Período pré-dinástico do Egito

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O período pré-dinástico Egito (anterior a 3 100 a.C.) é tradicionalmente o período compreendido entre o neolítico antigo e o início da monarquia faraônica formada pelo rei Menés (ou Narmer).[1] [2] [3] [4] [5] As datas do período pré-dinástico foram inicialmente definidas antes da escavação geral do Egito ter ocorrido, e descobertas recentes mostram que o curso de desenvolvimento pré-dinástico foi muito gradual causando nos estudiosos uma discussão sobre quando exatamente o período pré-dinástico terminou.

O período pré-dinástico é geralmente dividido em períodos culturais que adquirem o nome do lugar onde um determinado tipo de assentamento egípcio foi localizado. Contudo, o mesmo desenvolvimento gradual que caracteriza o período protodinástico está presente durante todo o período pré-dinástico e as individuais "culturas", não devem ser entendidas como entidades separadas, mas divisões, como em grande parte subjetivas, utilizadas para facilitar o estudo de todo o período.

A maioria dos sítios arqueológicos escavados no Egito provém do Alto Egito, pois as inundações do Rio Nilo foram mais fortes na região do Delta, e a maioria dos sítios do Delta do período pré-dinástico já foram enterrados por completo.[6]

Período pré-dinástico[editar | editar código-fonte]

Coroa do Alto Egito, Hedjet.
Coroa do Baixo Egito, Deshret.

O período pré-dinástico abrange de 4000-3 000 a.C., momento caracterizado por um intenso processo de desertificação[7] (as atuais condições climáticas egípcias foram estabelecidas), o início da agricultura integralmente sedentária e a padronização da cultura ao longo de toda o Egito;[8] as práticas médicas egípcias mais antigas foram datadas deste período.[9] Ao longo do pré-dinástico as culturas egípcias que compunham as comunidades ribeirinhas do Nilo começaram a se unificar e formar pequenos Estados ao longo do Nilo; segundo a Pedra de Palermo o Egito unificou-se em dois reinos um no Alto (os reis usavam a Hedjet) e outro no Baixo (os reis usavam a Deshret) Egito.[10]

Oásis Dakhleh[editar | editar código-fonte]

Cultura Sheikh Muftah[editar | editar código-fonte]

Com base em quatro datas radiocarbônicas foi possível estabelecer que a cultura Sheikh Muftah desenvolveu-se entre 3800-2 900 a.C., embora autores como McDonald acreditam que possa ter existido durante um período maior de tempo.[11] Os sítios desta cultura (possivelmente sazonais) estão associados a sedimentos lacustres do oásis e podem ser divididos em dois períodos sujeitos ao contínuo processo de aridez enfrentado pela região a partir de 5 000 a.C.[12] [13] Seis esqueletos identificados evidenciam desnutrição, trabalho excessivo e morte prematura, além disso, a ausência de cemitérios e de espólios tumulares é possível evidência de uma sociedade igualitária.[14]

A indústria lítica se baseava em lascas produzidas com quartzo e suas principais formas eram furadores, raspadores, denticulados, pontas, lâminas de foice retangulares, facas bifaciais e pontas de flechas transversais; implementos de pedras de chão, fragmentos de cobre e casca de ovos de avestruz foram evidenciados.[13] A cerâmica era temperada com xisto ou quartzo e raramente decorada, possuía superfície estriada e/ou ondulada e seu interior e asas eram enegrecidos.[15] A economia local se baseava na pecuária (ovinos, caprinos, bovinos) caça (antílopes, gazelas, lebres, javalis) e coleta vegetal (frutas e gramíneas).[16]

Baixo Egito[editar | editar código-fonte]

O período pré-dinástico é arqueologicamente muito mal representado no Baixo Egito devido em grande parte as condições geográficas da região: os sítios por estarem em contato direto com o Nilo tendem a serem encobertos por camadas espessas de sedimentos produzidos pela aluvião do rio.[17] A disseminação da cultura maadiana em todo o Delta sugere maior uniformidade de conexões e cooperação em toda a região, além disso, segundo Hoffman "Do ponto de vista materialista, o mais próximo contraste entre o Alto e Baixo Egito neste momento estava entre o mercantilismo crescente no norte e uma sociedade conspiculosamente consumidora e politicamente orientada no sul. No Alto Egito, comércio e metalurgia definem o tom em locais estrategicamente localizados como Maadi, enquanto no Alto Egito, status social, sepultamento ritual público, e exibição dominaram a visão do mundo naqadano".[18]

Cultura Maadiana[editar | editar código-fonte]

instrumento maadiano em marfim.

