Morte de Clara Nunes

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Morte de Clara Nunes
Localização Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Data 2 de abril de 1983
Resultado Investigação do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) determinou que não houve erro médico.

A morte de Clara Nunes por insuficiência cardíaca ocorreu no dia 2 de abril de 1983, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, quando a cantora tinha 39 anos de idade.[1] [2] Antes de vir à óbito, ela havia permanecido por 28 dias em estado de coma, tendo sido acometida por morte cerebral após sofrer uma anafilaxia durante uma cirurgia para retirada de varizes nas pernas em 5 de março daquele mesmo ano.[1] [2] [3] Uma das cantoras mais populares do Brasil à época,[3] [4] Clara foi vítima de toda sorte de boatos sobre a razão de ter entrado em coma. De maneira semelhante, o trabalho dos médicos que lhe atenderam e o relacionamento com seu marido, o compositor Paulo César Pinheiro, também seriam microscopicamente analisados pela imprensa e por seus fãs. Uma investigação levada a cabo pelo Conselho Regional de Medicina da Bahia, a pedido do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro – impossibilitado de realizar a investigação por estar sob intervenção do Conselho Federal de Medicina – chegaria à conclusão de que Clara não fora vítima de erro médico. A causa mortis apresentada no atestado de óbito da cantora foi "hipersensibilidade ao halotano", gás administrado durante a cirurgia como anestésico.

Antecedentes da cirurgia[editar | editar código-fonte]

"Acho que a cantora precisa de duas coisas: ter uma bonita voz e uma ótima aparência. Quanto ao caso de ter pernas bonitas, isso é secundário, mas pesa também na balança, é claro."
— Clara Nunes, para a Revista do Rádio, edição n° 1.039, 16 de agosto de 1969.[5]

Desde 1979, quando se submeteu a uma histerectomia (devido a um mioma que proliferava em seu útero),[6] Clara Nunes começou a fazer tratamento de escleroterapia, que consiste na aplicação, por injeção, de medicamentos diretamente no interior das varizes. Com o decorrer do tempo, o calibre das veia diminuiria e, conseqüentemente, o vaso se fecharia. O angiologista Antonio Vieira de Mello, renomado médico da área, foi escolhido por Clara para realizar o tratamento por indicação do ginecologista dela, Cézar Seminário. Ela desejava tratar algumas veias varicosas salientes que a incomodavam do ponto de vista estético. Atribuía dores que sentia nas pernas às varizes, o que era considerado um exagero por pessoas mais próximas a ela.[7]

Melhorar o visual das pernas acabaria se tornando uma obsessão para Clara, que sempre fora muito vaidosa. Sua preocupação com as pernas ganhou relevância no seu cotidiano a partir do surgimento de varizes mais grossas, que só seriam possíveis de tratar através de uma intervenção cirúrgica. Um episódio emblemático ocorreu em junho de 1982. Após se apresentar no Festival Horizonte Latino Americano de Arte, em Berlim Ocidental, a cantora telefonara para a amiga Bibi Ferreira do quarto de hotel em que estava hospedada para lhe revelar sua preocupação com as varizes. Clara teria dito à amiga que estava dançando na frente do palco quando reparou que todos olhavam para suas pernas, na altura das canelas. Ela disse que havia visto uma "veia estranha, feia mesmo" e comunicou a amiga sobre a decisão de fazer uma cirurgia de remoção de varizes após retornar ao Brasil. Bibi tentou convencer Clara de que a preocupação era bobagem, mas disse que ela deveria fazer a cirurgia se estivesse realmente incomodada, já que a anestesia provavelmente seria local ou peridural.[7]

Cirurgia[editar | editar código-fonte]

