Multiverso (ciência)

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Impressão artistica de um multiverso nível 9

Multiverso é um termo usado para descrever um hipotético grupo de todos os universos possíveis. É geralmente usado na ficção científica, embora também como possível extrapolação de algumas teorias científicas, para descrever um grupo de universos que estão relacionados, os denominados universos paralelos. A ideia de que o universo que se pode observar é só uma parte da realidade física deu luz a definição do conceito "multiverso".[Ref. 1] [Ref. 2]

Conceito[editar | editar código-fonte]

O conceito de Multiverso tem suas raízes em extrapolações até o momento não científicas da moderna Cosmologia e na Teoria Quântica, e engloba também várias ideias oriundas da Teoria da Relatividade de modo a configurar um cenário em que pode ser possível a existência de inúmeros Universos onde, em escala global, todas as probabilidades e combinações dessas ocorram em algum dos universos. Simplesmente há espaço suficiente para acoplar outros universos numa estrutura dimensional maior: o chamado Multiverso.

Os Universos seriam, em uma analogia, semelhantes a bolhas de sabão flutuando num espaço maior capaz de abrigá-las. Alguns seriam até mesmo interconectados entre si por buracos negros ou de buracos de minhoca.

Em termos de interpretações da Mecânica Quântica, que, ao contrário da Mecânica Quântica em si, não são cientificamente estabelecidas, a Interpretação de Vários Mundos fornece uma visão que implica um multiverso. Nessa visão, toda vez que uma decisão quântica tem de ser tomada - em termos técnicos, toda vez que há uma redução da função de onda de um estado emaranhado - dois ou mais universos independentes e isolados surgem, um para cada opção quântica possível. Vivemos no universo no qual as decisões quânticas adequadas levam à nossa existência; e mesmo nesse caso, há um universo alternativo onde o autor desse texto existe, mas optou por não escrever esse texto, que lá, por tal, não existe.

Devido ao facto da conjectura de multiverso ser essencialmente ideológica, não havendo, atualmente, qualquer tipo de prova tecnicamente real, a "teoria dos universos paralelos" ou "multiverso" é em essência uma teoria não científica. Nesse ponto, aliada a completa ausência de evidência científica, há ainda a questão concernente à compatibilidade com as teorias científicas já estabelecidas e os rumos diretamente apontados por essas. No conceito de multiverso imagina-se um esquema em que todas os universos (as bolhas de sabão) se agregavam mutuamente por uma infinita vastidão. Tal conceito de Multiverso implica numa contradição em relação a atual busca pela Teoria do Campo Unificado ou pela Teoria do Tudo, uma vez que em cada Universo pode-se imaginar que haja diferentes Leis Físicas.

Ressalta-se contudo que a Teoria do Campo Unificado e a Teoria do Tudo são, assim como a Teoria das Cordas e outras similares, em vista dos rigores do Método Científico, pelo menos até o momento, teorias não científicas. A exemplo, a Teoria M prevê que nosso universo possua em verdade 11 dimensões. Factualmente, vivemos contudo em um universo quadridimensional, descrito por três dimensões espaciais e uma temporal interligadas entre si no que denomina-se malha espaçotempo.

Multiverso, ciência e religião[editar | editar código-fonte]

Garrafas de plástico à beira de um rio. O plástico é usualmente produzido a partir de substâncias orgânicas de origem fóssil (petróleo).
Teleologia para o universo? Será que o universo encontra-se realmente "finamente ajustado" para abrigar vida, ou esse afina-se para produzir e abrigar objetos plásticos? Na figura, carcaça de um albatroz; morto por ingestão de objetos de plástico.

