Perseu

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Perseu com a cabeça da Medusa, Antonio Canova.

Perseu algumas vezes grafado como Perseus (em grego moderno: Περσεύς), é um dos mais célebres personagens da mitologia grega, herói semideus conhecido por ser fundador da mítica cidade-estado de Micenas, bisavô de Hércules e patrono tanto da Casa Real de Perseu como da Dinastia Persênica, tendo sido ancestral, segunda a mitologia, dos imperadores da Pérsia. Famoso por ter decapitado a górgona Medusa, monstro que transformava em pedra qualquer um que olhasse em seus olhos.[Nota 1] Como um semideus, Perseu era filho de Zeus, que sob a forma de uma chuva de ouro, introduziu-se na torre de bronze e engravidou sua mãe, a mortal Dânae[Nota 2] , filha de Acrísio, rei de Argos.

Nascimento[editar | editar código-fonte]

Acrísio, rei de Argos[1] , era casado com Eurídice, filha de Lacedemon, e tinha uma filha Dânae[2] , mas não tinha filhos homens. Quando Acrísio perguntou ao oráculo como ele poderia ter filhos homens, a resposta foi que Dânae teria um filho que o mataria[3] .

Dânae foi trancada em uma câmara de bronze subterrânea e posta sob guarda, mas ela foi seduzida, segundo alguns autores, por Preto, irmão e rival de Acrísio, ou por Zeus, que assumiu a forma de uma chuva de ouro[3] . Lactâncio, autor cristão que viveu por volta do ano 300, influenciado pelo evemerismo, diz que esta "chuva de ouro" foi, na verdade, uma larga soma em dinheiro que o rei imortal Zeus despejou sobre o colo de Dânae, para compensar a desonra que ele fez nela, e que os poetas posteriores adotaram a chuva de ouro como figura de expressão, assim como "chuva de ferro" se refere a uma grande quantidade de dardos e flechas[4] .

Acrísio, não acreditando que sua filha estivesse grávida de Zeus, colocou-a em um baú, que foi jogado ao mar.[3] O cesto chegou à ilha de Sérifo, onde foi encontrada por Díctis, que criou o menino.[3] [Nota 3]

À Górgona[editar | editar código-fonte]

Perseu se tornou um grande homem, forte, ambicioso, corajoso, aventureiro e protetor da mãe. Polidectes, com medo de que a ambição de Perseu o levasse a lhe usurpar o trono, propôs um torneio no qual o vencedor seria quem trouxesse a cabeça da Medusa[5] , o instinto aventureiro de Perseu não o deixou recusar. Em outra versão do mesmo mito todos os convidados em uma homenagem ao Rei, deveriam dar-lhe um presente, como Perseu era pobre se ofereceu para trazer a cabeça da Medusa como presente.

Perseu, conhecendo sua mãe, disse que iria participar do torneio, mas não disse que iria enfrentar a Medusa, com receio de que ela o impedisse. Da batalha contra Medusa saiu vitorioso graças à ajuda de Atena, Hades e Hermes. Atena deu a ele um escudo tão bem polido, que tal qual num espelho, podia se ver o reflexo ao olhar para ele. Hades lhe deu um elmo que torna invisível quem o usa, e Hermes deu a ele suas sandálias aladas, três objetos que foram definitivos para a vitória de Perseu.

O poeta romano Ovídio conta que a Medusa teria sido originalmente uma bela donzela, "a aspiração ciumenta de muitos pretendentes", sacerdotisa do templo de Atena[Nota 4] . Um dia ela teria cedido às investidas do "Senhor dos Mares", Posidão, e deitado-se com ele no próprio templo da deusa Atena; a deusa então, enfurecida, transformou o belo cabelo da donzela em serpentes, e deixou seu rosto tão horrível de se contemplar que a mera visão dele transformaria todos que o olhassem em pedra.[Nota 5]

Perseu e Andrômeda.

