Medicina do Antigo Egito

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O Papiro de Edwin Smith documenta a medicina do Antigo Egito, incluindo o diagnóstico e tratamento de lesões.

A medicina do Antigo Egipto está entre as mais antigas práticas de medicina documentadas. Desde o início da civilização no século XXXIII a.C. até à invasão persa em 525 a.C., as práticas pouco se alteraram e foram extremamente avançadas para a sua época, incluindo cirurgia não-invasiva básica, ortopedia e um vasto estudo de farmacopeia. A escola de pensamento influenciou tradições posteriores, incluindo os gregos.


Fontes de informação[editar | editar código-fonte]

Até ao século XIX, as principais fontes de informação sobre a antiga medicina egípcia eram textos da antiguidade tardia. Homero c.800 a.C. observou na Odisseia: "No Egipto, os Homens são mais qualificados em medicina do que qualquer outra civilização" e "os egípcios são mais avançados em medicina do que em qualquer outra arte". [1] O historiador Grego Heródoto visitou o Egipto por volta de 440 a.C. e escreveu profusamente sobre as suas observações das práticas médicas. Plínio também descreveu favoravelmente o assunto em perspectiva histórica. Hipócrates, o "pai da medicina", Herófilo, Erasístrato e mais tarde Cláudio Galeno estudaram no templo de Amenófis III e reconheceram a contribuição da medicina egípcia para a medicina grega.

Práticas[editar | editar código-fonte]

Papiro Ebers indicando o tratamento do cancro.
Instrumentos médicos, representados numa gravura do Templo de Kom Ombo do período Ptolomaico.


A cultura médica do antigo Egipto tinha excelente reputação, e líderes de outros impérios frequentemete requisitavam ao faraó o envio do seu melhor médico para o tratamento de entes chegados.[2] Os egípcios possuíam algum conhecimento de anatomia humana. Por exemplo, no processo clássico de mumificação, os mumificadores sabiam como inserir um utensílio com um anzol na ponta através de uma narina, partindo o osso fino do crânio de modo a remover o cérebro. Também tinham uma panorâmica detalhada da localização dos órgãos internos, que removiam através de uma pequena incisão na virilha esquerda. Desconhece-se se o conhecimento na área da mumificação era transmitido aos profissionais de medicina, e não parece ter tido qualquer impacto nas teorias médicas.

Os médicos egípcios estavam cientes da existência do pulso e da relação entre o pulso e coração. O autor do Papiro de Smith possuía até uma vaga ideia do sistema cardíaco, embora nada referindo sobre a circulação sanguínea, e não foi capaz, ou não deu importância, à separação entre vasos sanguíneos, tendões e nervos. Desenvolveram a sua teoria de "canais" que transportavam ar, água ou sangue através do corpo em analogia com o rio Nilo: se estagnava, as colheitas perdiam vitalidade; e aplicaram este princípio ao corpo: se a pessoa adoecia usar-se-ia laxantes de forma a desbloquear os "canais".[3]

Um grande número de práticas médicas eram eficazes, tais como muitos dos procedimentos cirúrgicos descritos no Papiro de Edwin Smith. Uma das recomendações dos médicos para a manutenção da saúde era a lavagem e barbeio do corpo, incluindo as cavidades, o que pode ter contribuído para a prevenção de infecções. Também aconselhavam os pacientes a ter em atenção a dieta, e evitar a ingestão de peixe cru ou outros animais considerados impuros.

Porém, muitas das práticas eram ineficazes ou até mesmo prejudiciais. Michael D. Parkins sugere que 72% de 260 prescrições médicas no Papiro de Hearst não continham qualquer elemento curativo,[4] e muitos continham estrume animal, que contém sucedâneos de fermentação e bolores, alguns com propriedades curativas, mas também bactérias que constituíam uma séria ameaça para infecções.

Cirurgia[editar | editar código-fonte]

A cirurgia era uma prática comum entre médicos no tratamento de lesões físicas. Os médicos egípcios reconheciam três categorias de lesões: tratáveis, contestáveis e intratáveis. Uma lesão na categoria tratável podia ser imediatamente atendida pelos cirurgiões. Lesões contestáveis eram aquelas em que a vítima provavelmente poderia sobreviver sem tratamento, sendo os pacientes que se assumia estarem nesta categoria observados, e caso sobrevivessem então seria tentada cirurgia. Instrumentos cirúrgicos descobertos em sítios arqueológicos incluem facas, ganchos, brocas, forceps, balanças, colheres, serras e recipientes para queima de incenso.[5]

A circuncisão masculina seria provavelmente a norma, embora haja poucas evidências. Apesar da sua prática ser raramente mencionada, a sua inexistência noutras culturas era frequentemente referida e campanhas militares traziam frequentemente falos não circuncidados como troféus, o que sugere novidade. No entanto, outros registos descrevem a circuncisão nos rituais iniciantes das ordens religiosas, o que implica que seria uma prática excepcional e não disseminada. A única representação conhecida da prática, no Túmulo do Médico, sepulcro de Ankh-Mahor em Saqqara, mostra adolescentes ou adultos, e não recém-nascidos. A Circuncisão feminina pode ter sido praticada, embora a única referência a tal facto em textos antigos possa ser uma tradução errada.[6]

