasil separado de Portugal. A imperatriz envia-lhe uma carta, juntamente com outra de José Bonifácio, além de comentários de Portugal criticando a atuação do marido e de dom João VI. Ela exige que D. Pedro proclame a Independência do Brasil e, na carta, adverte: "O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece".

O oficial chegou ao príncipe no dia 7 de setembro de 1822. Leopoldina enviara ainda papéis recebidos de Lisboa, e comentários de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, deputado às Cortes, pelos quais o Príncipe-Regente se inteirou das críticas que lhe faziam na Metrópole. A posição de D. João VI e de todo o seu ministério, dominados pelas Cortes, era difícil.

Enquanto se aguardava o retorno de D. Pedro, Leopoldina, governante interina de um Brasil já independente, idealizou a bandeira do Brasil, em que misturou o verde da família Bragança e o amarelo ouro da família Habsburgo. Outros autores opinam que Jean Baptiste Debret, o artista francês que desenhou o que via no Brasil dos anos 1820, foi o autor do pavilhão nacional que substituía o da vetusta corte portuguesa, símbolo da opressão do Antigo Regime. Deve-se a Debret o projeto da bela bandeira imperial, em colaboração com José Bonifácio de Andrada e Silva, em que o retângulo verde dos Bragança representava as florestas e o losango amarelo, cor da dinastia Habsburgo-Lorena, representava o ouro.

Foi coroada imperatriz em 1 de dezembro de 1822, na cerimônia de coroação e sagração de D. Pedro I.

Morte[editar | editar código-fonte]

D. Maria Leopoldina e seus filhos.

Há divergências sobre a causa mortis da primeira imperatriz do Brasil. Para alguns autores, teria falecido em consequência de uma septicemia puerperal,[5] enquanto o Imperador se encontrava no Rio Grande do Sul, aonde fora inspecionar as tropas durante a Guerra da Cisplatina.

É no entanto muito difundida a versão de que D. Maria Leopoldina teria morrido em consequência das agressões desferidas contra si durante acesso de raiva de seu marido, o imperador, versão essa corroborada por historiadores como Gabriac, Carl Seidler, John Armitage e Isabel Lustosa.[6] [7] [8] Essa suposta causa da morte sofreu um revés, com a recente exumação de seus restos mortais onde não se verificou nenhuma fratura.[9] Isso se teria dado em 20 de novembro de 1826, quando assumiria a regência do país para que D. Pedro pudesse viajar ao Sul para tratar da guerra contra o Uruguai. Querendo demonstrar ser mentira os boatos sobre suas relações extraconjugais e o clima ruim entre o casal, D. Pedro I resolveu que o beija-mão à regente seria feito em sua presença, junto a Domitília de Castro, marquesa de Santos e dama de companhia da imperatriz. D. Maria Leopoldina, arquiduquesa austríaca, achou uma enorme humilhação ser recebida pela corte junto à amante de seu marido, e afrontou D. Pedro recusando-se a entrar na sala do Trono. O imperador, de gênio volátil, tentou arrastá-la pelo palácio, agredindo-a com palavras e chutes. Acabou por comparecer ao beija-mão acompanhado unicamente pela marquesa de Santos. Há que se ressaltar que não se conhece outra testemunha no momento do fato além dos três, e que as suspeitas sobre as agressões sofridas teriam sido levantadas pelas damas e médicos que ampararam D. Maria Leopoldina na sequência. Contudo, a realidade dos fatos fora outra:

"Exagerou-se, que D. Pedro lhe dera um pontapé, razão da doença. A cena, presenciada pelo agente austríaco [refere-se ao embaixador austríaco, Filipe Leopoldo Wenzel, Barão de Mareschal], consistiu em palavras desatinadas. O certo é que não faltaram motivos a Leopoldina para a perturbação da gravidez, a cujo malogro sucumbiu."[10]

A imperatriz, que há meses encontrava-se em grave processo de depressão e na 12ª semana de gravidez, teve a saúde profundamente abalada. Em sua última carta à irmã Maria Luísa, ditada à marquesa de Aguiar, menciona um "terrível atentado" que sofrera pelas mãos de seu marido na presença da amante:

Cortejo fúnebre da Imperatriz Da. Leopoldina, por Debret.

