Memórias Póstumas de Brás Cubas

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Memórias Póstumas de Brás Cubas
Memorias Posthumas de Braz Cubas.jpg
Volume dedicado pelo próprio autor à
Fundação Biblioteca Nacional
Autor (es) Machado de Assis
Idioma Língua portuguesa
País  Brasil
Editora Tipografia Nacional
Lançamento 1881
Machado-450.jpg Este artigo é parte da série
Trilogia Realista de Machado de Assis
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Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
Quincas Borba (1891)
Dom Casmurro (1899)
Ver também: Realismo no Brasil

Memórias Póstumas de Brás Cubas é um romance escrito por Machado de Assis, desenvolvido em princípio como folhetim, de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira, para, no ano seguinte, ser publicado como livro, pela então Tipografia Nacional.

O livro marca um tom cáustico e novo estilo na obra de Machado de Assis, bem como audácia e inovação temática no cenário literário nacional, que o fez receber, à época, resenhas estranhadas. Confessando adotar a "forma livre" de Laurence Sterne em seu Tristram Shandy (1759-67), ou de Xavier de Maistre, o autor, com Memórias Póstumas, rompe com a narração linear e objetivista de autores proeminentes da época como Flaubert e Zola para retratar o Rio de Janeiro e sua época em geral com pessimismo, ironia e indiferença — um dos fatores que fizeram com que fosse amplamente considerada a obra que iniciou o Realismo no Brasil.[1] [2] [3]

Memórias Póstumas de Brás Cubas retrata a escravidão, as classes sociais, o cientificismo e o positivismo da época, chegando a criar, inclusive, uma nova filosofia, mais bem desenvolvida posteriormente em Quincas Borba (1891) — o Humanitismo, sátira à lei do mais forte. Críticos escrevem que, com esse romance, Machado de Assis precedeu elementos do Modernismo e do realismo mágico de escritores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, e, de fato, alguns autores chamam-na "primeira narrativa fantástica do Brasil".[4] O livro influenciou escritores como John Barth, Donald Barthelme e Ciro dos Anjos e é notado como uma das obras mais revolucionárias e inovadoras da literatura brasileira. Mesmo depois de mais de um século de sua publicação original, ainda tem recebido inúmeros estudos e interpretações, adaptações para diversas mídias e traduções para outras línguas.

Enredo[editar | editar código-fonte]

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Narrado em primeira pessoa, seu autor é Brás Cubas, um "defunto-autor", isto é, um homem que já morreu e que deseja escrever a sua autobiografia. Nascido numa típica família da elite carioca do século XIX, do túmulo o morto escreve suas memórias póstumas começando com uma "Dedicatória": Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas. Seguido da dedicatória, no outro capítulo, "Ao Leitor", o próprio narrador explica o estilo de seu livro, enquanto o próximo, "Óbito do Autor", começa realmente com a narrativa, explicando seus funerais e em seguida a causa mortis, uma pneumonia contraída enquanto inventava o "emplastro Brás Cubas", panacéia medicamentosa que foi sua última obsessão e que lhe "garantiria a glória entre os homens". No Capítulo VII, "O Delírio", narra o que antecedeu ao óbito.

Ficheiro:BrasCubasPortinari.jpg
Ilustração de Brás Cubas no cemitério por Portinari, 1943.

No Capítulo IX, "Transição", principiam propriamente as memórias. Brás Cubas começa revendo a própria infância de menino rico, mimado e endiabrado: desde cedo ostentava o apelido de "menino diabo" e já dava mostras da índole perversa quebrando a cabeça das escravas quando não era atendido em algum querer ou montando num dos filhos dos escravos de sua casa, o moleque Prudêncio, que fazia de cavalo. Aos dezessete anos, Brás Cubas apaixona-se por Marcela, "amiga de rapazes e de dinheiro",[5] prostituta de luxo, um amor que durou "quinze meses e onze contos de réis",[6] e que quase acabou com a fortuna da família.

A fim de se esquecer dessa decepção amorosa, o protagonista foi enviado a Coimbra, onde se formou em Direito, após alguns anos de boêmia desbravada, "fazendo romantismo prático e liberalismo teórico".[7] Retorna ao Rio de Janeiro por ocasião da morte da mãe. Depois de namorar inconseqüentemente Eugênia, "coxa de nascença",[8] filha de D. Eusébia, amiga pobre da família, o pai planeja induzi-lo na política através do casamento e encaminha o relacionamento do filho com Virgília, filha do Conselheiro Dutra, que apadrinharia o futuro genro. Porém Virgília prefere casar-se com Lobo Neves, também candidato a uma carreira política. Com a morte do pai de Brás Cubas, instaura-se um conflito entre ele e sua irmã, Sabina, casada com Cotrim, por conta da herança.

Dona Plácida, por Portinari.[9]

Quando Virgília reaparece, anunciada pelo primo Luís Dutra, reencontra-se com Brás Cubas e tornam-se amantes, vivendo no adultério a paixão que não tiveram quando noivos. Virgília engravida, no entanto a criança morre antes de nascer. Para manter discreta sua relação amorosa, Brás Cubas corrompe Dona Plácida, que por cinco contos de réis aceita figurar-se como moradora de uma casinha na Gamboa, que na verdade serve de encontro entre os amantes. Então segue-se o encontro do protagonista com Quincas Borba, amigo de infância que agora miserável lhe rouba o relógio, devolvendo-lhe depois. Quincas Borba, filósofo doido, apresenta ao amigo o Humanitismo.

