Old Firm

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Old Firm
Oldfirm.jpg

Torcidas de Rangers e Celtic separadas
em uma edição da Old Firm.
Celtic 143 vitória(s), gol(s)
Rangers 158 vitória(s), gol(s)
Total de jogos 301
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Old Firm (lit. "velha firma", em inglês) é o nome popularmente dado ao maior clássico do futebol escocês, que envolve o Celtic Football Club e o Rangers Football Club, equipes da cidade de Glasgow, maior cidade da Escócia, que se confrontam desde 28 de maio de 1888, quando o Celtic venceu por 5 a 2.

É um dos clássicos de futebol mais antigos do mundo e para muitos especialistas esta é a maior rivalidade do futebol mundial devido a divergências culturais e religiosas dessas duas equipes.

História[editar | editar código-fonte]

No segundo jogo da final da Copa da Escócia de 1909, com 60 000 espectadores no Estádio de Hampden Park, uma briga de enormes proporções entre torcedores dos dois clubes e também com a polícia, suspendeu a decisão e inaugurou a fase violenta deste confronto.

A confusão iniciou-se por rumores de que os dois clubes, que já haviam empatado a primeira partida, teriam combinado nova igualdade no placar, pois haveria interesse de ambos em realizar um terceiro jogo para definir o campeão por interesses econômicos, com a venda de mais ingressos. O clássico receberia então o apelido de "The Old Firm", uma insinuação que ambos os clubes se beneficiariam financeiramente da antipatia mútua.[1]

Em 1900, instalava-se em Glasgow um estaleiro, de nome Harland & Wolf, que tinha como norma não contratar católicos. Este fato trouxe à tona o problema religioso escocês, que imediatamente foi transferido para o futebol, já que ambos os clubes tinham identidades com as partes envolvidas, o Celtic, católico e Rangers, protestante. O Rangers, embora no início fosse uma equipe aberta, resolveu adotar a política de aceitar apenas protestantes ainda em 1890.

Já o Celtic, apesar de sua identificação com os católicos, entretanto, nunca se restringiu a eles, sempre tendo aceitado jogadores de todas as religiões. Jock Stein, mítico treinador dos alviverdes, inclusive incentivava os seus olheiros a, caso encontrassem jovens protestantes e católicos de talentos similares, a investirem nos protestantes e os convencerem a atuar no Celtic, uma vez que os católicos não seriam em nenhuma hipótese usados pelo Rangers. Kenny Dalglish é um exemplo famoso de protestante que atuou no Celtic na época em que o Rangers, clube que torcia, continuava restrito.[2]

Estas equipes dominam amplamente a Liga Escocesa de Futebol, conquistando a maioria dos títulos disputados.[1] Após um domínio inicial do Celtic, o Rangers o ultrapassou no início do século XX e mantem-se na dianteira desde então.

Sob o comando de Jock Stein, o Celtic experimentou seu melhor momento entre 1966 e 1974, quando conseguiu o ineditismo de conquistar o campeonato escocês por nove vezes seguida, diminuindo uma diferença de 14 títulos para cinco que o arquirrival possuía, recuperando-se de seu pior momento: entre os anos 20 e 30, ficou justamente nove anos em jejum, em que oito taças ficaram com o Rangers e uma com o Motherwell.

Dentro desse período áureo, o clube teve seu ano inesquecível em 1967: além do campeonato escocês, venceu a Copa da Escócia, a Copa da Liga Escocesa e o mais importante, a Copa dos Campeões da UEFA sobre a favorita Internazionale, então, bicampeã.

O Celtic tornou-se com isso o primeiro clube de todo o Reino Unido a vencer a mais importante competição europeia de clubes. O elenco vencedor, todos formados por torcedores do time e nascidos a um raio de 50 quilômetros do estádio do clube, ficou conhecido como "Leões de Lisboa", alusão à cidade onde a final foi disputada.[3] O sabor foi ainda melhor pois na mesma temporada, o rival Rangers também teve a chance de ser campeão continental, mas da Recopa Europeia, o segundo torneio em importância, perdendo para o Bayern Munique. A equipe já havia sido vice do mesmo torneio em 1961.

Os anos 70, que marcavam o melhor momento da história do Celtic, viram uma decadência do Rangers, a despeito de em 1972 o clube ter finalmente ter conquistado o seu troféu europeu, justamente a Recopa. Os anos ruins dos Gers, que vinham conquistando a Liga poucas vezes, continuaram no início da década de 80, em que o time perdeu momentaneamente o posto de anti-Celtic, que passou a disputar os títulos nacionais com o Aberdeen.

Em 1988, o Celtic conseguiu colocar a diferença em apenas três títulos. A balança começaria finalmente a pender para os protestantes justamente no momento em que o clube reviu seu posicionamento, com a chegada de Graeme Souness como técnico. Ele quebrou a tradição de não aceitar não-protestantes em 1987, contratando o judeu Avi Cohen. Dois anos depois viria um impacto ainda maior, com o primeiro católico em mais de cem anos na equipe: Maurice Johnston.

