Pão-por-Deus
Em Portugal, especialmente na zona centro e estremadura, no 1º de novembro ou dia de Todos-os-Santos, as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos bandos para pedir o pão-por-deus (ou o bolinho) de porta em porta. As crianças quando pedem o pão-por-deus recitam versos e recebem como oferenda: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, tremoços amêndoas,ou castanhas que colocam dentro dos seus sacos de pano, de retalhos ou de borlas. É também costume em algumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’ ou ‘Dia do Bolinho’. Os bolinhos típicos são especialmente confecionados para este dia, sendo à base de farinha e erva doce com mel (noutros locais leva batata doce e abóbora) e frutos secos como passas e nozes. São vários os versos para pedir o pão por deus:
| “ | Ó tia, dá Pão-por-Deus?
Se o não tem Dê-lho Deus!. |
” |
| “ | Ó tia, dá bolinho? | ” |
Ou então:
| “ | Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós Para dar aos finados Qu'estão mortos, enterrados À porta daquela cruz |
” |
ou
| “ | Pão, pão por deus à mangarola,
encham-me o saco, e vou-me embora. |
” |
| “ | Tenho um saco à gringola,
se mo encherem vou-me embora! |
” |
| “ | Pão por Deus,
Fiel de Deus, Bolinho no saco, Andai com Deus. |
” |
| “ | Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro Assentada num banquinho Faz favor de s'alevantar Para vir dar um tostãozinho. |
” |
Quando os donos da casa dão alguma coisa:
| “ | Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa. Esta casa cheira a vinho Aqui mora algum santinho. |
” |
Como não é muito aceitável rejeitar o bolinho às crianças, as desculpas eram criativas:
| “ | Olha foram-me os ratos ao pote e não me deixaram farelo nem farelote | ” |
A quem lhes recusa o pão-por-deus roga-se uma praga em verso:
| “ | O gorgulho gorgulhote,
lhe dê no pote, e lhe não deixe, farelo nem farelote. |
” |
ou
| “ | Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho Esta casa cheira a unto Aqui mora algum defunto. |
” |
ou deixa-se uma ameaça enquanto se fugia em grupo e entre risos
| “ | senão leva com a caneca no focinho! | ” |
O termo caneca podia ser substituído por tranca ou cavaca (um pedaço de lenha)
Com o passar do Tempo, o Pão-por-Deus sofreu algumas alterações, os meninos que batem de porta em porta podem receber dinheiro, rebuçados ou chocolates. Esta atividade é principalmente realizada nos arredores de Lisboa, relembrando o que aconteceu no dia 1 de Novembro de 1755, aquando do terramoto de Lisboa, em que as pessoas que viram todos os seus bens serem destruídos na catástrofe, tiveram que pedir "pão-por-deus" nas localidades que não tinham sofrido danos.
[editar] No Brasil
Este é um costume de origem portuguesa mas ocorre em ambos os lados do Oceano Atlântico. Tanto em Juncal em Portugal, como na FESTILHA, que resgata as tradições na Ilha de São Francisco do Sul, estado de Santa Catarina, Brasil.
Na FESTILHA, o pão-por Deus é pedido através de uma figura feita de recorte de papel acetinado, geralmente um coração, de quatro faces que se justapõem quando dobrados, ficando a cor branca por dentro, e por fora a cor azul, vermelha ou amarela. Suas bordas tem uma pequena franja rendilhada. Na face branca, interna, estão escritas uma ou duas quadrinhas nas quais se pede a dádiva, como esta:
Lá vai o meu coração Pão por Deus Sozinho sem mais ninguém Que Deus me deu Vai pedir o Pão-por-Deus Uma esmolinha A quem quero tanto bem Por alma dos seus
[editar] Referências
- Almanach de lembranças luso-brasileiro. Castilho Alexandre, Cordeiro António. Typográfica Franco Portuguesa. 1861.