Mulato

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Mulato, por Albert Eckhout.

Mulato é um termo que designa uma pessoa que é descendente de africanos e europeus (cf. mestiço). Podem apresentar os mais variados perfis fenotípicos e culturais.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A maioria dos estudiosos confirma que o termo 'mulato' vem das palavras em espanhol e português para a mula, que por sua vez, baseiam-se no termo em latim para o mesmo animal, mulus. A mula é o produto resultante do cruzamento do cavalo com burra ou do jumento com égua. Como significa um produto hibrido (mistura de raças), passou a aplicar-se ao filho de homem branco e mulher negra ou vice-versa. A palavra foi usada pela primeira vez cerca de 400 anos atrás, durante o período escravista. Na comparação implícita pode ter entrado o interesse dos escravocratas em justificar a escravidão e todas as perversidades contra os escravos, passando a idéia de que eram próximos, mas não pertenciam à mesma espécie dos brancos.

A maioria dos etimólogos e lexicógrafos descarta a hipótese de que mulato poderia vir do étimo árabe mowallad ("filho de árabe e estrangeiro"), e que poderia estar relacionado com walada ("dar à luz"). Eles ressaltam que mulato é certamente ligado ao comércio atlântico de escravos.[1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10] [11] [12] [13] [14] [15]

O uso da palavra mula para designar uma pessoa mestiça aparece nas Histórias, de Heródoto. O oráculo de Delfos havia profetizado a Creso, rei da Lídia, que o seu reino duraria até que uma "mula" fosse rei dos medos;[16] de fato, quando Ciro II, que tinha pai persa e mãe meda, se tornou rei da Média e da Pérsia, o reino de Creso caiu.[17]

Mulato no Brasil[editar | editar código-fonte]

No início do século XIX o Brasil foi espaço para diversas teorias raciais - muitas das quais sob um viés negativo. Destaca-se a contribuição de Conde de Goubineau, que dizia que se caso a nação continuasse com seus hábitos de mestiçagem a nação seria extinta em menos de 200 anos. Há outros teóricos que acreditam que a mestiçagem tem aspectos entendidos como positivos - pois permite o embranquecimento da raça negra. Em ambos os casos há uma visão preconceituosa da mestiçagem. Contudo com o projeto Varguista da década de 30 para a construção da identidade do brasileiro, unido ao projeto de aproximação dos Estados Unidos com a política da Boa Vizinhança, a visão sobre o mestiço foi transformada no ideário brasileiro. Pode-se destacar o personagem Zé Carioca e a composição dos sambas da época. Contudo, deve se ressaltar a visão estereotipada dessas teorias.

África lusófona[editar | editar código-fonte]

Em Angola, os mulatos são uns 2% da população do país.[18] Em Moçambique, não chegam a 1%.[19] Em Cabo Verde, os mulatos, e seus congêneres, são mais numerosos.[20] Geralmente, a miscigenação é admitida socialmente e reconhecida como tal.

Os “mulatos” da África do Sul e Namíbia[editar | editar código-fonte]

A história recente da África do Sul começou com a fundação da cidade do Cabo por colonos de origem holandesa e francesa, que viram rapidamente que não era fácil converter os habitantes locais, principalmente khoisan, em trabalhadores agrícolas ou, em geral, escravos. Por isso, tiveram que importar malaios das Índias Orientais Neerlandesas, a Indonésia e a Malásia, para além de negros de outras regiões da África Austral. Muitos desses malaios conservaram a sua cultura e religião (o islão) mas, com o tempo, apareceram pessoas de origem mestiça, que as autoridades trataram de separar num grupo a que chamaram “coloured” (ou “de cor”, para dizer que tinham características diferentes dos brancos e dos negros, “inferiores” aos primeiros, mas “superiores” aos segundos). Com a chegada (e dominação) dos britânicos e a importação de novos “assalariados” da Índia, mais misturas se produziram e, com o apartheid, a estes “coloured” foram concedidos alguns direitos políticos [21] .

