Principado Episcopal de Trento

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Principato Vescovile di Trento
Principado Episcopal de Trento

principado do
Sacro Império Romano-Germânico

Flag of the March of Verona and Aquileia.png
1027 – 1802 Flag of the Habsburg Monarchy.svg

Brasão de Trento

Brasão

Localização de Trento
Norte da Península Itálica antes das Guerras Napoleônicas; O Principado de Trento pode ser visto no canto superior direito, sombreado em cor azul.
Continente Europa
Capital Trento
Língua oficial latim, alemão, italiano
Governo monarquia
História
 • 1027 Fundação
 • 1802 Dissolução

O Principado Episcopal de Trento era um antigo Estado eclesiástico que existiu por cerca de oito séculos (de 1027 a 1802), vinculado ao Sacro Império Romano-Germânico e posteriormente ao Império Austríaco. Localizava-se no território da atual região italiana do Trentino-Alto Ádige (Trentino-Südtirol). No início do século XIX, foi secularizado e sua total administração passou para o governo do Tirol, condado austríaco, do qual já fazia parte como entidade semi-autônoma.

Índice

História [editar]

Idade Média [editar]

O Principado Episcopal de Trento nota 1 criado em 1027 pelo imperador do Sacro Império Romano-Germânico Conrado II, juntamente com o vizinho Principado Episcopal de Bressanone nota 2 . Conrado II decidiu investir bispos com o poder temporal para estabilizar a região que com frequência era palco de batalhas entre os diversos príncipes laicos do império, assim como para facilitar a passagem do exército imperial entre o norte da península Itálica e a Alemanha, ao longo de duas antigas estradas romanas da região, a Via Claudia Augusta e a Claudia Augusta Altinate. A maior parte da área compreendida nos dois novos estados fazia parte anteriormente da Marca de Verona.

Os dois príncipes-bispos eram autênticos príncipes do Sacro Império Romano-Germânico, sujeitos somente à autoridade do imperador e do papa, e membros da dieta imperial. O bispo de Trento (Trient) estabeleceu uma sólida ligação com o imperador, enquanto era crescente a influência do condado do Tirol sobre toda aquela região alpina. O condado do Tirol (originalmente Tyrol), surgido na Val Venosta (Vinschgau), no Castelo Tirol nota 3 , mantinha grande influência sobre a cidade de Bolzano (Bozen) e ampliou durante a Idade Média seu domínio sobre as terras da Bassa Atesina (Tiroler Unterland), territórios então pertencentes à Arquidiocese de Trento.

O bispo Adelpreto (1156-1172), da família dos Hohenstaufen (a mesma de Frederico Barbarossa), havia tentado impor o próprio poder temporal sobre todo o território da diocese; foi assassinado em Arco, em 30 de setembro de 1172 supostamente a mando dos condes de Appiano (Eppan). A autoridade do príncipe-bispo foi porém reafirmada pelo imperador Frederico Barbarossa e por seu filho Henrique VII: os bispos foram de fato autorizados a emitir moedas e instituir novos impostos.

O principado foi reorganizado por Frederico Vanga (Friederich Wanga) (1205-1218), uma das figuras históricas mais importantes da Igreja trentina, parente do imperador Oto IV. Aliado do bispo de Bressanone (Brixen) e apoiado pela ordem religiosa dos Cavaleiros Teutônicos, a quem doou grande patrimônio, conseguiu limitar a influência e a força dos nobres leigos e reconquistou grande parte dos territórios perdidos no passado. A fim de definir definitivamente a autoridade do bispo sobre o território da região, ele reuniu numa coletânea chamada Codex Wangianus todos os documentos históricos que certificavam o poder episcopal, anotada na origem com o título de Libro di San Vigilio. Ademais, Frederico manteve o comércio ao longo da via dos Alpes e investiu notáveis capitais na mineração de prata, com a instalação de tiroleses de língua alemã em Primiero (Primör), Valsugana (Suganertal) e, nesse período surgiu aquela que é atualmente a maior comunidade germanófona trentina, a de Valle dei Mocheni (Fersental). O estatuto de mineração de Frederico Vanga, de 19 de junho de 1209 é considerado o mais antigo documento oficial sobre extração mineral nos Alpes. Nesse período, a cidade de Trento foi fortificada com a construção de novas muralhas e teve início a construção da catedral tridentina.

