Povos ameríndios

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Índio, indígena ou nativo americano são os nomes dados aos habitantes humanos da América antes da chegada dos europeus, e os seus descendentes atuais. A hipótese mais aceite para a sua origem é que os primeiros habitantes da América tenham vindo da Ásia atravessando a pé o Estreito de Bering, no final da idade do gelo, há 12 mil anos.

O termo "índio" provém do fato de que Cristóvão Colombo, quando chegou à América, estava convencido de que tinha chegado à Índia, haja vista que o gentílico espanhol para a pessoa nativa da Índia é indio (índio), e dessa maneira chamou os povos indígenas que ali encontrou. Por essa razão também, ainda hoje se refere às ilhas do Caribe como Índias Ocidentais.

Mais tarde, estes povos foram considerados uma raça distinta e também foram apelidados de peles vermelhas. O termo ameríndio é usado para designar os nativos do continente americano, em substituição às palavras "índios", "indígenas" e outras consideradas preconceituosas.

Na América do Norte, estes povos são conhecidos também pelas expressões povos aborígenes, índios americanos, primeiras nações (principalmente no Canadá), nativos do Alasca ou povos indígenas da América. No entanto, os esquimós (inuit, yupik e aleutas) e os métis (mestiços) do Canadá, que têm uma cultura e genética diferente dos restantes, nem sempre são considerados naqueles grupos.

Estes termos compreendem um grande número de distintas tribos, estados e grupos étnicos, muitos dos quais vivendo como comunidades com um estatuto político.

Origem dos primeiros americanos[editar | editar código-fonte]

Evolução do trecho de terra que ligava o nordeste asiático às Américas, a teoria mais aceita para a origem dos ancestrais dos povos ameríndios, é a de que eles seriam caçadores-coletores que atravessaram a pé este trecho que ligava o continente asiático à América e uma vez na América, foram migrando em direção ao sul. Uma das etnias ameríndias que tem mais parentesco com os povos do nordeste asiático são os esquimós

Até recentemente, a interpretação mais largamente aceite baseada nos achados arqueológicos era de que os primeiros humanos nas Américas teriam vindo numa série de migrações da Sibéria para o Alasca através de uma língua de terra chamada Beríngia, que se formou com a queda do nível dos mares durante a última idade do gelo, entre 24 e 9 mil anos atrás.

Na rota do Sul mudaram o pensamento dos arqueólogos. O fóssil de uma mulher com 11 mil anos foi encontrado pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire na década de 1970. O fóssil recebeu o nome de Luzia, apelido dado carinhosamente pelo biólogo Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da USP

Ao estudar a morfologia craniana de Luzia, Neves na década de 1990, encontrou traços que lembram os atuais aborígenes da Austrália e os negros da África. Ao lado do seu colega argentino Héctor Pucciarelli, do Museo de Ciencias Naturales de la Universidad de La Plata, Neves formulou a teoria de que o povoamento das Américas teria sido feito por duas correntes migratórias de caçadores e coletores, ambas vindas da Ásia, provavelmente pelo estreito de Bering, mas cada uma delas composta por grupos biológicos distintos. A primeira teria ocorrido 14 mil anos atrás e seus membros teriam aparência semelhante à de Luzia. O segundo grupo teria sido o dos povos mongolóides. A chegada dos mongolóides na América é estimada em 11 mil anos, dos quais descendem atualmente todas as tribos indígenas das Américas.

Existem outras teorias sobre a origem dos nativos americanos:

  • Vários antropólogos, historiadores e arqueólogos têm sugerido que os nativos americanos são descendentes, quer de europeus, quer africanos que atravessaram o Oceano Atlântico. Alguns apontam a semelhança física entre os Olmecas e os africanos. Thor Heyerdahl demonstrou que é possível navegar da África para a América numa réplica dum barco de papiro do antigo Egito.
  • A maioria das religiões dos nativos americanos ensinam que os humanos foram criados na América no princípio dos tempos e sempre ali viveram.
  • A doutrina Mórmon diz os ameríndios são descendentes de Lehi e dos nefitas, personagens do Livro de Mórmon que teriam sido Israelitas que chegaram à Américas cerca de 590 AC.
  • No século XIX e princípios do século XX, houve proponentes da existência continentes perdidos, entre os quais Atlântida, e Lemúria, de onde poderiam ter vindo os primeiros habitantes humanos das Américas.

