Piper Alpha

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Piper Alpha era uma plataforma de produção de petróleo do Mar do Norte operada pela Occidental Petroleum Ltd. e Texaco, proprietária de 22% das ações. Uma explosão e o incêndio resultante a destruiu em 6 de julho de 1988, matando 167 pessoas. Somente 62 membros da tripulação sobreviveram.

A instalação[editar | editar código-fonte]

Piper Alpha, uma plataforma de grande porte, estava situada no campo de óleo Piper, aproximadamente 193 km a noroeste de Aberdeen, em águas de 144 m de produndidade. Nos primeiros tempos, produzia também gás de um poço e ultimamente produzia óleo de 2 poços. Era conectada por um oleoduto e um gasoduto ao terminal Flotta, em Orkney e com gasodutos a outras duas instalações.

A instalação consistia em uma torre de perfuração em um lado, uma área de processamento e refino no centro, e alojamentos para sua tripulação no outro lado. Uma vez que Piper Alpha estava mais perto da costa que outras plataformas na área, tinha duas tubulações provenientes destas plataformas conduzindo à sua área de processamento. Esta instalação processava o gás proveniente das outras plataformas mais o petróleo extraído por ela mesma e então bombeava os produtos para a costa.

O acidente[editar | editar código-fonte]

Dia 06 de julho de 1988, um vazamento de condensado de gás natural que se formou sobre a plataforma incendiou-se, causando uma explosão enorme. A explosão iniciou incêndios secundários no óleo, derretendo a tubulação de chegada de gás. O fornecimento de gás causou uma segunda grande explosão que engolfou toda a plataforma. Afirma-se que o desastre foi tão repentino e extremo que uma evacuação tradicional foi impossível, mas há controvérsia a respeito. As pessoas ainda estavam saindo da plataforma após o incêndio e explosão iniciais. O maior problema foi que a maioria do pessoal que tinha autoridade para ordenar a evacuação morreu quando a primeira explosão destruiu a sala de controle.

Alguns cálculos indicam que 20% da produção anual de energia do Reino Unido foi consumido na explosão e incêndio. Mas isso foi consequência do projeto deficiente da plataforma, a ausência de paredes corta-fogo, e outros fatores. Outro fator importante foi que a plataforma próxima, Tartan, continuou a bombear gás ao núcleo do fogo até que a tubulação interligando ambas plataformas rompeu-se devido ao calor. Os operadores de Tartan não tinham autoridade para parar a produção, mesmo vendo ao horizonte que Piper Alpha estava queimando.

A embarcação de suporte Lowland Cavalier reportou a explosão inicial antes das 22h00, e a segunda explosão 22 minutos depois. Quando os helicópteros civis e militares chegaram ao local, as chamas estavam a mais de 100 metros de altura e visíveis a mais de 100 quilômetros (120 km de Maersk Highlander) impedindo aproximação segura.

Tharos, uma embarcação especializada em combate ao fogo, pôde aproximar-se da plataforma mas não pôde evitar sua destruição. Dois tripulantes do Lowland Cavalier morreram quando a explosão da plataforma destruiu seu "barco de resgate rápido" que havia resgatado vários sobreviventes da água. Tharos não pôde bombear água suficiente para aproximar-se da plataforma em chamas até após a ruptura do oleoduto que a interligava à Tartan, cerca de duas horas após o início do desastre. Somente quando a plataforma de Tartan parou de bombear óleo, a embarcação Tharos pôde aproximar-se, mas não conseguiu resgatar ninguém. O fogo foi depois extinto pelo navio Red Adair que enfrentou ventos de 80 milhas por hora e ondas de 70 pés.

A investigação[editar | editar código-fonte]

O grupo de investigação coordenado por Lord Cullen foi estabelecido em novembro de 1988 para descobrir as causas do desastre. Em novembro de 1990, ele concluiu que o vazamento inicial de condensado era resultante de trabalho de manutenção sendo realizado simultaneamente numa bomba e sua válvula de segurança. A Occidental Petroleum foi declarada culpada de ter procedimentos de manutenção inapropriados.

