Pico do Cauê

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

O Pico do Cauê (palavra dialetal africana que significa irmãos) é uma serra localizada na cidade mineira de Itabira, nos antigos bairros de Santana e do Campestre de Cima. Desde a chegada dos irmãos Francisco de Faria Albernaz e Salvador de Faria Albernaz por volta de 1720, o Pico do Cauê já servia de referência para os viajantes da região; foi através do seu brilho azul que os aventureiros, atrás do ouro, se dirigiram até aos córregos que corriam por sua base, principalmente no córrego da Penha. Nesta época o pico se elevava a 1385 metros acima do nível do mar, mas atualmente, após anos de mineração, sua altitude decresceu cerca de 150 metros.

Alguns historiadores afirmam que a localidade de Itabira já existia por volta de 1705, e o Pico do Cauê era chamado de Pico do Itabira (pedra que brilha), do TUPI - Ita (pedra) bira (que brilha) o que deu o nome da atual cidade onde está localizado.

Descobrimento e primeiras explorações[editar | editar código-fonte]

Os dois aventureiros, bandeirantes paulistas, mineravam em Itambé, quando avistaram um pico, ao longe, e seguindo em sua direção chegaram à serra a que chamaram Cauê. Exploraram os corregos recolhendo ouro, sem que se saiba, contudo, por quanto tempo. Certo é, porém, que verificando a abundância do metal precioso, transferiram para o local seus escravos e colonos.

Dentro em pouco, a fama da abundância de ouro atraía outras famílias, acompanhadas de seus escravos, movidas pela ambição de enriquecer.

Dedicados à mineração, no âmago de uma região de densas matas, viviam essas famílias isoladas, formando pequenos núcleos esparsos pelas margens dos córregos. Nesse compasso surgiu a vila que anos depois viria a se tornar a cidade de Itabira. Aos pés do Pico foi construída a vila que deu origem à cidade de Itabira, a 111 km de Belo Horizonte.

A partir de 1808, com a vinda da família real para o Brasil, foi permitida a exploração das jazidas de ferro do país, atividade econômica que se desenvolveu principalmente em Minas Gerais. Nessa época, segundo Singer (1977, p. 206): Fizeram-se várias tentativas de reativar a vida econômica da região mediante o estabelecimento da siderurgia do ferro. Nessa região existia matéria prima necessária e facilidade de aquisição de combustível, devido à presença de florestas e quedas d’água e a possibilidade de utilização de mão-de-obra escrava. Em Itabira já se explorava o ferro, em pequena escala e somente o suficiente para suprir a siderurgia incipiente local; porém, essa atividade só tomou impulso a partir de 1808. O desenvolvimento da exploração do ferro, extraído principalmente do Pico do Cauê, fez com que, no ano de 1817, o povoado de Itabira contasse com treze das trinta forjas de Minas Gerais, dentre elas as do Girau, onde se podia fundir de uma só vez uma arroba de ferro. Como noticiou Saint-Hilaire (2000, p. 128): As forjas do Girau davam trabalho a cerca de 25 operários, cuja metade se compunha de escravos. As fundições deram origem, também, no povoado, uma manufatura de espingardas. Essas atividades trouxeram riqueza para alguns moradores, permitindo-lhes edificar construções imponentes para a época. Saint-Hilaire (2000, p. 122), no século XIX, encantou-se com o aspecto delas: “Havia muitas casas lindas, de sobrados e construíram-se novas, apesar dos enormes dispêndios que eram necessários fazer para retirar madeiras dos morros vizinhos”. Em 1848, com o declínio da produção do ouro, a economia voltou-se para a produção destinada ao mercado interno. Produziam-se instrumentos de ferro utilizados na lavoura, na pecuária, no consumo doméstico, no fabrico de arreios, na tecelagem de algodão e na confecção de tecidos rústicos. Existiam, ainda, pequenas manufaturas, fábricas de alimentos e de bebidas e também atividades agropecuárias. A estrutura urbana de Itabira, na primeira metade do século XIX, era semelhante à de outras cidades mineiras nascidas durante o ciclo do ouro em Minas Gerais. Apesar da existência de atividades manufatureiras em Itabira desde os primeiros anos do povoamento, somente no final do século XIX e início do século XX, instalaram-se na cidade duas fábricas de tecidos: Gabiroba (1897) e Pedreira (1917), cuja produção era vendida internamente e na região, dinamizando, de certo modo, a economia do município. Essas fábricas, surgidas no período em que se buscavam alternativas econômicas, significaram uma opção relevante para a cidade, pois empregavam um número relativamente alto de mão-de-obra, produziam grande quantidade de tecidos, fios e outros produtos têxteis.

Em meados do século XVIII, na medida em que diminui o ouro aluvião, a extração de minério de ferro torna-se a principal atividade econômica de Itabira. Em 1910, no XI Congresso Geológico Internacional, realizado em Estocolmo, na Suécia, revelou-se que no centro do Estado de Minas Gerais, no Brasil, estavam localizadas as maiores jazidas de minério de ferro do mundo. Em junho de 1911, a Itabira Iron Ore Company, sucessora da Brazilian Hematit Syndicate, foi autorizada a explorar e exportar minério de ferro das jazidas de Itabira por concessão do Governo Federal, sendo o Presidente da República Hermes da Fonseca.

