Pinacoteca do Estado de São Paulo

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Pinacoteca do Estado de São Paulo
Pinacoteca SP.jpg
Fundação 1905 (103–104 anos)
Localização São Paulo, São Paulo
Brasil Brasil
Tipo Museu de arte
Número de visitantes 397.000[1] (2006)
Diretor Marcelo Araújo
Curador Ivo Mesquita
Website www.pinacoteca.org.br

A Pinacoteca do Estado de São Paulo é um dos mais importantes museus de arte do Brasil.[2] Ocupa um edifício no Jardim da Luz, no centro de São Paulo, projetado por Ramos de Azevedo e Domiziano Rossi para ser a sede do Liceu de Artes e Ofícios. É o mais antigo museu de arte de São Paulo, fundado em 1905 e regulamentado como museu público estadual desde 1911.

Após a reforma conduzida por Paulo Mendes da Rocha na década de 1990, tornou-se uma das mais dinâmicas instituições culturais do país, integrando-se ao circuito internacional de exposições, promovendo eventos culturais diversos e mantendo um ativa produção bibliográfica.[2] A Pinacoteca também administra o espaço denominado Estação Pinacoteca, instalado no antigo edifício do DOPS, no Bom Retiro, onde mantém exposições de longa e curta duração e o centro de documentação da instituição.

A Pinacoteca do Estado abriga um dos maiores e mais representativos acervos de arte brasileira, com quase oito mil peças abrangendo majoritariamente a história da pintura brasileira dos séculos XIX e XX. Destacam-se também a Coleção Brasiliana, integrada por trabalhos de artistas estrangeiros atuantes no Brasil ou inspirados pela iconografia do país, e a Coleção Nemirovsky, com um expressivo conjunto de obras-primas do Modernismo brasileiro. Também conserva um núcleo de pinturas e esculturas européias, sobretudo francesas e italianas, além do gabinete de obras sobre papel.

Índice

[editar] História

[editar] Antecedentes

As origens da Pinacoteca do Estado remetem à criação do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, instituição privada fundada em 1873 por iniciativa de Leôncio de Carvalho, agregando 131 sócios beneméritos, e inicialmente denominada Sociedade Propagadora da Instrução Popular. Inspirada no positivismo e com o apoio da maçonaria[3], a instituição passou a ministrar cursos profissionalizantes gratuitos voltados para as artes aplicadas, a lavoura e a indústria, de maneira semelhante ao contemporâneo movimento Arts and Crafts da Inglaterra. Somente na sua primeira década de atividades, o Liceu formaria mais de oitocentos alunos, atestando a forte demanda gerada pelo período de grande expansão econômica e populacional que a cidade atravessava.[4]

Oficinas do Liceu na Rua da Cantareira, c. 1910. Acervo do Liceu de Artes e Ofícios.

Em 1895, o engenheiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo assumiu a direção do Liceu, empreendendo uma reforma ampla que objetivava a futura criação de uma Escola de Belas Artes na capital paulista.[3] Dessa forma, coube à instituição preencher também essa lacuna e, extrapolando a função de formar artesãos, atuou no âmbito do ensino artístico, formando nomes como Hugo Adami, Mário Zanini e Odetto Guersoni.[5]

Em 1897, o governo do estado cedeu ao Liceu um terreno no cruzamento das avenidas Santos Dumont e Tiradentes, dentro da área do Jardim da Luz, para servir de sede à instituição. O projeto ficou a cargo do escritório de Ramos de Azevedo, com a colaboração de Domiziano Rossi. Em estilo monumental e neoclássico, foi parcialmente concluído e inaugurado em 1900, quando começaram a funcionar alguns cursos de instrução artística[3], além do Ginásio do Estado, que dividiria o espaço com o Liceu até 1924.[5]

