Preservação digital

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Preservação digital é o conjunto de atividades ou processos responsáveis por garantir o acesso contínuo a longo-prazo à informação e a todo patrimônio cultural existente em formatos digitais. A preservação digital consiste na capacidade de garantir que a informação digital permaneça acessível e com qualidades de autenticidade suficientes para que possa ser interpretada no futuro ao se recorrer a uma plataforma tecnológica diferente da utilizada no momento da sua criação[1] .

Contexto e importância[editar | editar código-fonte]

A necessidade de preservação da cultura é um preocupação que remete até mesmo à oralidade. Walter J. Ong mostra em seu livro Oralidade e cultura escrita: a tecnologização da palavra, que na oralidade primária havia milhares de linguagens faladas e muitas se perderam, por não serem registradas e não produzirem literatura, dentre 3 mil línguas faladas apenas cerca de 78 tinham literatura[2] ,

Desde a Antiguidade e Idade Moderna as bibliotecas, arquivos e os museus se estabeleceram como lugares de memória. E exercem a função de preservação da cultura através da preservação do suporte que se inicia com o papiro e pergaminho até o livro impresso através da prensa de tipo móveis surgida no Século XV com a invenção atribuída a Johannes Gutenberg.

O contexto de produção de informações e comunicação científica se manteve basicamente o mesmo até a utilização dos meios digitais e da Web para produção, armazenamento, disponibilização e acesso à informação e ao conhecimento no século XXI. A informação digital tem alcançado patamares muito elevados desde o surgimento da Internet, e reforça a importância da preservação digital já que o universo digital traduz o estado de desenvolvimento científico, tecnológico e cultural da humanidade atualmente. Corroborando com esse ponto de vista Walter Ong afirma que não podemos viver sem a cultura escrita pois ela recupera a memória do homem e desta maneira ele pode atingir certa potencialidade e ser criativo, e por consequência a ciência, história, filosofia e tecnologia se desenvolvem. Portanto, são necessárias atividades práticas e constantes para evitar o risco de perdas de informações no mundo digital e os gastos na tentativa de recuperá-los.

Surge o conceito de ciberespaço como o novo local onde são criadas, usadas e armazenadas as informações. Lévy já afirmava no fim do século XX que o ciberespaço seria "o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade a partir do início do próximo século"[3] e, por isso, deve, também, poder garantir a permanência dos conteúdos relevantes criados para as futuras gerações. Para tanto é necessária a adoção de parâmetros que determinem quais informações devem ser preservadas e como as instituições responsáveis devem realizar essa tarefa. A preocupação com a preservação digital é fundamental para as perspectivas futuras da sociedade, das pessoas e das instituições.

É recorrente o uso de bibliotecas digitais e repositórios digitais para realização de tarefas de preservação do conhecimento em meio digital, como pode ser visto na literatura da área de Ciência da Informação[4] [5] . Pessoas e instituições ao adotar práticas e políticas efetivas de preservação digital buscam evitar uma “amnésia digital” coletiva da produção intelectual, pois

Cquote1.svg o outro lado da conveniência dos documentos digitais é sua facilidade de uso e a volatilidade e impermanência. Os suportes magnéticos e óticos de armazenamento de documentos digitais têm uma expectativa de vida limitada e estão sujeitos a danos e perdas de dados. Mesmo que o suporte se conserve íntegro, a obsolescência tecnológica de equipamentos e programas, necessários para manter a funcionalidade do documento, exige medidas adequadas de preservação (...) Essa fragilidade e impermanência do suporte digital tem levado muitas pessoas a temerem a perda da 'memória coletiva' na era digital (…). Cquote2.svg
[6]

Desafios[editar | editar código-fonte]

A preservação digital envolve desafios técnicos e políticos de longo prazo para as instituições que se propõem a realizar atividades de preservação digital dos materiais que criam e armazenam (como arquivos, bibliotecas, museus, editoras, instituições governamentais e etc). Entre os principais desafios técnicos estão aqueles decorrentes da dependência do aparato tecnológico (hardware, software, mídias e formatos digitais) utilizado para criar e utilizar os documentos digitais. Existe a inerente fragilidade e rápida degradação física sofrida por esses materiais, além do progressivo aumento da obsolescência dos suportes, sistemas, mídias e formatos, que se devem principalmente pela alta competitividade característica do mercado dos produtos e serviços da tecnologia da informação. Tornando os ciclos de renovação tecnológica cada vez menores e a consequente necessidade de desenvolvimento e aplicação de estratégias de preservação digital.