A morte de Vanga na Terra Santa durante uma cruzada parou as reformas. Em 1236, o imperador Frederico II depôs os bispos da região e suas insígnias de autoridade sobre uma vasta região em torno de Trento, anexada pela marca de Treviso: a administração do novo feudo foi confiada ao fiel companheiro Ezzelino da Romano de Verona.

No século XIII, os condes do Tirol ampliaram seus domínios por meio de acordos com os bispos. Uma vez que a igreja de Trento não poderia manter uma defesa militar própria nota 4 e não poderia aplicar penas capitais nota 5 , coube aos condes tiroleses a defesa militar do território do condado e da diocese tridentina. Assim, cresceu a influência do condado nas dioceses de Coira, Salzburgo, Bressanone (Brixen) e Trento com o conde Mainardo II de Tirol-Gorizia.

O poder temporal do bispo foi reafirmado em 1310, quando o papa Clemente V nomeou como chefe da igreja tridentina o abade Henrique de Metz (Heinrich von Metz), chanceler do rei da Germânia Henrique VII de Luxemburgo: em 1338 assumiu a cátedra episcopal um outro chanceler, o boêmio Nicolau de Bruna, estreitamente ligado à dinastia real. Nicolau tentou limitar o poder dos nobres nas terras do episcopado, organizando um pequeno exército episcopal e oferencedo à diocese um novo brasão unitário, a "águia de São Venceslau" - padroeiro da Boêmia.

No curso da segunda metade do século XIV, durante a luta entre os imperadores rivais Carlos IV e Luís IV, o principado foi objeto de diversas devastações e foi temporariamente anexado ao território da Baviera.

Neste período, o bispo Alberto de Ortenburg (Albert von Ortenburg) formou uma aliança exclusiva e perpétua com os poderosos condes de Tirol, já da família dos Habsburgo (futuros imperadores austríacos), mediante os tratados (1363 e 1365). Esses estabeleceram definitivamente uma espécie de confederação entre o Condado do Tirol e a Diocese Tridentina e o fim de uma política externa e militar para este último.

Século XV e XVI [editar]

A catedral de Trento

No início do século XV, o bispo tridentino Jorge I de Liechtenstein (Jörg I von Liechtenstein - 1390-1419) procurou diminuir a influência política do condado tirolês sobre a diocese, mas reconhecendo a aliança e colocando-se diretamente sob a autoridade do imperador. Porém, neste período ocorreu uma perda de poder do bispo nos confrontos da cidade e do campo; a carga fiscal imposta pela diocese aos camponeses e a ingerência do condado provocaram uma revolta geral na cidade de Trento e em vários vales. (1471). Esperando obter o apoio militar da República de Veneza, revoltosos obrigaram o príncipe-bispo ao exílio, enquanto elegeram Rodolfo Belenzani capitão do povo. Sem obter o esperado apoio externo, foram derrotados em 5 de julho de 1409 pela tropas imperiais austríacas.1

Com a morte de Jorge I de Liechtenstein, a cátedra episcopal foi confiada ao sobrinho do rei da Polônia, Alexandro de Masovia (1423-1444). Patrocinador de uma política de "afastamento" do Tirol, o bispo buscou aproximar-se da República de Veneza e do Ducado de Milão. O despotismo do bispo polonês provocou uma outra revolta sanguinária com a intervenção das tropas tirolesas (1435). Com sua morte, previamente alçado a cardeal, a administração do principado caiu num cisma interno: o capítulo da catedral e o Império nomearam um bispo que operava ao norte da diocese, enquanto o papa Eugênio IV e Veneza apoiaram um ex-abade que governava o sul do episcopado.

Em junho de 1511, Trento e Bressanome afirmaram um acordo com o qual os dois principados tornavam-se perpetuamente confederados com o Condado de Tirol. Durante a vitoriosa guerra contra Veneza, em 1519, o território trentino foi invadido por Lanzichenecchi, de retorno de uma expedição fracassada contra Vicenza. Na cidade e no campo houve diversos episódios de peste (1510 e 1512), carestia (1512, 1519-1520) e um terremoto em 1521: estes episódios trágicos marcaram o início de uma forma de resistência ao poder dos Habsburgos.