[editar] A fundação

A Pinacoteca do Estado foi oficialmente criada em 1905, com o apoio do vereador Maurício de Sampaio Vianna, do engenheiro Adolpho Augusto Pinto e do mecenas e senador José Freitas Valle. Sua implantação definitiva, no entanto, ocorreu algum tempo depois, por iniciativa do então secretário do Interior e da Justiça, Cardoso de Almeida, que requisitou ao Museu Paulista (ou "do Ipiranga") a transferência de 26 quadros para serem expostos em uma sala do Liceu de Artes e Ofícios. As obras eram retratos, paisagens e naturezas-mortas de autores como Almeida Júnior, Antônio Parreiras, Oscar Pereira da Silva, Benedito Calixto, Eliseu Visconti e Pedro Weingärtner, entre outros, que destoavam do perfil histórico do museu do Ipiranga, imbuído de um projeto de consolidação de uma iconografia que refletisse o ideário republicano.[6]

Ramos de Azevedo, declarado também diretor da Pinacoteca, projetou adaptações no terceiro andar do Liceu para abrigar as obras, incluindo a instalação de uma clarabóia retangular. A inauguração ocorreu em 24 de dezembro de 1905, com a presença do presidente do estado, Jorge Tibiriçá, além de Rodrigues Alves, Domício da Gama, José Joaquim Seabra, entre outros membros da elite política e econômica de São Paulo.[6]

Exposição de Arte Francesa, realizada na Pinacoteca do Estado em 1913.

[editar] De 1911 à Revolução de 1930

Apesar da inauguração pomposa, já em 1911 a imprensa paulistana registrava, sobre o museu, que “ninguém via nem sabia para que fora criado[6]. Foi quando Freitas Valle, então deputado pelo Partido Republicano Paulista, redigiu o projeto da lei nº 1.271, aprovada com o respaldo de Sampaio Vianna, de Ramos de Azevedo e de Adolpho Pinto, dando a Pinacoteca o status de órgão autônomo e a definindo como museu estatal. A lei estabelecia ainda que a instituição deveria continuar a funcionar como núcleo de aprendizado, nos moldes que haviam sido estabelecidos pelo Liceu.[7]

O museu foi por fim franqueado permanentemente à visitação pública em dezembro de 1911, quando se inaugurou também a Primeira Exposição Brasileira de Belas-Artes. Durante a mostra, o governo do estado fez sua primeira aquisição direta para o acervo da Pinacoteca, comprando Leilão de peixes, do espanhol Cubells y Ruiz. A Segunda Exposição Brasileira de Belas-Artes ocorreu no ano seguinte com a presença de 54 pintores e nove escultores, mas foi criticada pela ausência de obras-primas e não mais retomada.[8]

Em 1913, a Pinacoteca sediou uma abrangente mostra itinerante de arte francesa. Promovida pelo Comitê França-América, a mostra vinha de Buenos Aires, onde teriam ficado a maior parte das peças relevantes. O governo optou por adquirir a seção de arte retrospectiva, com gravuras, reproduções, fotografias e moldes. A mostra fora planejada como a primeira de uma série dedicada à arte das nacionalidades latinas européias, mas não pode ser levada adiante após a eclosão da Primeira Guerra Mundial[8]. Também foram organizadas, nesses primeiros anos, algumas mostras individuais (como as de Aurélio de Figueiredo e de Pedro Alexandrino, em 1912) e, notadamente, exposições dedicadadas à escultura. Muitos escultores de renome, tais como Amadeu Zani, Ettore Ximenes e Julio Starace, atuaram como professores do Liceu, obtendo assim permissão para expor sua produção nos salões do edifício, onde estabeleceram-se de forma alternada a partir de 1912.[8]

Recorte do jornal Correio Paulistano de 4 de novembro de 1928, anuncia a compra de Bananal, de Lasar Segall.

Ainda nos primeiros anos, a mudança das oficinas do Liceu para os galpões na Rua da Cantareira liberou espaço no edifício para a exposição do acervo, que durante as três primeiras décadas, cresceria com base nos critérios consagrados de arte burguesa, ecoando o gosto predominantemente acadêmico dos salões de artes e das doações feitas pelas abastadas famílias paulistanas. As primeiras peças não comprometidas com o ideário acadêmico ingressaram no acervo por meio do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo. O Pensionato concedia bolsas de estudo para que alunos de artes plásticas se aperfeiçoassem na Europa, ficando os bolsistas obrigados a enviar à Pinacoteca, ao término de sua viagem, duas cópias de obras célebres e um trabalho original. Assim, incorporaram-se à coleção A carregadora de perfume, de Victor Brecheret e Tropical, de Anita Malfatti. De forma semelhante, a aquisição da tela Bananal de Lasar Segall também indicou uma pequena quebra junto ao perfil conservador da coleção.[9]