Então Perseu, guiado pelo reflexo no escudo, sem olhar diretamente para a Medusa, derrotou-a cortando sua cabeça, que ofereceu à deusa Atena. Diz a lenda que, quando Medusa foi morta, o cavalo alado Pégaso e o gigante Crisaor surgiram de seu ventre[Nota 6] . As outras duas irmãs de Medusa, Esteno e Euríale, perseguem Perseu, mas este escapa devido ao capacete de Hades, que o torna invisível às Górgonas[6] .

Atlas[editar | editar código-fonte]

Passou em seu retorno pelo país das Hespérides, onde ficava o titã Atlas[Nota 7] , que foi condenado a segurar a abóbada celeste em seus ombros. Vendo que o lugar era muito bonito, Perseu pediu a Atlas se podia dormir pelos arredores naquele dia, dizendo ao titã: "Se vês uma pessoa pela sua família, saiba que sou filho de Zeus e se, porém, valorizas grandes feitos, saiba que matei a górgona Medusa". Atlas responde: "Tu, mortal, mataste a rainha das górgonas? Nenhum mortal teria condições para fazer tal coisa". Muito revoltado por não ter sido acreditado por Atlas, Perseu mostra a cabeça de Medusa ao enorme titã, este quando encara os olhos da górgona começa a ter todo seu corpo petrificado, seus ossos se transformam em uma montanha, sua barba em floresta e sua cabeça o cume[7] .

Andrômeda[editar | editar código-fonte]

Continuando sua volta para casa, passou por uma ilha onde viu uma linda mulher acorrentada no meio do mar, não fossem as lágrimas que vertiam de seu rosto, teria confundido-a com uma estátua. Perseu pergunta a jovem o que fez para merecer tal punição, a moça então diz a ele: "Eu sou Andrômeda, minha mãe Cassiopeia ousou comparar sua beleza com as filhas de Poseidon, as ninfas do mar, e fomos castigados por isso. Poseidon mandou um monstro de Ceto destruir nossa cidade pelo erro de minha mãe e eu fui oferecida como sacrifício". Perseu diz que salvará a bela moça, se esta prometer casar com ele, mas antes de receber a resposta, uma grande onda se abriu no meio e o monstro marinho apareceu. Sem pensar duas vezes Perseu vai de encontro ao monstro e, aproveitando sua vantagem de voar, ganha a sangrenta batalha. Os pais de Andrômeda lhe concedem sua mão e Perseu volta para casa com ela[8] .

Polidectes[editar | editar código-fonte]

Perseu transformando Polidectes e seus seguidores em Pedra

Ao chegar em casa vê uma desordem, o rei de Serifo, Polidectes, e seus seguidores, vão atrás de Dânae, mãe de Perseu, para violentá-la. Perseu convoca seus amigos para lutarem com ele, mas o rei e seus fiéis eram em muito maior número. Quando a batalha parecia perdida, o herói lembra do que ocorrera a Atlas quando este fixou seus olhos no petrificante olhar da górgona Medusa e diz: "Aqueles que forem meus amigos, que fechem os olhos". Os que acreditaram então fecham seus olhos e Perseu ergue a cabeça de Medusa, todos que estavam contra ele (e inclusive alguns amigos descrentes) são petrificados, menos o rei, que percebera o que ocorreria e vira seu rosto, ele então pede clemência a Perseu: "Por favor, ó Perseu, me deixe viver, eu reconheço que tu és mais forte e que mataste a górgona, então não me mate também". O argiano responde: "Tratarei bem de você Polidectes, deixarei você em minha casa para jamais esquecer da covardia que me mostra agora". Perseu vira o rosto de Medusa na sua direção, petrificando-o[9] , na posição de covardia em que ele se mostrava, levando a estátua para casa, jamais esquecendo do ocorrido.[Nota 8]

Cumprimento da profecia[editar | editar código-fonte]