São Cristóvão, 8 de dezembro de 1826, às 4 horas da manhã

Minha adorada mana!

Reduzida ao mais deplorável estado de saúde e tendo chegado ao último ponto de minha vida em meio dos maiores sofrimentos, terei também a desgraça de não poder eu mesma explicar-te todos aqueles sentimentos que há tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! Não tornarei a vê-la! Não poderei outra vez repetir que te amava, que te adorava! Pois, já que não posso ter esta tão inocente satisfação igual a outras muitas que não me são permitidas, ouve o grito de uma vítima que de tu reclama - não vingança - mas piedade, e socorro do fraternal afeto para meus inocentes filhos, que orfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autores das minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de intérprete para fazer chegar até tu os últimos rogos da minha aflita alma. A Marquesa de Aguiar, de quem bem conheceis o zelo e o amor verdadeiro que por mim tem, como repetidas vezes te escrevi, essa única amiga que tenho é quem lhe escreve em meu lugar.

Há quase quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro. Ultimamente, acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte. Cadolino, que por ti me foi recomendado, e que me tem dado todas as provas da maior subordinação e fidelidade, é quem fica encarregado de entregar-te a presente, e declarar-te o que por muitos motivos não posso confiar a este papel. Tendo ele todas as informações que são precisas sobre este artigo, nada mais tenho a acrescentar, confiando inteiramente na sua probidade, honra e fidelidade.

Faltaria ao meu dever se, além de ter declarado ao Marechal e a Cadolino que tenho dívidas contratadas (ou contraídas?) para sustentar os pobres, que de mim reclamarão algum socorro, e para as minhas despesas particulares, não dissesse a ti que o Flach, de quem tenho muitas vezes escrito, é digno de toda tua consideração e de meu Augusto Pai, a quem peço-te remeter a inclusa.

Este virtuoso amigo, além de ter se sacrificado e comprometido a si mesmo e seus negócios para me servir, não desprezou meio algum para me procurar socorros. Peço-te por quanto tens de mais sagrado de lhe prestares todo o auxílio, de modo que ele possa satisfazer aquelas dívidas que por mim tem contraído. Recomendo este exemplo da mais virtuosa amizade. Cadolino te dirá qual foi o procedimento de Marechal para comigo. A Marquesa de Aguiar fica encarregada de dar a ti os mais miúdos detalhes sobre quanto diz respeito às minhas queridas filhas. Ah, minhas queridas filhas! Que será delas depois da minha morte? É a ela que entreguei a sua educação até que o meu Pedro, o meu querido Pedro não disponha o contrário. Adeus minha adorada mana.

Permita o Ente Supremo que eu possa escrever-te ainda outra vez, pois que será o final do meu restabelecimento.

L. S. B. Marquesa de Aguiar Escrevi.[11] [nota 1]

Túmulo de Dona Leopoldina (Cripta Imperial - São Paulo - Brasil).

Durante a agonia de d. Leopoldina surgiram os mais diversos boatos: de que a imperatriz era prisioneira na Quinta da Boa Vista, de que estava sendo envenenada por seu médico a mando da marquesa de Santos entre outros. A popularidade de Domitília de Castro, que já não era das melhores, piorou, tendo sua casa em São Cristóvão sido apedrejada e seu cunhado, camareiro da imperatriz, alvejado por dois tiros. O direito de presidir as consultas médicas à imperatriz, como sua dama de companhia, lhe foram negadas, e ministros e funcionários do paço sugeriram que ela não deveria continuar frequentando a corte.

O comunicado emitido em 11 de dezembro ao imperador sobre a morte de sua esposa relata convulsões, febre alta e delírios. O filho que carregava no ventre morreu consigo. Gozando de grande apreço pela população, que lhe admirava muito mais do que ao marido, teve sua morte chorada por grande parte da nação.[12]

Esta versão dos acontecimentos foi propagada até a Europa, tendo a reputação de D. Pedro ficado de tal modo manchada que o seu segundo casamento tornou-se deveras dificultoso. É dito que o primeiro galardoado da Imperial Ordem de Pedro Primeiro, Francisco I da Áustria, teria recebido a comenda como um pedido de desculpas do imperador brasileiro.

