Parábola das Dez Virgens
|
Três das cinco virgens prudentes mostram a sua alegria (Catedral de Magdeburgo).
|
|
|
Virgens néscias em Lübeck.
|
A Parábola das Dez Virgens, também conhecida como Parábola das Virgens Néscias, é uma das mais conhecidas parábolas de Jesus. No entanto, ela aparece em apenas um dos evangelhos canônicos. De acordo com o Mateus 25:1-13, as cinco virgens que estão preparados para a chegada do noivo são recompensadas enquanto que as cinco que não estão são excluídas de seu banquete de casamento. A parábola tem um tema claramente escatológico: estar preparado para o Juízo Final1 .
Foi uma das parábolas mais populares na Idade Média, com enorme influência sobre a arte gótica, a escultura e a arquitetura de catedrais alemãs e francesas.
Índice |
Narrativa bíblica [editar]
| “ | «Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo. Cinco dentre elas eram néscias, e cinco prudentes. As néscias, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo; mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas juntamente com as lâmpadas. Tardando o noivo, toscanejaram todas e adormeceram. Mas à meia-noite ouviu-se um grito: Eis o noivo! saí ao seu encontro. Então se levantaram todas aquelas virgens e prepararam as suas lâmpadas. Disseram as néscias às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão-se apagando. Porém as prudentes responderam: Talvez não haja bastante para nós e para vós; ide antes aos que o vendem e comprai-o para vós. Enquanto foram comprá-lo, veio o noivo; as que estavam apercebidas, entraram com ele para as bodas e fechou-se a porta. Depois vieram as outras virgens e disseram: Senhor, Senhor, abre-nos a porta. Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço. Portanto vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora.» (Mateus 25:1-13) | ” |
Interpretações [editar]
1616. Por Hieronimus Franck (II), atualmente no Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia.
A parábola é uma de uma seqüência de respostas para uma pergunta no Evangelho de Mateus:
| “ | «Enquanto estava sentado no monte das Oliveiras, os discípulos aproximaram-se-lhe em particular, dizendo: 'Dize-nos quando sucederão estas coisas e qual será o sinal da tua vinda e do fim do mundo?'» (Mateus 24:3) | ” |
Outras parábolas nesta seqüência incluem a Parábola da Figueira (Mateus 24:32-35) e a Parábola do Servo Fiel (Mateus 24:42-51). A parábola das Dez Virgens reforça o convite à prontidão perante o nosso desconhecimento da Segunda Vinda de Cristo2 . Ela já foi descrita como uma "parábola de vigília"3 . Como a Parábola da Moeda Perdida, é uma parábola sobre mulheres que segue imediatamente depois, e chega na mesma conclusão, que uma parábola sobre homens4 .
Nesta parábola, Cristo é o noivo2 5 , ecoando a imagem do Antigo Testamento de Jeová como o noivo em Jeremias 2:2 e passagens similares2 . O evento esperado é a Segunda Vinda de Cristo2 5 . RT France escreve que a parábola é "uma advertência dirigida especificamente àqueles dentro da igreja para que não assumam que o seu futuro está garantido incondicionalmente"2 .
A parábola não critica as virgens por dormir, uma vez que ambos os grupos fazem isso5 , mas por estarem despreparadas. Não está claro exatamente de que forma essa falta de preparação toma: as virgens néscias podem ter levado óleo em quantidade insuficiente ou, se elas acenderam suas candeias ou tochas pela primeira vez quando o noivo chegou (tendo dormido nas horas anteriores na escuridão), elas podem não ter levado óleo nenhum6 (também não é claro se as virgens néscias conseguiram comprar óleo naquela noite7 : a maioria das lojas estaria fechada no horário8 9 ).
A parábola não está escrita em louvor da virgindade3 e certamente Luís de Granada, em seu The Sinner's Guide de 1555, escreve: "Ninguém intercede junto ao noivo em favor das cinco virgens néscias que, depois de desprezar os prazeres da carne e sufocando em seus corações o fogo da concupiscência, ou melhor, depois de observar o grande conselho da virgindade, negligenciaram o preceito de humildade e se tornaram cheias de orgulho por conta da sua virgindade"10 .
