Popol Vuh

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Primeira página do manuscrito do Popol Vuh, guardado na Biblioteca Newberry, Chicago, Coleção Ayer

O termo Popol vuh, comumente traduzido do idioma quiché como “livro da comunidade”, é um registro documental da cultura maia, produzido no século XVI, e que tem como tema a concepção de criação do mundo deste povo. Popol é interpretado como “comunidade” ou “conselho”, e dá a ideia de algo de propriedade comum; e vuh ou wuj, em quiché moderno, significa “livro”. Como os maias eram divididos em diversas tribos, faz-se necessário saber que, embora boa parte do conto fosse aceito majoritariamente no território maia, existiam especificidades entre as tribos e regiões.

História e influências[editar | editar código-fonte]

Origem[editar | editar código-fonte]

Acredita-se que o manuscrito original do Popol vuh tenha sido escrito por volta de 1544, em alfabeto latino no idioma quiché. No entanto, permanece perdido até os dias atuais. Este documento foi traduzido para o castelhano pelo frei Francisco Jiménez em 1688, e encontra-se hoje em Chicago, na Biblioteca Newberry. Em 1861, Charles Étienne Brasseur de Bourboung baseou-se em uma tradução de Carl Scherzer e publicou em francês o texto com o nome de Popol vuh.

Influência cristã[editar | editar código-fonte]

Não apenas o Popol vuh, mas outras narrativas indígenas da Mesoamérica sofreram forte influência cristã durante o período colonial. Em aspectos gerais, os cronistas responsáveis pela compilação da cosmogonia maia atrelaram a ela valores e códigos que faziam sentido apenas à cultura cristã. Em certos trechos do Popol vuh, é possível notar semelhanças com o discurso bíblico. Dessa forma, os mitos de criação e o próprio entendimento dos deuses mesoamericanos se perderam dentro da interpretação europeia dos escritos indígenas. Portanto, sobre os escritos “catequizados”, é mais legítimo encará-los como a visão colonizadora da cosmogonia maia do que propriamente como este povo estruturava suas crenças. É importante ressaltar que, para o povo maia, não necessariamente o conceito de “deus” era o mesmo que para os espanhóis, que tinham sua visão religiosa como universal.

Estrutura e narrativa[editar | editar código-fonte]

Escrito em forma de prosa poética, o texto aborda questões sobre a criação do mundo, dos homens e dos animais, segundo a tradição maia. O manuscrito original do Popol vuh não possuía divisões em capítulos, no entanto as edições atuais, baseadas na tradução de Brasseur, apresentam estas divisões, que são feitas de acordo com a ordem cronológica e temática dos acontecimentos. Apesar de não apresentar estas divisões originalmente, é possível notar duas partes distintas na narrativa. A primeira parte refere-se a origem do mundo e a vitória dos gêmeos Hunahpú e Ixbalanque sobre os Senhores do Inframundo. A segunda parte aborda desde a criação do milho até a presença dos quichés na América Central.

Antes de iniciar a história da criação do mundo, o texto diz que havia uma preexistência, composta de calma, silêncio e imobilidade. Existiam apenas o céu e o mar, onde estavam o Criador, o Formador, Tepeu, Gucumatz ou Quetzalcoatl, os Progenitores e Huracán, também chamado de Coração do Céu. A narrativa da criação se inicia quando Tepeu e Gucumatz decidem criar o homem. Os deuses criam, então, o mundo e o que nele está presente, a natureza e os animais. Como os animais, apesar de dotados de voz, eram incapazes de adorar seus criadores, foram amaldiçoados. É neste momento que também é criado o primeiro homem, feito de lodo, porém este se desmanchava e não possuía entendimento do mundo, deste modo também não podia adorar aos deuses, e por isso foi destruído.

No segundo momento da criação, os deuses consultaram os adivinhos Ixpiyacoc e Ixmucané, que lançaram a sorte com grãos de milho, e orientaram que o novo homem fosse feito de madeira. Assim os deuses fizeram. Os homens de madeira se multiplicaram e dispersaram, porém, assim como o homem de lodo, não foram capazes de invocar seus criadores, e por isso foram destruídos em um dilúvio de resina. Os sobreviventes tornaram-se macacos.

Em um terceiro momento da criação (ou no próprio segundo momento, dependendo da fonte), a narrativa ocupa-se em relatar a história dos gêmeos Hunahpú e Ixbalanque, que despertaram a atenção dos Senhores do Inframundo, e estes, incomodados com o comportamento dos homens, decidiram transformá-los em peixes. Os gêmeos, por fim, atiram-se em uma fogueira e transformam-se no Sol e na Lua. Na quarta e última idade abordada pelo Popol vuh, uma nova tentativa de criação ocorre, desta vez utilizando milho como matéria prima. Os homens feitos de milho tomaram ciência de si e então deram graças aos seus deuses criadores. Esta é a origem da atual humanidade, e explica a criação dos povos que habitavam a Mesoamérica.