O mais provável, no entanto, é que as Américas tenham sido colonizadas por vagas de povos de diferentes origens, ao longo dos tempos, dando origem ao complexo mosaico de povos e línguas que hoje existem. E é possível, igualmente, que esses povos – tal como aconteceu em tempos históricos, bem documentados – tenham substituído ou tenham se juntado com populações originais que lá já existiam.

Os primeiros colonizadores das Américas (ameríndios) não tinham tecnologia de confecção de artefatos líticos muito evoluídos, pois há indícios que seus instrumentos de caça eram pedras e cachorros domesticados para este fim. Os caçadores e coletores, tiveram um rápido avanço em direção ao sul, e tinham instrumentos de caça mais evoluídos, como por exemplo projéteis pontiagudos.[1]

Genética[editar | editar código-fonte]

De acordo com um estudo genético autossômico de 2012[2] ,os ameríndios descendem de pelo menos três correntes provenientes do leste asiático. A grande maior parte dos ameríndios descende de uma população única ancestral, chamada 'primeiros americanos'. Contudo, os que falam as línguas esquimó do Ártico herdaram quase metade da sua ancestralidade de uma segunda corrente vinda do leste asiático, e os que falam as línguas na-dene, no Canadá, por sua vez, herdaram a décima parte da sua ancestralidade de uma terceira corrente. O povoamento inicial seguiu uma expansão para o sul, pela costa, com pouco fluxo gênico posterior, especialmente na América do Sul. Uma exceção a isso são os que falam a língua chibcha, que têm ancestralidade tanto do norte como do sul da América.[2]

Um outro estudo realizado, focado no dna mitocondrial (aquele que é herdado pela linhagem materna)[3] , revelou que os nativos do continente americano têm sua ancestralidade materna traçada a um pequeno número de linhagens do leste asiático, que teria chegado pelo estreito de Bering. De acordo com o estudo, é provável que os antepassados dos ameríndios tenham ficado por um tempo na região do estreito de Bering, após o que teria havido um rápido movimento de povamento das américas, o qual teria levado todas as linhagens fundadoras até a América do Sul.

Análises linguísticas corroboram os estudos genéticos, tendo sido encontradas antigas relações e padrões de similaridade entre as línguas faladas na Sibéria e aquelas faladas no continente americano.[3]

A agricultura na América Pré-Colombiana[editar | editar código-fonte]

O desenvolvimento da agricultura das sociedades Pré-Colombianas pode se comparar ao europeu, pois esta era desenvolvida há mais de 7000 anos, baseada nas culturas de milho, abóbora e feijão, todos naturais da América, além da mandioca, que era plantada nas áreas de floresta tropical. O desenvolvimento de outras culturas além destas foi limitado, pois havia poucos animais domesticáveis, como a lhama para puxar o arado. Isto fez com que o desenvolvimento de outras diversas culturas.[1]


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Apesar de os vikings, ou nórdicos, terem explorado e estabelecido bases nas costas da América do Norte a partir do século X e terem aí deixado marcas, como a runa de Kensington, estes exploradores aparentemente não colonizaram a América, limitando-se a tentar controlar o comércio de peles de animais e outras mercadorias da região.

Por outro lado, a colonização europeia das Américas mudou radicalmente as vidas e culturas dos nativos americanos. Entre os séculos XV e XIX, estes povos viram as suas populações devastadas pelas privações da perda das suas terras e animais, por doenças e, em muitos casos por guerra. O primeiro grupo de nativos americanos encontrado por Cristóvão Colombo, estimado em 250 mil aruaques do Haiti, foram violentamente escravizados e apenas 500 tinham sobrevivido no ano 1550; o grupo foi extinto antes de 1650.

