Neutralidade de gêneros

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A neutralidade linguística e gramatical de gêneros é uma vertente recente das demandas por maior igualdade entre homens e mulheres.

Devido às semelhanças entre as gramáticas portuguesa e espanhola, analisam-se ambas as línguas conjuntamente nesta página.

Masculino e feminino[editar | editar código-fonte]

Tanto em espanhol quanto em português, o gênero feminino é geralmente marcado pela letra -a: cirujano, cirujana (es; cirurgião, cirurgiã); abogada, abogado (es; advogada, advogado); la doctora, el doctor (es; o doutor, a doutora).

No entanto, ambas as línguas - assim como outras línguas neolatinas - determinam que o plural dos substantivos, quando abrange tanto indivíduos do gênero feminino quanto do gênero masculino, é feito com base no masculino: "vinte professoras" e "dez professores", juntos, são "trinta professores"; uma sala de aula com trinta e nove alunas e um único aluno terá no total "quarenta alunos". Essa forma de formação do plural é considerada sexista por certos grupos e indivíduos, daí resultando propostas por um gênero plural neutro a ser adotado em Português e em Espanhol.

Propostas para neutralidade na ortografia[editar | editar código-fonte]

A proposta mais conhecida para neutralidade de gêneros em relação à ortografia é o uso do símbolo "arroba" (@) no lugar de -o, -a ou mesmo -e: @s trabalhador@s (pt), l@s niñ@s (es). Esse uso do @ é observado sobretudo entre os falantes do Espanhol, apesar de condenado explicitamente pela Real Academia Espanhola [1] , que regula oficialmente a língua. No mundo lusófono, o uso do @ como neutralizador de gênero é muito menos difundido; vem, no entanto, crescendo , como observado por exemplo em certas faculdades de ciências humanas de universidades brasileiras, como a Universidade de São Paulo - USP, a Universidade de Brasília - UnB e a Universidade Estadual de Campinas - Unicamp.[2] [3] [4] [5] [6] [7]

Outra proposta é a do emprego do "a anarquista" (Ⓐ), usado da mesma forma que @ em substituição a "a/o", sobretudo em textos políticos radicais: (¡CompañerⒶs, hay que ocupar y resistir, hasta la victoria!). Também se observa, com essa mesma função, o emprego da da letra "x" (por exemplo, em certos manifestos do Movimento Zapatista mexicanos").[8]

Historicamente, a barra (/) foi o símbolo mais utilizado com essa função, como em candidato/a. Em exemplos como esse, no entanto, seu uso mantém a marca de separação entre os dois gêneros. Ela é recomendável, portanto, apenas quando não é possível fazer a síntese de letras ("el/la estudiante" - espanhol para "@ estudante"), ou quando um dos dois vocábulos é formado não por substituição de uma letra, mas por seu acréscimo/supressão: "o vencedor será escolhido pelo juiz", logo, deveria ser grafado, de forma neutra, "@ vencedor/a será escolhid@ pel@ juiz/a".

Finalmente, há o símbolo æ, proposto em Português com Inclusão de Gênero (PCIG)[9] em substituição a "e/a". A proposta é igualmente válida para o espanhol. Assim, "escritoras e escritores" ou "escritores/as" deveria ser substituído por "escritoræs".

Outros exemplos: @s cantoræs norte-american@s são muito populares e muito conhecid@s entre @s jovens brasileir@s e portuguesæs.

Arroba minúsculo[editar | editar código-fonte]

Há também a proposta de difusão do chamado "arroba minúsculo", por razões estéticas e a fim de diminuir a impressão negativa que um @ em tamanho natural no interior de palavras costuma causar aos leitores. Como as fontes gráficas padrões não trazem um arroba minúsculo, a sugestão feita pelo PCIG é a de manualmente escolher uma fonte menor para o arroba (a sugestão é de algo entre 25% e 40% menor que a fonte das demais letras[10] ). Exemplo: "muit@s menin@s".

Propostas para neutralidade na pronúncia[editar | editar código-fonte]

Oponente do uso de '@' e 'æ' como letras consideram-nas como uma forma de degradação das línguas. Levanta-se também, com frequência, a questão sobre como se pronunciar essas duas novas letras.

O PCIG possui sua própria proposta de pronúncia neutra: segundo eles, o som do @, em substituição a a/o, poderia ser pronunciado como um "ó aberto" (/ɔ/, como em "pó", "morte", "sogra") e o æ, no lugar de a/e, como um "é aberto" (/ɛ/, como em "pé", "mel", "testa").

Isso se explica porque o som /ɛ/, chamado "é aberto" em português, é foneticamente intermediário entre o /a/ e o /e/, o chamado "ê fechado". Similarmente, o som /ɔ/ (em português conhecido como "ó aberto") é um intermediário em termos fonéticos entre os sons /a/ e /o/ ("ô fechado").

Assim, "duas garotas" e "dois garotos", juntos, seriam "quatro garot@s" - pronunciado /ga'rotɔs/, isto é, como o último "o" aberto.

Várias "professoras" e "professores" juntos, igualmente, seriam vários "professoræs", pronunciado([profeˈsorɛs]), com o último "e" aberto.

Em espanhol, no entanto, essa proposta parece fadada ao fracasso, uma vez que o sistema fonético espanhol não abrange diferentes pronúncias, mais abertas ou fechadas, para as vogais "e" e "o". Assim, a maioria dos falantes de espanhol não perceberia uma diferença na pronúncia de "niñ@" (/'niɲɔ/) daquela de "niño" (/'niɲo/), ou entre a pronúncia de /ɛ/ "neutro" e a do /e/ "masculino".

Uso político e sátira[editar | editar código-fonte]

Certos políticos têm começado a policiar-se fortemente a fim de evitar sexismo em seus discursos. O ex-presidente mexicano Vicente Fox Quesada, por exemplo, utilizava-se extensivamente da repetição de termos em seus dois gêneros (ciudadanos y ciudadanas). Além de condenado pela Real Academia Espanhola, que o considera desnecessário e redundante, esse estilo de discurso logo tornou-se alvo de sátiras. Muitos imitadores do ex-presidente Fox efetivamente criavam palavras novas unicamente para poder contrastá-las em termos de gênero: "estamos, todos y todas, muy contentos y contentas, muy felices y felizas", ou "eso lo verificaron mujeres y hombres de gran valor, verdaderas especialistas y verdaderos especialistos".

Referências