As diferentes teorias de Multiverso são por muitos utilizadas para contraposição à ideia do Design Inteligente e seu Argumento da Improbabilidade ou Argumento do Universo Bem Ajustado. Ou seja, são utilizadas por muitos como explicação para a pré-assumida "improbabilidade estatística" das leis da física e das constantes físicas fundamentais serem "tão bem ajustadas" para permitirem a construção do universo tal qual o conhecemos; em particular um universo capaz de abrigar vida inteligente com habilidade de indagar sobre a história do próprio universo em que existe. A ideia central dos adeptos de tal linha de pensamento é a de que, se existem múltiplos universos, em um número extremamente grande, a probabilidade de pelo menos um deles se desenvolver com leis e constantes capazes de possibilitar a vida se torna plausível em meio a um multiverso de universos diferentes estocasticamente estabelecidos, assim explicando-se o "ajuste" de nosso universo sem ter-se que recorrer à ideia de um "ajuste fino" cogitado no argumento associado[Ref. 3] .

Tal argumentação é comum em discussões envolvendo os defensores da existência de um "projetista inteligente" e os defensores de sua inexistência, defensores últimos que buscam uma resposta alternativa à questão decorrente da inexistência do projetista onipotente para o universo através da extrapolação das regras científicas encerradas na teoria da evolução biológica ao restante do universo, contudo sem as pertinentes considerações, o que leva à ideia do multiverso como resposta às estipuladas "particularidades" de nosso universo defendidas pela outra ala. O uso de tal linha de raciocínio e resposta é contudo desaconselhado sem acompanhamento dos devidos rigores, e especificamente falho no caso do Multiverso. Ele falha essencialmente por desconsiderar que a existência do multiverso não é cientificamente estabelecida[Ref. 1] , consistindo o argumento por tal apenas em se trocar uma crença por outra; a crença do "projetista inteligente"[Ref. 4] pela crença do "multiverso". Falha também porque ignora indagações acerca das leis, incluso as de seleção, que regeriam o multiverso, o que levaria de novo à mesma condição inicial: por que o multiverso tem regras capazes de estabelecer a miríade de universos tão distintos que, em um deles, quer via alguma regra de seleção quer não, acabar-se-ia tendo a vida como possível, e acabar-se-ia tendo a vida por realidade?

Importante perceber que a invalidação da resposta via multiverso não implica a validade do argumento do "Universo Bem Ajustado" via um "projetista inteligente", contudo. Este argumento é também falho, e falha essencialmente no mesmo ponto em que o primeiro falhou. Em verdade, a falha primordial é mais sutil e comum às duas alternativas de resposta. A falha vai além das respostas, e encontra-se essencialmente na pergunta que visam a responder.

O conceito de um "universo finamente ajustado" funda-se logicamente na premissa da existência de um objetivo final, de uma teleologia, para o universo: usualmente, "o universo existe com a finalidade de nele haver vida, em específico vida inteligente"; e em particular para alguns dos bons egos que defendem a ideia de "ajuste fino", uma teleologia que traduz-se explicitamente na afirmação "o universo existe e foi concebido para o meu umbigo existir". A premissa contudo não é, assim como a ideia de multiverso, factualmente corroborada. Factualmente não há nada que implique que o universo foi concebido para um "umbigo em particular" existir, quer seja esse umbigo um ser humano em particular, quer seja ele a vida que sabemos ter se desenvolvido em nosso universo, ou quer seja ele uma simples simples garrafa pet ou um outro objeto de plástico qualquer.[Ref. 5]

Selecionar algo que, em consonância com as leis que nele vigoram, é sabido existir em nosso universo, e afirmar que o universo foi ajustado para que este algo viesse a existir, é uma atitude certamente muito atrativa quando esse algo é em particular o "seu umbigo", e ao fim, essencialmente egocêntrica; para não dizer fatídica demais[Nota 1] . Para perceber isso, o que você diria se o "alvo teleológico" fosse a existência de meros objetos de plástico a boiarem no meio de um oceano de água salgada, sendo você apenas o "mecanismo" que o "universo" encontrou para que tal teleologia se concretizasse? O que o seu ego diria se, ao fim, a vida "inteligente" fosse uma mera ferramenta para que garrafas pet viessem a existir e irem parar lá, no meio do oceano? Será que a ideia do "universo finamente ajustado" com tal teleologia encontraria o mesmo apoio "psicológico" que recebe quando o alvo teleológico é o usualmente estabelecido?