Perseguindo a celebridade ou procurando uma vida menos tediosa, Brás Cubas torna-se deputado, enquanto Lobo Neves é nomeado presidente de uma província e parte com Virgília para o Norte, porquanto que termina a relação dos amantes. Sabina arranja uma noiva para Brás Cubas, a Nhã-Loló, sobrinha de Cotrim, de 19 anos, mas ela morre de febre amarela e Brás Cubas torna-se definitivamente um solteirão. Tenta ser ministro de estado mas fracassa; funda um jornal de oposição e fracassa. Quincas Borba dá os primeiros sinais de demência. Virgília, já velha e desfigurada em sua beleza, solicita a ele o amparo à indigência de Dona Plácida, que morre em seguida. Morrem também Lobo Neves, Marcela e Quincas Borba. Eugênia é encontrada num cortiço. A última tentativa de glória, portanto, é o "emplasto Brás Cubas", remédio que curaria todas as doenças; ironicamente, numa de suas saídas à rua para cuidar de seu projeto, molha-se na chuva e apanha uma pneumonia, da qual vem a falecer, aos 64 anos. Virgília, acompanhada do filho, vai visitá-lo na cama e, após longo delírio, morre assistido por alguns familiares. Depois de morto, começa a contar, de trás para frente, a história de sua vida e escreve assim as últimas linhas do capítulo derradeiro:

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulo CLX[10]
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Personagens[editar | editar código-fonte]

O livro possui os seguintes personagens:[11]

Família de Brás Cubas
Casos amorosos de Brás Cubas
  • Marcela, cortesã e primeiro caso amoroso de Brás Cubas.
  • Eugênia, filha de D. Eusébia, segundo amor do protagonista.
  • Virgília, filha do Conselheiro Dutra, o grande amor de Brás Cubas, e amante dele.
  • Nhã-Loló (Elália Damascena de Brito), pretendente a esposa de Brás Cubas, porém morre de febre amarela.
Outros
  • Quincas Borba (Joaquim Borba dos Santos), filósofo, teórico do Humanitismo, amigo de infância de Brás Cubas. (Recebe melhor retrato em Quincas Borba, romance seguinte.)
  • D. Eusébia, amiga pobre da família Cubas.
  • Conselheiro Dutra, homem bem posto no mundo da política, pai de Virgília.
  • Lobo Neves, político e marido de Virgília.
  • Luís Dutra, primo de Virgília.
  • Dona Plácida, beata velha e pobre, empregada de Virgília e que protege os amantes.
Secundários
  • Prudêncio, moleque filho de escravos, servia de brinquedo na infância de Brás Cubas. Aparece ou é citado somente no Capítulo XI, XXV, XLVI e finalmente no LXVIII quando, já crescido e livre, é encontrado por Brás numa praça, batendo num escravo negro que ele comprou.

Crítica[editar | editar código-fonte]

Inovação[editar | editar código-fonte]

Gênero: Romantismo x Realismo[editar | editar código-fonte]

"Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. Dos que então fiz, este me era particularmente prezado. Agora mesmo, que há tanto me fui a outras e diferente páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé ingênua. E claro que, em nenhum caso, lhes tiraria a feição passada; cada obra pertence ao seu tempo."

—Apresentação de Machado de Assis a uma reedição de Helena.[12]

"O tom cáustico do livro o afastava muito dos exemplos nacionais de idealização romântica, enquanto seu humorismo ziguezagueante, a sua estrutura insólita impediam qualquer identificação com os modelos naturalistas.

José Guilherme Merquior, 1972.[13]

A crítica considera Memórias Póstumas de Brás Cubas o romance que introduziu o Realismo na literatura brasileira.[2] [3] De fato, ao lado de outras obras como Ocidentais (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896) e Páginas Recolhidas (1899), este livro foi também um divisor de águas na própria obra de Machado de Assis,[14] aquele que iniciou a sua carreira madura,[15] como o próprio autor reconhece na citação ao lado numa reedição tardia de Helena.

Pandora, por Jules Joseph Lefebvre, 1882.

O gênero é realista por criticar com ironia e pessimismo as condições da época, no entanto não está isento de resíduos românticos presentes nos romances, nas paixões e nos amores de Brás Cubas,[16] ainda que o sonho de relações e casamentos perfeitos e a tensão bem x mal, herói x vilão—situações tão convencionais à ficção romanesca—não exista e as personagens ajam calculadamente por interesse na obtenção de "status", na ascensão social através do casamento,[17] como quando o pai de Brás quer que ele se case com Virgília, filha do Conselheiro Dutra, político proeminente. E mesmo assim, Machado não compactua com o esquematismo determinista dos realistas, nem procura causas muito explícitas ou claras para a explicação das personagens e situações.[18] O fato do narrador tentar relatar suas memórias e recriar o passado faz com que o romance também se enquadre em certos elementos do romance impressionista.[17]

Dois outros gêneros significativos em Memórias Póstumas são as antecipações modernas da obra—a estrutura fragmentária não-linear, o gosto pelo elíptico e alusivo e a postura metalinguística de quem escreve e se vê escrevendo (Brás Cubas no início declara explicitamente basear-se em Laurence Sterne).[17] O outro elemento, a fantasia, é encontrada em duas situações: Brás Cubas, mesmo morto e enterrado, ainda assim escreve sua autobiografia e, no Capítulo VII, tem um delírio em que viaja montado num hipopótamo e encontra-se com Pandora,[19] que é interpretado como uma forma de mostrar que o ser humano nada mais é do que um verme diante da Natureza.[20] De fato, certos autores referem-se a esta obra como "a primeira narrativa fantástica do Brasil".[4] O caráter fantástico e realista, cômico e sério, e que também mistura cartas e novelas a uma trama global, além de não haver nenhum enobrecimento dos personagens e de suas ações, deu margem a José Guilherme Merquior escrever que o verdadeiro gênero de Memórias Póstumas de Brás Cubas seria o cômico-fantástico, também conhecido como literatura menipéia.[21]

Estilo[editar | editar código-fonte]

"A frase machadiana é simples, sem enfeites e os períodos em geral são curtos, as palavras muito bem escolhidas e não há vocabulário difícil [...], mas com esses recursos limitados Machado consegue um estilo de extraordinária expressividade, com um fraseado de agilidade incomparável."