Desafios políticos envolvem questões relacionadas à aquisição e alocação de recursos, estabelecimento de parcerias para compartilhamento de experiências e equipamentos entre instituições, e adoção de soluções de natureza interdisciplinar, envolvendo, além dos profissionais de informação (bibliotecários, arquivistas e museólogos), profissionais e pesquisadores das áreas de Tecnologia da Informação e Comunicação, Direito, História, e etc.

Outro grande desafio da preservação digital é a garantia da autenticidade do documento. Segundo Walter Benjamin até na melhor reprodução, um elemento fica ausente que é a existência única da obra. Não é através da reprodução que se desdobra a história, e sim, pela obras-primas pois só através delas podem se fazer análises químicas ou físicas, irrealizáveis na reprodução. "Os vestígios das segundas são o objeto de uma tradição, cuja reconstituição precisa partir do lugar em que se achava original."[7]

Requisitos mínimos para a preservação de documentos digitais[editar | editar código-fonte]

Os métodos de preservação digital devem se preocupar, basicamente, com a preservação física, lógica e intelectual dos objetos digitais. A preservação física relaciona-se com a manutenção das mídias e transferência ou rejuvenescimento das mesmas, caso necessário. A preservação lógica preocupa-se com os formatos, sua interpretação por hardwares e softwares e a necessidade de atualização para a continuidade da leitura e interpretação da cadeia de bits. E a preservação intelectual refere-se ao conteúdo intelectual e as mecanismos que assegurem a integridade e autenticidade.

Desta forma, autores como Arellano (2004)[8] e Thomaz e Soares (2004)[9] citam Bullock[10] como responsável por enumerar um conjunto de requisitos mínimos para a preservação de documentos digitais, ou seja, os elementos indispensáveis que devem ser pensados e mantidos em um documento digital. São eles:

  • fixar os limites do objeto a ser preservado;
  • preservar a presença física;
  • preservar o conteúdo;
  • preservar a apresentação;
  • preservar a funcionalidade;
  • preservar a autenticidade;
  • localizar e rastrear o objeto digital;
  • preservar a proveniência;
  • preservar o contexto.

Estratégias[editar | editar código-fonte]

As estratégias podem ser divididas em estruturais e operacionais. As estruturais relacionam-se às ações de planejamento, implementação e investimentos incluídos no processo de preservação adotados por uma instituição que pretenda se envolver na questão da preservação digital. E as operacionais são as atividades práticas realizadas com esse intuito.

Estratégias estruturais[editar | editar código-fonte]

São estratégias estruturais:

  • adoção de padrões;
  • elaboração de normas e manuais;
  • metadados de preservação digital;
  • montagem de infraestrutura;
  • formação de consórcios e parcerias.

Estratégias operacionais[editar | editar código-fonte]

E as estratégias operacionais são:

  • migração;
  • emulação;
  • conservação da tecnologia;
  • encapsulamento.

Modelos e projetos internacionais de preservação digital[editar | editar código-fonte]

Com a crescente transferência da criação, uso e armazenamento da informação para o ambiente virtual e consequentemente, o armazenamento em bibliotecas e repositórios digitais, surge a necessidade de criar políticas e normas que desenvolvam padrões de interoperabilidade entre os sistemas, preservação e acesso ao conteúdo informacional desses ambientes.

Existem diversas iniciativas que visam formular modelos, assim como projetos que buscam oferecer subsídios para ações práticas de preservação. Alguns dos principais são:

Open Archival Information System (OAIS)[editar | editar código-fonte]

O Open Archival Information System (OAIS) - em português Sistema Aberto para Arquivamento de Informação (SAAI) - é um modelo para repositórios de metadados de preservação publicado pelo Consultive Committee for Space Data Systems (CCSDS) em 2003. Também é uma iniciativa ISO (International Organization for Standardization), que desde junho 2003 define um alto nível de modelo de referência para arquivos que precisem de uma preservação de longo prazo, criando a ISO 14721[11] . E pode ser definido como um “esquema conceitual que disciplina e orienta um sistema para a preservação e manutenção do acesso à informação digital por longo prazo” (THOMAS; SOARES, 2004)[12] .

O objetivo do OAIS é propagar a compreensão dos conceitos para a preservação de objetos digitais, ampliar o consenso sobre os elementos e os processos relacionados à preservação e acesso à informação digital, além de criar um esquema para orientar a identificação e o desenvolvimento de padrões para tornar a informação preservada e disponível em qualquer repositório, pois um caráter genérico e que pode ser aplicado em diversos tipos de ambientes e documentos.

