Tropicália

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Tropicália
Origens estilísticas Música pop, MPB
Contexto cultural 1967 - 1969
Instrumentos típicos guitarra elétrica, violão, violino, berimbau
Formas regionais
Sudeste do Brasil
Outros tópicos
Bossa Nova, Jovem Guarda, Música popular brasileira

Tropicália, Tropicalismo ou Movimento tropicalista foi um movimento cultural brasileiro que surgiu sob a influência das correntes artísticas da vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira (como o pop-rock e o concretismo); misturou manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais. Tinha objetivos comportamentais, que encontraram eco em boa parte da sociedade, sob o regime militar, no final da década de 1960. O movimento manifestou-se principalmente na música (cujos maiores representantes foram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Os Mutantes e Tom Zé); manifestações artísticas diversas, como as artes plásticas (destaque para a figura de Hélio Oiticica), o cinema (o movimento sofreu influências e influenciou o Cinema novo de Gláuber Rocha) e o teatro brasileiro (sobretudo nas peças anárquicas de José Celso Martinez Corrêa). Um dos maiores exemplos do movimento tropicalista foi uma das canções de Caetano Veloso, denominada exatamente de "Tropicália".[1]

História[editar | editar código-fonte]

O começo do Tropicalismo[editar | editar código-fonte]

O movimento surgiu da união de uma série de artistas baianos, no contexto do Festival de Música Popular Brasileira promovidos pela Rede Record, em São Paulo, e Globo, no Rio de Janeiro e que formaram o movimento musical mais influente e original do país após a Bossa Nova.[2]

Um momento crucial para a definição da Tropicália foi o Festival de Música Popular Brasileira (1967), no qual Caetano Veloso interpretou "Alegria, Alegria" e Gilberto Gil, ao lado dos Mutantes, "Domingo no Parque".[3] [4] No ano seguinte, o festival foi integralmente considerado tropicalista (Tom Zé aí apresentou a canção "São Paulo"). Em 1968 foi lançado o disco Tropicalia ou Panis et Circencis, um manifesto do grupo e considerado o 2º melhor álbum da música brasileira pela Rolling Stone Brasil.[5]

Origem do nome[editar | editar código-fonte]

O nome Tropicalismo deu-se ao rótulo encontrado pela mídia para definir um estado de espírito inconformado de Caetano Veloso e Gilberto Gil (que na época vinham em começo de carreira) associado a manifestações espontâneas em outras artes.[3] A respeito disso, Caetano fala:

"Sua própria construção (o nome tropicalismo) - por jornalistas ingênuos a partir de uma sugestão de Luís Carlos Barreto por causa da obra de [Hélio] Oiticica - tem a marca do acaso significativo, do acercamento inconsciente a uma verdade"
registrou na página 501 (capítulo "Vereda") de seu livro Verdade Tropical.[3]

Características[editar | editar código-fonte]

O movimento tropicalista trouxe várias inovações para o cenário cultural brasileiro do final da década de 60.[6] O movimento, de certa forma, foi um rompimento com a arte obviamente militante, que tratava da situação política do país na época da ditadura e tinha a melodia como um sustentáculo desta mensagem.

As letras das canções eram inovadoras, criando jogos de linguagem, se aproximando da poesia dos concretistas. As mensagens das letras eram codificadas, que exigiam uma certa bagagem cultural para que fossem compreendidas. "Alegria, Alegria" de Caetano Veloso não tem sentido óbvio, mas carrega em sua letra preocupações típicas da juventude da década de 60, um tormento com a violência da ditadura e um desejo de inovar, de romper barreiras.

Eles se caracterizavam pelo excesso, roupas coloridas, cabelos compridos e agregavam várias influências musicais. A intenção era chocar e, por meio de performances caracterizadas pela violência estética, protestar contra a música brasileira bem comportada. Influenciados pela contracultura, se apoderaram da linguagem da paródia e do deboche. Os tropicalistas transformaram a música popular brasileira, sendo grandes expoentes da arte brasileira de vanguarda.

Musicalmente, o tropicalismo unia uma mistura da cultura brega, do rock psicodélico, da música erudita, da cultura popular, entre outros, dando conta de várias manifestações da cultura nacional. O som da guitarra elétrica convivia com violinos e com o berimbau. Era o resgate do Movimento antropofágico de Oswald de Andrade aliado a um retorno às raízes das tradições nacionais.

