Período protodinástico do Egito
O período protodinástico do Egito (3200-3 000 a.C.)[1] refere-se ao período final do período pré-dinástico. É equivalente à fase arqueológica conhecida como Naqada III. É caracterizado por um contínuo processo de unificação política que culminou na formação de um estado egípcio único. Há também fortes evidências de que o Egito criou assentamentos no sul de Canaã, que são considerados como colônias ou entrepostos comerciais.
[editar] Características
Foi um período marcado pelo surgimento dos primeiros hieróglifos, serekhs, narrativas gravadas em paletas, cemitérios realmente reais e irrigação, assim como pela unificação e formação do Estado egípcio; a elite egípcia estava neste instante completamente estabelecida, muitos sítios do Delta dedicaram-se exclusivamente ao comércio com o Oriente Próximo e neste momento o maior centro de poder era Abidos, embora Hierakonpolis tenha mantido muito de seu poder devido a seu acesso privilegiado as rotas comerciais do sul, assim como as minas da Núbia.[2] Uma conotação puramente contextual (dinastia 0) é empregada para agrupar todos os até então conhecidos líderes egípcios de Naqada IIIb-IIIc, embora deve ser citado que estes não formaram uma dinastia concreta.[3] Embora não totalmente aceite entre os egiptólogos, o termo dinastia 00 por vezes é atribuído para distinguir todos os líderes regionais atestáveis no Egito entre o período Naqada IIc-IIIa2.[4]
Atualmente o processo de unificação do Alto e Baixo Egito é um fato ainda não conclusivamente compreendido, tendo deste modo surgido diversas teorias acerca de possíveis meios para que tal fato ocorresse: formação de Mênfis (adquiriu notória importância como centro comercial, administrativo e cultural[5][6]) dominação gradual (mesopotâmica,[7][8][9], núbia, deltaica ou do Alto Egito[10]), integração regional (alianças, guerras e trocas culturais[11][12][13]), comércio (o que explicaria a razão pela qual alguns sítios do Delta foram abandonados[14][15][16][17][18]), pressões populacionais (do sul para o norte[19][20]) ou uniformidade religiosa.[21]
Os principais centros políticos do período são Elkab, Hierakonpolis e Abidos, embora possivelmente outros Estados tenham surgido em torno de centros como Buto (não deixou de ser ocupado) no Delta, Abadiya, Tinis e Mênfis (seu cemitério localizava-se em Saqqara) no Alto Egito, Seyala e Qustul na Baixa Núbia; Naqada foi possivelmente politicamente incorporada por outro Estado;[22][23] possivelmente estes Estados delinearam os chamados nomos, divisão administrativa do Egito na antiguidade.[24] Os túmulos tornam-se cada vez mais ricos tendo sido construídos com tijolos e os mortos foram depositados em sarcófagos de madeira ou argila de forma contraída para a esquerda e com a cabeça para o sul; há frequência de inumações múltiplas e de crianças e os mortos eram acompanhados com rico e diversificado espólio tumular.[25]
Os nômades do deserto oriental, possivelmente, devido a degradação das condições ambientais locais, atuaram como intermediadores do comércio do Egito com regiões do Oriente Próximo.[27][28] Uma acentuada elevação da produção agrícola durante o período devido ao maior número de áreas cultivadas e da melhoria das habilidades empregadas.[29] Marcas e serekhs em vasos são possíveis indicações de práticas administrativas;[30] possivelmente o sistema de nomos começou a surgir neste momento.[31][32]
Costumes religiosos (uso de estelas) assim como alguns deuses do panteão egípcio começaram a surgir durante o período: Horus, Bat, Seth, Nekhebet e Min.[33] Segundo estudos, constatou-se que a escrita hieroglífica começa a surgir durante o período (possivelmente baseada na escrita mesopotâmica[34]) tendo sido estritamente homogênea em todo o Egito;[35] arte e iconografia, ambas representadas em paletas cosméticas, também têm seus primeiros exemplos.[36]