A Cultura Maadiana (ou Maadi-Buto) desenvolveu-se entre 3800-3 200 a.C. (foi contemporânea de Naqada I-II) em sítios localizados no Delta e em Faium; Reynes e Seeher supõem, em vista do hiato ocupacional notado entre El-Omari e Maadi-Buto (4400-3 800 a.C.), que possivelmente houve uma fase "pré-maadiana" que ainda não foi identificada.[19] [20] A cultura maadiana começou a declinar no final de Naqada II,[21] possivelmente devido ao expansionismo naqadano, visto que a Cultura de Naqada ambicionava obter o controle das rotas comerciais com o Oriente;[22] no começo de Naqada III, Maadi já não existia e muitos dos seus sítios foram reocupados, contudo, ainda hoje se isso foi realizado por conquista ou infiltração é ainda uma questão em aberto.[23] [24] A cultura maadiana representam um avanço significativo na complexidade social do Baixo Egito e, segundo evidências (cronologia, arquitetura e artefatos correspondentes) possivelmente deva ter se desenvolvido a partir de influências híbridas, ou seja, tanto egípcias como palestinas.[25]

O sítio de Maadi consiste em "restos de uma cidade em expansão"[26] formada por um sítio principal relacionado com um cemitério (76 túmulos) e um sítio secundário relacionado com outro cemitério (450 túmulos humanos e 14 animais); as principais características do assentamento são cabanas ovais, estruturas em forma de ferradura, casas subterrâneas, estruturas retangulares (possivelmente currais), lareiras e silos (localizados nas bordas do assentamento).[27] Paliçadas e longas valas estreitas compunham parte das defesas da cidade, no entanto, há evidência de que ela foi saqueada e queimada, ao menos, uma vez.[28] O sítio de Sais possui três fases principais (neolítica, transicional e pré-dinástica) que transcorrem o período de 4800-3 500 a.C. e são caracterizadas pela presença de cerâmica (especialmente as últimas duas) e restos faunísticos de animais, plantas domesticados e peixes.[29] [30] Tanto Sais como Buto são importantes sítios para a compreensão da origem da religião na área, tendo eles, desde o pré-dinástico, servido como centro de propagação cultual.[31]

O sítio de Buto, dividido em sete camadas estratigráficas (estando entre elas uma camada transicional), apresentou-se como importante sítio do Delta durante o período final da cultura maadiana tendo ele produzido abundante conjunto lítico e cerâmico comparável aos conjuntos encontrados em Maadi, Heliópolis e Wadi Digla.[32] Segundo evidências localizadas nas primeiras duas camadas, os habitantes de Buto erigiram suas habitações com hastes de cana ou papiro;[33] A camada transicional (marcada pela mudança de tipos de cerâmica) foi interpretada por alguns como evidência da substituição de uma cultura por outra, no entanto, há aqueles (Kohler e Wilkinson) que argumentam que tal camada influi em uma expansão da tecnologia de cerâmica do Alto Egito e não necessariamente a expansão da Cultura de Naqada como evidenciado pelos novos modelos localizados (foram produzidos localmente).[34] Buto, com base em artefatos localizados, possivelmente possui conexões com culturas calcolíticas do corredor sírio-palestino e da Mesopotâmia, além disso, possivelmente serviu como porta de entrada dos produtos comercializados pelas rotas comerciais do norte.[35]

Os cemitérios maadianos localizam-se fora dos assentamentos e neles estão contidos enterros de jovens, homens e mulheres depositados em covas ovais ou circulares rasas envolvidos em papiros ou peles com espólio (pentes, pulseiras, conchas, paletas, pérolas, pigmentos, cerâmica, vasos de pedra e restos animais); crianças foram enterradas no interior dos assentamentos em vasos; foram evidenciados os primeiros exemplos de sepultamento animalEm Heliópolis exemplos de túmulos orlados com blocos de pedra e madeiras sobre as lápides foram constatados.[27] Inicialmente os adultos foram enterrados de forma recurvada e com as mãos no rosto; posteriormente foram colocados na cova com a cabeça para o sul e com o corpo pro lado direito.[36]