Uma segunda fase da investigação fez recomendações de segurança mais profundas, as quais foram todas aceitas pela indústria. Praticamente todos os trabalhadores em plataformas no mar do Norte questionariam a sinceridade da indústria em algumas de suas respostas ao Relatório Cullen. Certamente as respostas das companhias petrolíferas às recomendação de Cullen por completa e organizada representação dos trabalhadores foi menos que totalmente sincera.

Os restos da Piper estão a aproximadamente a 120 metros a sudoeste da plataforma Bravo, que a substituiu. Um último efeito do desastre da Piper Alpha foi o estabelecimento do primeiro sindicato pós-Margaret Thatcher, o Comitê de Indústria de Plataformas (Offshore Industry Liaison Committee).

Sequência de eventos[editar | editar código-fonte]

O desastre começou com um procedimento de manutenção rotineiro. Uma certa bomba condensadora de propano na área de processo necessitava ter sua válvula de segurança de pressão verificada a cada 18 meses, e a época tinha chegado. A válvula fora removida, deixando um buraco na bomba onde ela era instalada. Devido aos trabalhadores não terem conseguido todo o equipamento que eles precisavam até às 18 horas, eles pediram e receberam permissão para deixar o resto do trabalho para o dia seguinte.

Mais tarde, à noite, durante o turno de trabalho seguinte, um pouco antes das 22 horas, falhou a bomba condensadora primária. As pessoas na sala de controle, que estavam encarregadas de operar a plataforma, decidiram dar partida na bomba reserva, sem saber que ela estava em manutenção. Produtos gasosos escaparam do buraco deixado pela válvula com tal força que os trabalhadores descreveram o ruído como similar a um grito de uma fada. Aproximadamente às 22 horas, o gás acendeu e explodiu.

A força da explosão derrubou a parede corta-fogo que separa partes diferentes da instalação de processamento, e em breve grandes quantidades de óleo armazenado estavam queimando sem controle. O sistema de dilúvio automático, projetado para borrifar água em tais incêndios para contê-los ou apagá-los, não chegou a ser ativado porque estava em modo manual, devido a operações com mergulho.

Aproximadamente vinte minutos depois da explosão inicial, às 22h20, o fogo tinha se espalhado e tinha ficado quente o suficiente para debilitar e então estourar os dutos de gás provenientes das outras plataformas. Estes eram tubos de aço de um diâmetro de vinte e quatro a trinta e seis polegadas, contendo produtos de gás inflamáveis a duas mil libras por polegada quadrada de pressão. Quando estes dutos estouraram, o jato resultante de combustível aumentou o tamanho do fogo dramaticamente de uma bola de fogo para uma torre infernal. No auge do fogo, as chamas alcançaram trezentos a quatrocentos pés no ar e poderiam ser sentidas a uma milha de distância e vistas a oitenta e cinco.

A tripulação começou a agrupar-se na área de alojamentos, a parte da plataforma que era o mais distante da chama e parecia ser a menos perigosa, esperando helicópteros para os levar à segurança. Infelizmente, os alojamentos não eram à prova de fumaça. As chamas e a falta de treinamento fizeram as pessoas abrirem e fecharem repetidamente as portas, o que só piorou o problema.

As condições ficaram tão ruins na área de alojamentos que algumas pessoas perceberam que o único modo de sobreviver seria escapar da estação imediatamente. Eles viram que todas as rotas para os barcos salva-vidas foram bloqueadas por fumaça e chamas, e na falta de qualquer outra instrução, saltaram ao mar à espera de serem salvos por barco. Foram salvos sessenta e dois homens desta forma; a maioria dos outros 167 morreram sufocados em monóxido de carbono e fumaça na área de alojamentos.

Os dutos de gás que estavam abastecendo o fogo foram finalmente fechados, cerca de uma hora depois que eles tinham estourado, mas o fogo continuou com o óleo da plataforma e o gás que já estavam nos tubos queimados. Três horas depois a maior parte da plataforma, inclusive os alojamentos, tinha derretido e afundado na água. Os navios na área continuaram apanhando os sobreviventes até a manhã seguinte, mas a plataforma estava destruída e a maioria de sua tripulação morta.