—Francisco Achcar.[22]

Memórias Póstumas de Brás Cubas marca um momento no cenário literário nacional em que Machado de Assis rompe com duas tendências literárias dominantes de seu tempo: a dos realistas que seguiam a teoria de Flaubert, do "romance que narra a si próprio" e que apaga o narrador atrás da objetividade da narrativa; e a dos naturalistas que, na esteira de Zola, pregavam o "inventário maciço da realidade", observada nos menores detalhes.[23] Ao invés disso, Machado de Assis constrói um livro em que cultiva o incompleto, o fragmentário, intervindo na narrativa para conversar diretamente com o leitor e comentar o próprio romance e suas personagens e fatos.[23]

Página da Suma Teológica.

Tornou-se comum atribuir à leitura do livro um caráter de diversão e prazer por detrás de sua perspectiva desencantada.[4] Entre seus traços, destacam-se os do universalismo, psicologismo, de arquétipos e o uso de um estilo "enxuto" por primar "pelo equilíbrio, pela disciplina clássica, pela correção gramatical e pela concisão, pela economia vocabular".[24] Assim, Machado seria sóbrio e parcimonioso, ao contrário de Castro Alves, José de Alencar e Rui Barbosa que abusariam imoderamente do adjetivo e do advérbio.[24] De fato, Francisco Achcar escreve que o livro é sem vocabulário difícil e que "alguma dificuldade que pode ter um leitor de hoje se deve ao fato de que certas palavras caíram em desuso".[25] A linguagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, contudo, não é simétrica e mecânica, mas possui um ritmo.[24]

O livro é permeado por intertextualidade e ironias. O segundo recurso logo nota-se na "Dedicatória" de Brás Cubas ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver. A ironia é vista como uma forma de "revolta pela vida" usada por Machado para fazer rir, quando como por exemplo Brás Cubas escreve: a sabedoria humana não vale um par de botas curtas [...] Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca à personagem que era coxa de nascença, num célebre exemplo de humor negro.[26] O primeiro recurso, por sua vez, refere-se às referências machadianas aos estilos de outros grandes autores do Ocidente: "Na maioria dos casos, essas referências são implícitas, só podem ser percebidas por leitores familiarizados com as grandes obras da literatura."[27] Brás Cubas, por exemplo, refere-se no início do livro à Xavier de Maistre e depois a obras como a Suma Teológica.[28] Por conta disso os críticos notam que o estilo machadiano é "culto" por "fazer uso da cultura e sua compreensão aprofundada exige cultura da parte do leitor."[29] Para saber mais sobre as intertextualidades no livro, vá à seção Influências literárias abaixo.

Temática e interpretação[editar | editar código-fonte]

"Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir dos seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual escola, mas leva outro vinho. Não digo mais para não entrar na crítica de um defunto, que se pintou a si e a outros, conforme lhe pareceu melhor e mais certo."

Machado de Assis, 1899, no prólogo da 4ª edição.[30]

Entre as diversas interpretações que se faz do livro, temos a sociológica. Sob esse parâmetro, Memórias Póstumas é um livro sobre seu tempo e costumes. Críticos que analisam características sociais da trama, destaque para Roberto Schwarz e Alfredo Bosi, notam a volubilidade do narrador da elite e analisam uns e outros personagens de acordo com a sua posição social,[31] além de centrarem-se no contexto ideológico do Segundo Império.[32] Contexto, datas e ambientação são informações importantes para esses críticos.[33] Entre as óticas sociológicas destaca-se as análises de Brás Cubas, homem de família abastada que desde a infância era mimado, uma personagem "beneficiária arrogante ainda que também humilhada da situação propiciada pela escravidão e pelas enormes desigualdades sociais."[34] Assim, o livro é visto como uma obra que assume o "ponto de vista da melancolia, da ruína e da morte ante a situação, rindo de quase tudo e ridicularizando também os dramas dessas frações beneficiárias, que, contudo, aparecem como comédia ou ópera-bufa."[34] Seria um beneficiário cínico que, como ele mesmo escreve no capítulo final, não trabalhou, não pagou o pão com o suor do rosto,[35] em alusão à Gênesis: "No suor do teu rosto comerás o teu pão",[36] mostrando que a propriedade herdada era muito importante para as personagens e a época, daí a luta constante entre ele e sua irmã Sabina e o cunhado Cotrim em ficar com o dinheiro do pai recém-morto e também da preocupação da divisão do espólio após a morte do próprio narrador.[37] Schwarz refere-se à obra como um retrato do liberalismo de fachada que convivia com o regime escravocata.[38]

Pelourinho por Jean-Baptiste Debret, retrata a escravidão no Segundo Império.

Os críticos sociológicos também acreditam que o fato do protagonista ser morto o faz narrar sua vida com "total isenção" e inteiramente "desvinculado de qualquer relação com a sociedade" e, neste descomprometimento propiciado pela morte, possui o poder de dizer, falar, zombar e criticar quem e o que quiser.[39] Outros críticos que também se atém na temática da morte são os preocupados com interpretações cognitivas, existenciais ou psicológicas, que centram-se na figura do humorista melancólico e no discurso do homem subterrâneo, solitário e reflexivo.[32] Isso não quer dizer que muitas vezes uma interpretação englobe outras. Numa análise sócio-psicológica, por exemplo, críticos têm citado a trágica cena do Capítulo LXVIII (68) em que Prudêncio, o moleque negro que na infância de Brás era seu cavalo de montar, quando fica mais velho e livre, compra um escravo para si próprio—cena que é considerada uma das páginas de ficção mais perturbadoras já escritas sobre a psicologia do escravismo.[40] Além disso, é interpretada como uma visão cética quanto aos malefícios da escravidão: violência gera violência e ao oprimido não basta a liberdade.[41] É estudado também o papel não só dos escravos mas de pessoas oprimidas na obra—como Eugênia e Dona Plácida, brancas e livres mas que não deixam de ser humilhadas e ingenuamente dominadas.[42]

