Miguel Torga
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, (São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos mais importantes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios. [1]
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[editar] Biografia
Oriundo de uma família humilde de Sabrosa, era filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição Barros. Em 1917, aos dez anos, foi para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes. Fardado de branco, servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó, polia os metais da escadaria nobre e atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918, foi mandado para o seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida. Estudou Português, Geografia e História, aprendeu latim e ganhou familiaridade com os textos sagrados. Pouco depois comunicou ao pai que não seria padre.
Emigrou para o Brasil em 1920, ainda com doze anos, para trabalhar na fazenda do tio, proprietário de uma fazenda de café. Ao fim de quatro anos, o tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, convicto de que ele viria a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço, o que o levou a regressar a Portugal e concluir os estudos liceais.[1]
Em 1928, entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade. Em 1929, com vinte e dois anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema Altitudes. A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca era bandeira literária do grupo modernista e bandeira libertária da revolução modernista. Em 1930, rompe definitivamente com a revista Presença, por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana», assumindo uma posição independente.[1]
A obra de Torga traduz sua rebeldia contra as injustiças e seu inconformismo diante dos abusos de poder. Reflete sua origem aldeã, a experiência médica em contato com a gente pobre e ainda os cinco anos que passou no Brasil (dos 13 aos 18 anos de idade), período que deixou impresso em Traço de União (impressões de viagem, 1955) e em um personagem que lhe servia de alter-ego em A criação do mundo, obra de ficção em vários volumes, publicada entre 1937 e 1939. As críticas que fez aí ao franquismo resultaram em sua prisão (1940).[1]
Casou-se com Andrée Crabbé em 1940, uma estudante belga que, enquanto aluna de Estudos Portugueses, com Vitorino Nemésio em Bruxelas, viera a Portugal fazer um curso de verão na Universidade de Coimbra. O casal teve uma filha, Clara Rocha, nascida a 3 de Outubro de 1955, e divorciada de Vasco Graça Moura.
Crítico da praxe e das restantes tradições académicas, chama depreciativamente «farda» à capa e batina. Ama a cidade de Coimbra, onde exerce a sua profissão de médico a partir de 1939 e onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a licenciatura em Medicina pela Universidade de Coimbra. Começou a exercer a profissão nas terras agrestes transmontanas, pano de fundo de grande parte da sua obra. Dividiu seu tempo entre a clínica de otorrinolaringologia e a literatura. Após a Revolução dos Cravos que derrubou o regime fascista em 1974, Torga surge na política para apoiar a candidatura de Ramalho Eanes à presidência da República (1979). Era, porém, avesso à agitação e à publicidade e manteve-se distante de movimentos políticos e literários.
Autor prolífico, publicou mais de cinquenta livros ao longo de seis décadas e foi várias vezes indicado para o Prêmio Nobel da Literatura.[1]
Torga, sofrendo de cancro, publicou o seu último trabalho em 1993, vindo a falecer em Janeiro de 1995.[1] A sua campa rasa em São Martinho de Anta tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.
[editar] A origem do pseudónimo
Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha cria o pseudónimo "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo.
[editar] A obra de Torga
A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras trasmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).
Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza, malgrado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga, fazem do homem único ser digno de adoração.
[editar] Poesia
- 1930 - Rampa
- 1936 - O outro livro de Job
- 1944 - Libertação
- 1958 - Orfeu rebelde
- 1962 - Câmara ardente
- 1965 - Poemas ibéricos
- 1997- “Poesia Completa”, volume I
- 2000- “Poesia Completa”, volume II
[editar] Prosa
- 1931 - Pão Ázimo.
- 1931 - Criação do Mundo.
- 1934 - A Terceira Voz.
- 1937 - Os Dois Primeiros Dias.
- 1938 - O Terceiro Dia da Criação do Mundo.
- 1939 - O Quarto Dia da Criação do Mundo.
- 1940 - Bichos.
- 1941 - Contos da Montanha. "Diário I"
- 1942 - Rua.
- 1943 - O Senhor Ventura. "Diário II"
- 1944 - Novos Contos da Montanha.
- 1945 - Vindima.
- 1946 - "Diário III".
- 1949 - "Diário IV".
- 1950 - Portugal
- 1951 - Pedras Lavradas. "Diário V".
- 1953 - "Diário VI".
- 1956 - "Diário VII".
- 1959 - "Diário VIII".
- 1974 - O Quinto Dia da Criação do Mundo.
- 1976 - Fogo Preso.
- 1981 - O Sexto Dia da Criação do Mundo.
- 1982 - Fábula de Fábulas.
- 1999 - "Diário: Volumes IX a XVI"(1964-1993), Publicações Dom Quixote e Herdeiros de Miguel Torga, 2.ª edição integral, ISBN 972-20-1647-4
- Indice dos volumes
- Diário IX (15-1-1960/20-9-1963)
- Diário X (5-10-1963/30-7-1968)
- Diário XI (2-8-1968/6-4-1973)
- Diário XII (17-5-1973/22-6-1977)
- Diário XIII (8-7-1977/20-5-1982)
- Diário XIV (21-5-1982/11-1-1987)
- Diário XV (20-02-1987/31-12-1989)
- Diário XVI (11-1-1990/10-12-1993)
O seu Diário (1941 - 1994), em 16 volumes, mistura poesia, contos, memórias, crítica social e reflexões. No último volume, diz: "Chego ao fim, perplexo diante de meu próprio enigma. Despeço-me do mundo a contemplar atônito e triste o espetáculo de um pobre Adão paradoxal, expulso da inocência sem culpa sem explicação."[1]
[editar] Peças de teatro
- 1941 - "Terra Firme" e "Mar".
- 1947 - Sinfonia.
- 1949 - O Paraíso.
- 1950 - Portugal.
- 1955 - Traço de União.
[editar] Ensaios e Discursos
Ensaios e Discursos, publicações Dom Quixote,Lisboa, 2001, ISBN 972-20-1681-4 , ‘’tomou por base, respectivamente,os textos da 6.a edição de Portugal,Coimbra, 1993; da 2.a edição revista de Traço de União, Coimbra, 1969; e da edição de Fogo Preso,Coimbra,1989”, conforme nota do editor, página 8.
[editar] Traduções
Seus livros foram traduzidos em diversos idiomas, algumas vezes publicados com um prefácio seu: espanhol, francês, inglês, alemão, chinês, japonês, croata, romeno, norueguês, sueco, holandês, búlgaro.
[editar] Prémios
- 1969 - Prémio do Diário de Notícias.
- 1976 - Prémio de Poesia da XII Bienal de Internacional de Poesia de Knokke-Heist (Bélgica). (1977)
- 1980 - Prémio Morgado de Mateus, ex-aecquo com Carlos Drummond de Andrade. (1980)
- 1981 - Prémio Montaigne da Fundação Alemã F.V.S.
- 1989 - Prêmio Luso-Brasileiro Luís de Camões (1989)
- 1991 - Prémio Personalidade do Ano.
- 1992 - Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.
- 1993 - Prémio da Crítica, consagrando a sua obra.
[editar] Ligações externas
Referências
| Precedido por — |
Prêmio Camões 1989 |
Sucedido por João Cabral de Melo Neto |