Influências: movimento antropofágico, pop art, concretismo[editar | editar código-fonte]

A década de 1960 era de intensa transformação cultural: Hélio Oiticica, mudava o rumo das artes[nota 1] [7] . No cinema, Glauber Rocha filmava Terra em transe e Joaquim Pedro de Andrade, Macunaíma. Chico Buarque escrevia Roda Viva, em 1966, e José Celso Martinez Corrêa montava O Rei da Vela, de Oswald de Andrade.[8] A proposta, ou a transformação requerida pelo tropicalismo, consistia em deglutir todas as tendências, informações, manifestações do pensamento e então expressar a realidade do artista brasileiro.[8]

Antropofagia

Grande parte do ideário do movimento pode ser entendido como uma transposição das propostas que, durante as décadas de 1920 e 30, os artistas ligados ao Movimento antropofágico promoviam (Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Menotti del Pichia, Pagu entre outros): são especialmente coincidentes as propostas de digerir a cultura exportada pelas potências culturais (como a Europa e os Estados Unidos) e regurgitá-la após a mesma ser mesclada com a cultura popular e a identidade nacionais (que em ambos os momentos não estava definida, sendo que parte das duas propostas era precisamente definir a cultura nacional como algo heterogêneo e repleto de diversidade, cuja identidade é marcada por uma não identidade mas ainda assim bastante rica).

Pop art

A grande diferença entre as duas propostas (a antropofágica e a tropicalista) é que a primeira estava interessada na digestão da cultura erudita que estava sendo exportada, enquanto os tropicalistas incorporavam todo tipo de referencial estético, seja erudito ou popular. Acrescente-se a isso uma novidade: a incorporação de uma cultura não necessariamente popular, mas pop). O movimento, neste sentido, foi bastante influenciado pela estética da pop art e reflete no Brasil algumas das discussões de artistas pop (como Andy Warhol).

Concretismo

Ainda que tenha sido bastante influenciado por movimentos artísticos que costumam estar associados à ideia de vanguarda negativa, o Tropicalismo também manifestou-se como um desdobramento do Concretismo da década de 1950 (especialmente da Poesia concreta). A preocupação dos tropicalistas em tratar a poesia das canções como elemento plástico, criando jogos linguísticos e brincadeiras com as palavras é um reflexo do Concretismo.

Fim do Tropicalismo[editar | editar código-fonte]

Em 1969, os Mutantes realizaram o seu último concerto com Caetano e Gil. Foi durante a conturbada temporada na carioca boate Sucata, no qual ocorreu o famoso incidente da bandeira nacional, que, supostamente, foi desrespeitada, no entender dos militares que governavam o Brasil naquela época.[4]  Durante o espetáculo, foi pendurada no cenário do espetáculo uma bandeira, obra do artista plástico Hélio Oiticica, com a inscrição "Seja Marginal, Seja Herói", com a imagem de um traficante famoso naquela época, o Cara-de-Cavalo, que havia sido assassinado violentamente pela polícia.[9]  Os militares alegaram ainda que Caetano teria cantado o Hino Nacional inserindo versos ofensivos às Forças Armadas. Isto tudo serviria de pretexto político para que os militares suspendessem a apresentação, prendessem Caetano e Gil e, posteriormente, soltos e exilados no Reino Unido. O episódio é considerado como o fim do movimento vanguardista.

Pós-tropicalismo[editar | editar código-fonte]

O pós-tropicalismo (1969-1974) foi um movimento surgido logo após o tropicalismo, sendo caracterizado por músicas de caráter "sombrio", a auto marginalização, a solidão, a tristeza, a escuridão, a temática da morte e o sentimento de derrota. Os músicos surgiram com uma postura do baixo astral, da frustração dos sonhos de resistência e da própria derrota, assumindo posturas hippies ou "alternativas".[10] [11]

Críticas[editar | editar código-fonte]

Embora marcante, o Tropicalismo era visto por seus adversários como um movimento vago e sem comprometimento político, comum à época em que diversos artistas lançaram canções abertamente críticas à ditadura. De fato, os artistas tropicalistas fazem questão de ressaltar que não estavam interessados em promover através de suas músicas referências temáticas tradicionais à problemática político-ideológica, como feito até então pela canção de protesto: acreditavam que a experiência estética vale por si mesma e ela própria já é um instrumento social revolucionário. O próprio Caetano Veloso declarou que ainda em 1966 imaginava um movimento para "regenerar o tecido da MPB".