Em julho de 1924, eclodiu em São Paulo a segunda Revolta Tenentista. Durante o conflito, a Pinacoteca foi forçada a fechar as portas e seu edifício foi atingido por granadas e balas de fuzis, sendo posteriormente reparado. Em 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder e o afastamento de políticos e alto-funcionários ligados ao antigo governo paulista, a Pinacoteca, que já se encontrava desestabilizada desde a morte de Ramos de Azevedo, ocorrida em 1928, quase foi extinta. Permaneceria fechada durante toda a Revolução de 1930, alojando a Primeira Legião, vinda do Paraná.[9]

[editar] Mudança de endereço e reunião do acervo (1930-1947)

Revolucionários de 1930 acampados no Jardim da Luz.
A antiga sede da Pinacoteca do Estado na Rua Onze de Agosto.

A ocupação militar em 1930, somada a um incêndio ocorrido no edifício nesse mesmo ano, levaram à dispersão de parte do acervo. No ano seguinte, foi criado o Conselho de Orientação Artística (COA), para desenvolver um política de aquisições e um plano de defesa do patrimônio artístico, mas a instabilidade do ambiente político não permitiria avanços. Em 1932, o edifício seria requisitado durante a Revolução Constitucionalista para abrigar as tropas paulistas. A dispersão do acervo se completou e as peças permaneceram sob custódia de diversos órgãos públicos. A administração da instituição foi transferida para um edifício na Rua Onze de Agosto, onde funcionava a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.[10] Por sua vez, o Liceu de Artes e Ofícios, que havia se transferido para um prédio na Avenida Tiradentes por conta dos motins, não mais retornaria ao edifício do Jardim da Luz.

Nos anos seguintes a Pinacoteca trataria de reunir na sede da Rua Onze da Agosto as peças que haviam se dispersado, voltando a abrir as portas em 1936. Uma comissão chefiada por José Wasth Rodrigues e Lopes de Leão detectou o desaparecimento de um medalhão neoclássico de Jacques-Louis David e de 93 gravuras francesas. Outras peças seriam extraviadas devido à prática de emprestar obras ao Palácio dos Campos Elísios e outros órgãos governamentais. Nesse meio tempo, o governo do estado adquiriu, por sugestão de Mário de Andrade, a tela Mestiço, de Cândido Portinari - a primeira obra do pintor a integrar a coleção de um museu.[11]

Em 1937, a Pinacoteca inaugurou a Sala Henrique Bernardelli, expondo parte do grande espólio legado pelos irmãos Henrique e Rodolfo Bernardelli. O acervo então somava 900 peças. Nesse mesmo ano, Lopes de Leão foi empossado no cargo de diretor da Escola de Belas-Artes e da Pinacoteca. Em 1939, o novo diretor instituiu os cargos de restaurador e diretor-técnico. Em 1941, recusou a oferta feita pela prefeitura para instalar a Pinacoteca no Palácio das Indústrias, por temer os efeitos da poluição emitida pelo gasômetro vizinho.[11]

Em 1947, em decorrência de diversos fatores, o museu retornaria ao antigo edifício na Avenida Tiradentes. A prefeitura havia desapropriado o edifício da Rua Onze de Agosto, com a intenção de demoli-lo para erguer a Praça Clóvis Bevilacqua, levando o governo do estado a adquirir o edifício do Liceu de Artes e Ofícios para lá abrigar novamente a Pinacoteca, a Escola de Belas-Artes e o Conselho de Orientação Artística.[12] No processo de mudança, o acervo sofreria novas perdas, nomeadamente da maquete em gesso do Monumento às Bandeiras, doada por Victor Brecheret, que se esfacelou após uma queda. No que tange à ampliação do acervo, destacou-se a aquisição do espólio do pintor Pedro Alexandrino e a transferência de um segundo lote de obras procedentes do Museu Paulista. Durante todo esse período, a Pinacoteca manteve-se relativamente distante dos movimentos de renovação artística do século XX, bem como dos demais museus de artes criados na década de 1940 (como o MASP e o MAM), seguindo sua vocação inicial de formar de um acervo com obras acadêmicas.[13]

