Oralidade

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Oralidade é a transmissão oral dos conhecimentos armazenados na memória humana. Antes do surgimento da escrita, todos os conhecimentos eram transmitidos oralmente. Por muitos séculos o sistema oral, a oralidade, foi o principal meio de comunicação dos homens. A memória auditiva e visual eram os únicos recursos de que dispunham as culturas orais para o armazenamento e a transmissão do conhecimento às futuras gerações.[1] A inteligência estava intimamente relacionada a memória. Os anciões eram os mais sábios, pelo conhecimento acumulado.

Em muitas culturas, a identidade do grupo estava sob guarda de contadores de histórias, cantores e outros tipos de arautos, que na prática eram autenticamente os portadores da memória da comunidade. Este é o caso do papel desempenhado na África Ocidental pelos griot, sendo o relato mais famoso o dos feitos do rei Sundiata Keita, soberano do Império Mali. Esse é um exemplo de que a oralidade apresentou papel principal na comunicação humana durante anos e estudiosos contemporâneos concordam com sua influência na estrutura do pensamento de sociedades letradas ainda hoje.

Tipos de Oralidade[editar | editar código-fonte]

A oralidade, estudada por inúmeros especialistas, é dividida em dois tipos: primária e secundária. Essas duas concepções de oralidade podem ser encontradas em obras como "As Tecnologias da Inteligência: O Futuro do pensamento na Era da Informática" do filósofo francês Pierre Lévy e "Oralidade e Cultura Escrita - A Tecnologização da Palavra" de Walter J. Ong, que são abordadas de maneiras diferentes de acordo com cada especialista, tiveram/tem seu destaque em momentos históricos diferentes.

Oralidade Primária[editar | editar código-fonte]

Os elementos técnicos condicionam as formas de pensamento ou as temporalidades de uma sociedade. Isso quer dizer que uma sociedade que não possui influências da escrita ou impressão organiza-se de uma forma diferente de uma outra que possua essas influências. A oralidade primária é o tipo de oralidade que não é influenciada de nenhuma forma pela escrita ou a impressão pois não possui contato com as mesmas. Nessas sociedades de oralidade primária, a palavra tem como função básica a gestão da memória social. Nesse caso o edifício cultural [2] estaria fundado sobre as lembranças dos indivíduos.

Uma característica importante da comunicação oral é que ela não deixa resíduo táteis. Isso quer dizer que uma sociedade puramente oral não possui registros e se baseia totalmente na memória. A memória humana não corresponde a um equipamento de armazenamento e recuperação fiel das informações, havendo, muitas vezes, dificuldade para diferenciar as mensagens originais que recebemos das relações que associamos a elas.

Apesar da grande diversidade técnica das últimas décadas, há uma persistência dessa oralidade primária nas sociedades modernas porque as "representações e maneiras de ser ainda são transmitidas independentemente dos circuitos de escrita e dos meios de comunicação eletrônicos". Ou seja, a maior parte dos conhecimentos adquiridos experimentalmente ainda são repassados oralmente.

Oralidade Secundária[editar | editar código-fonte]

A oralidade secundária pertencente às culturas eletrônicas que dependem diretamente da cultura escrita e da impressão. O fato de ainda falarmos hoje é diretamente ligado à oralidade secundária. Apesar de muitas culturas altamente desenvolvidas a nível tecnológico ainda apresentarem muito da estrutura mental oriunda da oralidade primária, a existência de sociedades que ainda não tiveram contato com a escrita é rara atualmente. É difícil imaginar uma tradição puramente oral, ou a oralidade primária de forma significativa, pois, a tradição oral não possui resíduos ou depósitos e não pode ser tocada.