A crítica literária não deixa de analisar o caráter filosófico do romance, com o seu Humanitismo e vê que o sarcasmo de Brás Cubas, diante do cientificismo propiciado por Charles Darwin e que no Brasil de 1880 ainda se "dava por coveiro da filosofia", reabre a interrogação metafísica e a perplexidade radical ante o ser humano.[43] De fato, esta filosofia é uma sátira ao positivismo de Comte, ao cientificismo do século XIX e à teoria de seleção natural.[44] Assim, um dos temas do livro, que concerne essa nova filosofia inventada pelo autor, é o de que o homem é sujeito à natureza e seus caprichos e não "soberano invulnerável da criação."[43] Surge pela primeira vez na prosa machadiana no Capítulo CLVII (157) de Memórias, recebendo um adendo no Capítulo CXLI (141), para comentar uma briga de cães. A partir disso, as ideias humanitistas acompanham Brás Cubas até o final do livro; este compreende a teoria, ao contrário do Rubião de Quincas Borba, onde a filosofia fictícia recebe maior explicação e destaque. Por outro lado, vasculhando outros temas, críticos psicanalistas têm notado as cenas de nervoso na obra e não separam a relação que elas tem com a própria saúde do autor, que se acredita ter sido epiléptico, embora não gostasse de tornar isso público, o que o teria feito omitir a palavra "epilepsia" de uma das edições ulteriores, mas que deixaria escapar na edição primeira ao descrever o padecimento da personagem Virgília diante da morte de Brás Cubas: Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica..., que fora substituída por: Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa...[45] [46] As interpretações sobre a obra foram sendo adquiridas e apresentadas por críticos diferentes ao longo do tempo; Alfredo Bosi escreveu que nenhuma interpretação sozinha, no entanto, seria suficiente para "compreender a densidade do olhar machadiano".[32]

Influências literárias[editar | editar código-fonte]

"Comparado ao de Pascal, o mundo de Machado é um mundo sem Paraíso. De onde uma insensibilidade incurável a todas as explicações que baseiam no pecado e na queda a ordem em que foram postas as coisas no mundo. Seu amoralismo tem raízes nessa insensibilidade fundamental."

Sérgio Buarque de Hollanda, 1944.[47]

Os escritores Laurence Sterne, Xavier de Maistre e Almeida Garret constituem a gama de autores que mais influenciaram esta obra, sobretudo os capítulos 55 e 139 pontilhados, ou os capítulos-relâmpago (como 102,107,132 ou 136) e o garrancho da assinatura de Virgília no capítulo 142 das Memórias Póstumas de Brás Cubas.[48] Quando Brás Cubas diz que adotou a "forma livre" de Sterne, está explicitando que Machado de Assis foi influenciado pela narrativa digressiva da obra Tristram Shandy.[49] O crítico francês Gérard Genette, por exemplo, escreve que da mesma forma que Virgílio contou a estória de Eneias à forma de Homero, Machado contou a estória de Brás à forma de Sterne.[50] José Guilherme Merquior acrescenta o fato de que a Memórias, contudo, possui uma fantasia não presente em Sterne e um "humorismo sardônico" oposto ao humorismo "simpático" e "sentimental" de Tristam Shandy, e que as obras Viagem à Roda do Meu Quarto (1795), e Viagens na Minha Terra (1846) foram as outras leituras pretéritas e decisivas para a elaboração de Memórias.[13] Merquior também cita outras possíveis influências, como a mitologia clássica, Luciano de Samósata, Fontenelle (especialmente seu Dialogues des Morts, 1683), Fénelon e o Operrete Morali (1826) de Leopardi, que fariam Memórias Póstumas se aproximar do gênero cômico-fantástico, também conhecido como literatura menipéia.[21] No capítulo XLIX, cita o otimista dr. Pangloss, da obra filosófica Cândido de Voltaire, que dizia que "o nariz foi criado para uso dos óculos", e faz com que Brás conclua que a visão de Pangloss está errada pois a explicação sobre o sentido de tal órgão estava na observação do hábito do faquir, que "gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste" e "perde o sentimento das cousas externas, embelza-se no invisível, apreende o impalpável, desvincula-se da Terra, dissolve-se, eteriza-se", terminando com a sugestão política de que a necessidade e poder do homem de contemplar o seu próprio nariz são modo de obter "a subordinação do universo a um nariz somente".[51]

De fato, o livro está permeado de influências filosóficas e, inclusive, alguns o consideram o mais filosófico da obra machadiana.[52] Um dos filósofos que faziam parte das leituras freqüentes do autor era Pascal, cujo prenome, Blaise, teria sido traduzido por Brás, o protagonista do livro.[53] A "sensação dupla e indefinível", de céu e inferno, tão exposta por Pascal em Pensées, é logo referida por Brás Cubas no Capítulo XCVIII quando ele está diante de Nhã-loló.[53] Pascal também escrevia que o homem está sempre diante do tudo e do nada, e nas Memórias Póstumas o tema da precariedade da condição humana é expresso pela miséria e pela temporalidade da vida.[54] Embora alguns afirmem que foi com Pascal que Memórias Póstumas adquiriu um tom cético,[55] os estudiosos não deixam de citar Schopenhauer como a principal influência filosófica do livro.[49] Nele Machado teria encontrado visões do pessimismo e ainda desdobrado sua escrita em mitos e metáforas acerca de uma "inexorabilidade do destino".[56] Raimundo Faoro, sobre a obra do filósofo alemão na obra machadiana, argumentou que o autor brasileiro havia realizado uma "tradução machadiana da vontade de Schopenhauer".[57] Estudiosos notam que Machado de Assis conseguiu utilizar a filosofia de Schopenhauer em Memórias Póstumas de uma forma muito profunda.[58] Segundo este filósofo, o universo é a vontade, cega, obscura e irracional de viver e a lei do real não é nenhum logos harmonioso, mas sim um conflitivo querer, fatalmente doloroso, porque necessariamente insatisfeito; "por isso, a dor é a essência das coisas, e só no ideal de renúncia aos desejos se pode colher alguma felicidade."[59] Então, O mundo como vontade e representação (1819), para alguns, encontra seu cume alto em Machado de Assis com os desejos frustrados do personagem Brás Cubas.[60]