[editar] A Pinacoteca Circulante (1947-1966)

Em 1947, Túlio Mugnaini substituiu Lopes de Leão na direção da Pinacoteca, ao mesmo tempo em que o Conselho de Orientação Artística foi extinto. Entre as suas realizações, destacaria-se a criação das “Conferências Passeios”, em que nomes consagrados no meio artístico, como Anita Malfatti, Quirino Campofiorito e Georgina de Albuquerque, conduziam os visitantes ao contato com o acervo. Em 1950, em comemoração ao centenário de nascimento de Almeida Júnior, a Pinacoteca organizou com uma grande retrospectiva da obra pintor. Dois anos depois, a Pinacoteca recebeu uma importante doação de 130 peças deixadas em testamento por José Manuel de Azevedo Marques. Apesar das atividades e dos esforços de Mugnaini para incrementar a visitação, o público ainda era escasso quando comparado aos outros museus de arte da cidade.[14]

Almeida Júnior (1850-1899). Caipira picando fumo, 1893. Óleo sobre tela, 70 x 50 cm.

A visitação inexpressiva seria em parte compensada pela iniciativa denominada Pinacoteca Circulante. O projeto, levado a cabo até 1971, consistia em percorrer o interior paulista com uma seleção de obras consagradas, exibidas em clubes, salões paroquiais e escolas, visando democratizar o acesso e reforçar o caráter estadual da instituição. Iniciando por São José do Rio Preto, a Pinacoteca Circulante realizaria mais de 100 exposições em aproximadamente setenta cidades do interior do estado, atingindo um público total de 300 mil pessoas. Após quase duas décadas de mostras itinerantes, as exposições foram encerradas após uma grande reforma no edifício do Jardim da Luz. Walter Wey, o diretor da Pinacoteca à época, justificaria o fim da iniciativa por meio do desgaste causado pelo transporte contínuo das obras mais frágeis.[15]

Em 1955, a Pinacoteca comemorou seu cinquentenário "como um museu esquecido", no dizer da imprensa da época.[15] Mugnaini lançou uma campanha de divulgação do museu, informando os horários de visitação e a existência de uma biblioteca especializada. O acervo crescia mais influenciado pelas doações do que pelas aquisições. A família Silveira Cintra doou 133 obras de tradição acadêmica e Dario Villares Barbosa, ex-bolsista do Pensionato Artístico, legou à Pinacoteca 248 quadros de sua autoria. À época, Mugnaini relutou em aceitar o espólio, por considerar o artista pouco representativo para que se agregasse um lote tão grande de seus trabalhos à coleção.[16]

Somente em 1956 a Pinacoteca abriria espaço para a arte moderna, inaugurando uma a sala com obras de tendências não acadêmicas e sediando a exposição Modernistas 1910/1950, com obras de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Cândido Portinari e Mário Navarro da Costa, entre outros. Paralelamente, Mugnaini buscou formular estratégias para aumentar a visitação, mas não obteve êxito. As pequenas intervenções feitas, como a adição de seis salas e mais um corredor, eram incapazes de resolver os dois problemas crônicos do museu: a falta de espaço para expor a coleção e a falta de visitantes para apreciá-la. Por outro lado, a gestão Mugnaini logrou recuperar algumas obras espalhadas pelas repartições públicas desde a década de 1930.[17]

Com o golpe militar, Mugnaini foi convocado em maio de 1964 para depor em uma comissão responsável por apurar a posição ideológica dos funcionários. Mugnaini não depôs e foi aposentado compulsoriamente, sendo substituído pelo jornalista João de Scantimburgo. Scantimburgo permaneceu no cargo até 1966, quando foi substituído por Sílvio Costa e Silva.[17]

[editar] Fase de transformações (1967-1991)