Exemplos claros da diferença entre oralidade primária e secundária foram os debates entre, na época candidato a senador pelo estado de Illinois, Abraham Lincoln e o senador Stephen Douglas, nos Estados Unidos:

Nos debates Lincoln-Douglas de 1858, os guerreiros – pois isso é o que eles eram, clara e verdadeiramente – defrontam-se muitas vezes ao ar livre, durante o verão escaldante de Illinois, diante de um público extremamente participativo de até 12 ou 15 mil pessoas, cada um deles falando por uma hora e meia. (...) E tudo isso sem equipamento de amplificação. A oralidade primária se fez sentir no estilo agregativo, redundante, cuidadosamente ritmado, altamente agonístico e no intenso intercâmbio entre orador e público. (...)  debates presidenciais na televisão atualmente estão completamente fora desse mundo oral mais antigo. O público está ausente, invisível, inaudível. (...) [os candidatos] fazem apresentações breves e se envolvem em diálogos incisivos uns com os outros, nos quais qualquer aresta é deliberadamente aparada. A mídia eletrônica não tolera exibição de antagonismo aberto. (...) essa mídia é totalmente dominada por um sentimento de fechamento que é herdeiro da impressão: uma exibição de hostilidade poderia romper o fechamento, o controle rigoroso.[3]

A Oralidade na História[editar | editar código-fonte]

A tradição Oral, na Grécia antiga era de extrema importância no ensino da arte da retórica, a arte de falar bem em público. Os sofistas, da Grécia do século V, diziam que a retórica era a fonte de uma base racional para eficazes desempenhos.

O princípio fundamental de tal arte(a retórica), era basicamente demonstrar a capacidade do orador de refutar ou demonstrar um argumento.

O altar, durante a idade média na Europa ocidental, mais do que o púlpito tomava o lugar de importância no centro das igrejas. Os sermões e as pregações nas rua s e praças eram exemplos da importância do discurso oral para a Igreja.

Contudo, não só a Igreja, mas, os governantes perceberam o poder da comunicação oral. Um exemplo foi o discurso da rainha Elizabeth I sobre a necessidade de "sintonizar os púlpitos". Partindo da premissa de Elizabeth I, Carlos I, declarou que em períodos nos quais há ausência de guerras as pessoas são mais governadas pelo púlpito do que por espadas.

No século XV o desenvolvimento do comércio mudou consideravelmente a comunicação oral. O aumento do intercâmbio de mercadorias e o nascimento das bolsas comerciais criavam o ambiente perfeito para a prática oral.

As inovações do período permitiram a efervescência dos bares, cafés,tabernas e clubes. Locais aonde a prática oral, através dos discursos e debates era essencial. Tais locais de debate foram o ambiente propício para a partir do séc XVII desenvolver o que denominamos "esfera pública".

As universidades sempre foram um ambiente propício para o uso da oralidade, através de debates formais,declarações e disputas os estudantes eram ensinados. A arte da retórica, da fala, era de grande valor nestes ambientes, os alunos eram estimulados ao aprendizado através da oralidade.

A maioria dos estilos literários derivava da retórica acadêmica já no século XIX. Um resíduo desta arte da retórica, hoje em dia, está nos discursos de defesa de dissertações dos graduandos e doutorados.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

NIANE, Djibril Tamsir, 1982, Sundjata ou a Epopéia Mandinga, coleção Autores Africanos, n. 15 Editora Ática, São Paulo, SP;

WALDMAN, Maurício. Africanidade, Espaço e Tradição: a topologia do imaginário africano tradicional na crônica “Griot” de Sundjata Keita. In. Revista África, nº 20-21. p. 219-268. São Paulo: Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo - CEA/USP, 2000. Artigo considerado de relevância internacional pelo Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS, França). Ficha Catalográfica do CNRS: [1]; Mais informação: [2]; Download:[3].

LÉVY, Pierre. São Paulo: Editora 34, 1993. As tecnologias da inteligência. 1ª edição (10ª Reimpressão) São Paulo: Editora 34, 2001

ONG, Walter. Oralidade e Cultura Escrita:A tecnologização da palavra (em português). [S.l]: Papirus Editora, 1998. 223 p.

BRIGGS, Asa e BURKE, Peter. Uma história social da mídia. Rio de Janeiro, Zahar, 2004.

Referências

  1. Vanda Machado, Tradição Oral e Vida Africana e Afro-Brasileira
  2. Lévy, Pierre. As Tecnologias da Inteligência - O Futuro do Pensamento na Era da Informática. Editora 34. ed. [S.l.: s.n.], 1992.
  3. Ong, Walter J.. Oralidade e Cultura Escrita - A Tecnologização da Palavra. São Paulo: Papirus Editora, 1998. p. 156.
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