Eram também usadas próteses, tais como dedos e globos oculares artificiais, embora de pouco mais servissem para além de propósito ornamental. Na preparação de cerimónias fúnebres, as partes do corpo em falta completas com próteses, mas nem sempre estas mostram ter sido úteis em vida ou sequer fixas ao corpo antes da morte.[6]

O uso alargado de cirurgia, práticas de mumificação, e autópsias num quadro religioso deram aos egípcios um vasto conhecimento da morfologia do corpo, e até mesmo uma percepção considerável das funções corporais. A função de maior parte dos principais órgãos era correctamente presumida - por exemplo, o sangue era correctamente presumido como sendo um meio de troca entre vitalidade e desperdícios, o que não está muito longe do seu papel actual como transporte de oxigénio e remoção de dióxido de carbono - à excepção do coração e cérebro cujas funções estavam trocadas.

Medicina dentária[editar | editar código-fonte]

A medicina dentária era um campo importante, datando do início do terceiro milénio a.C. a sua ascensão como profissão independente. A dieta egípcia continha um alto teor de abrasivos, como areia deixada no processo de moagem, sendo portanto bastante má a condição da sua dentição, embora os arqueólogos tenham notado uma diminuição na gravidade e incidência desde 4000 a.C a 1000 d.C provavelmente devido a avanços nas técnicas de moagem.[7] Praticamente todos os restos mortais egípcios apresentam dentição em mau estado. Complicações dentárias podiam inclusive ser fatais. No entanto, se a dentição fosse poupada ao desgaste pela abrasão, as cáries eram raras devido à raridade de açúcares.

O tratamento dentário era ineficaz, e o melhor que os pacientes podiam esperar era que o dente infectado caísse rapidamente. A Instrução de Ankhsheshonq contém a expressão "Não há dente que apodreça e que continue no seu lugar"[6] Nenhum registo documenta a aceleração deste processo e não foram encontrados quaisquer utensílios adequados à extracção de dentes, embora alguns vestígios mostrem a remoção forçada.[7] Foi demonstrada a existência de próteses dentárias, embora não seja claro se são ou não apenas objectos ornamentais colocados após a morte. Casos severos de dor podem ter sido aliviados mediante a administração de ópio.[6]

Magia e religião[editar | editar código-fonte]

A magia e religião eram parte integrante do quotidiano no antigo Egipto. Os Deuses eram vistos como responsáveis por muitos alimentos, pelo que frequentemente os tratamentos envolviam um elemento sobrenatural, tal como iniciar o tratamento com um apelo a uma divindade. Não parece ter existido uma separação clara entre o que hoje se considerariam funções muito distintas como sacerdote e médico. Os curandeiros, muitos deles sacerdotes de Sekhmet, usavam muitas vezes encantamentos e magia como parte integrante do tratamento.

A crença disseminada na magia e na religião pode ter resultado num poderoso efeito placebo; isto é, a percepção da cura pode ter contribuído para a sua eficácia. O impacto da ênfase na magia pode ser observado na selecção de receitas ou as suas substâncias activas. Os ingredientes eram algumas vezes seleccionados por serem derivados de uma substância, planta ou animal com características que de certa forma correspondiam aos sintomas do paciente, facto que é conhecido pelo princípio de simila similibus e recorrente na história da medicina até à prática contemporânea. Assim, um ovo de avestruz pode ser incluído no tratamento de um crânio rachado, ou um amuleto que retrate um ouriço ser usado contra a calvície.

Os amuletos em geral eram bastante populares, sendo usados para os mais variados propósitos mágicos. Os que tinham relação com a saúde estão classificados em homeopoéticos, filáticos e teofóricos. Os homeopoéticos retratam um animal ou parte de um animal, a partir do qual quem o empenha aspira a ganhar atributos positivos como força ou velocidade. Amuletos filáticos protegem contra deuses e demónios prejudiciais, e os teofóricos representam deuses egípcios. Os amuletos são frequentemente feitos a partir de osso e seguros por uma tira de pele.

Profissionais[editar | editar código-fonte]

Prótese em madeira e pele usada por um amputado.

A antiga palavra egípcia para médico é wabau. Este título detém uma longa história. O mais antigo médico de que há registo, Hesy-Ra, praticou no antigo Egipto, sendo "Chefe dos Dentistas e Médicos junto do Rei Djoser, que reinou durante o século XXVII a.C.[8] A primeira médica pode ter sido Peseshet (2400 a.C.), possivelmente mãe de Akhethotep, e em cujo túmulo existe uma estela na qual ela é referida como imy-r swnwt, que é traduzido como Supervisora das senhoras médicas - swnwt é o feminino de swnw.

