Parábola do Vinho Novo em Odres Velhos

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Homem carregando um odre Niko Pirosmani.

A parábola do Vinho Novo em Odres Velhos é um par de parábolas contadas por Jesus no Novo Testamento, encontradas em Mateus 9:14-17, Marcos 2:18-22 e Lucas 5:33-39. Uma versão das parábolas também aparece no gnóstico Evangelho de Tomé.[1]

O episódio anterior a este é o Chamado de Mateus como discípulo de Jesus. E a parábola dos odres parece ser parte de uma discussão em um banquete realizado por seu novo discípulo (Lucas 5:29).[2]

Narrativa[editar | editar código-fonte]

No Evangelho de Mateus, a parábola é contada assim:

«Depois o procuraram os discípulos de João, e lhe perguntaram: Por que é que nós e os fariseus jejuamos, mas teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Porém dias virão, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias jejuarão. Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; de outro modo arrebentam os odres, e derrama-se o vinho, e estragam-se os odres. Mas vinho novo é posto em odres novos, e ambos se conservam.» (Mateus 9:14-17)

Em Marcos:

«(Ora os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando.) Eles vieram perguntar-lhe: Por que jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Durante o tempo que têm consigo o noivo, não podem jejuar. Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o noivo, nesses dias jejuarão. Ninguém cose remendo de pano novo em vestido velho; de outra forma o remendo novo tira parte do velho, e torna-se maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; de outra forma o vinho fará arrebentar os odres, e perder-se-á o vinho, e também os odres. Pelo contrário vinho novo é posto em odres novos.» (Marcos 2:18-22)

Por fim, no Evangelho de Lucas:

«Disseram-lhe eles: Os discípulos de João jejuam freqüentemente, e fazem orações; assim também os dos fariseus, mas os teus comem e bebem. Jesus disse-lhes: Podeis fazer jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias, porém, virão, dias em que lhes será tirado o noivo, nesses dias hão de jejuar. Propôs-lhes também uma parábola: Ninguém tira remendo de vestido novo e o põe em vestido velho; de outra forma rasgará o novo, e o remendo do novo não condirá com o velho. Outrossim ninguém põe vinho novo em odres velhos; de outra forma o vinho novo arrebentará os odres, e ele se derramará, e estragar-se-ão os odres. Pelo contrário vinho novo deve ser posto em odres novos. Ninguém que já bebeu vinho velho, quer o novo; porque diz: O velho é bom.» (Lucas 5:33-39)

Interpretação[editar | editar código-fonte]

Um odre de vinho.

Não se sabe exatamente qual o significado exato deste famoso dito em seu contexto original, mesmo para os acadêmicos modernos[3] . Geralmente se interpreta o trecho indicando que Jesus estaria propondo uma nova forma de realizar as coisas. O novo remendo não pode ser costurado em vestido velho pois irá encolher e aumentar o rasgo. Também não se pode utilizar vinho "novo" em odres "velhos" pois o vinho irá fermentar e expandir, rompendo os odres velhos. Jesus, desta forma, parece estar preocupado que tanto o "remendo novo" e o "vinho novo" quanto o "vestido velho" e o "odre velho" sejam preservados[4] . É possível ainda que ele estivesse tentando indicar que é necessário jogar fora as coisas velhas que são incompatíveis com seu novo caminho[5] . Outra possibilidade é que as coisas velhas são dignas de serem preservadas, mas não misturadas com as novas.

As metáforas nas duas parábolas foram retiradas da cultura da época.[6] Pano novo ainda não tinha encolhido com as lavagens, de modo que o uso de pano novo em roupa velha, causaria o rompimento da roupa velha pois o pano novo vai encolher quando for lavado.[7] Do mesmo modo, odres velhos tinham sido "esticados até ao limite" [7] e tornado-se frágeis [6] com o vinho fermentado que havia dentro deles, usando-os novamente, portanto, arriscaria estourá-los.[7]

Uma das interpretações das duas parábolas diz respeito à relação entre "o ensinamento de Jesus e do judaísmo tradicional.[6] . Muitos, especialmente os cristãos, interpretaram o trecho como significando que Jesus era o início de uma nova religião, distinta da religião de João Batista e do judaísmo, como é o caso de Inácio de Antioquia[8] . Alguns cristãos também utilizaram este trecho para propor novos meios de ser cristão ou mesmo formas muito distintas de cristianismo. Já no século II, Marcião utilizou-o para justificar sua doutrina, chamada depois de marcionismo. Contra esta interpretação, Lucas 5:39 acrescenta: "Ninguém que já bebeu vinho velho, quer o novo; porque diz: O velho é bom." Este dito também é encontrado parcialmente como dito 47 no Evangelho de Tomé[9] . Em Marcos, este conflito é o ponto central da disputa inicial de Jesus com os doutores da Lei.

Segundo alguns intérpretes, Jesus e "seu novo ensinamento contra o velho caminho dos fariseus e dos escribas".[2] No segundo século, Marcião , fundador do marcionismo, usou a passagem para justificar a total separação entre a "religião que Jesus e Paulo defendiam" das Escrituras hebraicas, uma ruptura completa do cristianismo em relação ao judaísmo, principalmente em relação ao Antigo Testamento[10]

Outros intérpretes vêem Lucas como demonstrando as raízes do cristianismo no judaísmo,[2] , dizendo que "Jesus trouxe algo de novo, e os rituais e tradições do judaísmo oficial não poderiam contê-lo".[11]

A interpretação preferida de João Calvino é diferente destas. Em seu "Comentário sobre Mateus, Marcos e Lucas"[12] , ele afirma que os velhos odres e o vestido velho representam os discípulos de Jesus e o novo vinho e o remendo novo representam a prática de jejuar duas vezes por semana, o que seria pesado para eles e mais do que poderiam suportar.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Evangelho de Tomé: Lamb translation and Patterson/Meyer translation. (Em inglês 02/06/2011)
  2. a b c Joel B. Green, The Gospel of Luke, Eerdmans, 1997, ISBN 0802823157, pp. 248-250. (Em inglês 02/06/2011)
  3. Brown et al. 602
  4. Brown et al. 603
  5. Kilgallen 59
  6. a b c James R. Edwards, The Gospel According to Mark, Eerdmans, 2002, ISBN 0851117783, pp. 91-92. (Em inglês 02/06/2011)
  7. a b c Craig S. Keener, A Commentary on the Gospel of Matthew, Eerdmans, 1999, ISBN 0802838219, pp. 300-301. (Em inglês 02/06/2011)
  8. Inácio de Antioquia. Carta aos Magnésios X (em inglês).
  9. Disponível aqui em português.
  10. Joseph B. Tyson, Marcion and Luke-Acts: A defining struggle, University of South Carolina Press, 2006, ISBN 1570036500, p. 32 (Em inglês 02/06/2011).
  11. R. T. France, The Gospel According to Matthew: An introduction and commentary, Eerdmans, 1985, ISBN 0802800637, p. 169. (Em inglês 02/06/2011)
  12. Disponível em aqui em inglês.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]