Maria do Carmo Brito

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Maria do Carmo Brito
Nascimento 1943 (71 anos)
Belo Horizonte, Brasil
Nacionalidade Brasil brasileira
Ocupação guerrilheira, socióloga
Influências

Maria do Carmo Brito (Belo Horizonte, 1943) é uma socióloga e ex-guerrilheira brasileira, integrante da luta armada contra a ditadura militar instalada no país em 1964. Codinome "Lia" na clandestinidade, foi integrante da Política Operária (Polop), do COLINA, uma das principais dirigentes da VAR-Palmares, onde comandou a atual presidente do Brasil, Dilma Roussef,[1] e da VPR, onde se tornou a primeira mulher a comandar uma organização guerrilheira em toda a América Latina.[2] Ícone da presença feminina na luta armada brasileira, foi presa, torturada e banida do país em 1970, retornando apenas em 1979 por força da Lei da Anistia. Hoje vive no Rio de Janeiro.

Militância e guerrilha[editar | editar código-fonte]

Integrante de uma família mineira de classe média e filha de um líder sindical, Maria do Carmo começou a participar de processos de mobilização social ainda na adolescência, ligada então à Juventude Estudantil Católica.[3] Em 1962, casou-se com Juares de Brito, líder estudantil e colega na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Minas Gerais, que começou a namorar durante uma manifestação estudantil, fugindo da polícia.[4] No golpe militar de 1964, ela integrava a POLOP, junto com o marido, que foi preso em Recife, para onde tinham se mudado depois que ele conseguiu um emprego na Sudene.[5] Após sua libertação, os dois se mudaram para o Rio de Janeiro.

Assumindo a identidade da irmã Magda, falecida na infância, ela continuou sua graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense à noite, trabalhando na representação comercial da Legação da Bulgária de dia.[6] Depois trabalhou como tradutora na Enciclopédia Larousse, dirigida por Antônio Houaiss e tendo como colegas Paulo Francis e Otto Maria Carpeaux. Ela e o marido continuam na militância na POLOP até 1968, quando se desligam da organização e fundam o COLINA (Comando da Libertação Nacional) onde militam e praticam diversas ações armadas até 1969, quando ela se funde com a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), dando origem à VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares).[2]

Em 1969, "Lia" e Juares planejam e participam de um dos mais conhecidos episódios da guerrilha da época, o assalto ao "cofre do Adhemar", um cofre escondido na casa da amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, Ana Benchimol Capriglione, de onde são retirados cerca de US$2,5 milhões de dólares, a maior apropriação financeira feita por um grupo guerrilheiro no mundo até aquela época.[7]

Depois da ação, a VAR-Palmares se divide, dali nascendo uma nova VPR, com um comando tríplice de Maria do Carmo, Ladislas Dowbor e Carlos Lamarca. "Lia" se torna a primeira comandante mulher de uma organização guerrilheira.

Em 18 de abril de 1970, ela e Juares são emboscados pela polícia durante um encontro com um militante no Rio de Janeiro. Cercados, Juares suicida-se com um tiro para não ser preso mas Maria do Carmo é capturada. Torturada por dois meses, o que a fazia ficar menstruada todo o tempo, passando por afogamentos e utilização de pentotal (soro da verdade)[3] , ela não resiste e entrega detalhes de operações e companheiros, provocando baixas na organização, o que viria a assumir mas lamentar décadas depois.[7] Em julho de 1970, é incluída na lista de presos políticos exigidos em troca da vida do embaixador alemão Ehrenfried vom Holleben, sequestrado por outro grupo guerrilheiro, e deixa o país, viúva aos 27 anos, com mais 39 companheiros libertados rumo ao exílio na Argélia.[2]

Exílio[editar | editar código-fonte]

Em Argel, ela faz contato com várias lideranças da esquerda brasileira exilada como Apolônio de Carvalho e Miguel Arraes. Lá também reencontra um antigo companheiro do COLINA, Ângelo Pezzuti, e pouco tempo depois, já companheira de Pezzuti, os dois migram para Santiago do Chile. Envolvidos numa conspiração do Cabo Anselmo, o casal acaba sendo perseguido por parte da esquerda brasileira local e a relação acaba, não resistindo às pressões, pouco antes do golpe do general Pinochet e depois dela ter seu primeiro filho, Juarez, batizado em homenagem ao ex-marido.[8]

Com o golpe militar no Chile, Maria do Carmo exila-se no Panamá, Bélgica e finalmente em Portugal, pouco depois da Revolução dos Cravos. Casada então com Chizuo Osawa, o Mário Japa (ex-guerrilheiro da VPR de Carlos Lamarca), ela participa do processo de redemocratização do país trabalhando no projeto de mobilização e organização popular criado pelo Ministério da Comunicação.[8]

Em 1975, Maria do Carmo e Mário partem para Angola, recém-independente de Portugal, onde trabalham por dois anos e ela viaja pelo país como educadora popular. Com o agravamento da situação angolana em 1977, ela retorna a Portugal e, em setembro de 1979, volta de vez ao Brasil, após a entrada em vigor da Lei da Anistia.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. O legado da Dilma militante O Globo. Visitado em 21/06/2011.
  2. a b c E aí, Lia? A história de Maria do Carmo Brito. Visitado em 21/06/2011.
  3. a b Memórias tortuosas da luta contra a ditadura Observatório da Imprensa. Visitado em 21/06/2011.
  4. Vianna, Martha. In: Record. Uma tempestade como a sua memória: a história de Lia, Maria do Carmo Brito. [S.l.: s.n.]. pg.27 pp. ISBN 85-01-06401-7.
  5. Vianna, pg.33
  6. Vianna, pg.42
  7. a b Um relato pessoal sobre a guerrilha Bula. Visitado em 19/05/2013.
  8. a b Breve biografia de Maria do Carmo Brito - Parte II. Visitado em 21/06/2011.