A indústria lítica era baseada em sílex, quartzito e cristal de rocha e tinha como formas principais raspadores, facas com bordas retocadas, furadores, punções, burils e microburils, cunhas, brocas, machados, cabeças de clavas, mós, machados polidos, pilões, almofarizes, lâminas torcidas, pontas de flechas espigadas, foices unifaciais, cutelos. Cobre (machados com arestas de corte fino, cinzeis, punções, furadores, anzóis, agulhas, alfinetes e fios), ossos, chifres e madeira (furadores, punções, pentes, braceletes, varas, alças e tampas) também foram manufaturados; pigmentos (ocre, malaquita), paletas cosméticas (grauvaque), vasos de pedra (alabastro, calcário e basalto) e cabeças discoides de clavas são evidentes.[22] [27]

A cerâmica era temperada (palha, areia, calcita), decorada (incisões ou pinturas geométricas) e, segundo evidência, foi produzida à mão e aperfeiçoada com rodas; aparentemente as partes superior e inferior eram produzidas separadamente e depois unidas.[37] [38] A cerâmica localizada em Maadi foi dividida em cinco grupos: jarros globulares pretos e geralmente polidos; jarros ovóides marrom-avermelhados polidos com um anel na base; vasos vermelhos com parte superior preta; vasos vermelhos polidos com pouco temperamento; vasos amarelos polidos sem temperamento. Há exemplos de vasos antropomórficos,[39] grandes jarros para armazenamentos (marrons, vermelhos, cinzas ou pretos polidos com lavagem em vermelho ou branco) e vasos importados da Palestina, Síria e Alto Egito.[27] Cerâmicas encontradas em Heliópolis possuem, segundo Mortensen, relação com tradições autóctones, assim como palestinas: "A tradição cerâmica de Heliópolis é claramente relacionada com a tradição anterior no norte, encontrada em Merimde, Faium e El-Omari mas também mostra traços da tradição palestina: tempero com calcário moído, uso de lavagem de cal".[40]

A economia era baseada na domesticação animal (ovinos, bovinos, caprinos, suínos, burros, cães), caça (hipopótamos, ibex, castores, tartarugas), pesca (peixes, mariscos), agricultura (trigo, cevada, linho, lentilhas, ervilhas) e comércio; importavam produtos do Oriente Próximo (madeira de cedro,[41] nódulos de sílex, cerâmica, ferramentas de pedra, resinas, óleos, vinho, cobre, basalto), Alto Egito (pentes, cerâmica, marfim, paletas, cabeças de clava) e Deserto Oriental (malaquita, manganês, cornalina, conchas, pérolas), assim como exportavam produtos para estas regiões: cerâmica, conchas e cereais para o Oriente; cobre, basalto e sílex para o Alto Egito.[27] [22]

Alto Egito[editar | editar código-fonte]

Cultura Naqadana[editar | editar código-fonte]

objeto naqadano.

O período naqadano ou nagadano (4000-3 000 a.C.) é caracterizado pela gradual evolução de tradições econômicas e sócio-culturais, maior hierarquização social evidenciada por diferenças crescentes em complexidade, tamanho e espólio tumular, trabalho artesanal mais elaborado e uma intensa agricultura mista no Vale do Nilo; no deserto há um estilo de vida nômade ou semi-nômade baseada no pastoreio, caça e coleta vegetal.[42] É um momento de grande uniformidade em todo o Egito: "Uma das coisas mais impressionantes e intrigantes sobre o Antigo Egito é a aparente rapidez e abrangência com que centenas de aldeias desconexas e funcionalmente semelhantes foram transmutadas em uma unidade social, econômica e política organizada - o primeiro estado egípcio. Esta transmutação começou a cerca de 4 000 a.C., no sul e rapidamente se espalhou para o norte, abrangendo a maioria do Egito em 3 000 a.C.";[43] "Em 4 000 a.C. o solto conjunto de artefatos indicativos da fase cultural Nagada I esteve em uso em grande parte do Vale do Nilo; pela fase de desenvolvimento conhecida como Nagada III, quase 600 anos antes do período faraônico, uma série de objetos típicos estava em uso em todo o país".[44]

Cultura Amratiana (Naqada I)[editar | editar código-fonte]
Modelos de barro representando bovinos.