Conforme a profecia, Perseu acabou assassinando o avô durante uma competição esportiva, em que participava da prova de arremesso de discos. Fazendo um lançamento desastroso, acertou acidentalmente seu avô sem saber que ele estava ali[10] . Assim, cumpriu-se a profecia que Acrísio mais temia. Apesar disso Perseu se recusou a governar Argos (trocando de reinos com Megapente filho de Preto) e governou Tirinto e Micenas (cidade que fundou), estabelecendo uma família de sete filhos: Perseides, Perses, Alceu, Helio, Mestor, Sthenelus, e Electrião, e uma filha, Gorgófona. Seus descendentes também governaram Micenas, de Electrião à Euristeu, após os quais Atreu conquistou o reino, tais descendentes incluíam, também, o grande herói Hércules. Seguindo esta mitologia Perseu também é o ancestral dos persas.

Outras Mídias[editar | editar código-fonte]

O filme Fúria de Titãs, dirigido por Desmond Davis, de 1981, foi uma tentativa cinematográfica de adaptação do mito, sendo este, porém, altamente modificado e fundido com outros mitos: como o Pégaso, do mito de Belerofonte, os escorpiões gigantes, semelhantes aos que matam o caçador Órion, mas a pior adaptação foi a troca do monstro Cetus pela lula gigante, Kraken, sendo este último parte da mitologia escandinava, não da mitologia grega. Em 2010, a produção ganhou um remake em 3D, com significativas alterações no roteiro da primeira versão e direção de Louis Leterrier. O êxito do remake levou a uma continuação também em 3D, entitulada Fúria de Titãs 2, lançada em 2012 e dirigida por Jonathan Liebesman, lembrando, porém, que, assim como o primeiro filme, a sequência não é referência ao mito.

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Um dos principais heróis gregos, "Teseu, Perseu e outros mitos", de Menelaos Stephanides
  2. Mais uma das mortais engravidadas por Zeus, como mostrado no mito de Aracne (onde ela disputa contra Atena na tecelagem) tais mortais foram enganadas e engravidadas por Zeus: Europa, Dânae e Leda, onde o deus se apresentou nas formas de touro, chuva e cisne, respectivamente
  3. Podemos ver aqui a semelhança com o mito cristão de Moisés, que foi abandonado por seus pais no rio Nilo, numa cesta, para depois ser encontrado e adotado pelo faraó.
  4. Ovídio, sendo um escritor romano, utiliza os nomes romanos para Posidão e Atena, "Netuno" e "Minerva", respectivamente
  5. Na versão de Ovídio, Perseu descreve a punição dada por Atena à Medusa como "justa" e "merecida".
  6. O mito da Medusa é considerado por alguns estudiosos como símbolo do poder feminino "The mythical creatures bible", de Brenda Rosen
  7. Se for analisada a ordem cronológica dos mitos gregos, Perseu não poderia ter encontrado Atlas antes de Héracles o ter feito, já que Hércules, em seu 11º trabalho, pede ao Titã para pegar um pomo das Hespérides, sendo impossível haver a petrificação do gigante
  8. Alguns autores afirmam que o petrificado foi Fineu, noivo de Andrômeda "História da Mitologia: história de deuses e heróis", de Thomas Bullfinch

Referências

  1. Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, 2.2.1
  2. Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, 2.2.2
  3. a b c d Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, 2.2.4
  4. Lactâncio, Instituições Divinas, Livro I, Capítulo 11, Sobre a origem, vida, reino, nome e morte de Júpiter, Saturno e Urano
  5. Hesíodo, Teogonia 277
  6. Pseudo-Apollodorus, Bibliotheke 2. 37-39
  7. "Contos e lendas da Mitologia Grega", escrito por Claude Pouzadoux
  8. "Minidicionário compacto de Mitologia", de Nadia Julien
  9. Ovídio, Metamorphoses 5.1-235
  10. Pseudo-Apollodorus, Bibliotheke 2.4.4
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