Paragone
Paragone (comparação) é um termo italiano que denominou uma polêmica a respeito de qual das artes seria a superior, que se tornou particularmente viva entre os artistas do Renascimento e Maneirismo, deixando longa descendência.
A rivalidade entre as artes era coisa antiga, e durante a Idade Média foi produzida muita literatura sobre o tema.1 Originalmente a disputa confrontava as artes visuais, consideradas simples técnicas mecânicas, e as artes intelectuais, como a poesia e a música, que se associavam ao mundo da razão e na prestigiada tradição grega eram contempladas com musas protetoras, enquanto que nenhuma das artes visuais era tutelada por uma deidade.2
Essa inferiorização das artes visuais se tornou dramática no Renascimento,1 época em que se os artistas, tendo conquistado grandes conhecimentos sobre a natureza, a perspectiva e anatomia, que emprestavam à arte do período um cunho racional e quase científico, estavam tentando se livrar do status de simples artesãos e se equiparar aos intelectuais.3 Também se baseavam na antiga associação das artes visuais com a retórica, criando um repertório formal em grande parte derivado de motivos literários e com um caráter essencialmente narrativo. Havia a respeitável referência de Horácio, cujo conceito ut pictura poesis (assim como é a pintura, também é a poesia) dava mais peso às pretensões dos artistas e os ligava, através da retórica poética, à criatividade apolínea.4
Leonardo da Vinci foi o primeiro que colocou o problema com uma grande riqueza de argumentos em seu Tratado sobre a Pintura, definindo as principais linhas constitutivas do paragone centrado na comparação entre a pintura e a escultura. De início estabeleceu a arte em geral como uma irmã da ciência, e em seguida, particularizando sua análise, declarou que não encontrava diferenças essenciais entre a pintura e a escultura, mas logo passava a dizer que o trabalho do pintor era mais limpo, complexo, completo e intelectual, enquanto que o do escultor era mais sujo, simples, limitado e braçal. Além disso, considerava a imitação da natureza sob a forma de uma ilusão pictórica mais bela e instigante do que a produzida pela escultura, que imitava servilmente os volumes que a natureza apresentava e não exigia, assim, nenhum grande esforço de elaboração mental,5 nem um profundo conhecimento da matemática e da perspectiva, associando com isso a pintura às artes liberais.6 Ele também defendeu a pintura contra a poesia e a música, afirmando que a arte só pode excitar o observador através dos sentidos, e acreditando que dentre todos a visão era o que mais facilmente dava acesso à alma.7 8 Embora seus escritos não fossem impressos, suas ideias foram divulgadas por Castiglione, que as comentou em seu O Cortesão.6
A discussão atingiu seu primeiro ponto alto em meados do século XVI, tornando-se um tema dominante na crítica de arte maneirista, quando o poeta Benedetto Varchi proferiu em 1547 duas palestras na Academia das Artes do Desenho de Florença, e depois as mandou imprimir e divulgar com grande publicidade.3 9 Na primeira palestra Varchi propôs que a ideia ou concepção era superior à realização material, explicitando o papel central que a retórica assumia nas artes visuais.3 10 Na segunda, tendo convidado artistas notáveis a darem suas opiniões - três pintores (Pontormo, Bronzino e Vasari), e três escultores (Cellini, Tribolo e Michelangelo) - atuou como o árbitro, embora sua preferência pela escultura seja nítida, influenciado pelo enorme prestígio de que desfrutava Michelangelo, tido como um gênio incomparável pelos seus contemporâneos.10
O paragone, porém, logo deixou de ser uma mera comparação amigável entre as artes para se tornar uma competição às vezes agressiva, um instrumento de luta pelo poder e uma forma de consolidação de preconceitos técnicos, estéticos ou sociais, pulverizando-se em várias questões paralelas. Alguns denegriam colegas de outras especialidades com o fito de monopolizar o mercado e ganhar prestígio pessoal, outros penetravam na política debatendo a primazia de certas escolas regionais sobre outras, uma área que foi inaugurada pelo pintor Paolo Pino em 1548, considerando a pintura veneziana superior à florentina.11 12