A cultura amratiana (Naqada I) durou de 4000-3 500 a.C. e foi principalmente atestada nos sítios de El-Amra (o primeiro sítio genuinamente amratiano) e Naqada, embora tenha subsistido em outros sítios importantes (Hierakonpolis, Abidos, etc.).[45] [46] Este período assisti a ascensão de elites regionais poderosas como evidenciado pelo espólio tumular sofisticado localizado em diversos cemitérios amratianos (especialmente o cemitério T de Naqada), contudo, como este processo ocorreu no Alto Egito é inconclusivo: alguns argumentam que a adoção de um estilo agrícola plenamente sedentário no Alto Egito, em vista da imprevisibilidade das cheias do Nilo, obrigou cidades e povoações unirem-se entre si em um sistema inter-regional que propiciou mudanças importantes nas condições econômicas e competição socioeconômica, além disso, impulsionou o gradativo surgimento de estados regionais e uma elite dominante (vinculada a seu poder político por formas ativas e simbólicas) dotada de contingente militar que geriu o novo meio econômico;[47] [48] [49] outros argumentam que tal processo foi consequência da grande especialização artesanal ocasionada pelo comércio com regiões distantes (Oriente Próximo, Núbia).[50] [51] [52]

Cerâmica amratiana.
Paleta cosmética zoomórfica.

Muitos sítios evidenciam fases ocupacionais distintas (o que indica que foram sazonais[53] ) e suas residências foram produzidas no estilo pau a pique ou com paredes de vime, embora haja evidências de que no final do período as edificações foram erigidas utilizando-se tijolos.[54] [55] [56] [57] Os sepulcros amratianos eram covas ovais onde os mortos eram depositados contraídos com a cabeça para o sul e o corpo para a esquerda, vestiam tangas, eram forrados por esteiras e, por vezes, possuíam almofadas de tecido ou couro sob a cabeça; enterros mais ricos possuíam projetos de sarcófagos de madeira ou argila e possuíam numeroso espólio tumular.[58] Enterros de bovinos são evidenciados tendo estes possivelmente atendido a exigências rituais, pois em muitos túmulos ricos foram encontrados chifres.[59]

A cerâmica vermelha com parte superior preta continuou a ser produzida embora a tendência foi de vasos vermelhos com decoração abstrata (geométrica) ou figurativa (animais, pessoas, barcos); decaiu entre D. S. 30 e 39 no sistema de Datação Sequencial de Petrie.[60] Foram produzidos manufaturados em osso e marfim (colheres, furadores, pentes, punções, agulhas, figuras humanas com barba triangular e toca), pedra (lâminas bifaciais com borda serrilhada, facas romboidais, cabeças de clavas discoides, vasos de basalto, contas de cornalina, paletas geométricas e zoomórficas[61] de grauvaque e ardósia) e cobre (pinos, arpões, grânulos, pulseiras e imitações de ferramentas), assim como faiança e esteatita vítrea.[58]

A economia era baseada na caça (gazelas, gansos, hipopótamos, crocodilos, elefantes, avestruzes), pesca, pecuária (ovinos, caprinos, suínos, bovinos, cães), agricultura (trigo, cevada, linho, ervilhas, ervilhacas, frutas) e comércio (obsidiana, cobre, vasos lápis-lazúli) com o Oriente Próximo (Palestina, Mesopotâmia, Afeganistão), Núbia e oásis.[62] A cidade de Naqada era conhecida na antiguidade como "Nubt", que significa ouro, o que possivelmente indica que tal local prosperou durante o período graças a extração de tal minério do deserto.[63]

Cultura Gerzeana (Naqada II)[editar | editar código-fonte]
Cerâmica gerzeana.
Estatuas de leões em marfim.
Modelo de barco em argila.
Faca ornada gerzeana.

A cultura Gerzeana (Naqada II) desenvolveu-se de 3500-3 200 a.C. nas regiões antes dominadas pelos amratianos (a cultura amratiana prosperou por mais um tempo na Núbia[64] ) em um momento em que a precipitação médio regrediu no Egito o que influi em como o deserto foi incorporado à cultura.[65] [46] Neste período o número de assentamentos é reduzido e a então dominante Naqada é superada e possivelmente conquistada pela cidade de Hierakonpolis (mais ao sul); os sítios (agora murados com paredes de tijolos[66] ) e cemitérios assistiram um aumento considerável como resultado do comércio com o exterior, desenvolvimento urbano, cultural e social, expansão territorial, crescente poder das elites regionais (monopólio comercial, guerras, ideologia e controle de recursos estratégicos[67] [68] ) e formação de grandes reinos no Nilo (Naqada, Hierakonpolis e Abidos são os principais[69] [70] ) que conflitaram entre si por hegemonia e melhor acesso a terras férteis.[71] [72] [73] ; centros urbanos como Gebelein e Abadiya são eclipsados.[74] A deterioração das condições climáticas possivelmente provocou migrações maciças das populações do deserto que, em meio a convergência com os habitantes do Nilo, provocaram a expansão da população e a necessidade de uma maior organização social para que houvesse adequada produção de alimentos.[75] [76]