A teleologia usual que propõe-se para o universo é facilmente questionável em vista do número de estrelas bem como de sistemas estelares hoje sabido existentes em nosso universo quando comparado ao que se tem de concreto sobre a existência de vida no mesmo universo; e a crítica torna-se ainda mais contundente frente à parcela volumétrica do universo efetivamente capaz de abrigar vida. Foram o universo e a Terra finamente "ajustados" para abrigar vida, ou é a vida que por ventura surgiu e adapta-se, a duras e mortais penas, a um inóspito ambiente, para nele continuar existindo durante o tempo que for possível? Factualmente, há para essa pergunta uma resposta científica, e esta fica evidente ao se considerar o destino da Terra daqui há uns cinco bilhões de anos, quando nosso Sol entrar na etapa final do seu ciclo natural.

A ideia do "universo finamente ajustado" é, nesses termos, uma ideia suportada essencialmente pelo ego, e não por evidências científicas; e como tal, pelo mesmo motivo da ideia de multiverso, também não é uma ideia científica. E frente à invalidade da pergunta teleológica, não importa se o universo conhecido é único ou um entre uma miríade em um Multiverso: em ambos os casos poderíamos igualmente estar - e estamos - aqui, mesmo estabelecida a ausência de teleologia atrelada. E não se precisa da validade da última hipótese - do Multiverso - para descartá-la.

Notas

  1. Embora extraída de exemplo bem distinto publicado, ideia similar a aqui encerrada encontra-se no livro "Breve Historia de Quase Tudo" (detalhes do livro: vide seção "Referências")

Referências

  1. a b Gleiser, Marcelo - Coluna publicada no jornal Folha de São Paulo em 16/09/2012 - Cópia digital em: http://folha.com/no1154011
  2. Hawking, Stephen - O Universo numa Casca de Noz - Editora ARX - 9 ed. - São Paulo, SP - 2002 - ISBN 85-7581-017-0
  3. Chaves, Alaor - O Universo é Hospitaleiro à Vida - Universidade Federal de Minas Gerais - Disponível na página do Observatório Astronômico da UFMG - Seção Assuntos Passados - conforme acessado às 18:30 horas UTC de 20-07-2013 - (http://www.observatorio.ufmg.br/Pas103.htm)
  4. Manifesto da SBG sobre Ciência e Criacionismo (http://www.sbg.org.br/ManisfestoCriacionismo.html) - Sociedade Brasileira de Genética (http://www.sbg.org.br); Rua Cap. Adelmio Norberto da Silva, 736 CEP:14025-670 - Ribeirão Preto - SP - Artigos acessados às 18:50 horas UTC de 20-07-2013
  5. Bryson, Bill - Breve História de Quase Tudo - Ed. Companhia das Letras - 1ª edição - 2005 - ISBN 8535907246 - ISBN 9788535907247

Bibliografia complementar[editar | editar código-fonte]

  • J. D. Barrow e F. J Tipler, “The Antrhopic Cosmologic Principle”. Oxford University Press (1986). (Exige conhecimentos em Física)
  • M. Rees, “Just Six Numbers – The Deep Forces that Shape the Universe”. Basic Books (2000)
  • J. D. Barrow, “The Constants of Nature – The Numbers tha Encode the Deepest Secrets of the Universe”. Vintage Books (2002)
  • P. Davies, “Cosmic Jackpot – Why our Universe is Just Right for Life”. Houghton Mifflin (2007)
  • S. Hawking e L. Mlodinow, “The Great Design”. Bantam Books (2010)


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