A dúvida sobre qual das artes podia melhor representar a natureza, por outro lado, se tornou de grande relevo para a crítica na definição das especificidades de cada arte, mas cada uma delas, ao mesmo tempo, passou a buscar uma expansão em seu potencial, imitando efeitos próprios a outras categorias. Como exemplo, desenvolveu-se na pintura a técnica do trompe l'oeil, uma ilusão bastante acentuada de tridimensionalidade, na escultura passou-se a pesquisar efeitos de luz e sombra característicos da pintura, e a poesia impregnou-se de imagens pictóricas e cenográficas, procurando dar forte visualidade às descrições verbais.11 Tornou-se também um ponto moral, já que para eles a imitação artística da natureza deveria ser fiel o bastante para ser capaz de transmitir verdadeiro conhecimento.13 Isso gerou uma outra disputa sobre qual seria a melhor fonte do conhecimento, desta vez entre a arte e a própria natureza, já que, como fruto do intelecto humano, e acreditando-se o homem criado à imagem de Deus, a arte estaria mais próxima da ideação divina do que a natureza manifesta, que possuía evidentes imperfeições, irregularidades e limitações. Além disso, o artista podia transcender a natureza e criar coisas novas, o que a natureza, na concepção estática do universo daquele tempo, não seria capaz de fazer.14 15 16
A questão do paragone, com suas várias ramificações, atravessou os séculos, produziu muita literatura e inspirou muitos artistas e correntes estéticas, sem que qualquer partido tenha conseguido garantir sua supremacia. Embora o termo original raramente seja aplicado às artes contemporâneas e permaneça mais como um tópico da história da arte, na verdade o problema continua influente e irresolvido até nos dias de hoje. Muitos artistas ainda revelam um grande interesse em transcender os limites de cada modalidade artística, enquanto outros defendem a delimitação de fronteiras que não deveriam ser ultrapassadas, sob pena de se desestabilizar os gêneros, falsificá-los e privá-los de seu foco e de sua força característica, e outros mais se preocupam em como a arte deve - e se ela deve ou não - imitar a natureza, repetindo ou variando argumentos lançados há muito tempo e incorporando à discussão as novas artes e disciplinas do conhecimento que vêm aparecendo.17 18 19
Ver também [editar]
Referências
- ↑ a b Klein, Robert & Zerner, Henri. Italian art, 1500-1600: sources and documents. Volume 1500, Northwestern University Press, 1989, p. 3
- ↑ Silver, Larry. "Step-Sister of the Muses: Painting as Liberal Art and Sister Art". In: Wendorf, Richard. Articulate Images: The Sister Arts from Hogarth to Tennyson. University of Minnesota Press, 1983, p. 36
- ↑ a b c Feigenbaum, Gail. "Foreword". In: Preimesberger, Rudolf. Paragons and Paragone: Van Eyck, Raphael, Michelangelo, Caravaggio, Bernini. Getty Publications, 2011, p. viii
- ↑ Silver, pp. 37-39
- ↑ Klein & Zerner, pp. 4-9
- ↑ a b Frank, Marie. Denman Ross and American Design Theory. University Press of New England, 2011, p. 104
- ↑ Dundas, Judith. Pencils rhetorique: Renaissance poets and the art of painting. University of Delaware Press, 1993, p. 16
- ↑ Barasch, Moshe. Theories of Art: From Winckelmann to Baudelaire. Routledge, 2000, pp. 168-169
- ↑ Silver, pp. 13-19
- ↑ a b Solon, Phillip. "Théories d'art plastique". In: Kushner, Eva. L'époque de la Renaissance: Matuations et mutations (1520-1560). John Benjamins Publishing Company, 2011, p. 286
- ↑ a b Feigenbaum, pp. viii-ix
- ↑ Solon, p. 287
- ↑ Dundas, p. 17
- ↑ Silver, pp. 13-18
- ↑ Tatarkiewicz, Wladyslaw. History of Aesthetics. Continuum International Publishing Group, 2006, p. 53
- ↑ Hauser, Arnold. História Social da Literatura e da Arte, Vol. I. Mestre Jou, 1972-82, pp. 508-9
- ↑ Feigenbaum, p. ix
- ↑ Wettlaufer, Alexandra. In the mind's eye: the visual impulse in Diderot, Baudelaire and Ruskin. Rodopi, 2003, pp. 9-22
- ↑ Orban, Clara Elizabeth. The culture of fragments: word and images in futurism and surrealism. Rodopi, 1997, pp. 11-16