Em 1967, Delmiro Gonçalves assumiu a direção. Durante sua gestão, esforçou-se para incorporar obras de artistas atuantes em São Paulo desde a década de 1930, como Flávio de Carvalho e Ernesto de Fiori. Delmiro foi o primeiro diretor da Pinacoteca a entender a instituição como um núcleo voltado à arte de seu tempo. Assim, ampliou também o núcleo de obras de artistas contemporâneos, adquirindo peças de Tomie Ohtake, Manabu Mabe e um conjunto de 387 gravuras de Marcelo Grassmann. O espaço permaneceria escasso, dividido entre o Serviço de Fiscalização Artística, a Escola de Belas-Artes, a Escola de Arte Dramática e o Conservatório Estadual de Canto Orfeônico.[18]

Em 1971, Delmiro Gonçalves foi exonerado e substituído pelo pintor Clóvis Graciano. Nesse mesmo período, o Conselho Estadual de Cultura elaborou uma série de onze medidas que visavam reestruturar os setores técnicos e administrativos, minimizar os danos causados pelo longo período em que o edifício passou sem manutenção e restaurar parte do acervo. Também foi instituída oficialmente a biblioteca, que passava a gerir a documentação museológica e o acervo bibliográfico do museu, e criado o novo Conselho de Orientação Artística.[19] Durante a reforma do edifício, a Pinacoteca passou a organizar eventos em outros espaços, destacando-se a mostra internacional de Arteônica, sediada no Museu de Arte Brasileira da FAAP, além da mostra Grassmann – 25 anos de gravura, exposta na FAAP, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.[20]

Em 1972, o diplomata e crítico de arte Walter Wey assumiu a direção do museu, com a sede ainda sob reforma. A Pinacoteca seria reaberta em 13 de setembro de 1973, com a presença do governador Laudo Natel e do presidente Emílio Garrastazu Médici. Dotada de uma entrada exclusiva, de um teatro de arena e de uma sala de exposições temporárias, a Pinacoteca passou a oferecer melhores condições para a prática de atividades educacionais e para a oferta de uma programação cultural regular, com concertos musicais, peças de teatro, cursos e palestras.[21]

Edifício da Pinacoteca, tombado pelo CONDEPHAAT em 1982.

Em 1975, Aracy Amaral, historiadora e crítica de arte, sucedeu Walter Wey na direção da Pinacoteca. Reafirmando o compromisso com a produção de vanguarda, Aracy promoveu uma série de exposições de arte contemporânea e instituiu as visitas monitoradas. Consolidou também as propostas didáticas e educativas, criando o curso de desenho vivo, ministrado por Paulo Portella Filho, e o curso de xerografia, sob os cuidados de Hudinilson Júnior, e deu continuidade à oferta de uma programação cultural fixa.[22] Tratou também de preencher importantes lacunas no acervo, adquirindo obras das décadas de 1930 e 1940. Em 1976, em uma iniciativa até então inédita, um grupo de obras do acervo foi exposto no exterior, durante a mostra Brasil, Artistas do Século XX, realizada na Galeria Artcurial de Paris. Em 1978, a Pinacoteca organizou a mostra itinerante A Arte e seus Processos: o Papel como Suporte, exposta em mais de trinta municípios paulistas ao longo de quatro anos.[23]

Fábio Magalhães assumiu a direção da Pinacoteca em 1979, permanecendo no cargo até 1982. Sua gestão buscou adequar as propostas museológicas a cada faixa etária e estimular o público infanto-juvenil. Magalhães também se preocupou em ampliar o enfoque a outros suportes, sobretudo a fotografia, inaugurando o Gabinete Fotográfico em 1980. No ano seguinte, a Pinacoteca concebeu o projeto Super 8 como Instrumento do Artista Plástico, em meio às polêmicas discussões sobre comunicação em massa que marcaram as comemorações dos 30 anos de televisão no Brasil.[24] Em 5 de maio de 1982, em resposta ao requerimento feito na gestão de Aracy Amaral, o edifício da Pinacoteca foi tombado pelo CONDEPHAAT.[25]

Baía de São Vicente, de Benedito Calixto (1905). A retrospectiva do pintor reinaugurou a Pinacoteca em 1990.