O que deu errado?[editar | editar código-fonte]

Uma análise dos eventos revela muitos pontos que deram errado, uma sequência de erros que contribuíram para a magnitude do desastre. Na sequência, analisam-se os principais:

a) Sistema de ordem de serviço arcaico e não seguido à risca

O evento que iniciou a catástrofe foi a tentativa do turno da noite de ligar a bomba reserva, que estava inoperante por estar em manutenção. O pessoal do turno da noite desconhecia que esta bomba estava em manutenção, por não haver encontrado a ordem de serviço correspondente. Numa instalação industrial, o conhecimento das ordens de serviço em andamento é crucial para o andamento do processo produtivo e para a segurança.

b) Sistema dilúvio anti-incêndio não funcionou

O sistema dilúvio coletava a água do mar para o sistema abaixo da plataforma, próxima do local onde os mergulhadores tinham que trabalhar em algumas etapas de perfuração. Para segurança dos mergulhadores, o sistema de coleta de água era colocado em manual cada vez que havia trabalho com mergulho nas proximidades, para evitar que os mergulhadores fossem sugados pelas bombas. Com o tempo, os procedimentos foram relaxados e o sistema passou a ser deixado em manual sempre, independente de haver ou não trabalho de mergulho nas proximidades. Máxima segurança para os mergulhadores, fatal para a plataforma e para outras 167 pessoas pois, quando o sistema foi necessário, estava inoperante.

c) Rota de fuga

As rotas de fuga não eram perfeitamente conhecidas e as pessoas não encontraram o caminho até os barcos salva-vidas e saltaram no mar.

d) Áreas seguras

Ao contrário do que pensavam as pessoas, os alojamentos não eram à prova de fumaça e chamas. A maior parte dos 167 vítimas morreu sufocada na área dos alojamentos.

e) Treinamento

Embora houvesse um plano de abandono, três anos haviam se passado sem que as pessoas recebessem treinamento nestes procedimentos. Planos de Ação de Emergência são inúteis se existem apenas no papel e as pessoas não tomam conhecimento dele.

f) Paredes corta-fogo

As paredes corta-fogo em Piper poderiam ter parado a expansão de um fogo comum. Elas não foram construídas para resistir a explosão. A explosão inicial as derrubou, e o fogo subsequente se espalhou desimpedido, quando poderia ter sido contido se as paredes corta-fogo tivessem também resistido à explosão. Estações mais novas têm paredes de explosão que evitariam uma repetição das fases iniciais do desastre de Piper.

g) Auditorias

A Occidental Petroleum tinha auditorias de segurança regulares em suas instalações. Estas auditorias foram executadas, mas não foram bem executadas. Poucos ou mesmo nenhum problema eram levantados, embora houvesse assuntos sérios como corrosão de tubos e cabeças de sistema dilúvio e muitos outros problemas. Quando um problema sério era encontrado, às vezes era simplesmente ignorado. Por exemplo, cerca de um ano antes, quando os dutos de gás queimaram e desligaram a estação, uma auditoria independente, cujo propósito era identificar os principais perigos de incêndio, corretamente identificou o perigo e declarou que se eles explodissem, nada poderia salvar a estação. A auditoria recomendou instalar sistemas de segurança específicos para os proteger. Na reunião de diretoria que revisou o relatório, nunca foram mencionados os dutos de gás.

As lições aprendidas[editar | editar código-fonte]

Monumento da catástrofe, em Hazlehead Park, Aberdeen

Foram muitas as mudanças ocorridas após este acidente. Incluíram:

a) Melhoria nos sistemas de gestão de ordens de serviço.

b) Relocação de algumas válvulas de desligamento de emergência de oleodutos e gasodutos.

b) Instalação de sistemas de isolamento de oleodutos e gasodutos submarinos.

c) Mitigação de riscos de fumaça.

d) Melhorias nos sistemas de evacuação e escape.

e) Início de análises formais de segurança.

A indústria investiu aproximadamente um bilhão de libras nestes e em outros itens de segurança, antes que o relatório oficial conduzido por Lord Cullem fosse emitido.

Análises de Riscos passaram a ser obrigatórias para todas as atividades. O processo de elaboração de análise de riscos é, em si, um forte fator de segurança, pois obriga a todos a pensarem em tudo o que poderia dar errado e a buscar formas seguras de fazer o trabalho.

Ver também[editar | editar código-fonte]