Clara marcou a cirurgia para 5 de março de 1983, após conseguir uma brecha em sua intensa agenda de compromissos profissionais.[8] Antonio Vieira de Mello chefiaria a equipe cirúrgica.[7] A cantora pediu sigilo total do médico, a fim de evitar alardes na imprensa. A data escolhida para a cirurgia sucedia o carnaval (comemorado em 15 de fevereiro naquele ano), quando Clara desfilou pela última vez na escola de samba da Portela e no bloco carnavalesco Clube do Samba,[8] que ela ajudara a fundar em janeiro de 1979.[9] Cerca de quinze dias antes da cirurgia para a remoção de varizes, a cantora se submeteu a uma outra pequena intervenção na clínica oftalmológica do doutor Marcos Wajnberg para retirada de um calázio (aumento da glándula sebácea da pálpebra em decorrência de inflamação).[10] De acordo com Wajnberg, "nesse caso, a intervenção cirúrgica não foi estética, mas por necessidade. O calázio é prejudicial e tem de ser retirado".[11]

No dia marcado para a cirurgia, Clara se levantou cedo, tomou seu habitual banho matutino, e se arrumou para sair rumo à Clínica São Vicente, na Gávea. Seu marido, o compositor Paulo César Pinheiro, se ofereceu para levá-la até a clínica, mas a cantora recusou. Iria dirigindo, acompanhada da amiga de infância Vilarinda Marçal de Faria (conhecida como Lalita), a quem Clara havia pedido que viesse de Paraopeba para ajudá-la nos dias seguintes à operação. De acordo com Paulo César, que só ficou sabendo da cirurgia no final de fevereiro, a esposa decidiu não tomar anestesia peridural porque tinha medo de ficar paralítica caso ocorresse algum erro médico.[11]

Clara chegou à clínica às 07:50 da manhã e foi direto para seu quarto.[12] Os funcionários da clínica reconheceram-na e começaram a comentar sobre sua presença na clínica, o que deixou a cantora visivelmente irritada. Quando o anestesista Américo Salgueiro Autran Filho chegou ao quarto, Clara lhe informou que havia optado pela anestesia geral, decisão que havia tomado desde que optara pela cirurgia. Os médicos tentaram fazê-la desistir da idéia, explicando-lhe as vantagens da peridural, e que a anestesia geral, em caso de pequenas cirurgias, pode ocasionar muitas complicações ao organismo, mas Clara foi categórica em sua resposta: "Se for para tomar a outra eu vou embora". Eles acabaram acatando a exigência da cantora. Às 10:30, Clara se dirigiu para a sala de cirurgia. A cirurgia começou às 10:45.[12]

Após Américo aplicar a anestesia em Clara, Antonio começou a operá-la.[12] A cantora havia sido anestesiada à base de uma mistura de halotano, protóxido de azoto e oxigênio.[13] A operação ocorria normalmente. A perna direita já havia sido operada, e a esquerda estava sendo suturada, quando Antonio percebeu que o sangue de Clara estava muito escuro, e jorrando em grande quantidade. O médico se assustou e pediu que o anestesista aferisse a pressão arterial da cantora (à época com aparelho manual). A pressão estava em grande queda, o que significa que a cantora estava com falta de ar, tendo uma parada cardíaca. Antonio mandou fechar a saída do anestésico e aumentar para 100% a entrada de oxigênio no tubo traqueal. A ressuscitação manual já começara a ser realizada, mas foi interrompida devido à fibrilação do coração. A cantora foi reanimada com um desfibrilador, mas não respondia voluntariamente aos estímulos, indicativo de que ela havia entrado em coma.[13]

Clara havia tido uma fortíssima reação alérgica a algum dos componentes utilizados no anestésico, ou seja, uma anafilaxia, que provocou a dilatação generalizada de todos os capilares sanguíneos de seu corpo. O cérebro não suportou tamanha pressão e um enorme edema se formou, causando a morte cerebral imeadiata da cantora. Àquela altura, os médicos ainda não sabiam precisar a extensão do problema. O tomógrafo da Clínica São Vicente estava quebrado e, naquela época, só havia outro em toda a cidade do Rio de Janeiro, na Santa Casa de Misericórdia. Às 3:40 da tarde, Clara foi encaminhada para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da clínica.[13]

Repercussão[editar | editar código-fonte]

"Eu fui olhando para o rosto de cada um deles e percebi algo estranho no anestesista, que estava pálido, com os lábios secos. Eu pensei: 'foi esse cara quem fez a merda'. Ele era o único que estava transtornado."
— Paulo César Pinheiro, para o livro Clara Nunes: Guerreira da Utopia, p. 258.[13]