No século XV, os espanhóis e outros europeus trouxeram cavalos para as Américas e alguns destes animais escaparam e começaram a reproduzir-se livremente. Ironicamente, o cavalo tinha originalmente evoluído nas Américas, mas extinguiu-se na última idade do gelo. A reintrodução do cavalo teve um profundo impacto nos nativos americanos das Grandes Planícies da América do Norte, permitindo-lhes expandir os seus territórios, trocar produtos com tribos vizinhas e caçar com mais eficiência.

Os europeus também trouxeram com eles doenças contra as quais os nativos americanos não tinham imunidade, tais como a varicela e a varíola que, muitas vezes são fatais para estas pessoas. É difícil estimar a percentagem de nativos americanos mortos por estas doenças, mas alguns historiadores estimam que cerca de 80% da população de algumas tribos foi extinta pelas doenças europeias.

A dívida histórica dos colonizadores para com os povos nativos é imensa. Cresce a discussão sobre formas de compensação pelos danos causados e outros assuntos indígenas, a nível internacional, como atesta o grande número de organizações que se dedica ao tema, por exemplo:

Etnias e culturas indígenas no Brasil[editar | editar código-fonte]

Brasília - Caciques Kaiapos durante entrevista coletiva. E/d. Raony - MT, Kaye - PA, Kadjor - PA, Panara - PA. Foto: Valter Campanato/ABr. 17 de Abril de 2005.

Pesquisas arqueológicas em São Raimundo Nonato, no interior do Piauí, registram indícios da presença humana datados de há 48 mil anos.

Em Lapa Vermelha (Minas Gerais) foi encontrado um verdadeiro cemitério com ossos datados em 12 mil anos, o primeiro dos quais encontrado por Annette Laming-Emperaire na década de 1970 e que foi "batizado" de Luzia e que parecia mais aparentada com os aborígenes da Austrália ou com negritos das Ilhas Andaman.

No Brasil colonial os portugueses tiveram como aliados os índios aldeados, os quais se tornaram súditos da Coroa.

O primeiro inventário dos nativos brasileiros só é feito em 1884, pelo viajante alemão Karl von den Steinen, que registra a presença de quatro grupos ou nações indígenas, de acordo com as suas línguas: tupi-guarani, ou tapuia, aruaque ou maipuré e caraíba ou caribes. Von den Steinen também assinala quatro grupos linguísticos: tupi-guarani, macro-jê, caribe e aruaque. Atualmente estima-se que sejam faladas 170 línguas indígenas no Brasil.

Principais nações e tribos[editar | editar código-fonte]

Ver verbete completo: Classificação dos nativos americanos

Alguns grupos étnicos do Brasil[editar | editar código-fonte]

Ver lista completa de Povos indígenas brasileiros

Tabus e crenças alimentares dos povos ameríndios[editar | editar código-fonte]

Embora os ameríndios tivessem a disposição uma grande variedade de fontes de alimentos animais, vegetais e até minerais, alguns eram vedados em determinas circunstâncias. A proibição podia ser imputada ao sexo masculino ou feminino ou à idade da pessoa devido a: a algum rito de passagem; aos parentes com o nascimento ou falecimento de algum membro da família; em casos de doenças; nos períodos de parto, menstruação e gravidez; quando o animal é venenoso ou por ter um gosto ruim; por ser animal de estimação; pelo fato do animal ser fêmea grávida; a rituais de caça, pesca ou guerra e em várias outras situações[4] .