Influência e diálogos[editar | editar código-fonte]

Memórias Póstumas de Brás Cubas influenciou decisivamente os escritores John Barth e Donald Barthelme, que inclusive reconheceram a influência.[61] [62] A Ópera Flutuante, primeiro livro escrito pelo primeiro dos dois, foi influenciado pela técnica de "jogar livremente com as idéias" de Tristram Shandy e de Memórias Póstumas.[63]

Por sua vez, o romance O amanuense Belmiro, de Ciro dos Anjos, tem sido freqüentemente relacionado pela crítica com Memorial de Aires e Memórias Póstumas.[64] Como escreve um dos críticos, O amanuense é "destinado ao registro de impressões autobiográficas de um obscuro funcionário estadual [...] possuindo muitas passagens que lembram as meditações irônicas e pessimistas de Brás Cubas."[65] Ciro via Machado de Assis como seu mestre literário e sua obra é toda permeada pela tentativa de alcançar o estilo dele.[66]

Os estudiosos também traçam diálogos entre este livro e outros da literatura nacional, como Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, que retoma a "viagem de memória" presente também em Dom Casmurro, além de seus textos descreverem doenças mentais como os de Machado;[67] e Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade, obra capital do modernismo no Brasil, que é identificado como uma "homenagem" às memórias de Brás Cubas.[4]

Em se tratando ao próprio conjunto de obras do autor, Memórias Póstumas marcou para sempre a escrita de Machado de Assis e propiciou novos significados e estilos e uma temática amadurecida em diversos contos e mais outros quatro romances prestigiados, todos, como as Memórias, compostos em capítulos curtos, todos (a exceção de Quincas Borba) narrados em primeira pessoa e substancialmente ambíguos e ricos em relação a elementos básicos da história.[4] O caráter fantasioso do livro fez com que críticos, sobretudo estrangeiros, afirmassem que ele antecipa elementos literários do realismo mágico de escritores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar,[68] e mesmo alguns temas do existencialismo contemporâneo de Albert Camus e Sartre,[69] como a relação do fato real e imaginário de Brás Cubas e as outras personagens.

Recepção[editar | editar código-fonte]

Página da revista A Estação, 1884.

Com a publicação do livro, poucos amigos ou colegas noticiaram o volume, publicados na Gazetinha e na Revista Ilustrada, embora ele tenha recebido relativa fama.[4] No entanto, como comparação, no mesmo ano de 1881, O Mulato, de Aluísio de Azevedo, era publicado e provocou polêmica, merecendo mais de duzentos comentários e resenhas por todo o país, contudo sua legilidade era de outra natureza.[70] O caráter inovador do livro machadiano fez estranhar a crítica da época. Em 2 de fevereiro de 1881 um crítico assinando sob o pseudônimo de "U.D.", em que acredita ter sido Urbano Duarte de Oliveira, escreveu que a obra de Machado era falsa, deficiente, sem nitidez, e sem colorido:[71] [72]

"É um livro de filosofia mundana, sob a forma de romance. Para romance falta-lhe o entrecho e o leitor vulgar pouco pasto achará para sua imaginação e curiosidade banais. [...] Há no correr da obra, percepções singulares, conceitos de grande agudeza, certa veia cômica que faz rir para não fazer chorar, e umas tantas tendências naturalistas assaz atenuadas pela polidez natural do autor. Em suma, a nossa impressão final é a seguinte: a obra do sr. Machado de Assis é deficiente, senão falsa, no fundo, porque não enfrenta com o verdadeiro problema que se propôs a resolver e só filosofou sobre caracteres de uma vulgaridade perfeita; é deficiente na forma, porque não há nitidez, não há desenho, mas bosquejos, não há colorido, mas pinceladas ao acaso."[72]

Capistrano de Abreu, em resenha de sua autoria, perguntava-se: "As Memórias Póstumas de Brás Cubas serão um romance?"[73] E continua:

"O romance aqui é simples acidente. O que é fundamental e orgânico é a descrição dos costumes, a filosofia social que está implícita. [...] Segundo esta filosofia, nada existe de absoluto. O bem não existe; o mal não existe; a virtude é uma burla; o vício é um palavrão. [...] Filosofia triste, não é? O autor é o primeiro a reconhecê-lo, e por isso põe-na nas elucubrações de um defunto, que nada tendo a perder, nada tendo a ganhar, pode despejar até às fezes tudo quanto se contém nas suas recordações."[70]

Macedo Soares escreveu uma carta amigável a Machado notando a analogia do livro com Viagens na Minha Terra de Garret. Em 1899, Machado de Assis respondeu aos comentários de Capistrano e Macedo no prólogo da 4ª edição do livro, escrevendo: "Ao primeiro respondia já o defunto Brás Cubas (como o leitor viu e verá no prólogo que vai adiante) que sim e que não, que era romance para uns e não o era para outros. Quanto ao segundo, assim se explicou o finado: 'Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo.' Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas, se pode talvez dizer que viajou à roda da vida."[30]

