Perícopa da Adúltera

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Pericope Adulterae.
Por Rembrandt (1644), na National Gallery de Londres.

A Perícope da Adúltera (em latim: Pericope Adulterae) é um episódio bíblico que encontra-se no Evangelho de João (João 7:53 até João 8:1-11).

Trata-se de uma perícope muito conhecida e polêmica a respeito de uma mulher que seria julgada por ter sido surpreendida em ato de adultério. Embora não seja dissonante do restante do texto, a maioria dos acadêmicos [1] [2] concorda que a passagem não faz parte do texto original do evangelho de João.[3]

Alguns exegetas identificam a mulher adúltera como Maria Madalena, porém não há nenhuma base histórica ou evangélica para confirmar esta identificação.

A passagem[editar | editar código-fonte]

Segundo a Tradução Brasileira da Bíblia, o texto da Perícopa é:

Cada um foi para sua casa; mas Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada voltou ao templo, e todo o povo ia ter com ele; e Jesus, sentando-se, o ensinava. Os escribas e os fariseus trouxeram uma mulher apanhada em adultério, puseram-na no meio de todos e disseram a Jesus: 'Mestre, esta mulher tem sido apanhada em flagrante adultério. Moisés nos ordenou na Lei que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?' Isto diziam, experimentando-o, para ter de que o acusar. Jesus, porém, abaixando-se, começou a escrever no chão com o dedo. Como eles insistissem na pergunta, levantou-se e disse-lhes: 'Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra'. Tornando a abaixar-se, continuou a escrever no chão. Mas ouvindo esta resposta, foram saindo um a um, começando pelos mais velhos, ficando só Jesus e a mulher no lugar em que estava. Então levantando-se Jesus, perguntou-lhe: 'Mulher, onde estão eles? ninguém te condenou?' Respondeu ela: 'Ninguém, Senhor.' Disse Jesus: 'Nem eu tampouco te condeno; vai, e não peques mais'.

Os mestres da Lei (escribas) e os fariseus levaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Pela lei hebraica, extraída do Torá, ela deveria ser apedrejada até a morte.

De fato, o Torá previa que o ato de adultério fosse punido com a morte por apedrejamento (Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22 e seguintes), mas na prática isso já não era mais costume naqueles tempos. Além disso, a pena capital só podia ser aplicada pelos governantes romanos. Nenhum judeu tinha autoridade para condenar alguém a morte, muito menos executar a pena.

Pericope Adulterae.
Por Nicolas Poussin (1653), no Louvre, em Paris.

Os escribas e os fariseus queriam colocar Jesus em uma armadilha. Se Jesus fosse pela condenação, seria acusado de cruel, além de fora-da-lei; se fosse pela absolvição estaria contrariando as sagradas escrituras. De uma ou de outra forma os mestres da Lei e os fariseus teriam motivos para acusá-lo.

Jesus com a resposta "Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra'" fez com que os acusadores ficassem sem argumentos para uma acusação formal e sem moral perante a multidão que assistia a cena.

A autenticidade do texto[editar | editar código-fonte]

Esta perícope não é unanimidade entre todos os especialista quanto a pertencer a João. Alguns afirmam ter sido incluído posteriormente, ato conhecido por interpolação, não fazendo parte dos escritos originais de João. Entretanto, alguns afirmam ser de autoria de João, e apresentam alguns argumentos e documentos para comprovar este fato.

A perícope não consta dos manuscritos mais antigos de João: os códices P66 e o P75 do século III. Também não está presente no Codex Sinaiticus e e no Codex Vaticanus, do século IV.

O primeiro manuscrito em que a perícope aparece é o Codex Bezae do século V. Bruce Metzger argumentou que "Nenhum padre grego antes de Eutímio Zigabeno (século XII) comentou sobre a Perícopa da Adúltera e Eutímio declarou que as cópias mais acuradas dos Evangelhos não a continham".[4] . Mas esta afirmação é algo incorreta, uma vez que Dídimo, o Cego, a discute (ainda que não na versão de João) e Jerônimo, entre outros, faz menção a ela.

São Jerónimo em seu trabalho de tradução da Bíblia para o latim a incluiu por tê-la encontrado na maioria dos manuscritos de que dispunha para o exercício da tradução. Por esse motivo, a Vulgata passou a incluir a passagem. Em função disso, a Pericope Adulterae tornou-se universal.

Atualmente, esta passagem do evangelho de João é aceito por todas as igrejas cristãs como inspirada, e portanto, parte do evangelho de João. Entretanto, algumas bíblias frisam que este texto é uma interpolação, e o apresentam entre colchetes.

Referências

  1. NETBible: John 7 Bible.org. Visitado em 2009-10-17. See note 139 on that page.
  2. Keith, Chris. (2008). "Recent and Previous Research on the Pericope Adulterae (John 7.53—8.11)". Currents in Biblical Research 6 (3): 377–404. DOI:10.1177/1476993X07084793.
  3. 'Pericope adulterae', in FL Cross (ed.), The Oxford Dictionary of the Christian Church, (New York: Oxford University Press, 2005).
  4. Metzger, Bruce. In: Daniel B. Wallace. A Textual Commentary on the Greek New Testament (em <código de língua não-reconhecido>). Stuttgart: [s.n.], 1971. 219-221 pp. Visitado em 04/09/2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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