Pai contra Mãe

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Pai Contra Mãe)
Ir para: navegação, pesquisa

"Pai Contra Mãe" é um conto escrito por Machado de Assis e publicado no livro Relíquias da Casa Velha (1906). Escrito cerca de dez anos após o fim da escravidão no Brasil, é o único conto do livro que trata explicitamente do tema.[1] Os críticos o colocam na segunda fase (ou fase madura) do autor, em que há tendências realistas. Após Memórias Póstumas de Brás Cubas, suas próximas obras e contos, notavelmente "A Causa Secreta", "Capítulos dos Chapéus", "A Igreja do Diabo" e outros, possuem uma temática inovadora e ousada.[2] Começa pela emblemática frase:

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais [...]

Narrado em terceira pessoa, ocorre no Rio de Janeiro nos fins do Segundo Império; o caçador de escravos fugitivos Cândido Neves casa-se com a noiva Clara que engravida mas, por conta da escassez de escravos fugidios, enfrentam dificuldade financeira. Sem saída, Cândido decide levar o filho à Roda dos Enjeitados para que o bebê não morresse de fome mas, pelo caminho, encontra uma escrava fugitiva e a persegue após entregar o filho a um farmacêutico. Cândido logra capturá-la mas ela suplica liberdade, afirmando que está grávida e não quer um filho escravo. O caçador ignora e entrega a escrava a seu dono. A mulher aborta a criança que esperava, enquanto Cândido recebe dinheiro pela caça e retorna com melhores meios pelos quais sustentar seu filho e esposa. O conto termina com a frase de Cândido: Nem todas as crianças vingam...

A crítica sociológica vê no conto aspectos inteiramente capitalistas e maquiavélicos; existe uma certa "coisificação" do homem quando os senhores, donos e libertos enxergam os escravos como meras mercadorias e objetos,[3] como atenuado na passagem [...] grande parte [dos escravos] era apenas repreendida; havia alguém em casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, por que dinheiro também dói. A crítica social do conto machadiano é dada também através de perfis psicológicos das personagens.[3] Assim como muitas obras anteriores de Machado de Assis, é inspirado em Voltaire; seu Cândido, ou O Otimismo possui um protagonista homônimo que é otimista e sempre procura o lado positivo das situações, seguindo os ensinamentos de seu mestre Panglós, e que é sensível, apaziguador e sensato; de forma irônica, o Cândido machadiano é insensível e egoísta, como mostra-se quando ignora o pedido da escrava grávida e a arrasta pelas ruas a fim de conseguir dinheiro.[3]

Ao lado do Capítulo LXVIII de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que um escravo liberto compra um escravo para si próprio, tratando-o e batendo nele tal qual apanhava na infância, este conto é considerado como um dos retratos mais brutais e impressionantes da escravidão no Brasil.[3] [4]

Referências

  1. Renata Figueiredo Moraes. Pai contra mãe: a permanência da escravidão nos contos de Machado de Assis. Acesso: 18 de dezembro, 2010.
  2. Nejar, 2007, p.92.
  3. a b c d Análises completas. Pai contra Mãe (Conto), de Machado de Assis. Passei Web. Acesso: 18 de dezembro, 2010.
  4. Revista Veja, "Machado: Um Verdadeiro Imortal", por Jerônimo Teixeira. 24 set., 2008, p.165.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]