A partir do momento em que Clara foi encaminhada para o CTI, a principal preocupação dos médicos era informar Paulo César Pinheiro sobre o ocorrido, e que muito possivelmente, se Clara sobrevivesse, teria sequelas, devido ao fato da falta de oxigênio no cérebro. O compositor passou a acompanhar de perto o quadro médico da esposa, junto com a família dela, que saiu de Minas Gerais para acompanhar o estado de Clara. Paulo César decidiu não ver mais a esposa, pois queria que a última imagem que tivesse de Clara fosse dela saindo de casa na manhã do dia 5 de março. A pedido de Paulo César, que mantinha a esperança da situação ser revertida, o caso foi mantido sob sigilo, mas acabou vazando para a imprensa dois dias depois.[13] A rua onde o casal morava, a Engenheiro Alfredo Dutra, se transformou num verdadeiro quartel-general de repórteres, assim como a clínica.[14] A essa altura, já havia sido divulgado que Clara havia sofrido um choque anafilático devido a uma cirurgia, mas várias versões sobre o estado de saúde da cantora começaram a circular: inseminação artificial, aborto (hipóteses impossíveis devido à histerectomia realizada por Clara em 1979, que foi mantida sob sigilo), tentativa de suicídio, surra do marido. Também foi propagado que o choque anafilático fora provocado pela enorme quantidade de uísque ingerido pela cantora na noite anterior à cirurgia e que ela seria usuária de drogas.[14]

No ano anterior, ao presenciar de perto a enorme repercussão da morte de Elis Regina, Clara havia ficado aterrorizada ao ponto de pedir ao marido, ao voltar do velório da amiga, que ele não deixasse que transformassem a morte dela em "motivo para circo".[15] No entanto, Paulo César Pinheiro pouco pôde fazer para atender ao pedido da esposa. Dezenas de fãs e artistas aportaram na Clínica São Vicente, que seria palco de crises histéricas e orações. Rosemary, Elizeth Cardoso, Dori Caymmi, Grande Otelo, João Nogueira, Dona Zica, Mauro Duarte, Fafá de Belém,[16] Paulinho da Viola, Luiz Ayrão, Roberto Ribeiro, Alcione,[16] Elza Soares, Beth Carvalho, Chico Buarque e Marieta Severo e Baby Consuelo[16] estão entre os artistas que foram até à clínica.[14]

Baby Consuelo causou agitação ao tentar entrar no CTI com o curandeiro Thomaz Green Morton.

Baby Consuelo protagonizou um dos momentos mais tensos dos 28 dias em que Clara esteve em coma, ao tentar entrar no CTI com Thomaz Green Morton, que havia convencido vários artistas de que seus "poderes paranormais" curavam doenças graves. Entretanto, ela foi impedida por Maria Gonçalves Pereira, a irmã mais velha da cantora, que acompanhava-a dia e noite, ao lado de Branca, outra irmã. No período em que Clara ficou em coma, apareceram todos os tipos de produtos milagrosos e curandeiros.[14] Paulo César Pinheiro barraria a entrada da maioria deles, motivo pelo qual foi chamado de "perturbado mental" por algumas publicações.[17] Também era ameaçado pelos fãs da cantora por seus supostos casos extraconjugais, boato este que ganhava força. Um dos poucos benzedeiros que ele deixou entrar no CTI foi Lourival de Freitas, o "bruxo das Laranjeiras", que havia feito Tom Jobim e Chico Buarque parar de beber através do tratamento com ervas oriundas da Amazônia. Outro a entrar no CTI foi um acupunturista chinês chamado "Mister Wu", que tentou reanimar a cantora através de uma técnica da acupuntura chamada moxabustão.[17]

