Período azul de Picasso

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O Enterro do Conde de Orgaz (1586–1588, Igreja de Santo Tomé, Toledo), obra mais conhecida de El Greco. A divisão do espaço em duas zonas inspirou a Picasso no seu quadro Evocação - O funeral de Casagemas.

O período azul de Picasso decorreu entre 1901 e 1904. O nome provém da cor que dominava a gama cromática das pinturas, e teve a sua origem no suicídio do seu amigo Carlos Casagemas em 17 de fevereiro de 1901, que deixou a Picasso cheio de dor e de tristeza.

A morte de Casagemas[editar | editar código-fonte]

Van Gogh num auto-retrato dedicado a Gauguin.

Casagemas, após tentar assassinar a sua amante Germaine, uma dançarina do Moulin Rouge que frequentava o círculo de artistas espanhóis em que se movimentavam, suicidou-se em Paris. Picasso, motivado e sensibilizado pela morte do seu amigo, pintou um quadro que nomeou A morte de Casagemas,[1] quadro alegórico que começava a mostrar o seu passo ao período azul. A divisão do espaço do quadro em duas partes, terra e céu, corpo e espírito, lembra a do Enterro do conde de Orgaz, de El Greco.[2]

Outras influências na obra de Picasso neste período foram as de Van Gogh e Gauguin, o primeiro, sobretudo, a um nível psicológico, como se reflete na intensidade emotiva dos quadros desta época, embora também se aprecie uma simplificação de volumes e contornos definidos que sugerem em Gauguin, do que também tomaria uma concepção universal da sentimentalidade.[3] Picasso manifestava a solidão das personagens isolando-as num ambiente impreciso, com um uso quase exclusivo do azul por mais de dois anos, fato praticamente sem precedentes na história da arte. Assim mesmo, o alargamento das figuras que se ia introduzindo nas suas obras lembrava novamente o estilo de El Greco.

Entre Barcelona e Paris[editar | editar código-fonte]

Picasso era um trabalhador infatigável e no final de abril de 1901 regressou a Barcelona, onde expunha Mulher a azul[4] na Exposição Geral de Belas Artes. Em maio voltou novamente para Paris, estabelecendo-se no número 130 do bulevar de Clichy, onde Casagemas costumava ter o seu estudo. Entre junho e julho do mesmo ano, Picasso e Francisco Iturrino realizaram uma exposição na galeria de Vollard, Paris.[5] Sem dinheiro nem trabalho, Picasso conheceu em junho o poeta Max Jacob, com o que manteria uma relação estreita até a sua morte em 1944. Jacob lembraria mais tarde que descobriu a obra de Picasso e, sendo crítico de arte, expressou a sua admiração pelo talento do pintor. Pouco depois recebera um convite do seu representante, Pere Mañach, para apresentar o novo artista, que contava naquele tempo cerca de dezoito anos; estiveram todo o dia vendo a ingente obra de Picasso, que por aquela época pintava um ou dois quadros por noite, e os vendia por cento cinquenta francos na Rue Laffite.[6] Durante o Outono pintou Os dois saltimbancos (arlequim e a sua companheira) (Museu Pushkin, Moscou), Arlequim apoiado (MoMA, Nova Iorque) e acabou Evocação - O funeral de Casagemas. No Inverno pintou uma série de retratos a azul; o Retrato de Jaime Sabartés (Museu Picasso, Barcelona), o Retrato de Mateu Fernández de Soto (Museu Picasso, Málaga) e o Autorretrato azul (Museu Picasso, Paris).[4]

Max Jacob em 1934. Fotografia de Carl van Vechten.

No final de janeiro de 1902 rompeu o seu acordo com Mañach, e voltou a Barcelona. Começou a trabalhar no estudo de Ángel Fernández de Soto, no número 6 da rua Nou da Rambla, onde durante a Primavera a cor azul começou a dominar a sua obra. Com Fernández de Soto visitou os bordéis de Barcelona, o que ficou refletido numa série de desenhos eróticos entre os que se encontra um Autorretrato com nu (coleção privada, Alemanha); um desenho à tinta e aquarela de Ángel Fernández de Soto com uma mulher e La macarra (composição alegórica), propriedade do Museu Picasso de Barcelona.[7] Em Paris, Mañach arranjou uma exposição de pinturas e pastéis na galeria Berthe Weill, de 1 a 15 de abril, com obras de Picasso e Lemaire, e outra em junho na mesma galeria com obras de Picasso e Matisse. Em Barcelona, chegou o momento do serviço militar para Picasso, ao que o seu tio deu as duas mil pesetas necessárias para evitar o cumprimento do serviço militar em outubro. Logo voltou a Paris com Sébastien Junyer, e mostrou as suas pinturas azuis pela primeira vez de 15 de novembro a 15 de dezembro numa exposição coletiva organizada por Mañach na galeria Berthe Weill.