Autenticidade [editar]
1838-42. Por Friedrich Wilhelm Schadow, atualmente no Städel, em Frankfurt am Main, na Alemanha.
Enquanto que "um considerável número de exegetas supõem como fato que a parábola das Dez Virgens se origina no tempo de Jesus"11 , alguns comentarias, por conta de sua natureza escatológica, duvidam que Jesus a teria contado e que, ao invés disso, ela foi criada bem no início da igreja antiga. Uma grande maioria dos participantes do Jesus Seminar, por exemplo, apontam esta parábola como meramente similar a algo que Jesus teria dito ou simplesmente como falsa12 . A obra do Jesus Seminar tem sido criticada, contudo13 14 . Outros acadêmicos acreditam que esta parábola foi ligeiramente editada e é um excelente exemplo da habilidade de Jesus em contar parábolas15 . A parábola das Dez Virgens aparece em todos os manuscritos do Novo Testamento antigos, com apenas pequenas variações em algumas palavras16 .
Os ouvintes [editar]
Para o entendimento devemos retratar-nos à tradição dos rabinos. No Talmude e Midrash Rabá se encontram várias parábolas. Eles usam elementos do dia-a-dia para ilustrar questãos teológigas e morais. O rei ou anfitrião simboliza Deus, os prudentes e néscios correspondem aos justos e não justos, um vestido bom é a vida justa diante de Deus, pão e agua são a Torá, óleo significa as boas obras, entre outros.
Pais da igreja [editar]
Os Pais da igreja viam muitas alegorias nessa parábola. Tomás de Aquino alista algumas interpretações alegóricas na Catena aurea:
- Virgens: Jerónimo releva a virgindade, que pode ser também uma pureza espiritual. Hilário de Poitiers interpreta as lâmpadas como a luz das almas iluminadas pelo sacramento do batismo. Agostinho de Hipona associa as virgens aos cinco sentidos, que podem ser usados ou com sabedoria ou com imprudência.
- Óleo: O óleo é para Hilário de Poitiers as boas obras, para São João Crisóstomo o amor ao próximo, esmolas e ajuda aos pobres e necessitados, e para Orígenes, a Palavra e o ensinamento de Deus, com quem a alma é enchida como um vaso.
Medieval [editar]
A parábola era muito popular na época medieval e frequente na arte. As virgens prudentes são símbolos para a alma cristã, que é voltada para Deus praticando as cinco virtudes, enquanto as virgens néscias simbolizam os cinco tipos tradicionais de perversões.
Muitas catedrais góticas têm relevos e estatuas das virgens, em especial nos portões para o oeste, muitas vezes juntas com estátuas que simbolizam a igreja e a sinagoga.17
A parábola na arte [editar]
Esculturas [editar]
Esculturas se acham nas portais, e também no interior das catedrais. Vejam alguns exemplos:
- Amiens, Catedral de Amiens (Notre-Dame d'Amiens)
- Auxerre, Catedral de Saint-Etienne
- Basileia, Catedral de Basel, ca. 1280
- Berna, Catedral de Bern
- Bourges, Catedral
- Erfurt, Catedral de 1330
- Freiburg im Breisgau, Catedral
- Catedral de Laon
- Lübeck, St.-Annen-Kloster (antigo Mosteiro Stª Anna)
- Magdeburg, Catedral 1250, veja foto
- Mühlhausen, Igreja Stª Maria
- Paris, Catedral de Notre-Dame de Paris
- Reims, Catedral Notre-Dame de Reims
- Sens, Catedral Saint-Etienne de Sens
- Estrasburgo, Catedral
- Strasbourg, Saint-Pierre-le-Jeune, igreja evangélica
- Worms, Liebfrauenkirche
Imagens [editar]
Em igrejas antigas há muitos afrescos, em especial no norte da Europa. Na Escandinávia se acham também muitas pinturas a óleo, por exemplo nas igrejas medievais de Gotland Gothem e Stenkyrka. Dentro da igreja se encontram só as virgens prudentes, porque as néscias ficam fora da igreja.