Silvio Romero não gostou do rompimento de Machado com a linearidade narrativa e com a natureza do enredo tradicional;[74] além disso, o humor machadiano seria "imitação afetada e pouco natural de autores ingleses", particularmente de Sterne.[75] Romero escreveu um livro inteiro sobre o autor, intitulado Machado de Assis: estudo comparativo de literatura brasileira (1897), comentado por Machado numa carta a Magalhães de Azeredo em 1898 como "um éreintement, para não parecer imodesto: a modéstia, segundo ele, é um dos defeitos, e eu amo os meus defeitos, são talvez as minhas virtudes. Apareceram algumas refutações breves, mas o livro aí está, e o editor, para agravá-lo, pôs-lhe um retrato que me vexa, a mim que não sou bonito."[76] Artur Azevedo, sob o pseudônimo de Elói-o-herói, comentou o livro de Romero na A Estação de 15 de dezembro de 1897, não concordando com a visão que o autor transmitia de Machado: "Façam as comparações que quiserem: o glorioso autor das Memórias Póstumas de Brás Cubas é, por enquanto, o primeiro homem de letras que o Brasil tem produzido."[77] Um outro resenhista, mais cedo, à época do lançamento, sob o pseudônimo de Abdiel, em 28 de fevereiro de 1881 escrevia:

"[...] é opinião minha, repito, que este extraordinário romance de Brás Cubas não tem correspondente nas literaturas de ambos os países de língua portuguesa e traz impressa a garra potente e delicadíssima do Mestre. [...] É soberano, límpido, musical, colorido, grave, terno, brincalhão, conceituoso, magistral, o estilo deste livro notável que se tem publicado em literatura amena depois da morte de José de Alencar."[78]

Legado[editar | editar código-fonte]

Para a crítica moderna especializada, Memórias Póstumas de Brás Cubas é um dos livros mais inovadores de toda a literatura brasileira. De certa forma, constitui um marco decisivo no desenvolvimento da obra de Machado de Assis e na evolução da literatura nacional e, ao mesmo tempo, é considerado o primeiro romance realista e a primeira narrativa fantástica do Brasil.[79] Certos críticos modernos arriscam a dizer também que, por seus temas, influências e conexões com filosofias e ciências vigentes da época, é a primeira obra do Brasil que ultrapassa os limites nacionais, pois é um grande romance universal.[79]

Machado de Assis fotografado por Marc Ferrez, onze anos após a publicação de Memórias Póstumas, em 1890.

Mesmo críticos mais antigos, como Lúcia Miguel Pereira, em 1936, que também foi biógrafa do autor, escreviam que tal inovação foi o motivo pelo qual fez o livro ser tão impactante na época de sua publicação: "Aqui, ousadamente, varriam-se de um golpe o sentimentalismo, o moralismo superficial, a fictícia unidade da pessoa humana, as frases piegas, o receio de chocar preconceitos, a concepção do predomínio do amor sobre todas as outras paixões; afirmava-se a possibilidade de construir um grande livro sem recorrer à natureza, desdenhou-se a cor local, colocou-se o autor pela primeira vez dentro das personagens. [...] A independência literária, que tanto se buscara, só com este livro foi selada. Independência que não significa, nem poderia significar, auto-suficiência, e sim o estado de maturidade intelectual e social que permite a liberdade de concepção e expressão. Criando personagens e ambientes brasileiros, bem brasileiros. Machado não se julgou obrigado a fazê-los pitorescamente típicos, porque a consciência da nacionalidade, já sendo nele total, não carecia de elementos decorativos. [...] e por isso pode entre nós ser universal sem deixar de ser brasileiro."[80]

Em seu aclamado História Concisa da Literatura Brasileira (1972), o crítico Alfredo Bosi não deixou de notar o prestígio e a revolução da obra para a literatura mundial: "A revolução dessa obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto e desfrutador Brás Cubas."[81] Notando a opção por parte de Machado de Assis em romper com as formas de se fazer literatura em seu tempo com a observação de Bosi em relação às idealizações românticas e ao "narrador onisciente", vemos a criação de um estilo próprio e único que o autor galgou com a realização dessa obra, um estilo tipicamente machadiano.[24]

Da mesma forma, a ensaísta norte-americana Susan Sontag escreveu em 1990 que "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Epitaph of a small winner) é pelo visto um desses livros arrebatadoramente originais, radicalmente céticos, que sempre impressionarão os leitores com a força de uma descoberta particular. É pouco provável que soe como um grande elogio dizer que esse romance, escrito mais de um século atrás, parece, bem... moderno. [...] Sem dúvida, é um dos livros mais divertidamente não provincianos já escritos. E amar esse livro é tornar a si mesmo um pouco menos provinciano a respeito da literatura, a respeito das possibilidades da literatura."[82]

Publicações[editar | editar código-fonte]

Edições[editar | editar código-fonte]

Publicado a princípio "aos pedaços",[30] como escreve o próprio Machado, ou seja, em folhetim, pela Revista Brasileira de março à dezembro de 1880 até ser editado definitivamente em 1881 pela Tipografia Nacional, cerca de três mil a quatro mil exemplares foram impressos à época, sem contar os da revista.[83] O volume possui 160 capítulos de extensões variáveis.[1]

De acordo com o próprio Machado, à época da 4ª edição do livro, o volume publicado não recebeu grandes modificações ou retificações. Os fragmentos publicados na Revista Brasileira foram corrigidos em vários lugares pelo autor. Quando teve que o rever para a terceira edição, "emendei alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas. Assim composto, sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no público", escreveu ele.[30] As modificações mais significativas que ocorreram da passagem de folhetim para livro publicado tenham sido somente a introdução de um preâmbulo, assinado por Brás Cubas e denominado "Ao Leitor", e substituição de uma epígrafe retirada de uma comédia de Shakespeare pela dedicatória ao primeiro verme que roeu as frias carnes do meu cadáver.[84] Também acredita-se que o principal trabalho de revisão de Machado de Assis foi focar-se no início e no final do livro, as duas partes onde notam-se "recursos criativos destinados a abalar várias das convenções vigentes na prosa de ficção da época."[84]

O primeiro país estrangeiro a publicá-lo foi a França, em 1911, traduzido por Adrien Delpec, por conta do contrato de Machado com o editor Baptiste Louis Garnier, dono da Livraria Garnier, que publicava seus livros tanto no Rio de Janeiro quanto em Paris.[85]