Os túmulos naqadanos mais simples eram covas retangulares, ovais ou circulares com pouco espólio tumular; os mais elaborados eram retangulares e possuíam compartimentos construídos com tijolos para armazenamento do espólio. Caixões feitos com madeira ou cesta forrada com barro foram utilizados em inumações adultas, além disso, os corpos eram forrados com esteiras ou panos de linho; crianças eram sepultadas em vasos de cerâmica.[77]

A economia foi baseada na agricultura (trigo, cevada, linho), pecuária (bovinos, caprinos, ovinos, suínos, burros, e cães), pesca, caça (perdeu muito de sua importância[78] [79] ), extração mineral (cobre e ouro[80] ) e comércio (marfim, ébano, ouro, cobre, incenso, peles de gatos selvagens, óleos, pedras e conchas importados; alabastro, contas de ouro, faiança, lâminas, "cabeça bovídea" exportados).[77] Partindo do pressuposto de que a população do Nilo era insuficiente para a irrigação artificial das lavouras, tal processo ocorria por meio de diques e bacias naturais,[81] [82] no entanto, há aqueles que imaginam que pequenos diques e canais foram erigidos para melhorar a distribuição da água.[83] Durante Naqada II houve um intenso comércio de contas de lápis-lazúli entre o Egito e a Mesopotâmia que pode ser dividido em duas fases: na primeira fase o contato comercial provinha de uma rota pelo norte através da Palestina e outra pelo sul através de Hama; na segunda fase há contatos comerciais com assentamentos comerciais (Habuba Kabira e Tell Brak) no norte da Mesopotâmia.[84] No momento da expansão gerzeana rumo ao Delta a influência do Alto Egito sobre o o norte do Sinai.[85]

É evidente com base nos achados arqueológicos que no seio da sociedade gerzeana havia número ascendente de artesãos especializados que produziam produtos consumidos pela elite e também pelo comércio com o Oriente Próximo; estilos decorativos (bovinos, barcos) e artísticos (formas e tamanhos) característicos da civilização egípcia começam a ser aprimorados durante o período como evidenciado nos ornamentos da tumba 100 de Hierakonpolis (jazigo de um grande líder local); o sentimento religioso egípcio começa aflorar terminantemente (o primeiro templo egípcio é erigido em Hierakonpolis).[86]

Paleta cosmética gerzeana.

À cerâmica é atribuída valores de D. S. 40 a 62, além disso, é evidente sua diferença em relação aos estilos anteriores.[60] Um nova textura, conhecida como "marl", é desenvolvida a base de carbonato de argila e cálcio; novos estilos (cerâmica D, L, R, e W) são criados: a cerâmica D é marrom-escuro sobre fundo creme com motivos decorativos abstratos (geométricos, barcos), animais e humanos pintados; a cerâmica R é marrom-avermelhada, temperada com palha, polida e decorada com motivos incisos; a cerâmica L é cinza-esverdeada ou rosa, temperada com areia e polida; a cerâmica W é produzida a partir de modelos maadianos tendo evoluído de formas globulares co alças distintas para formas cilíndricas com alças pequenas ou pintadas.[77]

Durante o período a gama de matérias primas utilizadas expande-se vertiginosamente: pedras coloridas, granito, sílex, calcário, alabastro, mármore, serpentina, basalto, brecha, gnaisse, diorito, calcita e gabro; a indústria lítica é composta por burils, lascas retocadas, raspadores finais, perfuradores, ferramentas apoiadas, cabeças de machados, bifaciais e entalhes.[77] Paletas cosméticas (com relevo[87] ), vasos não-cerâmicos (pedra, marfim, cobre), joias (lápis-lazúli, conchas, faiança, madeira, marfim) armas, cabeças de clava em forma de pera, alfinetes (osso), pentes (madeira, osso, marfim) e figuras antropomórficas e zoomórficas (terracota) são visíveis entre os achados; uso de cobre (adagas, facas, enxós, machados, pontas de lança, arpões, anzóis, agulhas, anéis, pequenas ferramentas e ornamentos), ouro e prata é acrescido;[88] esferas de ferro meteorítico são os mais antigos exemplos do uso de ferro no mundo.[89] [90] [91] [92] [93]

