Obstetriz

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Mulher auxiliada por parteira dando à luz, Haguenau, 1515

Um(a) obstetra ou obstetriz, normalmente conhecida por parteira, representa um importante recurso para prover cuidados de saúde a gestantes, parturientes, puérperas, recém-nascidos e familiares, no sentido de promover e preservar a normalidade do processo de nascimento, atendendo às necessidades físicas, emocionais e socioculturais das mulheres. Esses profissionais que tanto podem ser uma parteira tradicional, doula (grego "mulher que serve") uma enfermeira ou médico, especializados ou não em obstetrícia, deverão estar integrados à equipe de saúde e ser capaz de atuar de forma autônoma, responsabilizando-se pela assistência à gestação e ao parto normal e ou encaminhamento dos partos de risco para centros especializados.

História da Profissão[editar | editar código-fonte]

Parteira é o título mais antigo do profissional que chamamos de Obstetra/Obstetriz. Ao longo dos anos, baseando-se em novas filosofias, houve mudanças na denominação e na área de atuação dessas profissionais. Passando de parteira a obstetriz(1925) e finalmente a Enfermeira Obstetra (1949). Até 1832, no Brasil, a prática da profissão era exercida por mulheres possuidoras da "Carta de Examinação" expedida pelo físico-mor ou cirurgião-mor do império além de possuírem uma licença da Chancelaria.

O aprendizado, normalmente, seguia caráter hereditário, ou seja, a filha de uma parteira acompanhava sua mãe no atendimento às mulheres em trabalho de parto auxiliando-a de acordo com as necessidades, possibilitando, assim, após algum tempo de prática o aprendizado para continuidade do ofício. A partir de 1832, quando as Academias Médico Cirúrgicas do Rio de Janeiro e da Bahia passam a figurar como Faculdades de Medicina vincula-se o ensino de partejar a estas instituições submetendo-as a legislação médica, até meados do século XX. Com a alteração da legislação, em 1955, as parteiras deixam de ser regulamentadas pelas legislações médicas gozando, a partir de então, de uma certa liberdade profissional.

Em meados do século XX devido a crescente implantação de hospitais, e, consequentemente, a hospitalização ocorrem novas mudanças na legislação em relação a formação de enfermeiros obstetras, surgindo, assim, a especialidade da enfermagem: a Obstetrícia. Devido a Obstetrícia ter se tornado uma especialidade, ou seja, para um profissional alcançar o título de enfermeiro obstétrico este deveria primeiramente formar-se em Enfermagem e posteriormente especializar-se em Obstetrícia, culminando no declínio de recursos humanos disponíveis para o desempenho da função. Em 1999 o Ministério da Saúde homologou uma portaria a qual incentivava a especialização de profissionais da enfermagem para viabilizar o aumento de recursos humanos na área da obstetrícia. Entretanto, uma das maiores universidade pública brasileira, [USP], objetivando a inserção de profissionais altamente qualificados para suprir a demanda em curto prazo criou o curso de Graduação em Obstetrícia, em 2005.

Atualmente o Ministério da Saúde (Brasil)mantém o Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais que vem sendo implementado desde março de 2000 tendo como objetivo assegurar a melhoria do parto e do nascimento domiciliar assistido por parteiras tradicionais. Busca sensibilizar gestores e profissionais de saúde para que reconheçam as parteiras como parceiras na atenção à saúde da comunidade e desenvolvam ações para resgatar, valorizar, apoiar, qualificar e articular o seu trabalho ao do Sistema Único de Saúde (SUS) e, dessa maneira, possibilitar a preservação de seus saberes e práticas, bem como promover o encontro desses saberes com o conhecimento técnico-científico respeitando as especificidades étnicas e culturais (indígenas e quilombolas).

O Brasil, segundo Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde (PNDS - 1996) ainda registra uma alta frequência de partos domiciliares nas áreas rurais (20%) contudo destes apenas 40% tiveram assistência de enfermeiras e de parteiras (cerca de 40%). O referido programa do MS já capacitou desde a sua criação cerca de 3000 parteiras e profissionais de saúde em 120 municípios do país.