Nenhuma das tentativas trouxeram resultado positivo. Clara não possuía atividade cerebral e os médicos sabiam que, a qualquer momento, suas funções vitais se encerrariam.[18] Dez dias após o início do coma foi descoberta a extensão do edema, quando Clara foi levada para uma tomografia na Santa Casa, o que foi feito de madrugada para que não houvesse comoção popular. Naquele momento, chegaram à conclusão de que nada poderia ser feito para evitar a morte iminente da cantora, devido ao tamanho do edema cerebral.[18] Diante do silêncio de Paulo César e dos boletins médicos pouco esclarecedores,[16] [19] a imprensa começou a exigir que os médicos concedessem uma entrevista coletiva e que a sala de cirurgia fosse aberta para que fosse concluído se houve ou não falha nos equipamentos usados.[18] Assim foi feito na terceira semana de março, quando o chefe do serviço de anestesia guiou os membros da imprensa pela clínica.[19] Havia suspeitas de que o anestesista se ausentara da sala durante a cirurgia, de que houve erro médico no atendimento à cantora e de que teria ocorrido uma falha no equipamento que liberava oxigênio.[18] A revista Veja entrevistou uma funcionária do centro cirúrgico que teria dito que, de fato, faltou oxigênio durante a operação.[19]

Morte, velório, enterro e culto[editar | editar código-fonte]

Milhares de pessoas no Portelão velando o corpo de Clara Nunes.

Na madrugada de 2 de abril de 1983 (aproximadamente às 4:00 horas)[20] , as funções vitais de Clara começaram a desaparecer.[21] Maria Gonçalves Pereira havia acabado de chegar à clínica, após uma visita rápida a Caetanópolis para organizar a casa. Ao entrar no CTI, ela percebeu que Clara não sobreviveria àquele dia. Chegou perto da irmã e lhe disse: "Estou aqui filhinha, você estava me esperando, não é? Agora você pode se desligar, pode seguir teu caminho". Pouco depois, às 4:30 da manhã, Clara morreria após passar 28 dias em coma.[21] Maria Pereira e Paulo César entraram em contato com o presidente da Portela, Nezinho, para que o corpo fosse velado na quadra da escola de samba, em Madureira.[20] De madrugada, as emissoras de rádio anunciaram a morte da cantora e os fãs se dirigiram para a porta da clínica e, posteriormente, para o chamado Portelão.[20] Desde as 6:00 da manhã, uma grande multidão se formava na porta da escola de samba.[22]

Como medida de segurança, o corpo de Clara saiu de uma ambulância da Clínica São Vicente rumo à quadra da Portela, sendo acompanhado por populares. O corpo chegou à sede da escola de samba às 10:30 da manhã.[20] Com dificuldade, a ambulância entrou no pátio lotado e o corpo foi levado do veículo até uma sala onde estava o caixão.[20] Seis soldados da Polícia Militar conduziram o caixão até o centro da quadra, sob o aplauso das mais de 5.000 pessoas que ali se aglomeravam.[20] Enquanto isso, a programação das principais redes de televisão do país era interrompida com flashes ao vivo da clínica e da quadra da escola de samba;[21] nas rádios, os sucessos do último álbum de Clara, Nação, tocavam incessantemente.[22]

A partir do momento em que o caixão aberto foi colocado no centro da quadra, alguns tumultos ocorreram.[20] Àquela altura, apenas 30 soldados da Polícia Militar faziam a segurança do local, assim como os seguranças particulares da Portela.[20] Seis seguranças da Rede Globo também estavam presentes no local e agiam com truculência, afastando público e repórteres do centro da quadra.[20] Algumas das pessoas presentes caíram de um palco de cerca de dois metros de altura.[20] Houve correria, com muitos empurrões e quedas.[20] O recinto onde se realizaria o velório foi invadido e o caixão quase foi jogado ao chão.[20] Logo depois houve um segundo tumulto, com pessoas correndo para a rua.[20] Alguns passaram mal e pelo menos uma pessoa desmaiou por falta de ar.[20] A diretoria da Portela, incapaz de controlar a situação, se refugiou numa sala junto com a família da cantora.[20] O Batalhão de Choque da Polícia Militar foi acionado para conter a multidão.[20] Ao todo, 500.000 pessoas passaram pela escola de samba para se despedir da cantora.[22] [23]

