Procópio d'Ogum

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Procópio Xavier de Souza (1868-1958) foi alufá e sacerdote de candomblé iniciado pela sacerdotisa Marcolina da Cidade da Palha[1] , de quem recebeu o nome religioso Ògúnjobí (Aquele que Ògún ajudou a gerar)[2] . Seu templo era conhecido como Ilê Ogunjá, situado no Baixão, antigo Matatu Grande, em Salvador (fundado por volta de 1906).


Vida Religiosa[editar | editar código-fonte]

Procópio, no final do século XIX, foi iniciado para o ancestral Ogum[3] , pela sacerdotisa Marcolina da Cidade de Palha. Após, esse período, abriu seu próprio templo dedicado a seu éborá: Ilê Ogunjá.

O número de pessoas iniciadas, além da famosa feijoada anual oferecida a Ogum (patrono do terreiro), que mais tarde ficou conhecida como "feijão do Procópio", bastante contribuíram para o reconhecimento do terreiro. Donald Pierson, cita mesmo uma festa com 208 espectadores no interior da casa, e aproximadamente outros duzentos "que movimentavam-se do lado de fora do barracão"[4] .

Outro fator fundamental para o seu reconhecimento foi o fato de ter participado da legitimação da religião dos orixás (do candomblé), durante a perseguição às religiões afro-brasileiras promovida pelas autoridades do Estado Novo.

No filme Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos, onde mostra um trecho de sua história, o personagem Procópio d'Ogum é interpretado pelo babalorixá Luís Alves de Assis mais conhecido como "Luís da Muriçoca".

Nesse período, o Ilê Ogunjá foi invadido pela polícia baiana, sob a supervisão do famoso delegado Pedrito Gordo. Procópio foi preso e espancado. O jornalista Antônio Monteiro foi uma das pessoas que ajudou na libertação de Procópio. Tal acontecimento - Caso Pedrito - registrou o nome de Procópio na história popular baiana, chegando mesmo a fazer parte de uma letra de samba de roda:

Cquote1.svg “Não gosto de candomblé que é festa de feiticeiro quando a cabeça me dóe serei um dos primeiros Procópio tava na sala esperando santo chegá quando chegou seu Pedrito Procópio passa pra cá Galinha tem força n’aza o galo no esporão Procópio no candomblé Pedrito é no facão.” “Acabe com este santo Pedrito vem aí lá vem cantando ca ô cabieci” Cquote2.svg
(Alvarenga, 1946, p. 200).

Esse caso conferiu-lhe notórias citações em obras de ficção. "Tenda dos Milagres", de Jorge Amado, é um bom exemplo. Jorge Amado foi nomeado ogan (protetor) na casa de Procópio, foi o primeiro de seus muitos títulos no candomblé.

Feijoada de Ogum[editar | editar código-fonte]

Sobre a feijoada, conta-se: "Um dia Procópio estava comendo em sua casa. Chegou um filho de santo, com quem ele tinha brigado. Então, Procópio manda ele embora com outra briga. Com isso, comete um grande erro para o candomblé: negar comida a um filho de santo. O santo pegou Procópio e falou que ele estava multado. Na semana seguinte, ele deveria fazer uma feijoada no terreiro convidando todo o mundo" (Entrevista realizada com Mãezinha - afilhada de Procópio, por Ricardo Oliveira de Freitas). Colocava-se uma esteira no chão, na ponta da esteira a panela de barro com a feijoada. Todos deveriam, ali, comê-la. Ao tocarem na comida, todas as filhas de santo "caíam no santo". Não era uma feijoada como costumeira, mas uma feijoada com preparos, temperos e carnes especiais.

Profundo conhecedor das ervas, possuía uma quitanda (herbário) no Gravatá, perto de sua residência. Possuía profunda relação com o terreiro do Alaketu, tendo auxiliado Dona Dionísia (mãe de santo àquela época) na feitura de dezenas de barcos, entre estes o barco da iyalorixá do terreiro, Olga Francisca Régis (Olga de Alaketu) e Tia Delinha d'Ogum (com casa no bairro de Miguel Couto, em Nova Iguaçu), de quem foi Pai Pequeno.

Eram terreiros irmãos e por isso possuíam casas especiais para abrigar os irmãos da comunidade visitante. Essa parceria entre os dois terreiros fez com que objetos rituais do Terreiro do Alaketu, que estavam em temporada no Ilê Ogunjá, fossem apreendidos pela polícia de Pedrito como peças do terreiro de Procópio, o que comprova a imensa familiaridade entre Procópio e Dionísia Francisca Régis.

Além da polícia, Procópio d'Ogum também não era aceito por alguns templos religiosos (axés), na Bahia. Era odiado e pejorativamente considerado homossexual, simplesmente porque, segundo esses axés hegemônicos, homem somente poderia ser ogan, e não iniciado para elegun (rodante). No entanto, por ser bastante brigão, impunha respeito à força (Procópio: notório homossexual, segundo o Grupo Atobá.)[5] .

O alufá Procópio faleceu em 1958, com idade ignorada por conta do ano de nascimento ser incerto. O sr. Vicente de Matatu[6] foi quem realizou o cerimonial de Axexê de Procópio. Seu filho adotivo Hélio morreu aos 33 anos de idade, por morte estranha, após abrir as portas do Ilê Ogunjá e mostrar ao público tudo o que lá havia. Todo o enorme espaço sagrado do templo (Vale d'Ogunjá) foi invadido e tomado.

Iniciados e afilhados[editar | editar código-fonte]


Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. LOPES, 2004, p.544.
  2. PENNA, 2001, p17.
  3. Informação popular: Procópio cultuava Obatalá como se fosse seu "carrego". Ele haveria nascido regido pelo orixá Babá Ajalá, porém, por ser elegun (rodante), foi iniciado para Ogum.
  4. PIERSON, 1971, p 325.
  5. Uma confraria dos igbominas no Brasil, por Fábio R. Penna. 2011.
  6. Informação de cunho popular: Procópio era de Babá Ajalá. Todavia por ser elegun (rodante), foi iniciado para Ogum.


Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AMADO, Jorge. Tenda dos Milagres. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
  • PIERSON, Donald. Brancos e Prêtos na Bahia. 2 ed.. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971.
  • LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. Rio de Janeiro: Selo Negro, 2004.
  • PENNA, Antonio dos Santos. Mérìndilogun Kawrí - Os Dezesseis Búzios. Rio de Janeiro: A. Santos Penna, 2001
  • PENNA, Fábio Rodrigo. Um confraria dos igbominas no Brasil. Rio de Janeiro. F. R. Penna, 2011.
  • FREITAS, Ricardo Oliveira de. Procópio d'Ogum e o Ilê Ogunjá. Encarte. CD Ilê Omolu Oxum. Coleção Documentos Sonoros. LACED/Museu Nacional da UFRJ/PETROBRAS. 2004.
  • PUNZO, Marcella. Le grandi madri del Brasile. Roma: Editori internazionali Riuniti. 2014.