Morte e preservação da memória[editar | editar código-fonte]

Morreu no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, bairro de São Cristovão, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, em 11 de dezembro de 1826. Seu corpo, revestido do manto imperial, foi colocado em três urnas: a primeira de pinho português, a segunda de chumbo (com a inscrição latina própria, sobre a qual havia uma caveira com duas tíbias cruzadas e, sobre esta o brasão imperial em prata) e a terceira de cedro.

Foi sepultada no Convento da Ajuda, na atual Cinelândia. Quando o convento foi demolido, em 1911, os restos foram transladados para o Convento de Santo Antônio, também no Rio de Janeiro, onde foi construído um mausoléu para ela e alguns membros da Família Imperial. Em 1954, foram transferidos definitivamente para um sarcófago de granito verde ornado de ouro, na Capela Imperial, sob o Monumento do Ipiranga, na cidade de São Paulo.

Descendência[editar | editar código-fonte]

  1. D. Maria da Glória (4 de abril de 1819 - 15 de novembro de 1853), rainha de Portugal, casou-se em 1835 com D. Augusto de Beauharnais e em 1836 com Fernando de Saxe-Coburgo-Gota;
  2. D. Miguel (1820);
  3. D. João Carlos (6 de março de 1821 - 4 de fevereiro de 1822);
  4. D. Januária Maria (11 de março de 1822 - 13 de março de 1901), casou-se em 1844 com Luís de Duas Sicílias príncipe de Nápoles;
  5. D. Paula Mariana (17 de fevereiro de 1823 - 16 de janeiro de 1833);
  6. D. Francisca Carolina (2 de agosto de 1824 - 27 de março de 1898), casou-se em 1843 com Francisco Fernando de Orléans, príncipe de Joinville, filho do rei Luís Filipe I de França; era apelidada de "La Belle Françoise".
  7. D. Pedro de Alcântara (2 de dezembro de 1825 - 5 de dezembro de 1891), segundo imperador do Brasil, casou-se em 1842 com Teresa de Duas Sicílias.

Títulos e tratamentos[editar | editar código-fonte]

Estilo imperial de tratamento de
Dona Maria Leopoldina
CoA Empire of Brazil (1822-1870).svg
Estilo imperial Sua Majestade Imperial
Estilo alternativo Senhora
Estilo real de tratamento de
Dona Maria Leopoldina
Coat of arms of the Kingdom of Portugal (Enciclopedie Diderot).svg
Estilo real Sua Majestade Fidelíssima
Estilo alternativo Senhora
  • 22 de janeiro de 1797 – 11 de agosto de 1804: Sua Alteza Real, Arquiduquesa Leopoldina da Áustria
  • 11 de agosto de 1804 – 6 de novembro de 1817: Sua Alteza Imperial e Real, Arquiduquesa Leopoldina da Áustria
  • 6 de novembro de 1817 – 12 de outubro de 1822: Sua Alteza Real, a Princesa Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Duquesa de Bragança
  • 12 de outubro de 1822 – 10 de março de 1826: Sua Majestade Imperial, a Imperatriz do Brasil
  • 10 de março de 1826 – 28 de maio de 1826: Sua Majestade Imperial e Fidelíssima, a Imperatriz do Brasil e Rainha de Portugal
  • 28 de maio de 1826 – 11 de dezembro de 1826: Sua Majestade Imperial, a Imperatriz do Brasil

Representações na cultura[editar | editar código-fonte]

A imperatriz Leopoldina já foi retratada como personagem no cinema e na televisão, interpretada por Kate Hansen no filme "Independência ou Morte" (1972), Maria Padilha na novela "Marquesa de Santos" (1984) e Érika Evantini na minissérie "O Quinto dos Infernos" (2002).

A vida de D. Leopoldina também foi tema do enredo de 1996 da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, cujo próprio nome já deriva indiretamente do seu (porque a escola é sediada na zona da Estrada de Ferro Leopoldina, assim batizada em homenagem à imperatriz). Na ocasião, a carnavalesca Rosa Magalhães recebeu apoio do governo da Áustria para a realização do desfile.