Existia uma hierarquia e especializações dentro do campo da medicina. A realeza tinha os seus próprios swnw, e até mesmo os seus próprios especialistas. Existiam também inspectores, supervisores e directores. Entre as especialidades conhecidas no antigo Egipto, está a oftalmologia, a gastroenterologia, a proctologia, a medicina dentária, um médico que supervisiona talhantes e um inspector de líquidos cuja função não é especificada.

Conhece-se a presença de instituições antigo Egipto designadas por Casas de Vida desde pelo menos a primeira dinastia. Estas instituições podem ter tido funções médicas, sendo por vezes associadas em inscrições com médicos, tais como Peftauawyneit e Wedjahorresnet, que viveram durante o I milénio a.C.[9] Por volta da 19ª Dinastia, os funcionários dispunham de vários benefícios como seguro médico, pensão e baixa médica.[8]


Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. http://www.christianwebsite.com/artman/publish/christian_articles_10.html
  2. A History of Medicine by Plinio Prioreschi, Horatius Print 1996, p.257f.
  3. http://www.passmoresschool.com/History/mrmodqa2.htm, Teoria dos canais bloqueados
  4. Parkins, Michael D.; J. Szekrenyes. (2001-03). "Pharmacological Practices of Ancient Egypt". Proceedings of the 10th Annual History of Medicine.
  5. Greiner, Ryan (2001). "Ancient Egyptian Medicine". Accessed February 2011.
  6. a b c d André Dollinger. Ancient Egyptian Medicine. Dezembro de 2002.
  7. a b John Francis Nunn. Ancient Egyptian Medicine. University of Oklahoma Press, 1996.
  8. a b Arabworldbook.com: Medicine in Ancient Egypt
  9. Digital Egypt for Universities (University College of London website) - "Knowledge and production: the House of Life"

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Inglés
  • Ancient Egyptian Medicine, John F. Nunn, 1996
  • The Greatest Benefit to Mankind: A medical History of Humanity, Roy Porter, 1997
  • A History of Medicine, Lois N. Magner, 1992
  • Medicine in the Days of the Pharaohs, Bruno Halioua, Bernard Ziskind, M. B. DeBevoise (Translator), 200
  • Pharmacological practices of ancient Egypt, Michael D. Parkins, 10th Annual Proceedings of the History of Medicine Days, 2001
  • A comparative study of urban and rural tetanus in adults, Mamtani R, Malhotra P, Gupta PS, Jain BK., 1978
  • Pain, Stephanie. (2007). "The pharaohs' pharmacists." New Scientist. 15 December 2007, pp. 40–43
Francés
  • Ange Pierre Leca, La Médecine égyptienne au temps des Pharaons, éd. Dacosta, Paris, 1992 (ISBN 2-851-28-029-5)
  • Thierry Bardinet, Les papyrus médicaux de l'Égypte pharaonique, éd. Fayard, Paris, 1995 (ISBN 2-213-59280-2)
  • Richard-Alain Jean, À propos des objets égyptiens conservés du musée d’Histoire de la Médecine, éd. Université René Descartes - Paris V, coll. Musée d'Histoire de la Médecine de Paris, Paris, 1999 (ISBN 2-9508470-3-X)
  • Richard-Alain Jean, La chirurgie en Égypte ancienne. À propos des instruments médico-chirurgicaux métalliques égyptiens conservés au musée du Louvre, Editions Cybele, Paris, 2012 (ISBN 978-2-915840-29-2)
  • Richard-Alain Jean, Anne-Marie Loyrette, À propos des textes médicaux des Papyrus du Ramesseum nos III et IV, I : la reproduction, in S.H. Aufrère (éd.), Encyclopédie religieuse de l’Univers végétal (ERUV - II), Montpellier, 2001, pp. 537-564 (ISBN 2-84269-502-6)
  • Richard-Alain Jean, Anne-Marie Loyrette, À propos des textes médicaux des Papyrus du Ramesseum nos III et IV, I : la contraception, in S.H. Aufrère (éd.), Encyclopédie religieuse de l’Univers végétal (ERUV - II), Montpellier, 2001, pp. 564-592 (ISBN 2-84269-502-6)
  • Bruno Halioua, La médecine au temps des Pharaons, éd. Liana Levi, coll. Histoire lieu, Paris, 2002 (ISBN 2-867-46-306-8)
  • Richard-Alain Jean, Anne-Marie Loyrette, À propos des textes médicaux des Papyrus du Ramesseum nos III et IV, I : la gynécologie (1), in S.H. Aufrère (éd.), Encyclopédie religieuse de l’Univers végétal (ERUV - III), Montpellier, 2005, pp. 351-487 (ISBN 2-84269-695-6)
  • Richard-Alain Jean, Anne-Marie Loyrette, La mère, l’enfant et le lait en Égypte Ancienne. Traditions médico-religieuses. Une étude de sénologie égyptienne, S.H. Aufrère (éd.), éd. L’Harmattan, coll. Kubaba – Série Antiquité – Université de Paris 1, Panthéon Sorbonne, Paris, 2010 (ISBN 978-2-296-13096-8)
Alemán

Ligações externas[editar | editar código-fonte]