Em outras línguas[editar | editar código-fonte]

O romance tem sido traduzido para outras línguas desde sua primeira publicação em português (Fonte: Itaú Cultural):[86]

Ano Língua Título Tradutor(es) Editora
1911
1948
2005
Francês Mémoires Posthumes de Braz Cubas
Mémoires d'Outre-tombe de Braz Cubas
Mémoires d'Outre-tombe de Braz Cubas
Adrien Delpec
Chadebec de Lavalade
Chadebec de Lavalade
Paris: Livraria Garnier
Paris: Rd. Émile-Paul frères
Paris: Métailié
1919
1953
Italiano Memoire Postume di Braz Cubas
Memoire dall'Aldilá
Giuseppe Alpi
Laura Marchiori
Lanciano
Milão: Rizzoli
1940
2003
Espanhol Memórias Póstumas de Brás Cubas
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Francisco José Bolla
José Ángel Cilleruelo
Buenos Aires: Club del Libro
Madrid: Alianza Editorial
s/d
1953
1997
2002
Inglês Epitaph of a Small Winner
Epitaph of a Small Winner
Epitaph of a Small Winner
The Posthumous Memoirs of Bras Cubas
William L. Grossman
William L. Grossman
Trafalgar Square
Gregory Rabassa
Nova York: Noonday
Londres: W.H. Allen
Londres: Trafalgar Square
Oxford: Oxford University Press
1956 Dinamarquês En Vranten Herres Betragtninger Erick Bach-Pedersen Copenhagen: Danske Bogsamleres Klub
1957 Servo-croata Posmrtni Zapisi Brasa Cubasa Josip Tabak Sarajevo: Narodna Prosvjeta
1957
1985
1987
Portugal Memórias Póstumas de Brás Cubas s/t Lisboa: Bertrand
Porto: Lello & Irmão
Lisboa: Dinalivro
1967
1979
2003
Alemão Postume Erinnerungen des Brás Cubas
Postume Erinnerungen des Bras Cubas
Die Nachträglichen Memoiren des Bras Cubas
Erhard Engler
Erhard Engler
Wolfgang Kayser
Berlim: Rütten & Loening
Frankfurt: Suhrkamp
Zurique: Manesse Verlag
1986 Romeno Memoriile Postume ale lui Brás Cubas A editora Bucuresti: Minerva, Bucuresti
1996 Tcheco Posmrtné Paměti Bráse Cubase Sárka Grauová Praga: Torst
s/d Neerlandês Laat Commentaar van Bras Cubas A. Mastenbroek jr Bussum G.J. A
2001 Catalão Memòries pòstumes de Brás Cubas Xavier Pàmies Barcelona: Quaderns Crema

Adaptações[editar | editar código-fonte]

A obra já teve três versões cinematográficas. A primeira, rodada em modo completamente experimental, dirigida por Fernando Cony Campos em 1967, chamava-se Viagem ao Fim do Mundo.[87] A segunda, em 1985, já apresenta um caráter estético mais ousado e foi filmada por Julio Bressane, com Luiz Fernando Guimarães no papel de Brás Cubas.[88] E em 2001, surgiu uma nova produção, embora tivesse sido filmada nos anos 90: essa terceira versão, Memórias Póstumas, foi mais fiel à obra, tendo sido dirigida por André Klotzel, com Reginaldo Faria atuando como Brás Cubas após os 60 anos até ser defunto e Petrônio Gontijo sendo Brás Cubas na sua juventude.[89]

O livro também recebeu uma versão em paródia, Memórias Desmortas de Brás Cubas, de Pedro Vieira, no qual o emplastro transforma Brás Cubas em um zumbi.[90]

