Paleopatologia

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O radical etimológico do vocábulo paleopatologia procede do grego παλιος, velho, e παθος, sofrimento. Palavra cunhada pelo americano R.W. Shufeldt, foi definida por Marc Armand Ruffer como a ciência que demonstra a presença de enfermidades em restos de animais ou humanos procedentes de tempos antigos ou, simplesmente, como o estudo das doenças em populações do passado [Roberts e Manchester, 1995].

A paleopatologia é uma disciplina científica reconstrutiva e não tanto experimental, isto é, aspira estabelecer a presença de doenças e o seu impacto dinâmico nos grupos humanos através de inferências baseadas em evidências recolhidas de uma pletora de mediadores com o passado. Sobrepondo massas de evidência procedentes maioritariamente de restos esqueléticos e mumificados, mas também da arte [da pintura, da iconografia, da escultura], da história [de testamentos, de diários, de registos paroquiais, de tratados médico-filosóficos] e da literatura, a paleopatologia tornou-se uma disciplina devotada ao apuro do conhecimento da evolução das condições patológicas e do seu papel na história biológica e social humana [Curate, 2005].

Durante um termo longo da sua história, a exegese paleopatológica preocupou-se em seguir uma metodologia meramente descritiva e desassombrada com os aspectos analíticos do estudo das doenças no passado. O anátema expirou com a publicação, em 1930, do estudo de Hooton sobre os índios de Pecos Pueblo, obra que alicerçou o período epistemologicamente florescente da paleoepidemiologia. Desde a edição desse marco miliar que a ênfase vem sendo colocada no estudo das populações – ao invés do estudo focalizado somente nos indivíduos – e na interpretação das alterações seculares dos padrões de doença, da paleodemografia e da complexa relação da enfermidade com o meio natural, social e cultural [Waldron, 1991].

A epidemiologia é o estudo da ocorrência e distribuição de doenças e outras condições relacionadas com a saúde numa comunidade. Um dos propósitos desta área do saber prende-se com a determinação da magnitude e impacto das doenças e outras condições em populações ou sub-populações seleccionadas. Outro dos fitos da epidemiologia refere-se ao estudo da história natural, curso clínico e patogénese das condições patológicas. O intento da paleoepidemiologia é mensurar a frequência de uma determinada condição patológica em populações desaparecidas, muitas vezes por intermédio dos seus remanescentes esqueléticos.

A frequência da doença numa comunidade pode ser expressa como um índice de prevalência ou de incidência. A incidência de uma doença é definida como o número de novos casos que surgem numa determinada unidade de tempo, numa população definida em risco. A prevalência é enunciada como o número total de indivíduos que padecem de uma doença prescrita, num período de tempo específico. Se a incidência de uma condição patológica só pode ser arrolada num estudo prospectivo, a estimativa da prevalência é possível através de uma aproximação de estudo a um segmento transversal da população ancorado a um período temporal preciso. A duração de uma doença é influenciada pela história natural desta – os índices de mortalidade e sobrevivência assim como a taxa de tratamentos bem sucedidos são elementos cruciais no talhe da prevalência de uma doença. Em paleopatologia, as doenças identificadas tendem a possuir uma história natural longa, propiciadora de um elevado índice de prevalência [Roberts e Manchester, 1995; Kelsey e Sowers, 1995].

Subsistem muitas imperfeições decorrentes da aplicação da epidemiologia à paleopatologia e que dificilmente serão superadas, mesmo com avanços extraordinários na teoria e nas metodologias que possibilitam o reconhecimento das doenças a partir de restos humanos. Todavia, para debuxar a história da doença nas populações humanas e animais, a paleopatologia não pode deixar de contar com a excepcional contribuição da epidemiologia. A descrição de casos isolados em paleopatologia tresmalha-se indubitavelmente de um projecto de ciência crítica e, embora a sua importância seja indiscutível, a verdade é que para a compreensão global da história das doenças não passam de meros parágrafos de curiosidades [Curate, 2005].

As fronteiras entre doenças [e mesmo entre doença e saúde] são frequentemente delidas e entremeadas e quando se pretende retrospectivar o processo patológico a edificação de um diagnóstico enreda-se muitas vezes nas incertezas que advêm da natureza das lesões ósseas. Etiologias distintas originam, não poucas vezes, lesões semelhantes ou mesmo iguais.