Uma verdadeira revolta armada foi organizada em 1525 e é referida como Bauernkrieg, (revolução camponesa, chamada guerra rústica); os rebeldes eram guiados por Michael Gaysmair (1490-1532), que procurou estabelecer um plano de libertação de todos os territórios de Trento e Bressanone e a instituição de uma "república" camponesa, com nacionalização das terras e dos minérios, abolição do poderio excessivo da nobreza dos bispos. Os revoltosos careciam de organização e foram facilmente derrotados na batalha do Valle Isarco (Isartal) e de Vipiteno pelas tropas austríacas, com o apoio do bispo Bernardo Clesio. O próprio Gaysmair foi morto por um sicário do arquiduque Fernando em Pádua em 1532. Um milhar de rebeldes tiroleses se refugiaram na Morávia, próximo a Auspitz, onde organizaram "as fábricas fraternas" (Bruderhöfe).

Na catedral de Trento Maximiliano I de Habsburgo foi coroado imperador do Sacro-Império Romano-Germânico e criador do Landlibell, que permitia a organização militar entre os camponeses, artesãos e nobres nas companhias de atiradores nota 6 que se formaram em toda a região tirolesa.

O cardeal Bernardo Clesio é considerado o autêntico refundador (Neubegründer) da autoridade episcopal dos príncipes-bispos de Trento. Conselheiro do imperador Maximiliano de Habsburgo e amigo de Erasmo de Rotterdam, ele teve um papel importante na eleição de Carlos V em Frankfurt em 1519 e na de Fernando I na qualidade de rei da Boêmia.

As grandes reformas feitas pelo bispo Clésio foram completadas por seu sucessor, o cardeal Cristoforo Madruzzo. Graças ao Concílio de Trento e à política deste período, o Trentino gozou de um forte crescimento econômico no âmbito da mineração, da manufatura e do comércio. A presença, devido ao concílio, de homens de cultura e de estudiosos principalmente de língua italiana, contribuiu para a difusão dos ideais renascentistas e da cultura italiana. Em seguida, a introdução da Contrarreforma determinou uma decisiva inversão da tendência do passado, com a definitiva difusão da língua italiana em prejuízo da alemã muito difundida anteriormente entre os religiosos, mas também em todo o território.

Idade Moderna [editar]

No século XVII, o Principado sofreu as conseqüências econômicas da Guerra dos Trinta Anos e a decadência do comércio com o Vêneto. Na primeira metade do século, o episcopado foi dirigido por membros da família Madruzzo que passaram o cargo de príncipe-bispo de tio a sobrinho: Ludovico, Carlo Gaudenzio (alçados a cardeal pelo papa) e Carlos Manuel governaram a diocese tridentina por um século, controlando indiretamente também o principado de Bressanone (Brixen) até a morte de Carlos Manuel em 1658.

Neste ano, o imperador da Áustria, Leopoldo I deu o governo do principado ao arquiduque Sigismundo Francisco da Áustria, irmão do conde de Tirol. A diocese reforçava, assim, sua relação com o território tirolês (mesmo se em 1662 os Habsburgo permitiram ao capítulo de Trento a jurisdição episcopal das terras eclesiásticas). Três anos depois Sigismundo morreu e, extinta a dinastia dos condes de Tirol, o principado tridentino e as terras do condado foram englobados nos domínios diretos da dinastia de Habsburgo. Isto não significou, porém, a perda do status de semi-independência do principado que obteve algumas vantagens: o equilíbrio do balanço em 1683, a conclusão do Castelo do Buonconsiglio em Trento e a melhora de zonas insalubres no vale do rio Ádige (Etschtal), onde foi introduzido cultivo de arroz. Os bispos tridentinos (em particular Leopoldo Spaur) mantiveram perante as autoridades imperiais austríacas sua política de independência episcopal no controle sobre as terras da Igreja.

A situação piorou ao início do século XVIII, quando o Tirol foi invadido pelas tropas francesas e bávaras, e a própria cidade de Trento foi assediada por uma semana (setembro de 1703). A invasão francesa trouxe consigo ideias divergentes de iluminismo e mudanças que geraram desagrado entre toda a população tirolesa. O bispo de Trento, Peter Vigil Thun (1724 – 1800), fugiu para o exílio antes da chegada das tropas franco-bávaras e a capital tirolesa Innsbruck foi dominada rapidamente pelo exército bávaro.

A população tirolesa, fortemente apegada ao clero e à coroa austríaca, reagiu à invasão franco-napoleônica com uma rebelião que marcou-se na história como a primeira baixa do poderio napoleônico na Europa. Os grupos armados formados por voluntários de diferentes origens (nobres, artesãos, comerciantes e camponeses) se organizaram contra a expansão francesa. Entre os atiradores da cidade de Merano (Meran) estava Andreas Hofer (17671810), um taberneiro nascido em San Leonardo nella Val Passiria (Sankt Leonhardt in Passeiertal), comerciante de cavalos e carismático líder popular.