Com a democratização na África do Sul, em 1995, o estado deixou de classificar as pessoas em termos raciais (durante o apartheid, as pessoas tinham direitos cívicos de acordo com a “raça” a que pertenciam) mas, os censos e estudos demográficos continuaram a manter as antigas denominações, sendo que são os próprios inquiridos que se autoclassificam. Por isso, neste momento, os cerca de quatro milhões de “coloured” da África do Sul (e os da Namíbia, que se consideram um grupo ou etnia diferente dos vizinhos, ver nota anterior) correspondem à diversidade genética que foi imposta pela história, incluindo uma minoria de “malaios”, possivelmente sem “mistura” que ainda subsistem. Por isso, dizer que na África do Sul existem quatro milhões de “mulatos” é uma simplificação duma situação étnica bastante complexa [22] .

Ver também[editar | editar código-fonte]


Notas e referências

  1. BUENO, Márcio, A Origem Curiosa das Palavras e/ou dos Significados. Rio de Janeiro: José Olympio Editora. 2003, p.158
  2. HOUAISS, Antônio, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 2004, p.1975
  3. VICTORIA, Luiz A. P., Dicionário da Origem e da Evolução das Palavras - Apêndice Citações Históricas, 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Científica. 1963, p.126
  4. VICTORIA, Luiz A. P., Dicionário da Origem e da Evolução das Palavras - Apêndice Citações Históricas, 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Científica. 1960, p.122
  5. LITTLE, William; FOWLER, Henry Watson; COULSON, Jessie; ONIONS, Charles Talbut, The Oxford Universal Dictionary Illustrated - 3ª edição. Londres: 1959, p.1294
  6. NASCENTES, Antenor, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 1955, p.346
  7. WEEKLEY, Ernest, A Concise Etymological Dictionary of Modern English. Londres: 1952, p.270
  8. BLOCH, Oscar, WARTBURG, W. Von, Dictionaire Étymologique de la Langue Française, 2ª edição. Paris: 1950, p.402
  9. SHIPLEY, Joseph, Dictionary of Word Origins. Nova York: Editora Philosophical Library. 1945, p.236
  10. MOTTA, Othoniel, O Meu Idioma, 2ª edição. São Paulo: Weiszflog Editora. 1917, p.64
  11. VIANA, A. R. Gonçalves, Apostilas aos Dicionários Portugueses II. Lisboa: 1906, p.170
  12. SILVA JR., Manuel Pacheco da; ANDRADE, Lameira de, Grammatica da Lingua Portugueza. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves. 1887, p.476
  13. DOZY, Reinhart Pieter Anne; ENGELMANN, Willem Herman, Glossaire des mots Espagnols et Portugais deriva de l'arabe, 2ª edição. 1869, p.384
  14. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, Dicionário Aurélio - Século XXI. Editora Nova Fronteira, p.1377
  15. MULATTO AND MALIGNITY (em inglês)
  16. Heródoto, Histórias, Livro I, Clio, 53 [pt] [el] [el/en] [ael/fr] [en] [en] [en] [es]
  17. Heródoto, Histórias, Livro I, Clio, 91 [pt] [el] [el/en] [ael/fr] [en] [en] [en] [es]
  18. Prof. Dr. Silvio de Almeida Carvalho Filho. As relações étnicas em Angola: as minorias branca e mestiça (1961-1992) (em português)
  19. PASSADOR, Luiz Henrique; THOMAZ, Omar Ribeiro. Raça, sexualidade e doença em Moçambique. "Rev. Estud. Fem.", Florianópolis, v. 14, n. 1, 2006. Disponível em: Scielo. Acesso em: 11 de outubro de 2008. DOI: 10.1590/S0104-026X2006000100014.
  20. Os Estudos Africanos no Brasil (em português)
  21. MixedFolks.com - Orville Boyd Jenkins (August 1996) The Coloureds of Southern Africa
  22. South African Census 2001 (em inglês)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]