Até o período Naqada IIIa2 foram atestados em Naqada (cemitério T), Gebelein, Abidos (Cemitério U) Hierakonpolis (tumbas 100 e 11), Qustul (L24) e Seyela (137,1) túmulos possivelmente atribuíveis a importantes líderes regionais que emergiam do seio das importantes famílias da elite mercantil egípcia.[37] Recentemente cerâmicas incisas, paletas (especialmente a paleta Tehenu) e um grafiti inciso nos Colossos Coptos têm produzido nomes de alguns possíveis reis locais que teriam governado até a ascensão dos reis tinitas: Órix, Concha, Peixe, Elefante, Touro, Cegonha, Canídeo, Padrão Cabeça de Gado, Escorpião I, Falcão I, padrão Min + planta, ? (perdido), Falcão II, Leão ... Iry-Hor, Ka, Escorpião II, Narmer; possivelmente existiram dois reis Touro, um identificado nos Colossos Coptos (Touro I) e outro identificado na Paleta Touro (Touro II).[38] Na tumba do rei Escorpião I (túmulo U-j, Abidos) foram identificados grande número de bens assim como os primeiros hieróglifos conhecidos; tal rei também foi identificado em um grafite inciso de Gebel Tjauty que representa uma possível vitória de Escorpião I sobre outro líder regional: um homem está com as mãos amarradas para trás enquanto o vitorioso segura com uma mão a corda e com a outra uma clava.[39]
Alguns dos primeiros líderes da dinastia 0 (naqada IIIb-IIIc) foram identificados através de seus serekhs: Falcão Duplo (Sinai e Delta), Hat-Hor (serekhs no túmulo 1702 em Tarkhan), Ny-Hor (serekhs em Tura E tarkhan), Pe-Hor (serekhs em uma cerâmica de Qustal, perto de Armant e em um grafite de Gebel Sheikh Suleiman), Hedj-Hor (serekhs no Delta Oriental e Tura) e Crocodilo (serekhs nos túmulos 315, 414 e 1549 de Tarkhan); possivelmente o rei Crocodilo tenha sido um usurpador durante o governo de Narmer.[40] Alguns dos primeiros faraós egípcios tiveram seus jazigos localizados: Iry-Hor (túmulo B1-B2, Abidos), Ká (túmulo B7-B9, Abidos), Escorpião II (possivelmente quarta camada do túmulo B50 em Abidos ou túmulo 1 do local 6 em Hierakonpolis), Narmer (túmulo B17-B18, Abidos); Outro grafite de Gebel Sheikh Suleiman e duas cabeças de clavas pertenceram ao rei Escorpião II; evidências apontam que ele havia tentado unificar militarmente o Egito, contudo, não teve êxito em seu objetivo conseguindo, apenas, ampliar seus domínios para Mênfis.[41] O reinado de Narmer é caracterizado por marcante evolução em diversos aspectos culturais egípcios;[42] segundo teorias clássicas, foi durante seu reinado que o Egito unificou-se,[41] tendo então muitas vezes ele sido atribuído como o primeiro rei propriamente dinástico;[43] foi possivelmente o único a terminar na contínua rivalidade dos líderes tinitas com aqueles de Hierakonpolis, presumivelmente através do reconhecimento da autoridade de Nekhen com concessões do rei às famílias locais poderosas.[4] Em Hierakonpolis foram identificados diversos artefatos pertencentes a Narmer, entre eles sua cabeça de clava, sua paleta e um cilindro de madeira com decoração incisa.[40]
Referências
- ↑ Shaw 2000, p. 479
- ↑ Naqada III and Unification (Late Predynastic) (em inglês). Página visitada em 21 de fevereiro de 2012.
- ↑ Kemp 2005, pp. 25
- ↑ a b Predynastic and Protodynastic Egypt (em inglês). Página visitada em 09 de fevereiro de 2012.
- ↑ Wilkinson 1996, p. 7
- ↑ Wenke 1991, p. 303
- ↑ Petrie 1920, p. 49
- ↑ Petrie 1939, p. 77
- ↑ Emery 1961, p. 38
- ↑ Wilkinson 1999, p. 50
- ↑ Seeher 1992, pp. 231-232
- ↑ Hassan 1988, p. 155
- ↑ Wildung 1984, p. 269
- ↑ Kohler 1995, p. 86
- ↑ Lagarcha 1995a, p. 49
- ↑ Assman 1996, p. 31
- ↑ Bard 1987, p. 92
- ↑ Meza 2001, p. 3
- ↑ Reynes 2000, p. 57
- ↑ Bard 1994, p. 94
- ↑ Friedman 1992, p. 308
- ↑ Wilkinson 2000, p. 376-94
- ↑ Kemp 1985, p. 52
- ↑ Friedman 1992, p. 310
- ↑ Burial Practices (em inglês). Página visitada em 03 de março de 2012.
