Milagre do Sol

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Parte da multidão em 13 de outubro de 1917 a observar o milagre

Milagre do Sol foi um fenómeno meteorológico testemunhado por cerca de 70 mil pessoas em 13 de outubro de 1917 nos campos de Cova da Iria, perto de Fátima, Portugal [1] . As estimativas do tamanho da multidão variam de "trinta a quarenta mil" por Avelino de Almeida, escrevendo para o jornal português O Século [2] , a cem mil, segundo estimativa de José de Almeida Garrett, professor de ciências naturais na Universidade de Coimbra [3] . Ambos presenciaram o fenómeno.[4]

O Milagre[editar | editar código-fonte]

As três crianças haviam relatado em datas anteriores que Nossa Senhora tinha prometido um milagre para o meio-dia de 13 de Outubro, na Cova da Iria,[5] "de modo que todos pudessem acreditar."[6]

De acordo com muitas indicações das testemunhas, por exemplo o avô materno de Fátima Magalhães, entre muitos outros, após uma chuva torrencial, as nuvens desmancharam-se no firmamento e o Sol apareceu como um disco opaco, girando no céu [7] . Algumas afirmaram que não se tratava do Sol, mas de um disco em proporções solares, semelhante à lua. Disse-se ser significativamente menos brilhante do que o normal, acompanhado de luzes multicoloridas, que se reflectiram na paisagem, nas pessoas e nas nuvens circunvizinhas [7] . Foi relatado que o pretenso Sol se teria movido com um padrão de ziguezague [7] , assustando muitos daqueles que o presenciaram, que pensaram ser o fim do mundo [8] . Muitas testemunhas relataram que a terra e as roupas previamente molhadas ficaram completamente secas num curto intervalo de tempo, [9] e, também relatam curas de paralíticos e cegos, assim como demais doenças não explícitas.

De acordo com relatórios das testemunhas, o Milagre do Sol durou aproximadamente dez minutos [10] . As três crianças [11] , relataram terem observado Jesus, a Virgem Maria, e São José abençoando as pessoas dentro ou junto do Sol[12] . Outras testemunhas afirmaram ter visto vultos de configuração humana dentro do Sol quando este desceu.

Página de Ilustração Portuguesa, 29 de outubro de 1917, mostrando as pessoas a observar o milagre

Avaliação crítica do evento[editar | editar código-fonte]

Durante o dia do fenómeno, não foi reportada nenhuma observação científica extraordinária do Sol em observatórios [13] .

O facto de o pretenso milagre ser anunciado antecipadamente, o abrupto início e final do evento sobre o Sol, a natureza diversa dos observadores, que incluía crentes e descrentes e o grande número de pessoas presentes põem uma barreira à hipótese de alucinação em massa[14] . A actividade do Sol reportada, visível a pessoas a 18 quilómetros de distância do lugar, põe uma barreira à hipótese de histeria em massa.

Tentou explicar-se o pretenso milagre com base em fenómenos naturais[15] [16] [17] , Entretanto, o facto inegável da predição de que ia ocorrer em determinada data sem qualquer previsão meteorológica, dispensa a explicação por fenômenos naturais.

O professor Auguste Meessen do Instituto de Física da Universidade Católica da Lovaina, afirmou que as observações relatadas foram efeitos ópticos causados pela prolongada observação directa do Sol. Meessen alega que as imagens residuais na retina, produzidas após breves períodos de olhar fixo no Sol, são a causa provável dos efeitos observados de dança. Semelhantemente, Meessen afirma que as mudanças de cor testemunhadas foram provavelmente causadas pela estimulação excessiva das células fotossensíveis da retina.[18] Meessen adverte que milagres do Sol têm sido testemunhados em muitos locais onde peregrinos cheios de religiosidade têm sido encorajados a olhar para o Sol. Ele cita, como exemplo, as aparições em Heroldsbach, Alemanha (1949), onde os mesmos exactos efeitos ópticos foram testemunhados por mais de 10 000 pessoas. O cientista descarta ainda a hipótese de, no caso de Fátima, se ter tratado de um OVNI, visto que este teria de ser demasiado grande para poder ser igualmente visto e confundido com o Sol, à mesma hora, em locais situados num raio de 18 km dali.[19] Meesen, contudo, não leva em consideração o facto de os observadores de Fátima não terem contemplado o Sol directamente - premissa basilar para a sua teoria - antes de enxergarem o fenómeno. Ainda, de acordo com os relatos da época, o céu estava encoberto por nuvens, e o fenómeno começou a ser presenciado logo que as pessoas olharam para o céu, sem nenhuma exposição prolongada que causaria excitação na retina de quarenta mil pessoas de forma tão sincronizada.[20]