Dessa data um Retrato de Germaine que Acquavella Galléries adquiriu por 18,6 milhões de dólares num leilão de Christie's em 2006.[8] Em dezembro de 1902 Picasso mudou-se um tempo para o apartamento de Max Jacob, no número 87 do Boulevard Voltaire; o quarto apenas dispunha de uma cama, e Picasso trabalhava de noite e dormia de dia, enquanto Jacob trabalhava. Picasso não podia comprar telas, e devia limitar-se a desenhar.[9]

A vida[editar | editar código-fonte]

Em janeiro de 1903 Picasso voltou a Barcelona. Na Primavera, começou o quadro La vie ("A vida", Cleveland Museum of Fine Arts), um dos maiores e complexos quadros que pintou na sua época azul, considerado o trabalho mais importante destes anos; de um simbolismo infrequentemente obscuro para as suas primeiras obras e sujeito a múltiplas interpretações acadêmicas, sobre as quais o artista nunca se pronunciou. Picasso realizou quatro rascunhos preparatórios para o quadro, variando a composição das figuras; a figura masculina, que começou sendo um auto-retrato, acabou sendo a do seu amigo Carlos Casagemas.[10] A Vida resume a maior parte dos temas e a atmosfera da época azul: o pessimismo nihilista desenvolvido na sua época de formação em Barcelona, recrudescido sob as dificuldades materiais que sofre na época. "Acredita que a Arte é filha da Tristeza e da Dor", dizia o seu amigo Jaime Sabartés.[11] A solidão das crianças, a miséria de pobres, mendigos e cegos ficam descritos amplamente nos quadros desse momento: As Duas irmãs (1902), Miseráveis diante do mar (1903), O velho guitarrista cego (1903), O asceta (1903) e A Celestina (1904) contam-se entre as primeiras obras mestras de Picasso.[12]

Paris e o período rosa[editar | editar código-fonte]

Por volta do fim de 1903 Picasso começou a pensar que somente estabelecendo-se permanentemente na França a sua reputação ultrapassaria as fronteiras da Espanha. Trasladou-se ao estudo do escultor Pablo Gargallo (1881-1934), que naquele momento estava em Paris, no número 28 do Carrer del Comerç de Barcelona,[13] onde finalizou A Celestina e começou um novo Retrato de Jaime Sabartés que finalizou na Primavera de 1904.[14]

Em abril de 1904, Picasso instalou-se permanentemente no Bateau-Lavoir, ampliou e reafirmou o seu círculo de amizades entre a boemia artística da cidade, e conheceu a que seria o primeiro casal, Fernande Olivier. O seu interesse pelos pobres e os marginalizados traslada-se à boemia circense; arlequins, saltimbancos encheriam os seus quadros no período rosa de Picasso.[14]

Referências

  1. La morte de Casagemas (1901) no Museu Picasso.
  2. Fermigir, 1969:32
  3. Fermigir, 1969:28-31
  4. a b Online Picasso Project. Obra, 1901 (em inglês).
  5. Fermigir, 1969:26
  6. Online Picasso Project. Biografía, 1901 (em inglês).
  7. Online Picasso Project. Obra, 1902 (em inglês).
  8. EFE Nueva York (3 de maio de 2006). Un cuadro de Van Gogh y otro de Picasso alcanzan los precios más altos en una subasta de Christie's (em Espanhol).
  9. Online Picasso Project. Biografía, 1902 (em inglês).
  10. Online Picasso Project. Obra, 1903 (em inglês).
  11. Fermigir, 1969:36
  12. Online Picasso Project. Obra, 1902 (em inglês).
    Online Picasso Project. Obra, 1903 (em inglês).
    Online Picasso Project. Obra, 1904 (em inglês).
  13. Online Picasso Project. Biografía, 1903 (em inglês).
  14. a b Online Picasso Project. Biografía, 1904 (em inglês).

Bibliografia[editar | editar código-fonte]