"Não tenho culpa da morte de Clara. Apenas alertei para o risco que ela estava correndo, uma vez que estava ausente da minha casa. Mas ela poderia se cuidar com qualquer outro pai-de-santo (...) O que me espantava era que ela foi coroada por mim como filha das águas e recebeu o título de Deusa das Águas porque todo trabalho foi feito no Rio Capibaribe. Depois de sua ausência do Palácio de Olinda, ela virou guerreira de Ogum com Iansã. Então, como é que eu poderia fazer alguma coisa por ela?"
— Pai Edu de Recife, após a morte da cantora.[24]

Às 16:00 horas, o caixão foi fechado e coberto com as bandeiras do Clube do Samba e da Portela; além das de outras escolas de samba, como Mangueira, Caprichosos de Pilares e Império Serrano. Um caminhão do Corpo de Bombeiros levou o caixão até o Cemitério São João Batista, onde a cantora foi sepultada às 18:00 horas,[22] após um tumulto na chegada ocasionado pela grande quantidade de pessoas que se dirigiram para o local.[24]

As reações à morte da cantora foram variadas. Os seguidores das religiões afro-brasileiras reagiram mal à morte da cantora, dizendo que ela havia sido imprudente ao se operar na quaresma.[21] O babalorixá Pai Edu de Recife, que já havia se desentendido com Paulo César, havia alertado publicamente a cantora para que não se operasse naquele período. Clara teria, inclusive, optado pela anestesia geral – ao invés da peridural – devido a uma orientação que o guia espiritual pernambucano teria lhe dado.[24] Por outro lado, no âmbito do neopentecostalismo, a morte da cantora foi apontada como consequência da intercessão de um espírito demoníaco. De acordo com Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e atual proprietário da Rede Record, "o espírito que estava nela foi manifestado por uma pessoa presente" num culto da igreja e teria dito que "iria levá-la".[25]

Já no dia seguinte ao enterro de Clara Nunes, sua sepultura tornou-se um local de peregrinação dos fiéis do candomblé e da umbanda e, desde então, é bastante visitado, sobretudo por adeptos dos cultos afro-brasileiros, que ali realizam rituais e deixam oferendas à artista, como flores e velas.[24] De acordo com os adeptos dessas crenças, a cantora não teria morrido, mas sim se tornado um "Ser de Luz", havendo até mesmo relatos de curas através da intercessão de Clara Nunes.[24]

Segundo o jornal O Globo, o túmulo de Clara Nunes é atualmente o segundo mais visitado do Cemitério São João Batista durante o feriado de Finados, atrás apenas do túmulo de Cazuza.[26]

Investigação[editar | editar código-fonte]

"A culpa é da limitação da ciência médica de hoje, que não permite evitar o choque anafilático."
— Dr. Aristides Maltez Filho, presidente do Cremeb, sobre a morte de Clara Nunes.[5]

Paulo César Pinheiro decidiu não abrir um processo para investigar se a morte de Clara foi causada por erro médico.[27] Para haver a investigação, ele teria que autorizar a exumação do cadáver dela. Seguindo a orientação da própria cantora, ele não permitiu que isso fosse feito. Ela teria lhe dito, após a morte de Elis: "me enterre como eu estiver, mas não deixe me cortarem". Outro motivo pelo qual preferiu não abrir um processo se devia ao fato de que o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) se encontrava sob intervenção do Conselho Federal de Medicina (CFM)[27] desde 1978.[28]

A intervenção no Cremerj havia se iniciado em 1978, quando duas chapas de oposição desrespeitaram uma norma baixada pelo então presidente do CFM, Murilo Belchior.[28] A norma proibira a inclusão de candidatos com menos de cinco anos de formados.[29] As chapas oposicionistas incluíram profissionais novatos e, assim sendo, a Chapa 2, que venceu a eleição, não obteve a homologação dos resultados pelo CFM. Há quem indique que os resultados não foram homologados porque as chapas oposicionistas eram ligadas a sindicatos, o que desagradava a direção do CFM, que seria ligada à ditadura militar. Por fim, o CFM nomeou uma diretoria provisória para o Cremerj, com funções limitadas (apenas administrativas e não éticas) e constituída por membros da Chapa 1, a derrotada.[29]

Hipóteses para a parada cardíaca de Clara Nunes, apresentadas por Américo Salgueiro Filho ao Cremeb[30] :

1a - O iodo teria desencadeado uma liberação maciça de histamina, capaz de provocar queda da pressão arterial, choque grave e parada cardíaca.