Durante a década de 1960, delinearam-se na música popular brasileira quatro grandes tendências:

  • a primeira era composta por alguns dos artistas que herdaram a experiência da Bossa Nova (ou seus próprios representantes), e compunham uma música que estabelecia relações com o samba e o cool jazz (grupo no qual pode-se inserir a figura de Chico Buarque);
  • um segundo grupo, reunido sob o título "Canção de Protesto", se recusava a aceitar elementos da música pop estrangeira, em defesa da preservação da cultura nacional frente ao imperialismo cultural, e via a canção, acima de tudo, como um instrumento de crítica política e social (neste grupo destaca-se a figura de Geraldo Vandré);
  • um terceiro grupo, interessado em produzir um tipo de música que possuía forte influência do rock inglês e norte-americano, tão em voga no mundo daquele período, e que aqui no Brasil ficou conhecido como iê-iê-iê ou Jovem Guarda (neste grupo destacam-se artistas como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia).
  • e finalmente um quarto grupo, especialmente dedicado a promover experimentações e inovações estéticas na música formado justamente pelos artistas tropicalistas.

Alguns dos artistas participaram de mais de uma desses grupos, mas o estilo dessas correntes eram distintos e tinham características próprias e delimitadas.

Dado o caráter repressivo do período, a intelectualidade da época (e principalmente determinadas fatias da juventude universitária ligadas ao movimento estudantil) tendiam a rejeitar a proposta tropicalista, considerando seus representantes alienados. Apenas décadas mais tarde, quando o movimento já havia se esvaziado, ele passou a ser efetivamente compreendido e deixou de ser tão criticado.

Carmen Miranda[editar | editar código-fonte]

Com suas vestes de baiana estilizada e o arranjo de frutas tropicais que carregava sobre a cabeça – marcas definitivas de sua imagem – Carmen Miranda, a "pequena notável", acabou por expor ao mundo uma visão caricata e estereotipada do Brasil. No auge da "política da boa vizinhança" entre os Estados Unidos e a América do Sul, sua imagem latina era explorada pelos estúdios à exaustão. Tal exposição internacional fez despertar na intelectualidade brasileira um certo sentimento de desprezo por sua figura, acusando-a de tornar-se "americanizada".[12]

As imagens de Carmen Miranda voltam à cena durante o movimento tropicalista. Ícone da cultura popular e do exagero estético, sua figura era evocada menos por sua importância musical na cena brasileira e mais pela sua vinculação a uma imagem estereotipada e "tropical" do Brasil. A cantora viria a ser assumida como um dos ícones tropicalistas, estando presente tanto nas letras de canções (como "Tropicália", de Caetano Veloso), quanto nas imitações dos trejeitos da artista – o torcer das mãos e o revirar dos olhos – com que Caetano Veloso por mais de uma vez brindou/provocou a plateia.

Nomes ligados à Tropicália[editar | editar código-fonte]

Alguns dos principais representantes do movimento foram:

Outros são:

Ao Pós-tropicalismo

Músicas tropicalistas que fizeram sucesso:[editar | editar código-fonte]

Referências

Notas

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BRITO, Antonio Carlos. Tropicalismo: sua estética, sua história. São Paulo: Vozes, 1972. vol. 9.
  • CARVALHO, Aline. Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura. Rio de Janeiro: Multifoco, 2009. ISBN 978-85-60620-61-6.
  • DUNN, Christopher. Brutality Garden: Tropicália and the Emergence of a Brazilian Counterculture. Chapel Hill: UNC Press, 2001. ISBN 0-8078-4976-6.
  • CALADO, Carlos. Tropicália: A História de Uma Revolução Musical. São Paulo: 34, 1997. ISBN 85-7326-081-5.
  • PAIANO, Enor. Tropicalismo: Bananas ao Vento no Coração do Brasil. São Paulo: Scipione, 1996. ISBN 85-262-2857-9.
  • SANTAELLA, Lucia. Convergências: Poesia Concreta e Tropicalismo. São Paulo: Nobel. ISBN 85-213-0380-7.
  • MACIEL, Luiz Carlos. Geração em Transe: Memórias do Tempo Tropicalismo. São Paulo: Nova Fronteira. ISBN 85-209-0763-6.
  • VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. ISBN 85-7164-712-7.
  • ZÉ, Tom. Tropicalista Lenta Luta. 13. ed. São Paulo: Publifolha, 2003. 288 pp. ISBN 8574024694.
  • SANTIAGO, Sara Oliveira. O Tropicalismo sob a ótica da revista Veja no período de 1968 a 1969. 2010. Comunicação (Bacharelado). Universidade Federal da Bahia. Salvador.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Video[editar | editar código-fonte]

Audio[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]