Schwebel considera que o fenómeno foi extra-sensorial e supernatural. Este autor afirma que o fenómeno não é único, conhecendo-se vários casos de religiosos que reportaram a visão de luzes brilhantes no céu.[21]

Stanley L. Jaki, beneditino e autor de livros que tentam conciliar a ciência e o catolicismo, propôs uma teoria para o milagre. Para ele, o fenómeno pode ter sido meteorológico em natureza, mas o facto de ter ocorrido no exacto tempo prenunciado é um milagre.[22]

Uma outra explicação que procura conciliar os testemunhos da época, a ciência e o que actualmente se conhece sobre fenómenos similares ocorridos noutros locais, é a de que o Sol que as testemunhas afirmaram ter visto a rodar e a dançar não era realmente o Sol, mas um objecto voador não identificado (ovni) que obscureceu o verdadeiro Sol através de nuvens artificiais ou não e se sobrepôs a ele[23] , contudo, não existia tecnologia para isso, nem sequer é coerente dispensar a explicação para aludir a uma visitação extraterrestre.

O evento foi oficialmente aceito como um milagre pela Igreja Católica em 13 de outubro de 1930. Em 13 de outubro de 1951, o cardeal Tedeschini afirma que, em 30 de outubro, 31 de outubro e 1 de novembro e 8 de novembro, o papa Pio XII presenciou um milagre semelhante nos jardins do Vaticano [24] .

O facto de não poder ter sido o Sol a mover-se devido às trágicas consequências para todo o sistema solar põe em causa a interpretação tradicionalmente aceita daquilo que os milhares de testemunhas presenciaram no local onde o fenómeno ocorreu.

Referências

  1. (De Marchi 1952a:183–194)
  2. (De Marchi 1952a)
  3. (De Marchi 1952a:177)
  4. (De Marchi 1952a:185–187)
  5. (De Marchi 1952b:118)
  6. (De Marchi 1952b:46)
  7. a b c (De Marchi 1952b:139–150)
  8. (De Marchi 1952b:143, 149)
  9. (De Marchi 1952b:150)
  10. (De Marchi 1952b)
  11. (De Marchi 1952a:207–210)
  12. (De Marchi 1952b:151–166)
  13. (De Marchi 1952b:148–50, 282)
  14. (De Marchi 1952b:150, 278–82)
  15. Joe Nickell (1993) Looking for a Miracle: Weeping Icons, Relics, Stigmata, Visions and Healing Cures Prometheus, ISBN 0-87975-840-6
  16. "Weather Secrets of Miracle at Fatima", Paul Simons, The Times, fevereiro 17, 2005.
  17. Kevin McClure (1983) The Evidence for Visions of the Virgin Mary Aquarian Press, ISBN 0-85030-351-6
  18. Auguste Meessen 'Apparitions and Miracles of the Sun' International Forum in Porto “Science, Religion and Conscience” October 23-25, 2003 ISSN: 1645-6564
  19. Auguste Meessen 'Apparitions and Miracles of the Sun' International Forum in Porto “Science, Religion and Conscience” October 23-25, 2003 ISSN: 1645-6564
  20. António Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima nos manuscritos da Irmã Lúcia, 23ª edição, Maio de 1998, Depósito Legal nº123 914, ISBN 972-95919-0-3 (páginas 53 a 55)
  21. Lisa J Schwebel (2003) Apparitions, Healings, and Weeping Madonnas: Christianity and the Paranormal Paulist Press, ISBN 0-8091-4223-6 (see the American Manazine review)
  22. Jaki, Stanley L. (1999). God and the Sun at Fatima. Real View Books, ASIN B0006R7UJ6
  23. Fina D'Armada; Joaquim Fernandes: As Aparições de Fátima e o Fenómeno OVNI. Lisboa: Estampa, 1995.
  24. Joseph Pelletier. (1983). The Sun Danced at Fatima. Doubleday, New York. p. 147–151.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Luís Filipe Torgal: O Sol Bailou ao Meio-Dia: A Criação de Fátima. Lisboa, Tinta da China, 2011. ISBN 9789896710712.
  • José Barbosa Machado: O Milagre do Sol. Braga, Edições Vercial, 2010. ISBN 9789898392268.
  • Tomás da Fonseca: Na Cova dos Leões. Lisboa, Antígona, 2009. ISBN 9789726082071.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]