Nas suas atividades de caça, pesca, coleta e preparo de alimentos os indígenas das Américas obedeciam as regras ditadas pelas crenças e por tabus. Algumas dessas proibições tinham motivo lógico para existirem como, por exemplo, por se tratar de alimentos venenosos ou que causavam problemas no organismo. Contudo, muitos se enquadravam na classe de tabus mágicos ou crenças. É importante ressaltar que vários povos ao longo da história impunham e ainda impõe restrições e permissões alimentares, valendo lembrar que há vários exemplos na Bíblia como a proibição de vários alimentos que Moisés prescreveu ao seu povo[4] . Alguns alimentos são entendidos como representativos de coisas e entidades como, por exemplo, o pão e o vinho que na liturgia da Igreja Católica são vistos respectivamente como a carne e o sangue de Jesus Cristo[5] .

Índios do Brasil e Colômbia da região do rio Uaupés diziam que antes eram vegetarianos e nunca adoeciam. Os problemas de saúde apareceram quando começaram a comer caça e peixe. Quando algum índio contraía determinada doença, o Pagé privava-o da ingestão de carne de alguns animais[6] .

Puberdade e menstruação[editar | editar código-fonte]

Ritual de passagem

Quando o índio ou índia entrava na puberdade havia um ritual chamado Kariamã entre os povos do baixo Rio Içana da Colômbia e Brasil. Nele a pessoa ficava cerca de quinze dias em reclusão, findo os quais era trazida para a casa do pai e colocada ao lado de um recipiente com beijus, outro com quinhampira, outro com dois tipos de peixe cozido, uma cabeça de peixe cru e uma minhoca. Alguém da família fazia um longo discurso permeado de conselhos, no fim do qual fazia o(a) iniciado(a) tocar com os dedos e depois com os lábios a cabeça de peixe e depois a minhoca. A pessoa podia então provar os alimentos dos recipientes, que lhe eram dados por quem fez o discurso. Outra pessoa adulta fazia novo discurso e nova prova dos alimentos. Por fim o pai servia um pouco do alimento à pessoa e depois a açoitava. Quando a iniciada era moça, podia, a partir deste dia, preparar e se alimentar de peixe e caça (embiara) sem sofrer nenhum mal. Os Kamaiurá do Mato Grosso ofereciam aos jovens na puberdade, que ficavam reclusos por dois ou três meses, apenas água, cauim (sem fermentar) e peixes não ofensivos [7] .

Entre os Tuyuca mulheres menstruadas e homens que participavam de rituais deviam restringir seus hábitos alimentares[8] .

Quando as meninas entravam na puberdade entre os Maué da Amazônia seguiam um ritual que durava dez meses, durante os quais só comiam inhambu, tucano, urubu e formigas.Às moças menstruadas eram servidas urupês (cogumelo orelha-de-pau) pelos pais. As parturientes com os respectivos maridos passavam o primeiro mês após o parto alimentando-se apenas de mingau e çapó. Passado este período, comiam inhambu. Para que o parto não fosse doloroso, os quadris da mulher eram banhados com casca de ovos de aves e cinzas de caveira de paca[9] .

No processamento do azeite de andiroba não podia participar mulher menstruada senão ele não ficaria bom [5] .

Nativa menstruada em reclusão na rede

Entre os Ipurucotó de Roraima, quando a moça ficava menstruava pela primeira vez era colocada em uma rede suspensa bem alto e lá ficava até o término do período. Então a rede era abaixada e a moça descansava três dias, findos os quais era agarrada e recebia três chibatadas do pai para em seguida ter colado nos seus seios um pary (esteira) saturado das ferozes formigas apará que, com seus temíveis ferrões, provocam muita dor e sangramento. Repetiam a operação no abdômen, depois nas costas e depois a deixavam em dieta restrita, acreditando que todo o ritual proporcionava à mulher coragem e forças para enfrentar os trabalhos mais penosos[10] .

Índias Cahuilla, da Califórnia, evitavam a ingestão de sal, gordura e carne durante o período menstrual[11] . As moças de algumas tribos amazônicas, pouco antes da primeira menstruação, deviam tomar sopa de aipim para aquecer a vagina, comer carne de tartaruga branca e os peixes mandi e aracu e beber chibé[4] .