2a - O Inoval (pré-anestésico) teria provocado um quadro chamado de "tórax rígido", caracterizado pela dificuldade de se ventilar o paciente, o que no caso de Clara não chegou a se caracterizar por completo devido à aplicação de um medicamento broncodilatador que facilita a respiração.

3a (mais provável, usada como causa mortis no atestado de óbito) - Reação de hipersensibilidade, tipo anafilática, ao halotano, gás absorvido pelos alvéolos pulmonares que cai na corrente sanguínea com o objetivo de "apagar" o paciente. Seu modo de ação, como o da maioria dos agentes anestésicos, é desconhecido. Também diminui a pressão arterial e pode se tornar tóxico devido a uma biotransformação orgânica.

No final de abril de 1983,[31] o Cremerj decidiu averiguar as causas que levaram à morte da cantora, abrindo uma sindicância.[28] Diante do clamor público, a instituição tem autonomia para iniciar a apuração de casos suspeitos, independentemente da autorização dos familiares.[28] No entanto, o julgamento não poderia ser realizado pelo Cremerj, uma vez que este se encontrava sob intervenção. Teria que ser realizado por outro Conselho Regional de Medicina. O CFM indicou, então, o Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb), presidido na época por Aristides Maltez Filho.[29]

O jornalista Vagner Fernandes, autor de Guerreira da Utopia, biografia da cantora lançada em 2007, teve acesso aos documentos sobre a sindicância aberta para apurar a morte de Clara.[32] Esta foi a primeira vez que o Cremerj liberou os documentos, que totalizam cinco volumes e 815 páginas. Os documentos apontam a versão do anestesista para o choque anafilático, os depoimentos de cada um dos membros da equipe que atuou na cirurgia e os de outras testemunhas mencionadas em reportagens, além dos prontuários indicando quais medicamentos foram ministrados à cantora nos 28 dias em que esteve internada na Clínica São Vicente. Sob o registro CFM 33/83, a sindicância começou em 14 de março de 1983, a pedido do Cremerj. A diretoria provisória da instituição decidira reunir recortes de jornais e solicitar aos médicos Antonio Vieira de Mello, Américo Salgueiro Filho e Jacob Cukier, então chefe do CTI da clínica, relatórios sobre o caso. Nos dias 27 e 28 de junho, Paulo César Pinheiro, membros da equipe cirúrgica e diretores da clínica prestaram depoimentos a Fernando Marigliano e Artur Ventura, do Cremeb, na antiga sede do Cremerj na praça Mahatma Gandhi, no Centro do Rio.[32]

Como havia sido divulgado que o anestesista havia se ausentado da sala de operação para atender a um telefonema,[33] Josélia Alves Pereira, a telefonista da clínica, também fora solicitada a depor.[34] Ao ser perguntada se algum médico da equipe de Antonio Vieira esteve no centro telefônico durante seu turno, ela respondeu que não. Ao ser perguntada se algum médico esteve no centro telefônico na hora da operação, ela respondeu que não sabia (seu turno começava ao meio-dia, portanto, uma hora e quinze minutos após o início da cirurgia). Antonio Vieira de Mello ressaltou novamente que o anestesista jamais deixara a sala de cirurgia. Todos os membros da equipe confirmaram a presença do anestesista Américo Salgueiro Filho na sala de forma contínua. Houve repercussão na mídia o fato da Clínica São Vicente não ter pedido exames de alergia a medicamentos para Clara antes da cirurgia, mas a clínica defendeu-se dizendo não ter sido necessário.[34]