Após o tombamento, Maria Cecília Lourenço França, diretora do museu desde julho de 1983, reforçou a campanha em prol da ocupação total do edifício, contando com o respaldo da comunidade artística da cidade e da Associação Paulista de Museólogos. Sua gestão buscou ainda consolidar a Pinacoteca como um espaço cultural dinâmico, criando um ateliê infanto-juvenil em meio ao Jardim da Luz e o projeto Visite um Museu e Assista a um Espetáculo.[26] Em 1985, durante as comemorações dos oitenta anos da Pinacoteca, Maria Cecília coordenou um ciclo de palestras e mesas-redondas. No ano seguinte, criou o curso de introdução às técnicas de gravura. Ainda em 1986, a Pinacoteca recebeu uma importante doação de obras de artistas modernistas brasileiros, legadas postumamente pelo intelectual Alfredo Mesquita. Em 1987, a Pinacoteca passaria por uma nova reforma, que seria concluída no ano seguinte, já sob a gestão de Lourdes Cedran. Com a reforma, a Pinacoteca passou a contar com um laboratório e ateliê de papel artesanal.[27]

Em 1989, a Faculdade de Belas-Artes transferiu-se para sua sede própria na Vila Mariana, liberando todo o espaço do edifício para a Pinacoteca.[27] O edifício, no entanto, seria interditado nesse mesmo ano pelo Departamento de Controle de Uso de Imóveis (Contru), que alegou falta de segurança. Em 1990, Maria Alice Milliet assumiu a direção da Pinacoteca, que reabriu suas portas com a mostra Memória Paulista, uma retrospectiva do pintor Benedito Calixto e primeira de uma série de quatro exposições dedicadas à iconografia paulistana, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).[28]

[editar] Reestruturação espacial, grandes exposições

A gestão do artista plástico Emanoel Araújo, diretor da Pinacoteca entre 1992 e 2001, estabeleceria um ponto de inflexão na história da instituição, conferindo-lhe visibilidade e prestígio internacional. Araújo criou a Associação dos Amigos da Pinacoteca, entidade civil responsável por auxiliar a captação de recursos e a organização de atividades culturais no museu. No segundo semestre de 1992, a Pinacoteca sediou o programa Música nos Museus e conquistou o prêmio da APCA para o conjunto de exposições denominado Vozes da Diáspora, voltado à valorização da cultura afro-brasileira. Em 1993, a Pinacoteca comemorou o centenário de nascimento de Mário de Andrade e os 150 anos do fotógrafo Marc Ferrez.[29]

Edifício-sede com intervenção de Paulo Mendes da Rocha
O Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, no Parque do Ibirapuera.

Entre 1994 e 1998, a Pinacoteca do Estado passou por uma grande reforma, orçada em aproximadamente dez milhões de reais, para adaptar-se aos padrões museológicos internacionais. O projeto da reforma foi concebido por Paulo Mendes da Rocha, com o qual o arquiteto ganhou o Prêmio Internacional Mies van der Rohe para a América Latina, em junho de 2000. Mendes da Rocha optou por cobrir os vazios internos do edifício com clarabóias de aço e vidro laminado e interligou os pátios laterais com passarelas metálicas. O edifício ganhou uma nova reserva técnica e sistemas adequados de climatização, controle e segurança.[29] Entre 1995, ano do centenário do museu, e meados de 1997, com parte do edifício ainda em reformas, a Pinacoteca sediaria uma série de mostras vindas da Espanha, França, Itália, Holanda, Dinamarca e Portugal, integrando-se definitivamente ao calendário de exposições internacionais e incrementando de maneira expressiva a visitação, que chegou a 183 mil pessoas ao término desse período. Em junho de 1997, para acelerar a conclusão da reforma, o museu foi fechado à visitação. A Pinacoteca passou a funcionar temporariamente no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, no Parque do Ibirapuera, onde foram sediadas as mostras de Camille Claudel e de 100 anos da Guerra de Canudos.[30]

A Pinacoteca foi reaberta ao público em fevereiro de 1998, com uma série de exposições temporárias e com um conjunto de peças doadas pelo Banco Safra, incluindo obras de Auguste Rodin, Antoine Bourdelle, Victor Brecheret, Ricardo Cipicchia e Rodolfo Bernardelli.[30] No ano 2000, foi inaugurado o ateliê de restauro, com patrocínio da Fundação Vitae. Em 2001, a exposição Auguste Rodin: A Porta do Inferno levou à Pinacoteca mais de 200 mil visitantes. Outras mostras de relevo realizadas no mesmo período garantiriam uma expressiva visitação, destacando-se De Picasso a Barceló, com obras do Museo Nacional Reina Sofia, da Espanha.[31]