E eis que os moradores passaram a dedicar-se à fundição de ferro, metal muito mais abundante que o ouro; de início uma mineração artesanal na antiga fábrica do Girau e a partir da primeira metade da década de 1940, a necessidade de abastecer de aço os aliados durante a segunda guerra mundial, criou-se a então CVRD – Companhia Vale do Rio Doce, estatal até 1997, quando foi privatizada e após alguns anos da privatização teve o nome alterado para VALE.

Em 1973, a Mina de Cauê se tornou a maior frente de extração do mundo ocidental.

Em meados dos anos 80, com a mineração em grande escala o pico já estava bem reduzido em sua altura e a lavra de minério de ferro atingiu o nível das antigas minas de ouro, escavadas séculos antes no sopé do Cauê. Esse encontro aliado ao processo de lavagem do minério de ferro levou ao descobrimento de ouro no leito por onde escorria a água e rejeito, causando uma corrida ao ouro, levando cerca de 6.000 garimpeiros a iniciarem a exploração atrás de ouro. Essa exploração teve o seu auge nos anos de 1984/85, o volume de ouro encontrado era muito pouco e diminuiu ainda mais com o início do beneficiamento pela VALE o que aos poucos foi diminuindo a empolgação dos garimpeiros ali instalados, devido à diminuição e praticamente extinção do ouro rejeitado no processo de lavagem do minério de ferro. Hoje, a Mina de Cauê dá sinais de esgotamento do minério de ferro. E o pouco que resta dela pode estar ameaçado. Para manter a extração nos níveis atuais, cerca de 40 milhões de toneladas ao ano, a Vale prepara um novo projeto para aproveitar o minério de baixo teor de ferro.

Curiosidade[editar | editar código-fonte]

Çovê lafa guinlage de camaco? Normalmente começa-se assim, uma brincadeira que acabou se transformando em parte da cultura dos itabiranos.

Por ocasião da chegada de ingleses e americanos para conduzirem as explorações de minério de ferro, normalmente entre eles utilizavam o inglês para se comunicarem, ou mesmo quando não queriam que os trabalhadores da empresa soubessem o que estava sendo discutido. Irritados com a situação eles começaram a se utilizar de uma possível brincadeira da época, alguns dizem que foi criada pelos próprios funcionários, utilizavam do que é conhecido como "guinlagem de camaco", deixando os ingleses e americanos perdidos quando escutavam o diálogo dos mineiros da empresa. Com certeza uma "vingança" divertida, principalmente se considerarmos que foi criada como uma forma de resistência cultural frente à chegada dos trabalhadores estrangeiros.

Falada no início apenas pelos trabalhadores das minas de ferro da Itabira Iron Ore Company, espalhou-se, com o tempo pelas demais camadas sociais da cidade. Para se falar a guinlagem camaco é preciso trocar a primeira consoante ou grupo consonantal da segunda sílaba pela primeira letra da primeira sílaba. Portanto, "linguagem" vira "guinlagem" (ou "guilagem") e macaco vira "camaco".

Os monossílabos são adaptados. "Não", por exemplo, vira "ônis". Para melhor entendimento, é necessário escrever como se pronuncia e fazer a adequação sonora (eufonia) da palavra. É uma língua em constante adaptação e transformação. Há pouquíssimos registros escritos sobre ela e por isso é comum encontrar variações na pronúncia de algumas palavras.

Pela internet é possível encontrar pessoas e ou clube de pessoas que brincam utilizando-se dessa linguagem que se mostra muito divertida para quem tem a domina.

Desaparecimento[editar | editar código-fonte]

Desde a criação da Vale e a crescente demanda mundial por minério de ferro, levou ao crescimento das explorações. Hoje do Pico do Cauê basicamente sobrou apenas uma cava, cercada por um por um talude de terra explorada. É comum ao conversar com os antigos itabiranos sentir em suas histórias, a nostalgia causada pelo Pico, que antes brilhava e servia de referência aos viajantes e que hoje já não existe mais. Hoje o Pico do Cauê está espalhado pelo mundo, sob a forma de vigas, pilares, carros, armas, ferramentas e outros utensílios oriundos do minério de ferro.

A exploração do minério de ferro do Pico do Cauê e sua proximidade com as áreas habitadas da cidade, causam um fenômeno diferente do crescimento das demais cidades no mundo. A cidade cresce em deslocamento, ou seja, à medida que as explorações avançam e atingem certos níveis que se avizinham aos bairros, novos bairros são construídos mais distantes da área minerada, e a população é transferida. Isso ocorreu com mais frequência nas décadas de 1960 e 1970; porém ainda hoje existem planos de deslocamento de bairros; como por exemplo o bairro do Pará, Campestre e a Vila Paciência; o que deslocaria a cidade no sentido contrário ao pico. O centro da cidade, com seus casarões de mais de 200 anos e ruas, algumas calçadas com pedra de itabirito, já não se localiza no centro como se faz entender, podendo facilmente dessa região avistar bem próximo o movimento minerador, que bate as suas portas.