Os depoimentos apontaram que, tanto do ponto de vista técnico quanto humano, não houve falhas.[34] Os médicos não se ausentaram, os equipamentos não falharam por falta de manutenção[33] e a Clínica São Vicente era de excelência. Ao todo, treze pessoas foram ouvidas. O relatório dos conselheiros baseou-se nas provas apresentadas pelos médicos, sobretudo pelo anestesista, e nos depoimentos das testemunhas.[34] Acabou sendo aprovado por unanimidade em sessão plenária no dia 28 de julho de 1983.[5] [33] A decisão do Cremeb era passível de recurso. Os parentes da paciente poderiam ter recorrido ao CFM. Paulo César Pinheiro, no entanto, teria dito que não iria recorrer por "não acreditar nesta Justiça".[33]

Referências

  1. a b "Samba Singer Mourned" (em inglês). Gainesville Sun. 4 de abril de 1983. Reproduzido no Google News Archive. Página visitada em 11 de março de 2011.
  2. a b "Datas" (13 de abril de 1983). Veja, p. 104. Disponível no Acervo Digital Veja. Página visitada em 13 de março de 2011.
  3. a b Donizeti Costa (Diário de S. Paulo). "Biografia traz à tona fatos marcantes da vida de Clara Nunes, morta em 1983". O Globo. 9 de outubro de 2011. Página visitada em 20 de março de 2011.
  4. "Entidade guerreira" (2 de outubro de 2007). Diário do Nordeste. Página visitada em 20 de março de 2011.
  5. a b c Fernandes (2007), p. 277.
  6. Fernandes (2007), p. 219.
  7. a b c Fernandes (2007), p. 253.
  8. a b Fernandes (2007), p. 254.
  9. Fernandes (2007), p. 215.
  10. Fernandes (2007), p. 254-255.
  11. a b Fernandes (2007), p. 255.
  12. a b c Fernandes (2007), p. 257.
  13. a b c d e Fernandes (2007), p. 258.
  14. a b c d Fernandes (2007), p. 259.
  15. Fernandes (2007), p. 241.
  16. a b c d "Mistério inútil" (16 de março de 1983). Veja, p. 33. Disponível no Acervo Digital Veja. Página visitada em 13 de março de 2011.
  17. a b Fernandes (2007), p. 260.
  18. a b c d Fernandes (2007), p. 261.
  19. a b c "Versões contraditórias" (23 de março de 1983). Veja, p. 100-101. Disponível no Acervo Digital Veja. Página visitada em 13 de março de 2011.
  20. a b c d e f g h i j k l m n o p "Clara Nunes, o fim após um silêncio de 27 dias" (3 de abril de 1983). Folha de S. Paulo, p. 21. Disponível no Acervo Folha. Página visitada em 28 de julho de 2011.
  21. a b c d Fernandes (2007), p. 262.
  22. a b c d Fernandes (2007), p. 263
  23. Dados artísticos de Clara Nunes. Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira. Página visitada em 12 de março de 2011.
  24. a b c d e Rachel Rua Baptista Bakke (dezembro de 2007). Tem orixá no samba: Clara Nunes e a presença do candomblé e da umbanda na música popular brasileira. Religião & Sociedade, vol.27 no.2 Rio de Janeiro (in: Scielo). Página visitada em 6 de abril de 2011.
  25. "Fanático e muito rico". Veja. 6 de dezembro de 1995. Página visitada em 28 de julho de 2011.
  26. "Túmulos de Cazuza e Clara Nunes foram os mais visitados por fãs no Cemitério São João Batista". O Globo. 2 de novembro de 2007.
  27. a b Fernandes (2007), p. 265.
  28. a b c d Fernandes (2007), p. 267.
  29. a b c Fernandes (2007), p. 269.
  30. Fernandes (2007), p. 274-275.
  31. "Bahia julga caso de Clara Nunes". Jornal do Brasil. 22 de abril de 1983. Reproduzido no Google News Archive. Página visitada em 16 de março de 2011.
  32. a b Fernandes (2007), p. 272.
  33. a b c d "Caso encerrado" (3 de agosto de 1983). Veja, p. 24. Disponível no Acervo Digital Veja. Página visitada em 22 de março de 2011.
  34. a b c d Fernandes (2007), p. 273.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]