A moça menstruada dos Uitoto, do médio Rio Solimões no Amazonas, só podia comer beiju e o peixe mandubi. Não podia falar com adultos da tribo senão os dentes destes apodreceriam. A ela era proibido tocar em objetos ou comidas de outras pessoas[12] . Mulheres Yanomámi do Amazonas não comiam carne de paca e veado e quando estavam menstruadas eram-lhes vedadas carnes de macaco, anta, porco e outros animais para que não sentissem dores nas costas.[13] .

Moças menstruadas dos Uanana do Amazonas podiam se alimentar da formiga maniuara e do beiju. O peixe jeju ou carne de tatu eram os alimentos indicados após o rito de flagelação. Acreditavam que a carne do tatu era composta pelas carnes de todos os outros animais. Rapazes, durante o rito de iniciação, só podiam comer ovos de marimbondo assados e beijus, além de não poderem ver mulher nesta fase que antecedia o açoite, pancadas e jejum no rito de iniciação. Aqueles índios acreditavam também que seus alimentos eram soprados pelo Jurupari, espírito do mal, para dar valentia aos homens e bondade às mulheres. Aos meninos eram dados os corações do jabuti para que se tornassem valentes. Durante a primeira menstruação, índias do grupo Tupi (várias tribos litorâneas do Rio Grande do Sul até a Bahia) deviam jejuar por três dias e depois só podiam comer farinha e raízes cozidas [4] .

Outros índios primeiro submetiam a adolescente na sua primeira menstruação a uma série de cerimônias e depois prendiam a moça em uma gaiola, que era erguida até próximo ao teto e as moças tinham de jejuar por alguns dias. Neste período, dependendo do costume da tribo, podiam ingerir um pouco de mingau feito de farinha e água. Durante as menstruações posteriores abstinham-se de qualquer alimento[14] .

Mulheres menstruadas dos Pomo, da Califórnia, e seus maridos não podiam tocar plantas a serem coletadas e nem mesmo adentrar nas áreas onde estas plantas estivessem[11] . Moça dos Maués do Amazonas só podia comer urupês, tucano e inhambu durante sua primeira menstruação. Após o parto, só podiam ingerir depois da menstruação seguinte a bebida çapó e mingau e depois de quinze dias inhambu[15] .

Diversas etnias indígenas da Amazônia acreditavam que o líquido catamenial, expelido durante a menstruação, outras secreções femininas e mesmo a urina eram excelente remédios contra picada ou ferroada de animais peçonhentos. Quando a índia queria enfeitiçar algum índio fazendo com que ele ficasse perdidamente apaixonado, ela adicionava na bebida dele algumas destas secreções[9] . Quando uma índia virgem das tribos andinas era violentada, ela fazia um retiro e se alimentava apenas de comida e argila benzidas pelo feiticeiro. Acreditava que assim seu espírito seria curado e sua virgindade restaurada[16] .

Casamento, gravidez e parto[editar | editar código-fonte]

Casamento dos nativos

Às mulheres casadas dos Guaicurus do Mato Grosso e Paraguai eram proibidas as carne de anta e capivara[4] . Nativos da região acreditavam que índias amazônicas recém-casadas do rio Uaupés, que traiam o marido, à noite transformavam-se em antas e saiam para pastar, mas deixavam suas pernas na rede e voltavam de madrugada. Se o marido colocasse as pernas da mulher no lado oposto da rede, no outro dia a adúltera iria sentir fortes dores nos quadris[6] .

Índias dos Guayquirie da Venezuela eram submetidas por quarenta dias antes do casamento a uma ração diária de três frutos de palmeira, cerca de noventa gramas de um tipo de beiju de mandioca e um pequeno pote de água. No dia do casamento uma vasilha de comida era colocada na mata para que o espírito do mal não atrapalhasse a festa[17] .

