Pequena África

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Pano da costa, trajes africanos século XIX.

Pequena África[1] nome dado por Heitor dos Prazeres a uma região do Rio de Janeiro compreendida pela zona portuária do Rio de Janeiro, Gamboa, Saúde onde se encontra a Comunidade Remanescentes de Quilombos da Pedra do Sal, Santo Cristo, e outros locais habitados por escravos alforriados e que de 1850 até 1920 foram conhecidos por Pequena África.

trajes africanos século XIX.

Descrita por João do Rio em 1904, no livro As Religiões no Rio,[2] com pinceladas estranhas e bizarras, o lado negro e pobre do Rio com distorções de palavras ditas por um africano chamado Antônio que estudou em Lagos que lhe serviu de (intérprete) na Pequena África: "Da grande quantidade de escravos vindos para o Rio no tempo do Brasil colônia e do Brasil monarquia, restam uns mil negros (só no cais). São todos das pequenas nações do interior da África, pertencem ao igesá, oié, ebá, aboum, haussá, itaqua, ou se consideram filhos dos ibouam, ixáu dos gêge e dos cambindas. Alguns ricos mandam a descendência brasileira à África para estudar a religião, outros deixam como dote aos filhos cruzados daqui os mistérios e as feitiçarias. Todos porém, falam entre si um idioma comum - o eubá (yoruba). E conclui: Antônio, que estudou em Lagos, dizia: O eubá para os africanos é o inglês para os povos civilizados. Quem fala o eubá pode atravessar a África e viver entre os pretos do Rio. Só os cambindas ignoram o eubá, mas esses ignoram até a própria língua, que é muito difícil, quando os cambindas falam, misturam todas as línguas. Agora os Orixás e os Alufás só falam o eubá."

Nesse trecho, a palavra Orixás é usada para designar as pessoas do candomblé, os nagôs, bantos e jejes na maioria analfabetos e a palavra Alufás refere-se aos negros muçulmanos que eram cultos que liam e escreviam em árabe.
trajes africanos século XIX.

"As iauô abundam nesta "Babel da crença", cruzam-se com a gente diariamente, sorriem aos soldados ébrios nos prostíbulos baratos, mercadejam doces nas praças, às portas dos estabelecimentos comerciais, fornecem ao Hospício a sua quota de loucura, propagam a histeria entre as senhoras honestas e as cocottes, exploram e são exploradas, vivem da crendice e alimentam o caftismo inconsciente. As iauô, são as demoníacas e as grandes farsistas da raça preta, as obsedadas e as delirantes. A história de cada uma delas, quando não é uma sinistra pantomima de álcool e mancebia, é um tecido de fatos cruéis, anormais, inéditos, feitos de invisível, de sangue e de morte. Nas iauô está a base do culto africano. Todas elas usam sinais exteriores do santo, as vestimentas simbólicas, os rosários e os colares de contas com as cores preferidas da divindade a que pertencem; todas elas estão ligadas ao rito selvagem por mistérios que as obrigam a gastar a vida em festejos, a sentir o santo e a respeitar o pai-de-santo."

Africana vendendo caju.
Neste outro trecho, fala das iaôs do candomblé como se todas fossem prostitutas, coisa que não é verdade, presume-se pelos relatos que o africano Antônio deve tê-lo levado só nos antros, zonas de meretrício e pais de santo marmoteiro de macumba, pois em outro trecho descreve a feitura de uma iaô, coisa que um terreiro sério jamais permitiria a um estranho, mesmo que acompanhado de pessoa da casa. Talvez chame de iauôs tanto as quituteiras[3] pelo fato de se vestirem para o trabalho como se vestem as filhas de santo de um terreiro, como outras africanas vindas da Bahia por usarem o mesmo traje na época.

Descrição de Antônio feita por João do Rio:

"Antônio é como aqueles adolescentes africanos de que fala o escritor inglês. Os adolescentes sabiam dos deuses católicos e dos seus próprios deuses, mas só veneravam o uísque e o schilling. Antônio conhece muito bem N. S.ª das Dores, está familiarizado com os orixálas da África, mas só respeita o papel-moeda e o vinho do Porto. Graças a esses dois poderosos agentes, gozei da intimidade de Antônio, negro inteligente e vivaz; graças a Antônio, conheci as casas das ruas de São Diogo, Barão de S. Felix, Hospício, Núncio e da América, onde se realizam os candomblés e vivem os pais-de-santo."

Num gueto africano só lhe foi mostrado o que queriam que ele visse, o candomblé sério foi resguardado dos olhos curiosos. Se por um lado foi bom, por outro nem tanto, um livro foi escrito contendo absurdos sobre os orixás que foram tomados como verdade absoluta principalmente sobre Exú ser o próprio diabo.

Essa não é a Pequena África adorada e frequentada por grandes figuras negras do mundo musical carioca, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, que se reuniam na casa da iyalorixá Tia Ciata para as rodas de batuque africano.

Tia Ciata[4] trabalhava como doceira na rua Rua da Carioca, sempre vestida de baiana, mulher negra no Brasil do final do século XIX e início do século XX, foi líder cultural e mãe de 16 filhos.

Prandi, 1991 "O candomblé nessa cidade é um culto organizado. Continuemos a ler mais um pouco de João do Rio. Ele conta sobre os “babalaôs, mathematicos geniaes, sabedores dos segredos santos e do futuro da gente”, que jogam o “opelé”, e fala dos “babás, que atiram o endilogum; são babaloxás, pais de santos veneráveis. Nos lanhos da cara puzeram o pó da salvação e na boca têm sempre o obi, noz de kola.[...] Ha os babalaôs, os açoba, os aboré, gráo maximo, as mães pequenas, os ogan, as agibonam…” e as iauô, evidentemente, a quem João do Rio dedica muitas páginas de deliciosa precisão e explicitíssimo preconceito."

Referências

  1. Pequena África renasce no cais do porto do Rio
  2. As religiões do Rio. Domínio Público pdf Paris: Garnier, 1904
  3. Gerlaine Torres Martini, "Baianas do Acarajé - A uniformização do típico em uma tradição culinária afro-brasileira" (íntegra, consultado em 15 de janeiro de 2008).
  4. MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1983.ISBN 85-85632-05-4

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