Pataria

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A pataria foi um movimento social e religioso que se desenvolveu em Milão por volta do início do século XI. Visando a reforma do clero e do governo eclesiástico, na província e o suporte de sanções papais contra a simonia e casamento clerical. Os envolvidos no movimento foram chamados Patarini (também patarinos ou patarenes, do singular patarino), uma palavra escolhida por seus adversários. Os patarinos lutavam contra os desmandos do arcebispo Guido, senhor de Milão e nomeado pelo imperador, e de seus vassalos e contra um clero profundamente corrupto (em Milão, por exemplo, existia um verdadeiro tarifário das prestações eclesiásticas). O nome "pataria" se deve ao mercado milanês de tecidos, e os seguidores do movimento foram pejorativamente chamados de "patarinos" ou "esfarrapados".

O assassinato do diácono Arialdo, líder da pataria.

O líder da revolta foi o diácono Arialdo, ao lado de um padre, Anselmo de Baggio (o futuro papa Alexandre II, 1061-1073), e de um clérigo, Landolfo Cotta; questionaram a nomeação como arcebispo daquela cidade de Guido Velatte (1045), nobre milanês leal ao imperador alemão Henrique III. Guido se opôs aos princípios que mais tarde viria a ser a reforma gregoriana. Em outras palavras, ele defendia a supremacia do poder imperial sobre o espíritual do Papa. Isso criou o descontentamento social e espiritual de grande parte dos leigos milaneses materializados em uma rebelião contra o arcebispo, a quem acusaram de simonia.

Arialdo e Landolfo, excomungados pelo arcebispo por não se apresentarem diante de um concílio convocado pelo próprio Guido, recorreram ao papa, ameaçando chegar, se necessário, a um cisma da Igreja milanesa. Roma interveio a favor dos patarinos e, em 1066, excomungou o arcebispo Guido.

Erlembaldo, irmão de Landolfo.

Guido, que contava com apoio do imperador, rejeitou a excomunhão e acusou os patarinos de querer a autonomia da Igreja milanesa, sujeitando-a à romana. Eclodiram tumultos e embates entre os adeptos das duas facções. A situação degenerou numa guerra civil entre antipatarinos e patarinos, auxiliados pelos reformadores que dominaram o papado e depois como legados papais que vieram a Milão: Anselmo di Baggio (futuro Papa Alexandre II), Pedro Damião (Cardeal-Bispo de Ostia) e Hildebrando de Toscana (mais tarde Papa Gregório VII). Arialdo, obrigado a fugir de Milão, foi capturado e morto pelos matadores dos nobres feudais.

Os Patarinis inicialmente protestaram contra o abuso ao começarem a boicotar a cerimônia religiosa celebrada por padres que são casados ou vivem com concubinas, enquanto que denunciavam práticas simoniacas. Após ambas as partes apelarem ao julgamento do Papa Estêvão IX, foi decidido realizar um sínodo em Novara, onde os líderes patarinos foram excomungados (1057).

Na sequência do pontificado de Bento IX, o papado também começou a sentir a urgência da reforma e o papa Leão IX condenou tanto a prática da simonia e o concubinato entre padres. Quando Landolfo Cotta tentou apresentar a posição dos patarinos milaneses antes do Papa Estêvão IX, rufiões do arcebispo apanhados com ele em Piacenza e chegaram perto de matá-lo. Um segundo ataque em 1061 foi bem sucedido. Em 1060, o Papa Nicolau II enviou uma delegação para Milão, sob a direcção de Pedro Damiani e Anselmo da Baggio, e a calma foi restaurada para a cidade.

Erlembaldo Cotta, irmão de Landolfo, assumiu, assim, a liderança do movimento, expulsando Guido da cidade e se vingando furiosamente em seus seguidores. Guido, considerado o mandante do homicídio de Arialdo, foi obrigado a se exonerar em 1067. O conflito se reacendeu quando o imperador Henrique IV, atacou o subdiácono Godofredo, do arcebispado.

Em 1072, os patarinos elegeram um bispo alternativo, o clérigo Antão. O papa Alexandre II (de origem patarina) confirmou a nomeação, e o movimento conseguiu impedir a entrada do bispo imperial na cidade. O papa Gregório VII, que sucedeu Alexandre II em 1072, conseguiu entrar em acordo com Henrique para dar uma solução pacífica à questão. Mas um incêndio desastroso que aconteceu em Milão naquele ano, e que foi atribuído aos patarinos, fez eclodirem novos tumultos, nos quais foi morto Erlembaldo, marcando, assim, o declínio do movimento.

Um século depois, os cátaros também acabaram por receber a denominação pejorativa de "patarinos", que se tornou, para todos os efeitos, sinônimo de "hereges".

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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