Projeto InterPARES[editar | editar código-fonte]

Projeto InterPARES (International Research on Permanent Authentic Records in Electronic Systems) - Pesquisa Internacional sobre Documentos Arquivísticos Autênticos Permanentes em Sistemas Eletrônicos – sediado na Universidade de British Columbia, no Canadá, e coordenado pela pesquisadora Luciana Duranti. O Projeto busca desenvolver conhecimento teórico-metodológico essencial para a preservação de longo prazo de documentos digitais e foi dividido em três etapas.[13] O Projeto InterPARES 1 (1999-2001) teve como objetivo identificar requisitos conceituais para avaliar e manter a autenticidade dos documentos digitais "tradicionais" produzidos no curso das atividades administrativas e legais. O Projeto InterPARES 2 (2002-2006) teve por foco os documentos arquivísticos digitais gerados no contexto de atividades artísticas, científicas e governamentais, em sistemas experimentais, interativos e dinâmicos. E o InterPARES 3 (2007-2012) visa capacitar programas e organizações responsáveis pela produção e manutenção de documentos arquivísticos digitais a desenvolver estratégias de preservação e acesso de longo prazo a esses documentos. E terá como base o conhecimento teórico-metodológico desenvolvido nas duas primeiras fases do Projeto. No Brasil a instituição escolhida para receber a capacitação para a preservação de documentos digitais foi o Arquivo Nacional.

Referências

  1. FERREIRA, Miguel. Introdução à preservação digital: conceitos, estratégias e actuais consensos. Guimarães: Escola de Engenharia da Universidade do Minho, 2006. p. 20. Disponível em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5820/1/livro.pdf. Acesso em: 26 jan. 2013
  2. ONG, Walter. A oralidade da linguagem, A escrita reestrutura a consciência e Memória oral, enredo e caracterização. In: __________. Oralidade e cultura impressa.Campinas, SP: Papirus, 1998. p. 15.
  3. LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
  4. MÁRDERO ARELLANO, Miguel Angel. Preservação de documentos digitais. Ciência da Informação, Brasília, v.33, n.2, mai./ago. 2004. Disponível em:<http://revista.ibict.br/ciinf/index.php/ciinf/article/view/305>. Acesso em: 27 jan. 2013.
  5. ARELLANO, Miguel A. M.; ANDRADE, Ricardo Sodré. Preservação digital e os profissionais da informação. DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação, v.7, n.5, out. 2006.Disponível em:<http://www.dgz.org.br/out06/Art_05.htm>. Acesso em: 27 jan. 2013.
  6. TAMMARO, Anna Maria; SALARELLI, Alberto. A biblioteca digital. Brasília, DF: Briquet de Lemos, 2008. p.195
  7. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e historia da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985. 253p. (Obras escolhidas; v.1)
  8. MÁRDERO ARELLANO, Miguel Angel. Preservação de documentos digitais. Ciência da Informação, Brasília, v.33, n.2, mai./ago. 2004. p. 18. Disponível em:<http://revista.ibict.br/ciinf/index.php/ciinf/article/view/305>. Acesso em: 27 jan. 2013.
  9. THOMAZ, Katia P.; SOARES, Antonio José. A preservação digital e o modelo de referência Open Archival Information System (OAIS). DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação, v.5, n.1, fev. 2004.Disponível em:<http://www.dgz.org.br/fev04/F_I_aut.htm>. Acesso em: 28 jan. 2013.
  10. [carece de fontes?]
  11. MÁRDERO ARELLANO, Miguel Angel. Preservação de documentos digitais. Ciência da Informação, Brasília, v.33, n.2, mai./ago. 2004. p. 18. Disponível em:<http://revista.ibict.br/ciinf/index.php/ciinf/article/view/305>. Acesso em: 27 jan. 2013.
  12. THOMAZ, Katia P.; SOARES, Antonio José. A preservação digital e o modelo de referência Open Archival Information System (OAIS). DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação, v.5, n.1, fev. 2004.Disponível em:<http://www.dgz.org.br/fev04/F_I_aut.htm>. Acesso em: 28 jan. 2013.
  13. http://www.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=328&sid=42

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • [1] - Página oficial do Projeto Interpares
  • [2] - Página do Arquivo Nacional do Brasil com diversas publicações do InterPARES em português.
  • [3] - Site do CCSDS (Consultative Committee for Space Data Systems), criador do modelo OAIS.