Objetivos do "Novo" Profissional da Obstetrícia[editar | editar código-fonte]

Justificativa[editar | editar código-fonte]

Atualmente, segundo dados da prefeitura do município de São Paulo, no ano de 2005, o número de nascidos vivos, na cidade de São Paulo, é da ordem de 171.561 crianças. Observando a distribuição dos nascimentos dentre os locais possíveis para o parto identifica-se que 170.578 crianças nasceram em hospitais, representando 99,42% dos nascimentos. Os outros 0,58% representa os nascidos em outros estabelecimentos de saúde, em domicílio ou em outro lugar excetuando-se os hospitais. De acordo com a cultura social existente no país estes são dados satisfatórios, visto que, considera-se o ambiente hospitalar o melhor local para "dar a luz".

Entretanto, pesquisas em todo o mundo apontam grande desvantagem no tocante a dicotomia mãe-feto, evidenciando o ônus causado pelo parto medicalizado e intervencionista, uma vez que através de dados obtidos nos Estados Unidos da América e em alguns países europeus pôde comprovar que o ambiente hospitalar é propício a intervenções médicas as quais desfavorecem o processo fisiológico de nascimento que não necessitam de intervenções. As intervenções devem ser feitas quando se detetame distócias durante a gestação ou quando verificadas na hora do parto.

No início do século XX a maioria dos partos eram realizados no próprio domicílio da parturiente destinando aos hospitais o atendimento das mulheres de baixa renda. Contudo, o avanço da medicina e o surgimento da tecnologia propiciaram o aumento dos partos hospitalares apoiado nos ideais médicos ao considerar o hospital o local mais seguro para o parto.

Ao longo de décadas essa filosofia foi sustentada, permitindo, desta forma, os altos índices de parto hospitalar observados atualmente não só no município de São Paulo, mas, também, em todo o país. O resultado da hospitalização culmina na utilização de técnicas invasivas e prejudiciais tanto para a mãe quanto para o bebê. No Brasil, os índices de parto cirúrgico(Cesarea) chega a 80% em instituições privadas e a 35% em instituições públicas, contrapondo-se ao recomendado pela OMS(Organização Mundial de Saúde) que deveria variar em torno de 10% à 12%.

Questiona-se, então, o motivo de altos índices de partos cirúrgicos?

Uma das hipóteses seria: o médico dispunha de muita tecnologia considerando-a indispensável para o tratamento de uma doença ou na solução de um problema, sucumbindo a ideologia do nascimento natural, ou seja, é preferível aplicar hormônios, realizar cesarianas e fazer uso de outros procedimentos desnecessários à priorizar o processo natural de nascimento. Portanto, a importância da "reintrodução" de um profissional capaz de realizar o procedimento do parto normal reside na mínima utilização da tecnologia, no privilegiar o parto fisiológico objetivando sedimentar os índices propostos pela OMS, e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.

Humanização do Parto[editar | editar código-fonte]

O que seria humanização do parto?

Ao considerar a gestação e o parto momentos únicos e inesquecíveis deve-se levar em consideração as vontades e desejos da parturiente, ou seja, respeitar a forma de como a mulher deseja ser assistida durante a gestação e o trabalho de parto.

Propiciar o acesso a informação e disponibilizar recursos humanos no intuito de garantir o adequado acompanhamento durante essa fase. Abolir todo e qualquer tipo de procedimento invasivo ou intervencionista promovendo a desmedicalização. Tratar as mulheres da forma que elas esperam ser tratadas proporcionado o máximo de privacidade possível.

Enfim, humanização do parto é respeitar a cultura e o meio em que esta mulher está inserida, cuidando para que ela seja o centro das atenções colocando o profissional que a assiste em uma posição periférica.