Mulheres grávidas dos Tukano do Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia e Equador não deviam comer peixes pescados em cacuris, armadilhas em forma de currais circulares[4] . Já as mulheres grávidas dos índios amazônicos do rio Uaupés não deveriam comer peixes pescados com o espinhel, caso contrário nenhum peixe seria depois fisgado. Da mesma forma, o primeiro peixe pescado no espinhel não poderia ser comido por nenhum índio[6] . Mulheres grávidas e animais prenhes não podiam entrar na água que ia receber o timbó[18] .

Durante a gravidez das esposas dos Tupinambá da Bahia seus homens evitavam caçar ou pescar animais fêmeas, porque acreditavam que seus filhos morreriam[4] . Entre os Maués do Amazonas mulheres grávidas não podiam tocar nas armas e nem nas caças[9] . Na fabricação da canoa pelos índios amazônicos não podia participar quem tivesse mulher grávida, já que acreditavam que o trabalho desandaria[19] .

Entre vários grupos indígenas o homem ficava sujeito a restrições alimentares quando a mulher dava a luz[20] . No parto dos Bororó do Mato Grosso os pais deviam jejuar por uma semana[15] ou cinco dias e não tomar água fresca. Esta devia ser morna e durante os cinco dias só podiam mastigar folhas de certas plantas e engolir o sumo resultante[4] .

Nativa amamentando

Os Saliva da Venezuela tinham o bizarro costume de acreditar que dar a luz a gêmeos consistia em desonra e os pais eram alvos de chacotas. Quando, ao parir, a índia desconfiava que iria parir gêmeos matava e enterrava o primeiro a nascer[17] . Entre os Chun da Guatemala havia a crença de que a ingestão de pupas de vespas do gênero Polistes spp. faria com que seus filhos nascessem com os olhos grandes, uma vez que as pupas têm olhos pigmentados de preto. Mulheres grávidas dos Maia do México comiam larvas de um tipo de vespa bravia e agressiva para que seus filhos também o fossem[21] .

Entre os Surui de Rondônia os futuros pais faziam festa servindo bebida feita de mandioca, açaí e mel aos convidados, mas os anfitriões não podiam bebê-la[22]

No século XVI era costume em várias tribos o índio não manter relações sexuais com sua mulher enquanto ela estivesse grávida. Se na ausência do marido ela fizesse sexo com outro índio e isto fosse descoberto, a criança era enterrada viva ao nascer e a mulher morta. Quando os dois fossem mantidos vivos, a mulher só servia para satisfazer sexualmente jovens e outros índios sem nenhuma mulher e o filho bastardo era impedido de participar da rotina da aldeia e da guerra e todo alimento que ele tocasse era evitado por todos[14] .

Os Uru-eu-wau-ewau de Rondônia incorporavam vários tabus alimentares como: o recém nascido gemeria e perderia o cabelo se seus pais comessem alimentos quentes; a pessoa ficaria tonta e morreria devagar se comesse animais considerados como gente, tipo veado roxo e jacu; se a pessoa tinha dois filhos pequenos e comesse jacamim eles não parariam de chorar; os peixes curimbatá e pirarucu davam coceira no corpo; paca dava mancha preta no corpo[20] . Após o parto a placenta era enterrada dentro da maloca, já que os Tenetehára do Maranhão acreditavam que se ela fosse comida por algum animal o recém-nascido morreria[23] . Já os Macuchy, ou Macuxi, de Roraima amarravam o cordão umbilical do recém-nascido no pulso do bebê, onde ficava por trinta dias, para evitar que ele pegasse tétano[10] .

Para tornar o filho inteligente, as mães dos Surui de Rondônia davam-lhes chá de peri-pirioca (Cyperus piperioca)[6] . Os Xamacoco do Mato Grosso do Sul acreditavam que se um jovem comesse anta envelheceria depressa; se um adulto comesse veado ou ema ficaria covarde; se comesse ovos de ema perderia a esposa; se comesse tartaruga ficaria vulnerável na guerra e o contrário ocorreria se comesse jacaré [4] .