Cultura Semaineana (ou Naqada III)[editar | editar código-fonte]
Paleta do caçador.
Vaso zoomórfico.
Cabeça da clava de Escorpião II.
As duas faces da Paleta de Narmer. Nela é representada a suposta unificação do Alto e Baixo Egito.[94]

A Cultura Semaineana (Naqada III) desenvolveu-se de 3200-3 000 a.C.,[46] (período idêntico ao período protodinástico do Egito) tendo sido marcado pelo surgimento dos primeiros hieróglifos, serekhs, narrativas gravadas em paletas, cemitérios realmente reais e irrigação, assim como pela unificação e formação do Estado egípcio; a elite egípcia estava neste instante completamente estabelecida, muitos sítios do Delta dedicaram-se exclusivamente ao comércio com o Oriente Próximo e neste momento o maior centro de poder era Abidos, embora Hierakonpolis tenha mantido muito de seu poder devido a seu acesso privilegiado as rotas comerciais do sul, assim como as minas da Núbia.[95] Uma conotação puramente contextual (dinastia 0) é empregada para agrupar todos os até então conhecidos líderes egípcios de Naqada IIIb-IIIc, embora deve ser citado que estes não formaram uma dinastia concreta.[96] Embora não totalmente aceite entre os egiptólogos, o termo dinastia 00 por vezes é atribuído para distinguir todos os líderes regionais atestáveis no Egito entre o período Naqada IIc-IIIa2.[22]

Atualmente o processo de unificação do Alto e Baixo Egito é um fato ainda não conclusivamente compreendido, tendo deste modo surgido diversas teorias acerca de possíveis meios para que tal fato ocorresse: formação de Mênfis (adquiriu notória importância como centro comercial, administrativo e cultural[97] [98] ) dominação gradual (mesopotâmica,[99] [100] [101] , núbia, deltaica ou do Alto Egito[102] ), integração regional (alianças, guerras e trocas culturais[103] [104] [105] ), comércio (o que explicaria a razão pela qual alguns sítios do Delta foram abandonados[106] [107] [108] [109] [110] ), pressões populacionais (do sul para o norte[111] [112] ) ou uniformidade religiosa.[113]

Os principais centros políticos do período são Elkab, Hierakonpolis e Abidos, embora possivelmente outros Estados tenham surgido em torno de centros como Buto (não deixou de ser ocupado) no Delta, Abadiya, Tinis e Mênfis (seu cemitério localizava-se em Saqqara) no Alto Egito, Seyala e Qustul na Baixa Núbia; Naqada foi possivelmente politicamente incorporada por outro Estado;[69] [114] possivelmente estes Estados delinearam os chamados nomos, divisão administrativa do Egito na antiguidade.[115] Os túmulos tornam-se cada vez mais ricos tendo sido construídos com tijolos e os mortos foram depositados em sarcófagos de madeira ou argila de forma contraída para a esquerda e com a cabeça para o sul; há frequência de inumações múltiplas e de crianças e os mortos eram acompanhados com rico e diversificado espólio tumular.[116]

Os nômades do deserto oriental, possivelmente, devido a degradação das condições ambientais locais, atuaram como intermediadores do comércio do Egito com regiões do Oriente Próximo.[117] [118] Uma acentuada elevação da produção agrícola durante o período devido ao maior número de áreas cultivadas e da melhoria das habilidades empregadas.[119] Marcas e serekhs em vasos são possíveis indicações de práticas administrativas;[120] possivelmente o sistema de nomos começou a surgir neste momento.[121] [122]

Costumes religiosos (uso de estelas) assim como alguns deuses do panteão egípcio começaram a surgir durante o período: Horus, Bat, Seth, Nekhebet e Min.[123] Segundo estudos, constatou-se que a escrita hieroglífica começa a surgir durante o período (possivelmente baseada na escrita mesopotâmica[124] ) tendo sido estritamente homogênea em todo o Egito;[125] arte e iconografia, ambas representadas em paletas cosméticas, também têm seus primeiros exemplos.[126]