A Obstetrícia como um novo grupo de identidade[editar | editar código-fonte]

Uma nova identidade profissional surgiu com a criação do curso de Obstetrícia na USP. A nova identidade profissional prevê a alteração do número de cesárias (cesarianas) no Brasil e outras intervenções, que são feitas sem necessidade na gestante, aumentando o número de partos normais. Há muitas críticas de profissionais da saúde e muitos ainda não entendem o porquê desse curso ser separado da Medicina. O profissional formado em Obstetrícia irá praticar a humanização do parto, uma atitude que visa o parto mais saudável e a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal. Esse lado mais humanizado e natural tornar-se-á esses novos profissionais em uma nova identidade nacional. Com essa nova identidade são apresentados aspectos considerados relevantes na caracterização da assistência humanizada como o direito a presença do acompanhante durante o trabalho de parto, para ajudar no cuidado a mulher.

Essa nova identidade ainda está em conflito, mas é certeza de que haverá muitas mudanças no meio em que se insere. Essa mudança irá transformar o grupo de gestantes com uma nova forma de pensar no método de como fará seu parto fazendo com que surja novas identidades pessoais também. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. É o que acontecerá com as gestantes. As obstetrizes irão desempenhar importante papel na vida dessas mulheres.

Esse processo de construção de uma nova identidade é caracterizado por muita força de vontade dos futuros profissionais e ao mesmo tempo por muitas críticas que aos poucos serão amenizadas com a aceitação.

Campo de Atuação[editar | editar código-fonte]

Obstetriz é um profissional com perfil e competência para participar ativamente das transformações necessárias ao modelo assistencial e ao quadro epidemiológico da saúde materna e perinatal. São profissionais capacitados para cuidar da saúde de gestantes, parturientes, puérperas, recém-nascidos e familiares, buscando promover e preservar a normalidade do processo de nascimento, atendendo as necessidades físicas, emocionais e socioculturais das mulheres. O profissional, integrado à equipe de saúde, é capaz de atuar de forma autônoma, responsabilizando-se pela assistência na gestação e no parto normal, em instituições de saúde públicas e privadas (maternidades, centros de parto normal, casas de parto, ambulatórios, unidades básicas), instituições de ensino e domicílios.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Parteira em uma maternidade de Niodior (Senegal)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Parto e nascimento domiciliar assistidos por parteiras tradicionais [recurso eletrônico] : o Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais e experiências exemplares / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. – Brasília : Editora do Ministério da Saúde, 2010. Disponível em PDF Maio 2011
  • Carneiro, Marinha. Ajudar a Nascer – parteiras, saberes obstétricos e modelos de formação. Porto, Ed da Universidade do Porto, 2008 Google Livros Maio, 2011
  • Chamilco, Rosilda A.S.I. Práticas culturais das parteiras tradicionais na assistência à mulher no período grávido-puerperal. Tese de Doutorado - Programa de Pós-graduação em Enfermagem, Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2004 Disponível em PDF Maio, 2011
  • d´Orsi, Eleonora - Qualidade da atenção ao parto em maternidades do Rio de Janeiro - 2003)
  • Diniz, Carmem S. G., Humanização da assistência ao parto no Brasil: os muitos sentidos de um movimento, FSP-USP, 2005
  • Helman, CE - Cultura, Saúde e Doença, 2003
  • Hotimsky, Sonia N.; Schraiber, Lilia B. - Humanização no contexto da formação em obstetrícia, FM-USP, 2005
  • Osava, Ruth - A influência do "Ambiente" na evolução fisiológica do parto, FSP-USP, 1997)
  • Odent, Michel. O camponês e a parteira, uma alternativa à industrialização da agricultura e do parto. SP, Groud, 2003
  • Paciornick, Moisés. Parto de Cócoras – Aprenda a Nascer com os Índios. SP, Record 1979.
  • Mott, Maria L. - Assistência ao parto: Do domicilio ao hospital(1830-1960), História São Paulo, 2002
  • Riesco, Maria L. Gonzales;Tsunechiro, Maria Alice - Formação Profissional de Obstetrizes e Enfermeiras Osbtétricas: Velhos Problemas ou Novas Possibilidades? - 2002
  • Rocha, José Martinho. Introdução à história da puericultura e pediatria no Brasil 1500 - 1882. RJ. Nestlé, 1947.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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