Movimento cocalero

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O Movimento dos camponeses cocaleros na Bolívia é o maior movimento social nas últimas duas décadas. Os cocaleros nunca se definiram apenas como camponeses, mas como indígenas plantadores e protetores de uma folha simbólica para sua cultura, a consagrada folha de coca. O Movimento se constituiu por várias identidades e objetivos, e acompanhou outros setores ativos da sociedade pelas reivindicações étnicas, sociais e econômicas. Vale tentarmos desfazer os estereótipos relacionados aos cocaleros onde sua cultura é subjugada.

A Revolução Nacional de 1952 marcou uma nova história social na Bolívia. A nacionalização das minas, a reforma agrária, o voto universal, e o desmonte do militarismo das oligarquias, impulsionado fundamentalmente pelo operariado mineiro, foram possibilitando o desenvolvimento do camponês como agente consciente de sua classe.

A partir do final da década de 1970 e início dos anos 1980, quando respondendo ao chamado da central sindical boliviana os camponeses paralisaram o país, bloquearam estradas e acessos às cidades, e precipitaram a queda do governo militar, observa que eles haviam desenvolvido, nos anos da revolução, racionalidade suficiente para não apenas defender as bandeiras da democracia, mas para levar o movimento alem das expectativas da central sindical, propondo inclusive lideranças camponesas organizadas num partido indígena para assumir o novo governo. Mas o mundo todo estava mudando, e as conquistas sociais logo foram diluídas pela metamorfose global e pelas limitações do desenvolvimento local, na década de 1980. Ao fracasso evidente do ciclo revolucionário e, fazer progredir um projeto nacional e moderno, adicionaram-se as conseqüências do endividamento recente do país. A dívida externa boliviana saltou, entre empréstimos recebidos e dívida contraída pelos governos militares.

Diante disso, a retomada da direção da democracia não evitou a iminência da crise econômica manifestada na hiperinflação. Ao Estado boliviano, ainda não consolidado na doutrina democrática, foi imposto iniciar profundas mudanças estruturais, através de uma nova política econômica caracterizada pela reforma tributária, abertura das fronteiras às importações e o congelamento de salários, alem do enxugamento da máquina estatal.

Esta etapa, que coincide com o fim da Guerra Fria e com a divisão do mundo em blocos de influencia (1991) e também com a implantação do modelo neoliberal. Na Bolívia, o resultado da nova política de reforma foi uma imediata recessão econômica, o aumento do desemprego e o desmonte do proletariado mineiro. A sensação geral foi de devastação das alternativas sociais e conquistas revolucionárias, e fim das mobilizações sociais conquistadas em décadas anteriores. É nesse contexto que surgem os cocaleros, como símbolo da nova fase de exclusões sociais: resultam do êxodo rural, da crise econômica e do desemprego; do modelo afiliado a interesses e capitais externos e principalmente do esgotamento das fórmulas tradicionais da organização nacional. Dessa crise, emergiram também os novos movimentos sociais (NMS), que tem impulsos diversos, sem identidade fixa, nem filiação política-partidária, explodiram na década de 1980, ganhando força nos anos 1990. Na América- Latina, os novos movimentos têm tido um discurso principalmente étnico-cultural, como os neozapatistas e os cocaleros. Em todos eles, discute-se a problemática da terra e da pobreza rural.

Como é que num cenário de crise e de limitado desenvolvimento das forças produtivas aparecem esses movimentos que antes eram o segmento mais atrasado da sociedade e agora são os que dão energia à mobilização social e política centralizando as iniciativas das novas ações e mostrando que acumularam níveis elevados de auto-reflexão e de capacidade de organização?

Aqui é que adquirem valor as histórias locais. Para entender o movimento cocalero na Bolívia deve-se pensar que os camponeses-indígenas não tem uma identidade unificada, nem histórias semelhantes.

Numa básica distinção, pode-se observar dois horizontes distintos: os dos povos quíchuas e dos aimarás. Historicamente, os primeiros desempenharam um papel conquista e de negociação, enquanto os segundos foram os da resistência e afirmação constante da sua identidade cultural.

Os quíchuas teriam levado a revolução de 1952 para o campo, enquanto os aimarás, numa atitude de resistência e desconfiança não teriam aceitado totalmente o governo revolucionário.

Dois horizontes tão distintos são bases do movimento camponês contemporâneo boliviano. Os quíchuas foram base do pacto militar-camponês, enquanto os aimarás o atacaram.

No fim da década de 1980, estes, devido aquisição de valores democráticos pelas experiências revolucionarias, se transformaram num novo movimento social, os kataristas, como setor mais combativo na defesa da democracia boliviana.

MAS o que tem a ver estes setores indígenas e movimentos camponeses com os cocaleros? D dissidência camponesa do movimientismo, e em oposição direta contra o pacto militar-camponês, emergem duas vertes que, anos mais tarde constituiriam a liderança futura do novo movimento indígena e camponês. O primeiro foi o katarismo, no altiplano, o segundo foi o movimento cocalero, organizado politicamente a partir de um setor de camponeses quiuchas que não atacando o pacto, fugiram para o Chapare, no trópico Cochabambino, a fim de conquistar novas fronteiras de sobrevivência.

Os cocaleros levaram para as colônias do Chapare a organização sindical dos camponeses revolucionários sem perder a estrutura familiar como base produtiva e da reprodução social. Na medida em que se organizaram e se constituíram em movimento popular, porém, os cocaleros fizeram prevalecer os valores que aprenderam dos rebeldes kataristas: a importância da defesa de sua identidade e busca da sua autonomia de ação.

Seja pela influência quíchua ou pela influencia aimará, observa que a acumulação de uma consciência sobre si mesmos resultou das formas de resistências e de lutas originais. Definir o movimento cocalero apenas pela sua origem étnica e cultural seria negar uma realidade mais complexa na construção de sua identidade e sua situação histórica como classe.