-
Igreja "Unser Frauen", Memmingen
Música [editar]
A parábola das virgens é o tema do hino "Wachet auf, ruft uns die Stimme" (Acordai, os guardas chamam) de Philipp Nicolai e, com base nele, várias cantatas, entre elas a famosa Cantata 140 "Wachet auf, ruft uns die Stimme" de Johann Sebastian Bach18 .
Referências à Parábola das Dez Virgens se encontram, entre outros, na famosa canção da banda Genesis "Carpet crawlers"19 , no nome da banda "The foolish Virgins" ("As virgens néscias")20 e na canção "Drop by Drop" de Kurt Bestor, Stephen Jones, Jenny Frogley e Ron Williams contam uma aplicação pessoal da parábola.
Literatura [editar]
Uma versão moderna da parábola é "Mateus,25" de Axel Bergstedt, que conta de pessoas que esperam uma oportunidade única para elas, que muitas perdem por sendo despreparadas para uma longa espera21 .
Liturgia [editar]
Nas igrejas evangélicas luteranas tradicionais, a parábola é lida como evangelho (Perícopa) no último domingo do ano eclesiástico, então o domingo antes do Advento. Na igreja ortodoxa da Arménia a história é tema da segunda-feira da semana santa e na terça-feira tem encenações especiais.
Ver também [editar]
Referências
- ↑ John Barton, The Oxford Bible Commentary, Oxford University Press, 2001, ISBN 0198755007, p. 878.
- ↑ a b c d e R. T. France,The Gospel According to Matthew: An introduction and commentary, Eerdmans, 1985, ISBN 0802800637, pp. 349-352.
- ↑ a b
"Parables" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público. - ↑ A Parábola da Moeda Perdida segue a Parábola da Ovelha Perdida e esta segue a Parábola do Servo Fiel.
- ↑ a b c Ben Witherington,Women in the Ministry of Jesus: A study of Jesus' attitudes to women and their roles as reflected in his earthly life, Cambridge University Press, 1987, ISBN 0521347815, p. 43.
- ↑ John Nolland, The Gospel of Matthew: A commentary on the Greek text, Eerdmans, 2005, ISBN 0802823890, pp. 1006–1008.
- ↑ John R. Donahue, Hearing the Word of God: Reflections on the Sunday Readings: Year A, Liturgical Press, 2004, ISBN 0814627854, p. 134: "We never know whether they found it, but when they return, the feast has started and the door is barred."
- ↑ Craig S. Keener, The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary, Eerdmans, 2009, ISBN 0802864988, p. 597.
- ↑ J. Dwight Pentecost, The Parables of Jesus: Lessons in life from the Master Teacher, Kregel Publications, 1998, ISBN 0825434580, p. 150.
- ↑ Louis of Granada, The Sinner's Guide, 1555.
- ↑ Jan Lambrecht, Out of the Treasure: The parables in the Gospel of Matthew, Peeters, 1991, ISBN 9068311611, p. 204.
- ↑ Funk, Robert W., Roy W. Hoover, and the Jesus Seminar. The Five Gospels. Harper:San Francisco, 1993, p. 254
- ↑ Birger A. Pearson, The Gospel According to the Jesus Seminar.
- ↑ N.T. Wright, Five Gospels but No Gospel, originally published in Authenticating the Activities of Jesus, ed. Bruce Chilton and Craig A. Evans. Leiden: Brill, 1999, 83–120.
- ↑ Klyne Snodgrass, Stories with Intent: A comprehensive guide to the parables of Jesus, Eerdmans, 2008, ISBN 0802842410, p. 505.
- ↑ United Bible Societies, The Greek New Testament, 1983, p. 24.
- ↑ Tímpano do portão da catedral de Basel
- ↑ Texto da versão portuguesa da Cantata de Axel Bergstedt
- ↑ "And the wise and foolish virgins giggle" em "Carpet crawlers"
- ↑ MySpace da banda
- ↑ Mateus,25 em Axel Bergstedt:Parábolas
Ligações externas [editar]
- Catena aurea (em inglês) Textos dos Pais da igreja, editado por Tomás de Aquino
- Catena aurea espanhol