Até o período Naqada IIIa2 foram atestados em Naqada (cemitério T), Gebelein, Abidos (Cemitério U) Hierakonpolis (tumbas 100 e 11), Qustul (L24) e Seyela (137,1) túmulos possivelmente atribuíveis a importantes líderes regionais que emergiam do seio das importantes famílias da elite mercantil egípcia.[127] Recentemente cerâmicas incisas, paletas (especialmente a paleta Tehenu) e um grafiti inciso nos Colossos Coptos têm produzido nomes de alguns possíveis reis locais que teriam governado até a ascensão dos reis tinitas: Órix, Concha, Peixe, Elefante, Touro, Cegonha, Canídeo, Padrão Cabeça de Gado, Escorpião I, Falcão I, padrão Min + planta, ? (perdido), Falcão II, Leão ... Iry-Hor, Ka, Escorpião II, Narmer; possivelmente existiram dois reis Touro, um identificado nos Colossos Coptos (Touro I) e outro identificado na Paleta Touro (Touro II).[128] Na tumba do rei Escorpião I (túmulo U-j, Abidos) foram identificados grande número de bens assim como os primeiros hieróglifos conhecidos; tal rei também foi identificado em um grafite inciso de Gebel Tjauty que representa uma possível vitória de Escorpião I sobre outro líder regional: um homem está com as mãos amarradas para trás enquanto o vitorioso segura com uma mão a corda e com a outra uma clava.[129]

Alguns dos primeiros líderes da dinastia 0 (naqada IIIb-IIIc) foram identificados através de seus serekhs: Falcão Duplo (Sinai e Delta), Hat-Hor (serekhs no túmulo 1702 em Tarkhan), Ny-Hor (serekhs em Tura E tarkhan), Pe-Hor (serekhs em uma cerâmica de Qustal, perto de Armant e em um grafite de Gebel Sheikh Suleiman), Hedj-Hor (serekhs no Delta Oriental e Tura) e Crocodilo (serekhs nos túmulos 315, 414 e 1549 de Tarkhan); possivelmente o rei Crocodilo tenha sido um usurpador durante o governo de Narmer.[74] Alguns dos primeiros faraós egípcios tiveram seus jazigos localizados: Iry-Hor (túmulo B1-B2, Abidos), (túmulo B7-B9, Abidos), Escorpião II (possivelmente quarta camada do túmulo B50 em Abidos ou túmulo 1 do local 6 em Hierakonpolis), Narmer (túmulo B17-B18, Abidos); Outro grafite de Gebel Sheikh Suleiman e duas cabeças de clavas pertenceram ao rei Escorpião II; evidências apontam que ele havia tentado unificar militarmente o Egito, contudo, não teve êxito em seu objetivo conseguindo, apenas, ampliar seus domínios para Mênfis. O reinado de Narmer é caracterizado por marcante evolução em diversos aspectos culturais egípcios;[130] segundo teorias clássicas, foi durante seu reinado que o Egito unificou-se,[10] tendo então muitas vezes ele sido atribuído como o primeiro rei propriamente dinástico;[131] foi possivelmente o único a terminar na contínua rivalidade dos líderes tinitas com aqueles de Hierakonpolis, presumivelmente através do reconhecimento da autoridade de Nekhen com concessões do rei às famílias locais poderosas.[22] Em Hierakonpolis foram identificados diversos artefatos pertencentes a Narmer, entre eles sua cabeça de clava, sua paleta e um cilindro de madeira com decoração incisa.[74]

Núbia[editar | editar código-fonte]

Cultura Cartum Neolítico[editar | editar código-fonte]

A cultura Cartum Neolítico desenvolveu-se entre 4000-3 000 a.C. em uma porção de sítios localizados no Sudão Central.[132] Em cemitérios como Kadero I foram identificadas evidências (quantidade de espólio tumular nos jazigos e localização dos túmulos mais ricos) de estratificação social; figurinhas femininas e sacrifícios humanos são inovações importantes;[133] crianças foram sepultadas em vasos foram dos cemitérios.[134] A economia era baseada na caça (búfalos, hipopótamos, girafas, antílopes, lebres, crocodilos, tartarugas, mangustos, vervets, chacais, gatos selvagens, facoqueiros, leões e bubalinas[135] ), pesca (tilápias, clarias, percas, Synodontis e moluscos[136] ), coleta (Acacia sp., Celtis integrifolia, Elaeis guineensis, Hyphenaena thebacia, Ziziphus sp., Citrullus sp., Urochloa panicoides, Setaria sp., Sorghum verticilliflorum, S. bicolor ssp.[137] ) e criação animal (ovinos e caprinos[138] ).[139]