Em 2002, a gestão da Pinacoteca é transferida para a Associação de Amigos e o museólogo Marcelo Araújo assume sua direção.[31] Nesse mesmo ano, um acordo de cooperação firmado com a Fundação Estudar possibilitou à Pinacoteca abrigar em regime de comodato 447 peças do importante acervo de brasiliana daquela instituição. Em 2003, a Pinacoteca voltou a receber o prêmio da APCA, pela mostra Albert Eckhout Volta ao Brasil.[32]

Em 2004, o antigo prédio do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), projetado por Ramos de Azevedo para servir como armazém da Cia. Sorocabana, foi reformado e passou a funcionar como um anexo da Pinacoteca do Estado. Denominado Estação Pinacoteca, o espaço abriga um Centro de Memória, destinado à pesquisa e preservação do acervo documental sobre a história da instituição, além de exposições e atividades didáticas. O edifício também abriga a coleção José e Paulina Nemirovsky, cedida ao museu em regime de comodato em 2004 pela Fundação Nemirovsky, composta por obras significativas do modernismo brasileiro. Em setembro de 2007, a Coleção Brasiliana da Fundação Estudar integrou-se definitivamente ao acervo da Pinacoteca.[32]

[editar] O edifício-sede

Após a criação do Liceu de Artes e Ofícios em 1873, os mantenedores da instituição negociam com o governo provincial a doação de um terreno para a escola, ao lado do Jardim Público da Luz – o que ocorre em 1896 -, além da concessão de recursos para a edificação da sede, cujas obras se iniciam em 1897.

Fachada principal.

O prédio, projetado por Ramos de Azevedo e Domiciano Rossi, seu principal colaborador, tem estilo monumental em forte consonância com os princípios do ecletismo italiano, formado por três pavimentos, com dois pátios internos de modo a garantir ventilação e iluminação. No centro, primeiro piso, localiza-se o saguão central, com altíssimo pé-direito e janelas voltadas para o interior, que prevê uma cúpula, nunca concluída. Na construção foram empregados materiais importados como pinho-de-riga e cerâmica francesa. No projeto, os engenheiros idealizaram a integração entre o edifício e o Jardim da Luz, pelo recurso às varandas laterais e às janelas que dão para o parque. O prédio foi parcialmente inaugurado em 1900, quando começaram a funcionar alguns cursos de instrução primária e artística. O edifício, no entanto, nunca foi concluído, como atestam os tijolos expostos na fachada e nos pátios internos e na ausência da já referida cúpula, que constava do projeto original.

Fachada posterior da Pinacoteca

O tombamento do prédio foi oficializado em 1982, visando à preservação de um dos componentes do conjunto arquitetônico do bairro da Luz, característico da passagem do século XIX para o XX em São Paulo, onde se inserem ainda a Estação da Luz, A Estação Júlio Prestes, o Museu de Arte Sacra de São Paulo, entre outros.

Entre 1993 e 1998, o edifício-sede sofreu uma ampla reforma conduzida pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, em conjunto com os arquitetos Weliton Ricoy Torres e Eduardo Argenton Colonelli, da qual resultou um museu adaptado às necessidades de exposições internacionais, tornando a Pinacoteca do Estado um destino certo para grande parte das mostras que chegam a São Paulo. O projeto de reforma foi laureado com o Prêmio Mies van der Rohe para a América Latina aos três arquitetos.

[editar] Estação Pinacoteca
Crystal Clear app xmag.pngVer artigo principal: Estação Pinacoteca

Em 2003, a Pinacoteca do Estado passou a administrar também prédio onde funcionou, por mais de meio século, o DOPS (Departamento de Ordem e Política Social), no centro de São Paulo. Inaugurado em 1914, e projetado por Ramos de Azevedo para servir de armazém da Companhia Sorocabana, o prédio foi totalmente restaurado de acordo com projeto do arquiteto Haron Cohen. Hoje, denominado Estação Pinacoteca, o espaço de oito mil metros quadrados apresenta condições técnicas ideais para as atividades museológicas que comporta.