Em agosto de 2010, para integrar a série Grandes Clássicos em Graphic Novel da Editora Desiderata, do grupo Ediouro, que já possuía adaptações de livros como O Alienista, O Pagador de Promessas e Triste Fim de Policarpo Quaresma, Memórias Póstumas foi adaptada pelo desenhista João Batista Melado e o roteirista Wellington Srbek para o formato de HQ, cujo prefácio foi assinado por Moacyr Scliar.[91]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Andrade, 2001, p.88.
  2. a b Faraco e Moura, 2009, p.234.
  3. a b Terra e Nicola, 2006, p.418-422.
  4. a b c d e f Achcar, 1999, p.12.
  5. Memórias Póstumas, Cap. XIV
  6. Memórias Póstumas, Cap. XVII
  7. Memórias Póstumas/XX
  8. Memórias Póstumas/XXXII
  9. Facioli, 2008, p.148.
  10. Também notado em Andrade, 2001, p.86.
  11. Andrade, 2001, p.89-91.
  12. Apud Terra e Nicola, 2006, p.422.
  13. a b José Guilherme Merquior, "Gênero e estilo das Memórias Póstumas de Brás Cubas", revista Colóquio, nº 8, Lisboa.
    Apud Andrade, 2001, p.113.
  14. Milhomem, 2007, p.16 e seguintes.
  15. Moisés, 2000, p.275.
  16. Andrade, 2001, p.79-80.
  17. a b c Andrade, 2001, p.80.
  18. Achcar, 1999, p.X.
  19. Andrade, 2001, p.97.
  20. Duarte, 2007, p.273.
  21. a b José Guilherme Merquior, "Gênero e estilo das Memórias Póstumas de Brás Cubas", revista Colóquio, nº 8, Lisboa.
    Apud Andrade, 2001, p.114.
  22. Achcar, 1999, pág.X
  23. a b Andrade, 2001, p.80-81.
  24. a b c d Andrade, 2001, p.87.
  25. Achcar, 1999, p.XI.
  26. Andrade, 2001, p.86.
  27. Achcar, 1999, p.XII.
  28. Memórias Póstumas/VII
  29. Achcar, 1999, p.XIII.
  30. a b c d Apud Achcar, 1999, p.19.
  31. Jean Pierre Chauvin in: Facioli, 2008, p.180.
  32. a b c Bosi, 2006, p.51.
  33. Lyra, 1995, p.56.
  34. a b Facioli, 2008, p.81.
  35. Duarte, 2007, p.203.
  36. Gn, 3:19.
  37. Chalhoub, 2003, p.103.
  38. Schwarz, 2000, 126.
  39. Terra e Nicola, 2006, p.422.
  40. Revista Veja, "Machado: Um Verdadeiro Imortal", por Jerônimo Teixeira. 24 set., 2008, p.165.
  41. Duarte, 2007, p.203.
  42. Patto, 2006, p.286.
  43. a b José Guilherme Merquior, "Gênero e estilo das Memórias Póstumas de Brás Cubas", revista Colóquio, nº 8, Lisboa.
    Apud Andrade, 2001, p.117.
  44. Andrade, 2001, p.83.
  45. Memórias Póstumas/I
  46. Gonçalves, 2000, p.18.
  47. Hollanda, 1944, pp. 44 e ss
  48. Anamélia Dantas Maciel, "A crise do narrador: considerações em torno do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis". Acesso: 9 de agosto, 2010.
  49. a b França, 2008, p.54.
  50. Apud França, 2008, p.54.
  51. Chalhoub, 2003, p.94.
  52. Bernardo, 2005, p.14.
  53. a b Facioli, 2008, p.91.
  54. Bernardo, 2005, p.18.
  55. Neto, 2007, p.190.
  56. Reale, 1982, p.13 e seguintes.
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  58. Candido, 1999, p.229.
  59. José Guilherme Merquior, "Gênero e estilo das Memórias Póstumas de Brás Cubas", revista Colóquio, nº 8, Lisboa.
    Apud Andrade, 2001, p.116.
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  78. Apud Facioli, 2008, p.64.
  79. a b Achcar, 1999, p.11-12.
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  81. Bosi, 1972, p.197.
  82. Sontag, 2005, p.59-58.
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  87. Klotzel, 2001, p.190.
  88. Vorobow e Adriano e Rodrigues, 1995, p.55
  89. Flórido, 2002, p.176.
  90. Você já leu "Dom Casmurro e os Discos Voadores"? "A Escrava Isaura e o Vampiro"?. Folha de S. Paulo. Página visitada em 1 de dezembro de 2010.
  91. Carlos Costa (25/08/2010). Memórias Póstumas de Brás Cubas em quadrinhos. HQ Maniacs UOL. Página visitada em 1 de dezembro de 2010.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • Flórido, Eduardo Giffoni. As grandes personagens da história do cinema brasileiro, Volume 2. Fraiha, 2002.
  • França, Eduardo Melo. Ruptura Ou Amadurecimento: Uma AnÁlise Dos Primeiros Contos de Machado de Assis. Editora Universitária UFPE, 2008. ISBN 8573155515
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  • Lago, Sylvio (comentários). Eça de Queirós - Ensaios e Estudos (volume I). Biblioteca24x7, s/d. ISBN 8578936140
  • Lucas, Fábio. O Nucleo E a Periferia de Machado de Assis. São Paulo: Editora Manole Ltda, 2009. ISBN 8520429459
  • Lyra, Bernadette. A nave extraviada. Annablume, 1995. ISBN 8572050426
  • Macedo, Helder. Machado de Assis: entre o lusco e o fusco.
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  • Merquior, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira-I (Volume 182 de Coleção Documentos brasileiros). Livraria J. Olympio Editora, 1977.
  • Moisés, Massaud. A líteratura brasileira através dos textos. Editora Cultrix, 2000. ISBN 8531602297
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  • Oliveira, Maria Rosa Duarte de e Mariano, Ana Salles. Recortes machadianos. Editora da PUC-SP, 2003. ISBN 8528302822
  • Resende, Otto Lara. Bom dia para nascer: crônicas. Companhia das Letras, 1993. ISBN 857164313X
  • Paschoal, Márcio. Os atalhos de Samanta. Editora Record, 2004. ISBN 8501068462
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  • Patto, Maria Helena. Introdução à Psicologia Escolar. Casa do Psicólogo, 2006. ISBN 8585141972
  • Pereira, Lúcia Miguel. História da literatura brasileira: prosa de ficção, de 1870 a 1920. Editora Itatiaia, 1988.
  • Rangel, Maria Lúcia Silveira Rangel. "As Personagens Femininas em Machado de Assis" (1/6/00). In: LB – Revista Literária Brasileira, nº 17, ed.10.
  • Schwarz, Roberto. "A novidade das Memórias póstumas de Brás Cubas". In: SECCHIN, A. C.; ALMEIDA, J. M. G.; SOUZA, R. M. (org.) Machado de Assis. Uma Revisão. Rio de Janeiro: In-Fólio,1988.
  • Schwarz, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. Livraria Duas Cidades, 1990.
  • Schwarz, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. Editora 34, 2000. ISBN 8573261773
  • Simões, João Gaspar. Literatura, literatura, literatura: de Sá de Miranda ao concretismo Brasileiro (Volume 6 de Colecção Problemas). Portugália, 1964.
  • Sontag, Susan. Questão de Ênfase. Editora Companhia das Letras, 2005. ISBN 8535906169
  • Teixeira, Jerônimo. "Machado: Um Verdadeiro Imortal" in: Revista Veja, 24 set., 2008.
  • Terra, Ernani e Nicola, José de. Português: de olho no mundo do trabalho. São Paulo: Editora Scipione, 2006.
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  • Watt, Ian. The Rise of the Novel: Studies in Defoe, Richardson and Fielding. Berkeley: University of California Press, 1957.
  • Zilberman, Regina. As pedras e o arco: fontes primárias, teoria e história da literatura. Editora UFMG, 2004. ISBN 8570414110

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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