Joaquim Silvestre Serrão
Joaquim Silvestre Serrão, mais conhecido apenas como Padre Serrão (Setúbal, 16 de Agosto de 1801 — Ponta Delgada, 20 de Fevereiro de 1877), foi um sacerdote católico que se notabilizou como compositor e organista. Foi muito considerado como compositor de música de igreja e como organista nos Açores, onde viveu a maior parte da sua carreira como músico profissional. As suas obras revelam influência do estilo teatral italiano em voga no século XIX.
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[editar] Biografia
Era filho do cirurgião setubalense António Leocádio Serrão e de sua esposa, Ana Luísa da Conceição. Como cedo deu mostras de predisposição para a música, os seus pais colocaram-no como aluno do padre mestre de capela José Júlio de Almeida, com quem aprendeu solfejo, cravo e órgão.
Terminada a sua formação básica, partiu para Lisboa, onde estudou composição como aluno do músico Atanásio José da Fonseca, professor que mais tarde Serrão consideraria como "muito hábil e insigne professor (…), sábio contrapontista, perfeito acompanhador em todos os géneros, e um dos melhores harmonistas do seu tempo".
Aos 17 anos de idade Serrão já era considerado um dos virtuosos de Lisboa, distinguindo-se pelo seu talento imitativo e destreza na arte da improvisação. Passou então a participar nos saraus artísticos organizados pela aristocracia lisboeta, com destaque para os marqueses de Valença, o conde de Sabugal e os marqueses de Castelo Melhor.
Ainda antes de completar 18 anos de idade foi contratado, por concurso, para o lugar de organista no convento dos freires da Ordem de Santiago, em Palmela,[1] cargo em que pouco depois foi provido definitivamente por despacho régio.
Entretanto, decidiu-se pela carreira eclesiástica, concluindo os necessários estudos em 1824, tomando nesse ano ordens sacras. Em 1826 foi elevado à dignidade de frade capitular do Convento de Santiago de Palmela.
Com a extinção das ordens religiosas operada com o triunfo da causa liberal em 1834, o já padre Serrão viu-se na situação de egresso, o que o levou a aceitar o convide de D. Frei Estêvão de Jesus Maria, bispo de Angra, para se instalar em Ponta Delgada, onde então o bispo residia, já que a tomada de posição daquele prelado a favor dos miguelistas durante a Guerra Civil o fizera "persona non grata" na sua cidade episcopal de Angra.
O padre Serrão chegou aos Açores em 1841, assumindo as funções de organista da Igreja Matriz de São Sebastião daquela cidade. O seu sucesso foi imediato, sendo considerado um músico prodigioso, criando um vasto grupo de admiradores, que se consolidou no decurso da sua longa carreira como organista e compositor, já que permaneceu ao serviço da Matriz de Ponta Delgada de 1841 a 1877. Entre os seus admiradores contava-se a melhor aristocracia da ilha e a importante burguesia mercantil criada pela exportação da laranja, o que levou a que após a sua morte lhe fosse erigida uma estátua (um das poucas existentes em Ponta Delgada), inicialmente colocada no Cemitério de São Joaquim, e mais tarde transferida para o adro sul da Igreja Matriz de São Sebastião.[2]
[editar] Obra musical
Joaquim Silvestre Serrão deixou uma vasta obra de música religiosa, que inclui matinas e ofícios completos para as cerimónias religiosas da Semana Santa e responsórios vários, entre os quais um dedicado a São Sebastião, o santo padroeiro da cidade de Ponta Delgada. Também compôs numerosas obras não litúrgicas, entre as quais se destaca a obra Os Aliados da Crimeia – música para piano solo ou dois pianos, publicada em Paris. O compositor açoriano Francisco de Lacerda[3] considerou-o um verdadeiro talento musical, destacando a qualidade das suas Matinas da Semana Santa.
[editar] Organeiro
Joaquim Silvestre Serrão foi igualmente um notável organeiro. Em colaboração com João Nicolau Ferreira reparou e construiu um número significativo de órgãos das ilhas açorianas, entre os quais:[4]
- Ilha de Santa Maria
- Convento de São Francisco
- Ilha de São Miguel
- Igreja de São Pedro (Ponta Delgada) (1858)
- Igreja das Feteiras (1860)
- Igreja da Misericórdia (Ribeira Grande) (1863)
- Igreja de Santo António (Capelas) (1875)
- Igreja Nossa Senhora da Ajuda (Bretanha) (1877)
- Ilha Terceira
- Sé Catedral de Angra do Heroísmo (destruído) (1850)
[editar] Homenagens
As cidades de Ponta Delgada e de Setúbal lembram Joaquim Silvestre Serrão na sua toponímia.
O padre Serrão é também um dos setubalenses ilustres que figuram no tríptico de Luciano dos Santos, existente no salão nobre dos Paços do Concelho de Setúbal.[5]
Referências
- ↑ O convento encontrava-se instalado no Castelo de Palmela. Com a ocupação do castelo pelas tropas liberais em 1833 os freires vão residir para o Mosteiro dos Jerónimos, em Belém (Lisboa) e depois para o Convento de Rilhafoles.
- ↑ Ver aqui
- ↑ "La musique et les musiciens". In: Le Portugal géographique et ethnologique, Paris: Larousse.
- ↑ Cf. Atrium Musicologicum de Luís Henriques (Consultado em 1 junho 2008).
- ↑ O tríptico dos setubalenses ilustres.
[editar] Bibliografia
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
- Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura
- Braga, Teófilo. Questões de literatura e arte portuguesa. Lisboa, A. J. P. Lopes, 1881.
- Braga, Teófilo. Joaquim Silvestre Serrão e a música religiosa em Portugal. Lisboa, 1906.
- Câmara, José Manuel Bettencourt da. Uma Carta de Joaquim Silvestre Serrão para Carlos Botelho. In Revista Atlântida, vol. XLVI (2001), p. 175.