As idades do mundo[1] [editar | editar código-fonte]

De forma simplificada, podemos descrever as quatro idades narradas pelo Popol vuh desta maneira:

1ª idade:

  • No início havia calma, silêncio e imobilidade.
  • Os deuses decidem, juntos, criar o homem. Antes disso, criaram as árvores, a vida e os animais. Os últimos, apesar de terem sido dotados de voz, não foram capazes de invocar os deuses, e por isso foram punidos, que passariam a ter suas carnes servidas de alimento.
  • Foi criado então, do barro, o homem, mas estes se desmanchavam facilmente e eram incapazes de louvar os deuses, que em consequência destruíram-nos.


2ª idade:

  • Os deuses consultaram os adivinhos Ixpiyacoc e Ixmucané para criar um homem que pudesse invocá-los, e a indicação obtida foi fazê-los de madeira. Os homens de madeira povoaram a terra, mas possuíam sequer alma ou entendimento, portanto não podiam invocar seus criadores. Foram destruídos com um dilúvio, e os sobreviventes tornaram-se macacos.


3ª idade:

  • Epopeia dos Gêmeos. Os Gêmeos tornam-se o Sol e a Lua.


4ª idade:

  • Criação dos homens de milho, que se tornaram a atual humanidade.
  • Estes possuíam percepção do mundo e invocaram seus criadores, que lhes concederam limites mortais, para que não ameaçassem a soberania dos deuses.


Deuses[editar | editar código-fonte]

Segundo historiadores e demais estudiosos do período colonial, o Popol vuh e outras fontes contendo narrativas religiosas dos nativos americanos apresentam o mesmo problema quando analisadas: a posição dos deuses e divindades mesoamericanos foi moldada a partir de visões cristãs de importância e hierarquia, o que teria provocado uma distorção sobre a real importância que os maias concediam a cada deus, ou mesmo como este povo concebia a noção de divino. Eduardo Natalino dos Santos diz: “Os textos produzidos pelos próprios nativos ou baseados em declarações de sábios e informantes mostram que tais prioridades deram aos deuses um lugar que não coincidia com aquele que ocupavam dentro do pensamento mesoamericano[2] ”.

Alguns Personagens[editar | editar código-fonte]

  • Quetzalcoatl ou Gucumatz

Deidade de papel central na criação das diversas humanidades, em especial a atual. À época da chegada dos espanhóis na América, era um deus reconhecido por boa parte das tribos mesoamericanas.

  • Ixpiyacol e Ixmucané

Ixpiyacol e Ixmucané são interpretados como adivinhos e guias espirituais dos maias. Consultados para a segunda criação dos homens, sugerem que estes sejam feitos de madeira, após lançarem a sorte com grãos de milho.

  • Huracán e Tepeu

Ao lado de Gucumatz, deuses iniciais da narrativa maia. Huracán (Coração do Céu), Tepeu e Gucumatz ou Quetzalcoatl (progenitores que estavam na água rodeados de claridade e sob plumas verdes e azuis), juntos, decidiram criar o mundo, as coisas nele presentes e a humanidade.

  • Hunahpú e Ixbalanque

Gêmeos que perturbaram os senhores do Inframundo e, após se lançarem em uma fogueira, tornaram-se o Sol e a Lua.

Popol vuh hoje[editar | editar código-fonte]

O Popol vuh, depois das traduções de Scherzer e Brausser, encontra-se hoje traduzido para diversas línguas e permanece como uma das principais fontes para estudo não só da cultura maia como também do período de colonização da América, por sua dualidade de interpretações. Os contos nele presentes ainda são preservados por tribos maias como um importante traço de sua cultura ancestral.


Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. SANTOS, Eduardo Natalino dos. Deuses do México indígena: estudo comparativo entre narrativas espanholas e nativas. São Paulo: Palas Athena, 2002, pp. 291-295.
  2. SANTOS, Eduardo Natalino dos. Deuses do México indígena: estudo comparativo entre narrativas espanholas e nativas. São Paulo: Palas Athena, 2002, p. 181.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • El Popol Vuh. Obra maia traduzida ao espanhol, acessado em 09 de junho de 2012.
  • El Popul Vuh. Versão em castelhano, sítio acessado em 09 de junho de 2012.
  • The Popol Vuh. Texto em inglês, acessado em 09 de junho de 2012.
  • The Popol Vuh. Tradução ao inglês, acessado em 09 de junho de 2012.
  • O Popol Vuh. Tradução do espanhol ao português feita pelo Google. Acessado em 09 de junho de 2012.