[editar] A coleção

A Pinacoteca do Estado mantém um expressivo e variado acervo de arte brasileira, principalmente dos séculos XIX e XX. Entre as mais de seis mil obras mantidas pela instituição, estão pinturas, esculturas, desenhos, gravuras, fotografias, tapeçarias, objetos de arte decorativa e um seleto conjunto de imaginária do período colonial, capazes de fornecer um amplo panorama da arte nacional.

No segmento referente ao século XIX, certamente o núcleo mais consistente e importante da instituição, é possível entrar em contato com a maior coleção de obras de Almeida Júnior. Entre paisagens, retratos e cenas de interior, sobressaem as célebres obras Caipira Picando Fumo, Saudade e Leitura. As naturezas-mortas de Pedro Alexandrino ocupam uma sala inteira, onde se destacam Cozinha na Roça, Peru Depenado e Aspargos. Há ainda paisagens de Antônio Parreiras e Benedito Calixto, como a Baía de São Vicente; pinturas históricas e cenas de gênero de Oscar Pereira da Silva (Hora de Música e Infância de Giotto), retratos de Bertha Worms e Henrique Bernardelli, a tela Maternidade, de Eliseu Visconti, obras de Castagneto, João Batista da Costa e Pedro Weingärtner, entre muitos outros. A coleção tem especial importância ainda pelo destacado número obras de pintores acadêmicos paulistas.

A despeito de sua ênfase na arte acadêmica, o acervo conta com diversas obras de artistas modernistas, como Victor Brecheret, Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Anita Malfatti, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Clóvis Graciano, Francisco Rebolo e Túlio Mugnaini. Ao longo do século XX, incorporou também obras abstracionistas de distintas extrações - Waldemar Cordeiro, Samson Flexor, Arcângelo Ianelli -, além de trabalhos contemporâneos, como os de Nuno Ramos, Paulo Monteiro e Paulo Pasta.

Complementam a coleção um significativo núcleo de pinturas oitocentistas européias e de esculturas francesas, com destaque para o conjunto de nove bronzes de Auguste Rodin (Torso da Sombra, Bacanal, Gênio do Repouso Eterno) e outras obras de Aristide Maillol, Medardo Rosso, Antoine Bourdelle e Niki de Saint Phalle.

Recentemente, o museu recebeu em regime de comodato uma importante doação: a coleção José e Paulina Nemirovsky. Trata-se de uma das mais importantes coleções de arte moderna brasileira, reunindo obras-primas de alguns dos mais destacados artistas nacionais, como Tarsila do Amaral (cinco telas, entre elas Antropofagia), Anita Malfatti, Victor Brecheret, Lasar Segall, Ismael Nery, Flávio de Carvalho e Vicente do Rego Monteiro. A coleção pode ser vista em exposição permanente na Estação Pinacoteca.

O museu também é depositário da Coleção Brasiliana da Fundação Estudar. São aproximadamente trezentas peças de brasiliana (estudos científicos, artísticos e etnográficos feitos por artistas estrangeiros), produzidas a partir do século XVII, que podem ser vistas em exposições rotativas na Pinacoteca.

Galeria de Fotos
04.2.almeidajr.jpg 04.10.almeidajr.jpg 10.1.beneditocalixto.jpg 14 castagneto.jpg
Almeida Júnior (1850-1899) Leitura, 1892 Almeida Júnior (1850-1899) O Violeiro, 1899 Benedito Calixto (1853-1927) Praia do Itararé, s/d Castagneto (1850-1899) Tarde em Toulon (França), 1893

[editar] Ver também

Commons
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Referências

  1. Alfano, Ana Paula. Istoé Gente. Retrieved on 2008-01-11.
  2. 2,0 2,1 Pinacoteca do Estado de São Paulo. Ministério da Cultura. Página visitada em 9 de novembro de 2009.
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[editar] Bibliografia

  • Araújo, Marcelo Mattos & Camargos, Márcia (orgs.). Pinacoteca: a história da Pinacoteca do Estado de São Paulo. São Paulo: Artemeios, 2007. ISBN 978-8599402-21-4
  • Lourenço, Maria Cecília França (org.). Pinacoteca do Estado: Catálogo geral de obras. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1998.

[editar] Ligações externas