Tanto o marido como a mulher grávida entre os indios do rio Uaupés, da Amazônia, não comiam umas frutinhas pretas da planta por eles chamadas de kã’rá puri para evitar que o filho nascesse com o pescoço comprido. As folhas desta planta eram usadas para enxugar as mãos e os futuros pais tinham o cuidado de aparar o ápice da folha antes de usá-la, evitando assim que o filho nascesse com pelos no rosto. Para que o filho não nascesse chorão, a gestante não fazia barulho enquanto trabalhava[5] .

Mulheres gestantes dos Yanomámi do Amazonas não comiam cutia para a criança não nascer com o rosto deformado; jacaré para que não se parecesse como este animal; macaco causaria dores no útero; jabuti era proibido para o marido, do contrário a criança nasceria com deformação nos pés e mãos; cogumelo também vedado ao marido, para que a criança não nascesse com orelhas grandes[13] .

O índio Tenetehara do Maranhão não abatia nem ingeria, durante a gravidez de sua mulher, animais com espírito porque este se incorporaria nos seus filhos e traria conseqüências danosas, de acordo com o animal. O filho nasceria louco se fosse carne de arara-preta, jacamim, gavião ou de onça-pintada; perturbado e com cara de onça se fosse de onça-preta; louco e com rabo se fosse de onça-parda; louco e com movimentos lentos se fosse de bicho-preguiça; com nariz quase inexistente se fosse de tamanduá-bandeira; narigudo se fosse de tucano; de cabelo branco se fosse de jacu; com os dedos feios se fosse de japu, com o nariz vermelho se fosse de mutum-fava; com a cabeça chata se fosse de jibóia; com as mãos fracas se fosse de maracajá; com bico se fosse de arara-vermelha; com as mãos para trás e palmas invertidas se fosse de ariranha[4] [24] .

Logo após o nascimento, os pais entre os Sirionó da Bolívia não comiam carne de onça ou quati para que a criança não ficasse coberta de feridas. Se comessem carne de paca, acreditavam que haveria queda dos cabelos do recém-nascido. Estes índios temiam o nascimento de gêmeos e para evitá-lo não comiam grãos duplos de milho e pelo mesmo motivo as mulheres dos Urubu-Kaapor, do Maranhão, desde criança evitavam comer frutas duplas[24]

Quando nascia um menino no século XVI, em algumas tribos eram feitas oferendas de garras de onça e de aves de rapina para que ele crescesse virtuoso e com grande coragem. O pai ficava três dias alimentando-se apenas de farinha de mandioca e água pura e colocava o filho dentro de armadilhas de caça, atirava pequenas flechas e lançava sobre ele redes de pesca, para que o menino crescesse tendo o dom de caçar, pescar e guerrear[14] . Enquanto não secasse o umbigo do bebê Juruna, do Mato Grosso e Pará, o pai não podia atirar flechas, caso contrário haveria sangramento no umbigo[23] .

Entre os Tupinambá que habitavam o litoral brasileiro de São Paulo à Bahia, o pai dava ao filho recém-nascido garras de onça para que ele fosse um bom caçador. Com o mesmo objetivo os Kaapor (Urubu) do Maranhão davam aos filhos colares feitos de ossos de mutum e, para que também fossem fortes, acrescentavam ossosde jibóia[22] .







Referências

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  21. COSTA NETO, Eraldo Medeiros (2011). Antropoentomofagia: sobre o consumo de insetos. P. 17-37. In: COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: Insetos na alimentação humana. Feira de Santana. UEFS Editora. 2011, 255 p.
  22. a b REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. Maternidade e infância no mundo tribal. p. 46-50 In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1977, ano I, nº 4, 6p.
  23. a b REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. Cultura. p. 32-33. In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1977, ano I, nº 4, 64p.
  24. a b REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. O pão da selva. p. 14-20. In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1976, ano I, nº 1, 64p.

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