Em 2007, a atriz Ester Elias deu vida a uma Leopoldina no musical Império, de Miguel Falabella, que conta parte da história do Império do Brasil.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • KAIZER, Glória, Dona Leopoldina, Uma Habsburg no trono brasileiro, Editora Nova Fronteira, 1997.
  • KANN, Betina, SOUZA LIMA, Patrícia, seleção, Cartas de uma imperatriz, Editora Estação Liberdade, São Paulo, 2006.
  • LACOMBE, Américo Jacobina, tradutor, Correspondência entre Maria Grahan e a Imperatriz Dona Leopoldina, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1997.
  • PRANTNER, Johanna, Imperatriz Leopoldina do Brasil, Editora Vozes, Petrópolis, 1998.
  • RAMIREZ, Ezekiel Stanley, As relações entre a Áustria e o Brasil - 1815-1889, Coleção, Brasiliana, Volume 337, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1968, tradução e notas por Américo Jacobina Lacombe.

Notas

  1. Estudos recentes demonstram que essa última carta de Leopoldina pode ser uma fraude. A original, em francês, nunca foi encontrada em qualquer arquivo, no Brasil ou no exterior. A cópia existente no Arquivo Histórico do Museu Imperial, em Petrópolis, está escrita em português, com uma única frase em francês dizendo que a transcrição foi feita de acordo com uma original expedida em 12 de dezembro de 1826. Essa cópia, utilizada por todos os estudiosos até então, só surgiu no Rio de Janeiro em 5 de agosto de 1834 — quase oito anos após a morte de Lepoldina — para ser registrada junto ao tabelião Joaquim José de Castro. Serviram como testemunhas para atestar a origem da carta: César Cadolino, J. M. Flach, J. Buvelot e Carlos Heindricks. Desses, comprovadamente com dois, Cadolino e Flach, d. Leopoldina fizera grandes dívidas e nada melhor, para os credores, do que ter uma confissão delas feita pela própria imperatriz. (REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão. Cartas Inéditas de D. Pedro I à Marquesa de Santos. Geração Editorial, 2011.)

Referências

  1. "Casamento de d. Pedro"' in: "O Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira"
  2. CASTRO, Manuel António de. D. Carolina Josefa Leopoldina, Princeza Real do Reino Unido, de Portugal, Brazil, e Algarves, 1819
  3. Carolina Josefa Leopoldina, imperatriz Leopoldina
  4. Primeira imperatriz do Brasil - Maria Leopoldina
  5. RANGEL, Alberto. Dom Pedro e a Marquesa de Santos. São Paulo: Brasiliense, 1969
  6. SANTOS, Eugénio dos. "D. Pedro IV", Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2006
  7. SEIDLER, Carl. "Dez Anos no Brasil", Itatiaia, São Paulo, Belo Horizonte, 1980
  8. OBERACKER Jr, Carlos. "A Imperatriz Leopoldina. Sua Vida e Sua Época", Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1973
  9. MELO, Alice & CUNHA, Gabriela Nogueira (entrevistadores) & AMBIEL, Valdirene do Carmo (entrevistada)"Escavando o Passado", RHBN, 25/02/2013
  10. Calmon, Pedro. História de D. Pedro II. 5 v. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1975, p.14
  11. Kann, Bettina. Cartas de uma Imperatriz. 1ª ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2006, p.451
  12. LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I - Um herói sem caráter. Companhia das Letras, 2006
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Casa de Habsburgo
Nascimento: 22 de janeiro de 1797; Morte: 11 de dezembro de 1826
Precedida por
Nenhuma
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Imperatriz do Brasil
18221826
Sucedida por
D. Amélia de Leuchtenberg
Precedida por
D. Carlota Joaquina de Bourbon
Coat of arms of the Kingdom of Portugal (Enciclopedie Diderot).svg
Rainha de Portugal
1826
Sucedida por
D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota
Precedida por
D. Pedro I
Como Príncipe Real de
Portugal, Brasil e Algarves
Flag of Empire of Brazil (1822-1870).svg
Regente do Brasil
Sucedida por
Marquês de Caravelas
Senador Vergueiro
Barão de Barra Grande