O diagnóstico constitui a chave de abóbada da prática médica e, para que se obtenha uma diagnose, torna-se imprescindível valorar os signos intrínsecos a qualquer doença, tributários dos mecanismos nosógenos que nela actuam. Os diversos sintomas – isto é, as manifestações de alterações orgânicas ou funcionais relacionadas com uma doença – que distinguem qualquer enfermidade podem ser, em determinadas ocasiões, evidentes e prolixas. Porém, na maioria das vezes são difíceis de interpretar e, desse modo, a sua clarificação apoia-se na correlação entre eles e entre as variegadas circunstâncias exógenas que sobre eles influem. Assim, o diagnóstico tem o ar de uma ciência precisa – ou mesmo exacta –, mas nada está mais longe da verdade. O vocabulário empregue nos diagnósticos é frequentemente confuso e impreciso, incorporando diferentes sinais e atributos da condição do paciente. De facto, a forma como as enfermidades são classificadas reflecte a dubiedade acerca do que constitui, na realidade, uma doença [Waldron, 1991].

Apesar de tudo, o diagnóstico chancela também os alicerces conceptuais da paleopatologia. O paleodiagnóstico recosta-se quase por inteiro na anatomia patológica, apoiado, em determinados casos, em exames complementares. Pretende-se construir um diagnóstico diferencial, isto é, uma enunciação de todas as doenças que poderão estar na génese dos fenómenos observados no osso. Afirma-se que toda a matéria é histórica e que essa historicidade é tortuosa, que coloca os fenómenos perante alternativas sucessivas. O diagnóstico diferencial traduz-se numa operação complexa que possibilita uma visão crítica das alternativas nosológicas que poderão estar na génese de uma determinada reacção óssea. A verdade científica traduz a escolha racional óptima entre as alternativas que se apresentam ao olhar do investigador. Domenèch Campillo [2001] confere à modéstia um estatuto central na investigação paleopatológica, porquanto o paleopatologista tem de prescindir de uma atitude dogmática e acrítica, admitindo que muitas vezes o diagnóstico retrospectivo é infazível. É pouco judicioso adoptar uma atitude diagnóstica peremptória. O lugar do investigador é, pois, o espaço do desconforto. O antropólogo americano Donald Ortner [2003], de forma similar, exorta ao paleopatologista um alinho open minded antes de eliminar uma possível doença com base em qualquer elemento orientador. O paleodiagnóstico é sobretudo uma interpretação, um processo hermenêutico sujeito à perseverança crítica do investigador.

A interpretação dos dados em paleopatologia depende essencialmente da correcção do diagnóstico diferencial das condições patológicas. Todavia, depende também da avaliação de outras variáveis que contribuem para a nossa compreensão dos dados referentes à patologia numa amostra esquelética. Actualmente, os médicos dispõem de uma repleção de fontes que facilitam o diagnóstico de uma condição de morbilidade. Em paleopatologia, os dados disponíveis são, de certa forma, diferentes e quase sempre mais escassos [Curate, 2005].


Referências[editar | editar código-fonte]


Campillo, D. 2001. Introducción a la paleopatología. Barcelona: Bellaterra

Curate, F. 2005. Pressentindo o silêncio: A perda de massa óssea relacionada com o envelhecimento na Colecção de Esqueletos Identificados do Museu Antropológico da Universidade de Coimbra. Dissertação de Mestrado. Coimbra: Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra

Kelsey, J.; Sowers, M. 1996. Introduction to epidemiologic methods. In: Marcus, R.; Feldman, D.; Kelsey, J. (Eds.).Osteoporosis. San Diego: Academic Press, 397-418

Ortner, D. 2003. Identification of pathological conditions in human skeletal remains. Academic Press: San Diego

Roberts, C.; Manchester, K. 1995. The archaeology of disease. Ithaca, New York: Cornell University Press

Waldron, T. 1991. Rates for the job. Measures of disease frequency in paleopathology. International Journal of Osteoarchaeology 1: 17-25


Ligações Externas[editar | editar código-fonte]


http://www.paleopathology.org/

http://www.uc.pt/cia/