Mo Johnston ou "MoJo", escocês de família irlandesa, era ainda por cima ex-jogador de sucesso do Celtic. Entre as duas torcidas, acabou defendido pelos moderados e detestado pelos radicais, ele teve de se mudar de cidade pelas constantes ameaças - os exaltados do Celtic o viam o tacharam de "MoJudas" e os do Rangers o detestavam por ser católico - exilando-se depois nos EUA.[1] [4]

O fim das restrições que o Rangers se impunha o recolocou como clube amplamente hegemônico nacionalmente. A equipe contrataria, por exemplo, também os ortodoxos Oleksiy Mykhailychenko e Oleh Kuznetsov e conseguiria repetir o grande feito do rival: entre 1989 e 1997, venceram a Liga Escocesa nove vezes consecutivamente, colocando diferença semelhante à que havia entre os rivais nos anos 60: doze títulos.

No início do século XXI, o Celtic vem se mostrando melhor, tendo chegado a reduzir a diferença para nove em 2008 (novamente aumentada para doze, após um tricampeonato seguido do Rangers). A primeira década do novo século viu os dois serem vice-campeões europeus: em ambos os casos, na Copa da UEFA, que substituíra a Recopa (extinta em 1999) como segundo torneio europeu em prestígio. O Celtic a perdeu em 2003 e o Rangers, em 2008.

A questão político-religiosa[editar | editar código-fonte]

Além da grande rivalidade entre os clubes, da mesma cidade escocesa, as torcidas também trazem consigo questões alheias ao futebol. As torcidas defendem duas filosofias político-religiosas antagônicas em suas respectivas histórias de intensidade tal que o clássico é tido como o de maior ódio recíproco no mundo.[5]

O Rangers é um clube no qual boa parte de seus torcedores é devota do Anglicanismo, ou seja, seguidores político-religiosos da Rainha do Reino Unido. Sua torcida traz uma grande bandeira, onde está pintado o rosto da Rainha Elizabeth II, a atual líder anglicana, além de venerarem o UVF (grupo terrorista protestante do Ulster) e costumamente portarem bandeiras do Reino Unido nos jogos.[1]

O Celtic, por sua vez, é o clube predileto dos escoceses de religião católica e dos irlandeses e descendentes residentes na Escócia, tendo milhares de torcedores entre os católicos das duas Irlandas. Sua torcida exibe uma bandeira alviverde com o retrato do falecido papa João Paulo II, costumando portar bandeiras da República da Irlanda e da Escócia. Os mais extremistas também exaltam o IRA (grupo terrorista católico).[1]

Esta rivalidade muitas vezes atravessa as tênues fronteiras do enfrentamento saudável, mesmo em uma cidade definida como liberal, rica e culturalmente criativa, desafiando a noção de que a civilização aplaca a barbárie e dissemina a tolerância.[5] O goleiro polonês Artur Boruc, do Celtic, chegou a ser multado após fazer o sinal da cruz em uma Old Firm, por seu gesto ter sido interpretado como uma provocação aos oponentes;[6] Neil Lennon, norte-irlandês católico que é o atual treinador do time, chegou a receber uma carta-bomba de rivais.[7]

Estatísticas de Celtic vs. Rangers[editar | editar código-fonte]

Recordes de público[editar | editar código-fonte]

Os recordes de público deste clássico são os confrontos de 1º de janeiro de 1938 com 92.000 espectadores no Celtic Park e de 118.567 espectadores no Ibroux Park (Rangers) em 1º de janeiro de 1939 .

Títulos[editar | editar código-fonte]

Listagem de títulos conquistados por Rangers FC e Celtic FC nas competições, regionais, nacionais e internacionais, comuns aos dois clubes ao longo da história.

Competições Internacionais Rangers FC Celtic FC
Taça Intercontinental / Mundial de Clubes - -
Taça dos Campeões Europeus / Liga dos Campeões - 1
Taça das Cidades com Feiras / Taça UEFA / Liga Europa - -
Taça das Taças 1 -
Supertaça Europeia - -
Taça Anglo-Escocesa - -
Taça Coronation - 1
Taça Britânica 1 1
Taça Império - 1
Competições Nacionais Rangers FC Celtic FC
Campeonato da Escócia 54 45
Taça da Escócia 33 36
Taça da Liga da Escócia 27 14
Liga Inter-Cidades - 1
Taça Dybrough 1 1
Competições Regionais Rangers FC Celtic FC
Campeonato do Sul da Escócia 6 -
Taça do Sul da Escócia 4 -
Campeonato de Glasgow 2 1
Taça de Glasgow 48 31
Total 176 133

Referências

  1. a b c d e LEME, Tiago (outubro de 2008). Futebol, política e religião. Placar n. 1323. Editora Abril, pp. 96-97
  2. Kenny Dalglish: lenda em Liverpool. Trivela.com (27/05/2011). Página visitada em 27/05/2011.
  3. Top 10 maiores esquadrões da história da Liga dos Campeões (setembro de 2007). Trivela Especial - Guia da Liga dos Campeões 2007/08. Trivela Comunicações, p. 64
  4. BARNETT, Tim; BRENNA, Dan; CORBETT, James; HARPER, Nick; LYTTLETON, Ben; MITTEN, Andy; MOYNIHAN, Leo; TALBOT, Simon; WILSON, Jonathan (dezembro de 2008). 16 transferências que abalaram o mundo. FourFourTwo n. 2. Editora Cádiz, pp. 62-67
  5. a b GWERCMAN, Sérgio (outubro de 2004). Como o futebol explica o mundo. Superinteressante n. 205. Editora Abril, pp. 88-93
  6. HOFMAN, Gustavo (outubro de 2008). Devoção religiosa. Trivela n. 32. Trivela Comunicações, p. 42
  7. Acusados de enviar bomba ao técnico do Celtic são presos. Trivela.com (13/05/2011). Página visitada em 28/05/2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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