- ↑ Robins 2001, p. 32
- ↑ Friedman 1992, p. 232
- ↑ Hoffman 1979, p. 247
- ↑ Butzer 1976, p. 103
- ↑ Wilkinson 1999, p. 44
- ↑ Helk 1974, p. 199
- ↑ Butzer 1976, p. 93-94
- ↑ Religion in Naqada III (em inglês). Página visitada em 03 de março de 2012.
- ↑ Trigger 1983a, p. 37
- ↑ Kemp 1989, p. 37
- ↑ Wilkinson 1999, p. 31
- ↑ Wilkinson 1999, p. 52
- ↑ Dreyer 1998, pp. 178
- ↑ Dynasty 00 (em inglês). Página visitada em 21 de fevereiro de 2012.
- ↑ a b The Dynasty 0 (em inglês). Página visitada em 21/02/2012.
- ↑ a b Marciniak 1978, p. 77
- ↑ Wilkinson 1999, p. 68
- ↑ Stępień 1999, p. 85
[editar] Bibliografia
- Kemp, B.. Ancient Egypt Anatomy of a Civilisation. [S.l.: s.n.], 2005.
- Wilkinson, T.. State Formation in Egypt. [S.l.: s.n.], 1996.
- Shaw, Ian. The Oxford History of Ancient Egypt. [S.l.: s.n.], 2000. ISBN 978-0-19-280458-7
- Wenke, Robert J.. (1991). "The evolution of Early Egyptian Civilization: Issues and Evidence". Journal of World Prehistory 5.
- Petrie, W. M. F.. Prehistoric Egypt. [S.l.: s.n.], 1920.
- Petrie, W. M. F.. The Making of Egypt. [S.l.: s.n.], 1939.
- Emery, Walter B.. Archaic Egypt. [S.l.: s.n.], 1961.
- Wilkinson, T.. Rock drawings of the Eastern Desert, Survey expedition December 1999. [S.l.: s.n.], 1999.
- Seeher, Jungen. Burial Customs in Predynastic Egypt: A View from the Delta. [S.l.: s.n.], 1992.
- Hassan, F.. (1988). "The Predynastic of Egypt". Journal of World Prehistory 2 (2).
- Wildung, D.. Terminal Prehistory of the Nile Delta: theses. [S.l.: s.n.], 1984.
- Kohler, C.. The State of Research on Later Predynastic Egypt: New Evidence for the Development of the Pharaonic State?. [S.l.: s.n.], 1995.
- Lagarcha, Perez. Some Suggestions and Hypotheses Concerning the Maadi Culture and the Expansion of Upper Egypt. [S.l.: s.n.], 1995a.
- Assman, J.. The Mind of Egypt. [S.l.: s.n.], 1996.
- Meza, A.. Ancient Egypt Before Writing. [S.l.: s.n.], 2001.
- Bard, K. A.. From Farers to Pharaohs. Mortuary evidence for the rise of complex society in Egypt. [S.l.: s.n.], 1994.
- Friedman, R.;B. Adams. Followers of Horus. [S.l.: s.n.], 1992.
- Hoffman, Michael. Egypt Before the Pharaohs. [S.l.: s.n.], 1979.
- Butzer, K.W.. Early Hydraulic Civilization in Egypt: A study in Cultural Ecology. [S.l.: s.n.], 1976.
- Helk, W.. Die Altagyptischen Gaue. [S.l.: s.n.], 1974.
- Robins, Gay. Egyptian statues (em inglês). [S.l.: s.n.], 2001. ISBN 9780747805205
- Trigger, B.G.. The Rise of Egyptian Civilisation. [S.l.: s.n.], 1983a.
- Dreyer, G.. Umm el-Qaab I. [S.l.: s.n.], 1998.
- Marciniak, M.. Historia starożytnego Egiptu, w: Starożytny Egipt. [S.l.: s.n.], 1978.
- Stępień, M.. Oriente Médio. [S.l.: s.n.], 1999.
- Kemp, B.. Automatic analysis of Predynastic cemeteries: a new method for an old problem. [S.l.: s.n.], 1985.
- Wilkinson, T.. Political Unification: Towards a Reconstruction. [S.l.: s.n.], 2000.
- Reynes, Midant-Beatrix. The Prehistory of Egypt: From the First Egyptians to the First Pharaohs. [S.l.: s.n.], 2000. ISBN 0-631-21787-8
- Bard, Kathryn A.. The geography of excavated Predynastic sites and the rise of complex society. [S.l.: s.n.], 1987. vol. 24.
- Kemp, B. J.. Ancient Egypt. [S.l.: s.n.], 1989.