Andreas Hofer conhecia muito bem o Tirol e sua população. Falava o alemão e o italiano (pois morou na região trentina durante sua juventude) e, assim, conseguiu reunir para a resistência popular os camponeses de todos os vales tiroleses. Depois de um ato religioso em abril de 1809 com a bênção da bandeira tirolesa, Hofer teve apoio do frade capuchinho Joachim Haspinger, que com ele participou ativamente da resistência. Na região trentina, um dos nomes de maior destaque foi o da jovem Giuseppina Negrelli (17901842) de Primiero (Primör), irmã do engenheiro Luigi Negrelli (17991858), idealizador e projetista do Canal de Suez. Além dela, os capitães Bernardino Dal Ponte das Giudicarie (Judikarien) e Michael Giacomelli de Val di Fiemme (Fleimstal).

Com apoio do clero e auxílio do irmão do imperador, o arquiduque da Áustria Johann von Habsburg (17821859), os tiroleses venceram várias batalhas nos meses de abril e maio de 1809. Com a vitória sobre Bergisel em 29 de maio de 1809 (data comemorada em todo o Tirol como anno 9), os tiroleses retomaram a capital Innsbruck do domínio bávaro e expulsaram as tropas napoleônicas; foi instaurado um governo provisório que durou quase dois anos eesse período reforçou o sentimento de unificação política tirolesa.

Andreas Hofer era conhecido como Vater Hofer ("pai Hofer") entre os tiroleses de língua alemã e Capitàn Barbón ("capitão barbudo") entre os trentinos. Por seus atos patrióticos foi condecorado pela Igreja e pelo austríaco com o colar de honra (Ehrenkette) de três mil ducados.

Mas Napoleão ainda mantinha sua influência no governo de Viena (por ele controlado) e obrigou a intervenção vienense na situação política tirolesa com medo das represálias francesas contra a nobreza vienense. Após batalhas contra os bávaros e as baixas, o governo provisório tirolês enfraqueceu-se politicamente. Hofer se refugiou em sua cidade natal e a as baixas permitiram o avanço das tropas francesas, bávaras e italianas (sob o domínio napoleônico). Após o caos que se instaurava, um dos ex-combatentes, Josef Raffl, traiu e entregou Hofer ao exército italiano. O líder tirolês foi preso e levado para Mântua (Mantova), e ali fuzilado em 22 de fevereiro de 1810. A porção norte do Tirol retornou ao domínio bávaro e a parte sul foi entregue ao Reino da Itália de Napoleão Bonaparte, que tratou de substituir rapidamente os cargos públicos e adequá-los ao modo administrativo das cidades italianas - esse período marcou o início da disputa italiana pela região tirolesa (sobretudo pela área trentina). O Tratado de Paris, (28 de fevereiro de 1802), estabeleceu a secularização do estado eclesiástico tridentino.

A restauração austríaca de 1815 sinalizou o fim definitivo do Principado Episcopal de Trento, e sua administração foi englobada pelo Império Austríaco como parte do governo do Tirol.

Idade Contemporânea [editar]

O atual Trentino (então chamado Tirolo Italiano ou Tirolo Meridionale) continuou parte do Império Austríaco até depois da unificação italiana ocorrida em 1860. A população mantinha-se fiel ao imperador e havia grande resistência anti-italiana por parte dos camponeses (enquanto nos meios socialistas e intelectuais havia maior simpatia pela Itália). Somente após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, com o Tratado de Saint-Germain-en-Laye, o Trentino passou a fazer parte do Reino de Itália, juntamente com o atual Südtirol/Tirol Meridional (Província Autônoma de Bolzano).

Notas

  1. Em italiano Principato Vescovile di Trento, em alemão Trientner Fürstbistum
  2. Em italiano Principato Episcopale di Bressanone, em alemão Brixner Fürstbistum
  3. Em italiano Castel Tirolo, em alemão Schloss Tirol
  4. der Pfaffe ist nicht wehrhaft = "o pastor não é munido de arma"
  5. ecclesia non sitit sanguinem = "a Igreja não tem sede de sangue"
  6. Em italiano Sìzzeri/em alemão Schützen / /em ladino Scìzer

Referências

  1. La rivolta di Rodolfo Belenzani (1407/1409). Trentino Cultura. Página visitada em 31/07/2008.

Ver também [editar]

Ligações externas [editar]

Bandeiras históricas de Trento (em italiano)

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