O texto abaixo - Itabira - Vulnerabilidade Ambiental: impactos e riscos Sócio-ambientais advindos da mineração em área urbana, de Maria das Graças Souza e Silva e Maria do Rosário Guimarães de Souza, FUNCESI/FACHI, descreve claramente o nível de degradação que a atividade mineradora causa a uma cidade, seu povo e mesmo a sua história.

(.... Os taludes e as cavas resultantes do processo de extração mineral tornam a paisagem triste, agressiva e ameaçadora para os itabiranos. O resultado da destruição é a formação do que comumente se chama de “paisagem lunar”. Algumas cavas servem de local de deposição de rejeito e futuramente não se sabe como serão utilizadas. Os vales a jusante da mineração estão assoreados, tornando-os impróprios para agricultura. Outra profunda intervenção na paisagem está associada aos depósitos de estéril sujeitos a ação das intempéries. Os abalos causados pela detonação de explosivos nas proximidades dos bairros residenciais ameaçam a estrutura das casas e o sossego dos moradores, sobretudo na vila Paciência, Pará e Campestre. Hoje, alguns bairros estão a menos de cem metros de distância das minas tornando a população cada vez mais vulnerável aos efeitos externos da mineração. O problema ambiental em Itabira se agrava porque são alterados, com o processo minerário, não apenas os elementos do meio biótico e social, mas também a própria paisagem da cidade. Essas alterações assumem um caráter de irreversibilidade e de situação de risco para a população itabirana. Daí se afirmar que a sociedade de Itabira configura-se como uma “sociedade de risco”.“O conceito de sociedade de risco busca designar um estágio da modernidade no qual as ameaças produzidas pelo ritmo da sociedade industrial passam a predominar”(Beck, apud Torres (2000:58).Para Beck, apud Torres,(2000:59),“a crescente importância da questão ambiental é em si mesma, uma evidência da emergência da questão dos riscos como problema central das sociedades contemporâneas”. A degradação ambiental na cidade faz-se presente desde o início da exploração mineral pela CVRD. Porém, naquela época, não havia a preocupação de conciliar atividade econômica com qualidade ambiental. Em geral, a natureza foi encarada pelas mineradoras como fonte de recursos inesgotáveis. Portanto, não havia a menor preocupação quanto à exploração predatória e quanto aos efeitos dessa forma de encarar a natureza para o patrimônio natural e para as populações das regiões impactadas pela exploração mineral. A população das áreas de mineração, como a itabirana, muitas vezes se sente como “anões” frente ao gigantismo das mineradoras e sem forças para enfrentá-las......).

A idéia de reconstituir o antigo Pico, tem ganhado muitos adeptos junto aos itabiranos e organismos ambientais. Em 2010 a mineradora Vale S/A anunciou um conjunto de medidas referentes ao processo de revegetação do antigo Pico do Cauê,"… primeira mina da mineradora, antiga Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), no país, predecessor da atual mineradora. A ocupação da cava do Cauê, licenciada pelas autoridades ambientais responsáveis, prevê uma disposição controlada de material no local. O objetivo, segundo a Vale, é o reaproveitamento da área minerada, que será devidamente recuperada para reabilitação ambiental e paisagística. A revegetação começará com uma rápida cobertura do solo e posteriormente com o plantio de vegetação. No local onde existia uma enorme cratera já pode ser visto dezenas de caminhões gigantescos, movimentando terra para re-conformar a topografia e o manejo do solo. A grande desconfiança é que ainda não foram apresentados estudos ou plano de médio e longo prazo, para reconstituição da vida animal existente na região antes de 1942, com o re-povoamento da área com espécimes nativos.

A Vale deu início em 2011 a um conjunto de medidas referentes ao processo de recuperação da vegetação do Pico do Cauê, a ocupação da cava do Cauê, licenciada pelas autoridades ambientais responsáveis, prevê uma disposição controlada de material no local. O objetivo, segundo a Vale, é o reaproveitamento da área minerada, que será devidamente recuperada para reabilitação ambiental e paisagística. A revegetação começou com uma rápida cobertura do solo e posteriormente com o plantio de vegetação. No local onde existia uma enorme cratera já pode ser visto dezenas de caminhões gigantescos, movimentando terra para conformar a topografia e o manejo do solo. O Pico de Cauê simboliza uma das épocas (1942), mais importantes da extração mineral e de ouro no Brasil, quando a então antiga Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), hoje “Vale”, iniciava suas atividades, provocando estampidos que até hoje fazem subir poeira e as casas da cidade balançarem. Hoje a Mina está praticamente desativada, permitindo a recuperação do antigo Pico do Cauê, que por mais de seis décadas, 67 anos, rendeu grande riqueza para a Vale e o município


Ícone de esboço Este artigo sobre Geografia do Brasil é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.