A indústria lítica (baseada em rochas pré-cambrianas, seixos do Nilo, quartzo, quartzito, riólito, arenito, sílex e madeira petrificada) têm como principais formas os lunates, raspadores (laterais e finais), gravadores, goivas, lâminas, lamelas, entalhes, denticulados, furadores, lascas parcialmente retocadas, crescentes, burils, martelos, mós, machados, cabeças de clava, segmentos, celtas e pedras de chão; amoladores, pilões e paletas também foram identificados.[140] Arpões, celtas, anzóis, facas, pentes curvados, agulhas, furadores, plugues nasais e labiais e contas foram produzidos com osso, assim como anéis de marfim e contas de cornalina.[141] A cerâmica era suavizada ou polida, temperada (quartzo e plantas) e decorada (linhas retas incisas, utensílios triangulares impressos, linhas retas pontilhadas, ziguezagues e impressões lineares); principalmente é formada por vasos globulares com a boca aberta e o fundo arredondado; exemplos de cerâmica vermelha com parte superior preta são evidentes.[142]

Grupo-A[editar | editar código-fonte]

O Grupo-A desenvolveu-se na Núbia entre 3800-2 900 a.C.[143] entre Assuã e a Segunda Catarata, tendo ela sido considerada como a cultura mais importante da Baixa Núbia durante o milênio IV a.C.[144] Foi sucessora das culturas Abkana e Cartum Variante, desenvolvendo-se contemporaneamente com a Cultura de Naqada que tendeu a influenciá-la: artefatos do Alto Egito foram importados ou imitados e os cemitérios do grupo-A continham rico espólio tumular.[145] Entre o espólio tumular pode-se citar tigelas e pratos com superfície ondulada e incisões, vasos de paredes finas com padrões geométricos pintados em vermelho, tigelas e jarros egípcios para vinho, joias (pulseiras de marfim, plugues labiais, amuletos), seixos do Nilo, conchas de moluscos do Mar Vermelho, espelhos de mica, ferramentas (pedra, cobre e osso), cabeças de clava e queimadores de incenso, ovos de avestruz incisos, paletas de quartzito, almofarizes, moedores e estatuetas de cerâmica e lápis-lazúli femininas, selos e impressões de selos;[146] queimadores de incenso de arenito localizados em Qustal continham cenas em baixo relevo que aparentam ilustrar faraós egípcios (os líderes utilizam a coroa do Alto Egito e aparecem ao lado de Hórus), contudo, na atualidade, supõe-se que tais líderes nada mais são que líderes locais núbios que, possivelmente, influenciaram os póstumos faraós do Egito.[147]

Os túmulos eram ovais, circulares ou retangulares com um ou dois nichos laterais e foram tampados com grandes lajes de pedra; há exemplos de peculiares túmulos em forma de colmeia com duas câmaras, uma sobreposta a outra; o interior dos túmulos eram revestido com barro ou tapetes.[148] Há presença de inumações múltiplas, assim como de inumações animais (cães, ovinos, caprinos, bovinos, gazelas);[149] os corpos eram depositados de forma contraída para a esquerda com a cabeça voltada para o sul e foram envoltos em peles animais, linho ou esteiras.[148]

A população total foi estimada em cerca de 20000 pessoas que viviam a base de caça, pesca, coleta, agricultura (trigo, cevada, leguminosas), pecuária (cães, ovinos/caprinos, bovinos), importação (queijo, grãos, azeite, cerveja, faiança, vasos de alabastro, cornalina) e exportação (marfim, madeira, ébano, incenso, pedras preciosas, ouro, animais exóticos e possivelmente gado) de produtos.[148] [150] [151] [146] [152] Muitos exemplares de cerâmica produzida localmente tinham como finalidade imitar cestas (trançados) e cabanas (estrutura), tendo estes, muitas vezes sido revestidos com ocre ou tinta, incisos ou perfurados, polidos e suavizados; há exemplos de vasos com o interior negro, assim como exemplares completamente enegrecidos.[153]

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